20/06/2006

Excessos

Excessiva, esta emoção
de fim de tarde -
Excesso
de quem já traz dentro do peito
o universo,
mas sente rebentar-lhe o coração
porque a alma é que não cabe.
António Simões, "Poemas Antigos", inédito.

19/06/2006

Fotopoema 62. Augusto Mota.

os tambores da inquisição

Ouço já os tambores que se afirmam traiçoeiros de morte súbita. Ouço já as grilhetas dos cadáveres arrastando as calçadas em quedas de humidade sanguínea. Horror! O medo paira pelas vielas e as paredes estão incrustadas de olhos esgazeados perante o pavor da Inquisição. Há esbirros nas sarjetas e os ratos já fogem de pavor. Há lama nos palácios e os vermes já proliferam na estagnação da consciência humana. Apesar de tudo isto o homem aceitou a ruina da sua cidade, deixou milhares de cadáveres sepultarem-se nos escombros incendiados e permitiu que os chacais uivassem no deserto, quando a carne já cheirava a podre e os próprios ratos a abandonaram. E nem sequer se sentiu digno para impedir tudo isto...
Sombras negras continuaram a desfilar pelas ruas, atroando sons de ferros cavos e abrindo fendas nas portas vãs.
Tudo era deles! Mulheres pereceram em sexo virgem e mães abortaram em maternidades apressadas. Fetos corriam já para a morte em atitude de suprema glorificação humana, fetos nascidos de primeiros amores em campos cercados de sebes viçosas e apetecíveis, como afirmação endémica da pureza inicial, a que, agora, se tenta regressar, mas através de uma fé materialista, servida por espíritos malfazejos, desculpados por uma sociedade que não se apercebe da maquinação degenerada que se aproxima cada vez mais.
Deixai-me viver! Afastai-vos tambores malditos! Não excitai a minha curiosidade de lutador irracional e concedei o vosso perdão ao meu desenvolvimento interior. Permiti que desça ainda mais às minhas cavernas interiores e que eu lá possa encontrar a fuga de mim mesmo e a vossa justificação.
Avançai agora que já não vos temo! Dilacerai agora a vista dos rostos incrustados nas esquinas e totemizai Cristo na praça pública! Mas se o fizerdes assassinareis a humanidade e a vossa alma conhecerá o revolver eterno do mar em revolta. E nem a cólera dos pescadores que, em desespero, arrancaram Cristo da praça pública e o levaram para os barcos ancorados na baía vos salvará, porque uma multidão pressurosa os perseguiu e lhes afundou as esperanças de reabilitação quando aplaudiu o naufrágio de toda a frota à saída da barra e, ali mesmo, assistiu, impune, ao espectáculo de mil braços clamando socorro e afogando-se no meio do piar das gaivotas assustadas. Depois veio a calmaria e o nevoeiro invadiu a cidade. Ao longe só os tambores se confundiam com a ronca do porto e, de vez em quando, um grito humano cortava o ar agora pardacento com as fogueiras acesas na praça pública, onde os cadáveres já rebentavam de cólera e tiniam as grilhetas como fantasmas assustados, infestando o ar de sons pestilentos e pegajosos.
"A peste! A peste!"
Isso, agora já gritam por causa da peste, quando massacram virgens na praça pública e vêem bandos de abutres escurecer o sol poente como se fosse um exército em debandada! Rendei-vos, traidores! E vede como é belo um poente sem exércitos em debandada.
Agora já não ouço os tambores da Inquisição e parece-me que os exércitos derrotados já ultrapassaram o horizonte...
Augusto Mota, inédito, in "Metáfora", 1962.

14/06/2006

"Espigas Azuis". Fotografia de Augusto Mota.

A companhia do poeta: Sidónio Muralha ( Portugal, 1920-1982 )

O Jardineiro Míope
O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.
Sinónio Muralha ( nasceu em Portugal, morreu no Brasil, em Curitiba )

13/06/2006

118 anos de Fernando Pessoa

lembramos ...*
Se depois de eu morrer
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes uma das outras;
compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro.
_______________________________________
* ... "outras mensagens" aqui

10/06/2006

Legenda Íntima 114. Augusto Mota.

Trevas Rasgadas

O tempo
- o vinho evaporava-se das suas taças de pedra.
O fogo renascia, as odes delirantes, os cometas de luz.
O silêncio respirava e queimava.
Genuína era a hora de todos os poemas e as horas minúsculas
cresciam, como bagas, tímidas, amarelas.
Era sempre assim, a voz e as flâmulas, a água entretecendo as fábulas,
pela urze transfigurada; as trevas rasgadas pela obsessão da luz.
E o tempo florescia, à noite, pelas suas mandíbulas,
que cresciam, como flores carnívoras.
Eu era a noite e um grito, a obsessão de um cântico, distinguindo
a aberrante espuma, o suor das estrelas,
e o meu coração era verde, como um girassol, abrindo as suas teias
desmembradas à névoa dolorosa, pela claridade implacável.
Moviam-se as musas lentas ( a lua em caranguejo ),
a loucura dionisíaca abrindo-se, pelos seus archotes sonâmbulos.
- Deus e o Diabo cruzavam-se.
José Régio era o poeta que me iniciava na claridade
de todos os poetas.
Rimavam com ele as águas, vestidas de brocado,
as nuvens, o mundo e as tempestades.
Percebia que os seres são poetas escondidos, dando nome
às coisas e poesia aos nomes.
Eu era a extensa harmonia e a criação inexplicável.
Na treva coberta de espuma, Deus sorria, sofrendo, derramando
o seu cântico de lira amarga,
narrando a poesia, evocando o sulfúrico esplendor das vozes
lisérgicas.
Contorciam-se as musas aberrantes, a matéria lírica.
Cresciam os lírios, o caos fervilhava,
num emaranhado soturno, numa amêndoa claríssima
- o silêncio voando, como um insecto nocturno
pousando, sobre o meu coração inerte.
Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".

06/06/2006

Fotografia de Augusto Mota.
Castanheiro da Índia. Cacho de Flores.

Poemas Antigos

1. Riscos, Rastos, Restos
Escrevo poemas
para me libertar das palavras -
Caminhando de verso em verso,
até exausto cansar-me
e cansá-las,
deixo-as cair depois no chão
como folhas secas
que o vento leva para muito longe
e desfaz no ar.
Como a luz de estrelas há muito desaparecidas
debruando os contornos de minha alma,
cintilantes ainda dessa luz primeva,
aqui as deixo
na orla desta página,
dispostas como uma moldura ardente -
E fico a dançar no centro
até que o anel de fogo se vá estreitando
e eu arda na labareda das palavras -
O que aqui vedes negrejar nos caracteres deste poema
são as nossas cinzas -
Ardemos todos no fogo da emoção,
e o que fica é sempre isto:
uns rabiscos negros,
uns riscos,
uns rastos,
uns restos.
António Simões, inédito.

04/06/2006

Legenda Íntima 107. Augusto Mota.

o sortilégio dos frutos

Suculentos frutos frescos abrem-se à boca como romãs ao sol poente e o sumo carmim de suas veias derrama-se como música em nossas mãos. O bardo entoa o sortilégio de um céu longínquo de azul e fantasia. Muito para além das janelas desses frutos revejo os tempos em que juntos bebemos suas sementes, quando a maresia e o vento leste nos pinhais parecia prolongar a doçura de cada gesto e tais frutos abertos à natureza diziam de nós e de todas as colheitas que sagravam os bosques do nosso contentamento.
Em seu constante revolver o mar acolhe este balançar entre a memória e o vento, enquanto o bardo insiste nos tons outonais do poente que separa a vida e a gente.
Lestos são os frutos em seu despontar do prazer. Serão novo andamento em secreto concerto, melodia vaga e triste que ensombra os dedos e chora por nós um adeus que festeja o álacre Outono em sua primaveril renovação.
As estações do corpo também cumprirão seus ritos!
Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.

24/05/2006

"Sol Nascente. Loro Sae". Augusto Mota.
Serigrafia, 43X33 cm. 1999.

Sol Nascente / Loro Sae

Abre-se a terra para homenagear um povo que habitou as suas entranhas, enquanto aguardava que, um dia, o sol, como um galo de luta, anunciasse a vitória perpétua dos seus sonhos.
Abre-se, depois, a terra para erguer um monumento à memória dos que já não viram o futuro, mas onde as cruzes brancas, em honra do seu sacrifiício, serão memória e fundamento de uma nova cidade.
Abre-se, também, a terra para marcar uma fronteira visível entre essa memória das muitas vidas anónimas perdidas e a perfídia das resoluções urgentes todos os dias convenientemente adiadas.
Abre-se, ainda, a terra para afastar, de vez, do sol nascente, as palavras ardilosas e os sorrisos dissimulados que, como um verme astuto e peçonhento, rastejam, sem rosto, pelos caminhos cobardes da traição cruel e impiedosa.
E a terra abre-se, finalmente, para deixar o engenho das mãos e das máquinas limpar as sombras negras que o fogo do ódio projectou na paisagem clara e nas ruas férteis de tanta esperança. Que os nós que alimentam as cordas dessa esperança sejam bem firmes, para aguentarem os ventos de tanta adversidade. E que nas praias do desespero de ontem, arribem, pela maré cheia, os barcos da boa-nova e da abundância. Nos porões da solidariedade hão-de levar, também, fado e saudade. Para cantar o destino de um país que terá de carregar, para sempre, em seu nome, como letra inicial, a cruz dolorosa da sua construção.
Augusto Mota, in "Juntos por Loro Sae", edição Jorlis, Leiria, Dezembro, 1999.
"Glicínia de Flor Dobrada". Fotografia de Augusto Mota.

23/05/2006

A Poesia É Um Objecto Rasgado Na Inocência

Aos poetas-pintores
Maria João Fernandes
e Gonçalo Salvado
Esplêndida é a palavra, o plasma, o alimento do poema,
a sua luz feita de gestos simples, quotidianos,
rimas ancestrais, livros antigos.
Esplêndida é a palavra e o seu sangue de leite e romãs.
Por vezes, os pássaros gritam, atordoados no silêncio da noite
e a poesia é uma musa coroada,
um gesto simples, um objecto de ternura;
envolve bifes com bacon, ovos moles de Aveiro,
objectos de Arte Nova, referências a Goethe, António Salvado,
Marc Chagall.
Num fulgor dionisíaco, desprendem-se vestígios de caravelas,
chá de hortelã-pimenta, ou a magia radiosa de um livro
comprado numa feira de antiguidades, num jardim da Graça.
Sobre harmonias versáteis de pintura e poesia,
as palavras desprendem o seu aroma sempre vivo,
nas telas, nas cores, nas quimeras azuis,
e a neblina do mar coroa as pombas, os limões dourados,
entre as sombras coloridas pintadas, nas arcas leves do sonho.
Esplêndida é a carne, a luz do poema, a sua fronteira
de azul e azeitonas.
Dela despertam velas, lombadas rasgadas, memórias,
roteiros íntimos de secretas viagens.
A poesia é um objecto rasgado na inocência,
na sua polpa doce,
a sua seiva é a seiva gloriosa das vinhas do silêncio.
Os dias são de seda e os seus instantes sombras
de veludo;
as suas iridiscências fundam no amor o seu reino,
dança de pássaros inebriados,
cavalos inquietos, envoltos nas páginas enrugadas,
alisadas,
na traça obscura do tempo.
Maria do Sameiro Barroso, inédito.

22/05/2006

Legenda Íntima 108. Augusto Mota.

A CANÇÃO DO DOIS E DO UM

Não penses no outro lado,
não há dois, apenas um -
o outro é este virado,
a alma veste o casaco
do avesso que é nenhum.
Morrer é ir para o avesso
do casaco desta vida.
Nem bom, nem mau: um começo,
voltamos ao mesmo berço,
renascemos de seguida.
Por isso eu nunca penso
na vida que vem depois -
vivo a vida como um lenço,
nos dois lados está apenso
o mesmo número: dois.
Cada um o outro é
num binário singular,
são duas formas de estar -
ausentes razão e fé.
O outro que vive ao lado
e me olha, olha-se a si -
ao ver-te, fico mudado,
foi ao ver-te que me vi.
Dois é o número chave
que tu és uno e diviso -
a única forma que abre
o portão do paraíso.
Dois, o número escrito
no rosto do teu irmão -
finito número infinito
onde os outros todos 'stão.
Minha alma, assim, comporta
outras almas e lugares -
e a vida é viva e morta,
tudo integra, nada sobra,
é bom que nisso repares.
Comigo eu te transporto
e o vasto mundo também,
estando vivo, já estou morto,
estou perto e longe do porto,
minha alma não vai nem vem.
No sítio onde está, viaja
sem sair do seu lugar -
menina já velha e sábia,
sem lamentos e sem raiva,
ela vê o tempo passar.
Porque ela sabe que o tempo
não é mais que uma miragem -
fluida e vária como o vento,
dentro de si tem assento
sua estática viagem.
Ó minha alma viageira,
nómada de sítio nenhum,
acaba a tua canseira -
o Pai já de ti se abeira,
tu já não contas depois:
cala a canção do dois
e canta a canção do UM.
António Simões, inédito, in "Poemas Circulares: Moradias e Navegações".

20/05/2006

Fotopoema 51. Augusto Mota.

(utilidades)

Toda a geografia é uma sensação, antes de mais. Só depois é que se converte em ciência. Depois, quando a alma da poesia deixa ver como tudo, afinal, é assim mesmo, geograficamente poético, sem necessidade, portanto, de intervenção dos livros dos poetas, que nos ensinam essas coisas bonitas a que os homens de ciência chamam inutilidades. Nem são inutilidades, nem nos quebram o contacto com o real. Antes pelo contrário.
Augusto Mota, inédito, in "Artifício da Loucura", 1964.

Luandino Vieira é o vencedor do Prémio Camões 2006

Luandino Vieira, de origem portuguesa, começou a escrever contos nos anos cinquenta, em Luanda, onde residia.
O Prémio Camões 2006, o mais importante galardão literário da língua portuguesa, no valor de cem mil euros, foi atribuido hoje ao escritor angolano, José Luandino Vieira.
Luandino Vieira, de 71 anos, de origem portuguesa, começou a escrever contos nos anos cinquenta, em Luanda, onde residia.
A sociedade e os costumes da capital angolana, então sob domínio colonial português, inspiraram a maioria dos seus contos e a colectânea "Luanda" foi vencedora de um prémio internacional. Perseguido pela polícia política - PIDE -, foi preso e enviado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, juntamente com outros independentistas angolanos, fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola ( MPLA ).
Desde a sua criação, há 18 anos, apenas dois escritores africanos receberam o Prémio Camões, nomeadamente, José Craveirinha, em 1991, e o angolano Pepetela ( Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos ), em 1997.
O júri foi constituído por Agustina Bessa-Luís ( Portugal ) que votou contra, Francisco Noa ( Moçambique ), Ivan Junqueira ( Brasil ), Paula Morão ( Portugal ), José Eduardo Agualusa ( Angola ) e Evanildo Bechara ( Brasil ).
A Edirora Caminho irá lançar, em breve, em Luanda e em Lisboa, o primeiro livro da trilogia que o escritor está a concluir, sob o título "De Rios Vermelhos e Guerrilheiros".

18/05/2006

enviado por Rui Mendes,vd.

Os Pulsos Puros, Os Cabelos Lentos*

Aos Colegas da SOPEAM
A cidade tinha a cor, o coração algures.
A vida não estava nos textos, pergaminhos, num livro
equilibrado sobre a cabeça.
Algures, alguma deusa primordial protegia-me e a vida
pulsava, com as suas arestas lentas.
Eu era um sonoro vulcão, a cabeça desequilibrada,
uma haste de cinza rompendo a cabeça e o livro,
as chamas lacunares atravessando-me.
Fazia-me arqueóloga, com os pulsos puros e os cabelos lentos.
A vida não estava nas pedras, nem nos sarcófagos,
mas os mortos nasciam todos os dias,
inundando de neblina os jornais, cobertos de esporos frios,
as musas desequilibradas desequilibrando-me.
A minha vida era assimétrica, as minhas mãos confundidas,
entre filamentos de crisálidas.
Passavam por mim as musas delirantes.
E os mortos estendiam-se na cidade, como castanhas no outono.
A morte não estava nas locomotivas,
e eu aprendia a suturar, nos hospitais assépticos.
A minha vida cobria-se de orquídeas.
A morte escondia o seu seio. Havia gaze, iodo e mercúrio;
os meus olhos, uma genciana aberta de pássaros, neve.
E a vida não estava na arqueologia suturada,
nem nas suturadas invenções.
Mas as ânforas passavam, frenéticas.
Sonhava com Marco Aurélio. Provava o exótico garum.
Lia e suturava.
Cingia a cabeça, devorando as cidades interiores.
A arqueologia regressava, com todo o seu ouro.
A morte e a vida, os êmbolos inertes.
O terror regressava.
Pelos campos cirúgicos o fogo surgia.
Renasciam as cinzas, no corpo sôfrego para segregar
as ervas e os violinos.
E a cidade tinha a cor, o coração algures.
As musas cirúrgicas passavam.
O Estige sorria, desdobrando canções, árvores frondosas
- os violinos sonhavam,
o mundo era uma canção iluminada, entre neve,
oxigénio, compostos iodados;
a Vida e a Morte, de mãos dadas, descobrindo os sarcófagos,
os Manes, as cidades interiores.
A vida passava, leve e enigmática, como um teorema nocturno.
As estrelas soltavam-se.
Sabia de cor as violetas, a cor das cidades.
O Estige sorria.
A Vida não estava nos textos, pergaminhos.
-A vida florescia, numa morna estação de neve e jornais.
Maria do Sameiro Barroso, inédito.
__________________________________________
*I ENCONTRO DE LITERATURA DO HOSPITAL DE SANTA MARTA
18 de Maio de 2006
17 horas
MUSEU MACBRIDE
HOSPITAL DE SANTA MARTA

17/05/2006

Legenda Íntima 111. Augusto Mota

a celebração do silêncio

há dias em que as palavras não se devem soltar .hoje é um desses dias .hoje celebra-se o silêncio cuja natureza condena o acessório ,muito embora ele seja também raiz de acção .mas o imperativo abstracto de "algo a cumprir" também pode tornar-se em angústia ,em dualidade ,numa inquietação insustentátel
.o silêncio é ,então ,muito mais sedutor do que a história das palavras e dos actos isolados
.Maria sabe-o .a sua aparente solidez ,o seu olhar cansado ,o registo taciturno das suas contemplações interiores ,escondem uma mulher inteira .um ser cuja limpidez esconde ,ainda ,o cuidadoso preservar da sua complexidade
.nela ,toda a urgência do ser
.prisioneira das suas sombras ,o interesse de Maria pelos outros constitui a reconstituição permanente das suas fidelidades primordiais ,enquanto mulher
.o presente .a repetição dramática da sua existência que procura ,agora ,resolver através da acção
.as ciladas e as armadilhas da cidade ,porém ,foram-na transfigurando sem a desfigurar
.reinicia o tempo de dar vida aos sonhos dos vinte anos ,e , as palavras escritas sobre as tonalidades da vida urbana com que sonhou ,mais do que depoimentos ou simples repositórios ,pretendem iluminar o seu pessoal estoicismo silencioso
.como muitos outros ,Maria sabe que o poder é extremamente precário e provisório .aliás ,ela nunca há sonhado com o poder ,pelo menos o poder como poder
.o seu sonho consiste ,apenas ,em fixar uma época .em relatar um tempo de sombras .em fixar uma travessia no círculo apertado do obscurantismo .mas sabe ,também , que não pode nem quer alcançá-lo sozinha .daí o seu humanismo eivado de uma forma peculiar de existência - Maria não aceita a culpabilidade - não entende que todos nós somos culpados de alguma coisa ...
no seu universo há encontros e desencontros
o retorno ao eterno arbitrário ,contudo ,é uma faca de dois gumes ,e o terrorismo cultural onde se move e habita acaba por oferecer-lhe um bilhete para uma viagem sem retorno
.o enigma das repetições fá-la ,no entanto ,pensar que sempre estivera ali .ela sempre estivera no mesmo lugar
.Maria olha a direito ,fala .à esquerda ,onde se situa ,ao centro e à direita .às vezes hesita ,outras vezes provoca silêncios ,à espera de qualquer coisa . há que respeitar-lhe o silêncio e o grito que não solta -"deixem-me .deixem-me ser tantos quanto sou !"
como pedra sonora o seu eco permanece sobre a terra e sobre o tempo ... entre ela e as suas sombras ergue-se ,intacta ,a cumplicidade do que não se perde - a sua capacidade de criar
.mas será que isso lhe basta
?
gabriela rocha martins,viaje até ...

16/05/2006

zig-zag zag-zig


Na passagem do 100º Aniversário do nascimento do General Humberto Delgado, o Grupo dos Amigos de Olivença presta sentida homenagem ao Lutador e ao Defensor das causas em que acreditava.
Humberto Delgado, cedo, manifestou a mais ardorosa determinação na sustentação dos direitos de Portugal e quando apresentou a sua candidatura à Presidência da República, em 1958, era Presidente da Assembleia Geral do Grupo dos Amigos de Olivença. Combatente da Liberdade e da Justiça, ao General Humberto Delgado não podia passar silenciado o drama histórico que a ocupação de Olivença significava.
O seu amor à velha terra portuguesa de Olivença foi das grandes motivações a que não regateou esforços.
Honrando a memória do General Humberto Delgado, lutemos nós, Portugueses de hoje, tal como ele o fez, pela Olivença portuguesa.
Esta é a homenagem que lhe devemos.
Lisboa, 20-05-06.
A Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença

15/05/2006

Fotografia de Augusto Mota.

A Rosa e a Chama

Era o rumor da rosa
ardendo ali ao lado, no jardim?
A rosa estava lá fora,
certo.
Só que a sua chama
crepitava aqui mais perto:
dentro de mim.
António Simões, inédito.

11/05/2006

um ano de existência

A Tripulação
do
Palácio das Varandas,
( Augusto Mota, Glória Maria Marreiros,
António Simões, Maria do Sameiro Barroso,
Sandro William Junqueiro e Gabriela Rocha Martins )
com alguns ventos a contragosto,
muitas marés de agrado
e
aportagens felizes
mas
não sonhadas,
agradece aos seus Amigos, Visitantes e Leitores
as viagens partilhadas
ao longo deste ano
de existência
...
promete crescer
mais
...
ehehehehehehe!
...
"Com que então caiu na asneira
de fazer na quinta-feira
um anozinho
que tolo!
ainda se o desfizesse
mas fazê-lo não parece
de quem tem muito miolo"
...
"Beijo na face
pede-se e dá-se
dá?
Que custa um beijo
não tenha pejo
vá!
...
(Excertos de Poemas de João de Deus )

10/05/2006

Fotografia de Teresa Fonseca

09/05/2006

Dia 8, 19:17 ( continuação )

Ao lado da sala existe uma casa de banho a que só os guardas desta ala têm acesso.
Abro-lhe a porta verde. O cheiro a higiene incontinente que invade todos os espaços e compartimentos da instituição, ao mesmo tempo encolhido, sub-reptício, invade-me novamente as narinas, alojando-se de imediato no cocuruto da cabeça; entranhando-se-me num dos bons lobos do cérebro.
E é nesta curta relação de causa-efeito, composta por choques eléctricos, que uma náusea violenta me irrompe do ventre. Nem tenho tempo de chegar ao espelho e espremer uma borbulha que seja, para me acalmar.
Logo, uma, duas, três golfadas de vómito, de cor ainda indefinida, saem projectadas da minha boca e narinas para cima do lavatório branco. A mistura quente e pegajosa liberta um fumo branco em sinal de paz, em contacto com a cerâmica fria.
Cheira a azedo. Vomito tudo o que tenho e o que também não tenho. Estou exausto e oco por dentro. A boca sabe-me a envinagrada. Quando tento engolir saliva pareço estar a engolir ao mesmo tempo pequeníssimas lâminas que se cravam na garganta.
As minhas pernas e os meus braços tremem-me. A custo, lá consigo pôr-me de pé. Estou como leite azedo e coalhado já coberto por uma fina camada de bolor. Pálido e verde. Os olhos coalhados de sangue. Não posso prmitir que me vejam assim. Não posso.
Abro a torneira no máximo. Lavo cuidadosamente todo o lavatório e apanho do chão algumas sobras desalmadas que saltaram para fora na altura do primeiro jorro. Assoo o nariz. Lavo a boca e os dentes. Bebo uns goles de água. A água fresca, de certo modo, revigora-me. Sinto-me ligeiramente melhor. Mais capaz. Ainda que as pernas me tremam um pouco. Mas o pior já passou.
Enxugo as mãos à farda e volto para o corredor. Ainda não lhe vejo a porta. Mas vai tudo correr bem. Vai tudo correr bem.
Basta que acredites. É importante acreditar.
Sandro William Junqueiro, inédito, in " Cadernos do Algoz".

07/05/2006

Fotografia enviada por Man'el Mota.

Recorte

Silhuetas recortadas
em contraluz
quando a aurora preguiçosa
se debate ainda
num adeus à Lua
e o Sol tremeluz
rompendo a bruma
que no mar se esbate.

Silhuetas,
em cada uma
nervos, músculo, coração,
mão puxando a rede
que o labor encheu.

recortado,
um homem cabe inteiro
nas nuvens do céu.
Glória Maria Marreiros, in "Algarve, a gente e o mar".

06/05/2006

zig-zag zag-zig

Aviso à Navegação
Devido a obras de restauro em todos os balcões do PALÁCIO DAS VARANDAS, as publicações encontram-se suspensas por algumas horas.
Tencionamos retomar o contacto com os nossos Visitantes e Leitores no próximo domingo, dia 7 de Maio, se as obras em curso, à semelhança de todas as demais neste País, não inflaccionarem.
A Tripulação.

03/05/2006

Rosa Madame Meilland.
Fotografia de Augusto Mota.

O Voo da Rosa

Rosa -
Uma rosa voa
Com asas de perfume;
No coração da tarde,
Uma rosa voa
E arde -
E este poema
É as cinzas desse lume.
António Simões, inédito.
Fotografia de Teresa Fonseca.

27/04/2006

dia 8, 19:17

Ainda não vejo a porta.
Lá fora, a chuva continua, incessante, embora daqui não a consiga ouvir. O silêncio é gordo e sem moscas. Pegajoso. Tanto, que a cada passo, os meus pés transformam-se em cães enraivecidos, latindo contra um inimigo invisível ecoando pelas paredes e tecto.
O corredor é longo e largo. As paredes são cinzentas, sem brilho. E a luz baça ilumina-me os passos cadenciados. Sei que atrás destas paredes, de um lado e do outro, eles dormem. Ou fingem que dormem todos os que vão morrer. Mais cedo ou mais tarde. Todos sabem o seu fim. Mesmo assim respiram sem pressa e os corações batem-lhes baixinho para não se fazerem notar enquanto se preparam.
É a minha primeira vez. A dele também. E estas horas que antecedem a execução são demasiado longas e pesadas. São horas que fedem: odoríferas horas. No entanto, se para mim, estas, são as primeiras e as mais duras, da aplicação final de toda uma aprendizagem, para ele, serão as últimas; as últimas e as mais céleres. É luxuriantemente simples: um sabe que vai matar; o outro sabe que vai morrer; e sabendo nós o mesmo, estamos unidos a essa mesma morte, como dois gémeos siameses estão unidos à sobrevivência pela partilha de um orgão comum; de um orgão vital, do qual os dois dependemos em simultâneo, mas que tem de ser dividido, lancetado, e que dessa cisão, os dois também sabem, que depois apenas um sobreviverá: talvez o mais fraco.
A sombra de um homem robusto, de cabelo cortado à escovinha, caminha a meu lado. Um cheiro acético a desinfectante impregna o ar. O chão, as paredes, o tecto, as portas, as grades, as celas, os catres, a cozinha, os refeitórios, as casas de banho, tudo, está impecavelmente limpo, imaculadamente puro; entranhado para sempre com este odor a fruta asseada. Que faz lembrar o cheiro das putas lavadas; das higiénicas e desinfectadas vaginas, que de quando em quando, aguardam os clientes, palpitantes sobre a cama, com odoríferas fatias de maçã encostadas à carne por dentro das cuecas.
Paro à distância de dez passos. O puxador da porta interroga-me a mão. Procuro a razão pela qual as minhas pernas se recusam a avançar. As minhas pernas têm medo. Um medo individual. Como se fossem elas próprias seres autónomos com vida própria.
Com a cabeça mal voltada, volto-me para trás. Procuro no chão de mármore as marcas recentes dos meus passos ladrados. Tudo está limpo. Imaculadamente puro. Preciso de uma casa de banho. Quando os nervos trepam por mim acima tenho sempre vontade de ir à casa de banho. Não só para urinar ou defecar, fazer aquilo que todos os bichos fazem, mas para espremer borbulhas e pontos negros em frente ao espelho. Espremer borbulhas e, ou, pontos negros, ou os dois em simultâneo em frente do espelho, relaxa-me mais o sistema nervoso, a frequência cardíaca, que dez inspirações abdominais completas. Ver o sebo ejectar-se dos poros e projectar-se no vidro, transmite-me, não sei bem como, uma pseudo-mesquinha sensação de segurança. Uma segurança egocêntrica, que nenhum ansiolítico ainda assim me conseguiria dar desta forma tão absoluta e macrobiótica. Preciso de espremer borbulhas. Ou isso ou comer laranjas.
É melhor regressar. Não é medo. É uma necessidade fisiológica. Uma casa de banho. Não é medo. Não, não é.
( a continuar ... )
Sandro William Junqueiro, inédito, in "Cadernos do Algoz".

26/04/2006

Legenda Íntima 105.
Augusto Mota.

Os Tais Ministros

"Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"
Eça de Queiroz, in "O Distrito de Évora", 1867.