29/08/2006

Fotopoema 68. Augusto Mota.

9. Assalto e desvio de uma palavra

Vou partir na asa de uma palavra,
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema.
Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei.
António Simões, ( poemas antigos ), inédito.

26/08/2006


Fotopoema 67. Augusto Mota.

8. Um traço

Um traço apenas na folha de papel
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
Quem sabe se alguém um dia não passa por aqui
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue.
António Simões, (poemas antigos ), inédito.

24/08/2006

Fotografia de Augusto Mota.
( Magnolia grandiflora )

23/08/2006

semear de lanço

Valeu a pena tanto labor e tanta espera, sem desesperar. Foi mesmo ao anoitecer, quando as árvores e as recordações se confundem, que descemos ao jardim, mas só vimos vultos. Aspirámos, porém, o aroma quente das flores da Magnolia soulangiana nigra e colhemos ainda dois botões que em nossas mãos abriram o segredo das suas pétalas negras e uma fragrância nova envolveu a noite e o cansaço da espera. Para alívio de tanto mal esfregámos, uma a uma, todas as pétalas no rosto e nos olhos doridos, como se tão caseira mezinha fosse a cura há muito ansiada. Tão bela recordação, pelo menos, irá aliviar o sono e, hoje, já poderemos fechar as mãos e dormir descansados sobre o segredo do perfume que envolveu todos os gestos.
Do perfume da esperança que um dia semeámos num canteiro do jardim, debaixo da magnólia, esperamos, pelo menos, a coragem para atravessar a aridez das paisagens que ainda povoam as rotas da noite e a madrugada de alguns dias.
Depois de amanhã repetiremos os gestos largos e seguros de quem semeia de lanço sobre a terra lavrada de fresco e das sementes, assim lançadas a esmo, hão-de germinar novas intenções e frutos saborosos que colheremos na estação própria. Talvez lá para o fim do Estio.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Fotografia de Augusto Mota.
Centro da Passiflora violácea "Victória".

20/08/2006

Sérgio Vieira de Mello - uma memória em defesa dos direitos e valores humanos

Ontem, dia 19 de Agosto, passaram três anos sobre o trágico atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello, e, a sua acção em nome dos direitos e valores humanos que nos são, particularmente, queridos, leva-nos a perpetuar a sua memória.
À frente de importantes missões humanitárias da ONU no Líbano, no Ruanda, em Timor Leste, no Kosovo e no Iraque, Sérgio Vieira de Mello foi uma das mais respeitadas figuras da diplomacia internacional.
O seu carácter humanista, associado ao seu talento para a negociação e a defesa da democracia, mesmo em situações difíceis, foram factores determinantes para o sucesso de muitas de suas actividades.
Sérgio Vieira de Mello nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de Março de 1948.
Ainda não tinha um mês, a família mudou-se para Buenos Aires, onde o pai foi colocado como diplomata.
Em 1969, formou-se na Universidade de Paris, e, nesse mesmo ano, entrou para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), em Genebra, Suíça.
Na década de 70, acumulando com os estudos em Paris, trabalhou em missões da ONU, no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru.
Em 1974, completou o seu doutoramento em Filosofia, e, na década seguinte, terminou o doutoramento em Ciências Humanas, mais uma vez, na Sorbonne.
No início dos anos 80, foi conselheiro político das Nações Unidas no Líbano, durante a ocupação israelita, e, nos anos 90, actuou na repatriação de refugiados do Cambodja, tendo sido, ainda, representante das Nações Unidas na Bósnia-Herzegovina.
A sua participação, como administrador do governo de transição de Timor Lorosai, até às primeiras eleições, foi, sem dúvida, importantíssima.
Em 12 de Setembro de 2002, vem a ser nomeado Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU e, em Junho do ano seguinte, tornou-se representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para o Iraque, onde perdeu, tragicamente, a vida, no ataque terrorista do dia 19 de Agosto de 2003.
Fotografia de Augusto Mota
( Eryngium planum com insecto ).

7. Ai, Ai, Tanta Palavra

Ai, ai, tanta palavra
a fervilhar na tua mente -
Faça-se silêncio, de repente,
na tarde de alma -
Deixe-se a água,
deixe-se o vento
varrer de dentro
o que lá estava -
Fique-se olhando
a casa em frente
e o ar azul
que antes cegava -
Sejamos asa imóvel
de pedra,
fiquemos quietos
de corpo e alma.
António Simões, [ poemas antigos ], inédito.

18/08/2006

Legenda Íntima 121. Augusto Mota.

15/08/2006

O

Chove em X. É a noite lá fora. Dentro de uma das salas do edifício prisional estão dois homens parados. Um está de pé. O outro sentado. O de pé fuma; um pálido fumo ergue-se acima do nariz e dos olhos, rarefazendo-se antes de tocar o tecto. O homem sentado, pousa as mãos e os grilhões em cima do tampo da mesa.
-Como conseguiste mesmo assim?
-O quê?
-Comer nesta hora?
-Tinha fome.
-Tinhas fome como?
-A fome é uma das primeiras consequências da existência.
-Isso não é verdade.
-Não é?
-Não... Não acredito nesta tua fome... A maioria vomita. O medo, os nervos, a ansiedade... Até eu que não estou aí... Nem consigo engolir. Não passa nada por aqui - aponta para a garganta.
-Aquilo estava bom. Há muitos dias que não comia assim.
-Isso não é verdade.
-Então qual é a verdade?
-És escritor. Não acredito que não saibas.
-Já não escrevo.
-Mas escreveste.
-Sou só mais um par de horas.
-Os livros vão mais longe que isso.
-Depende.
-Depende de quê?
-Depende se são mais um livro. Ou se são um livro. E tu?
-Eu?
-Quando pensas em publicar?
-Nunca.
-Porquê?
-Não tenho talento. Não é bom. Ninguém se interessará.
-Como é que tens tanta certeza?
-Sei-o simplesmente.
-Isso não é razão.
-Pode não ser para ti, mas para mim é suficiente. Sei-o, além de tudo, porque também te li. E sei que nunca vou ser capaz.
[continua ]

Sandro William Junqueira, inédito.

12/08/2006

Fotopoema 65. Augusto Mota.

11/08/2006

resistência

sorvo o dia quente
no cinzento de um vento violento
que viola a estola a secar em tempo
de viagem sem regresso
ao avesso do sonho viajado e o passado
e o presente sentem o ressentimento
do entardecer
feito aranha resistente
ao riso
dum poeta renascentista
que não resistiu à biópsia
da sua biografia
bolas
não aguento
tanto unguento
deixem-me ser só poesia
gabriela rocha martins, inédito veja também, agosto 2006.
Legenda Íntima. Augusto Mota.

10/08/2006

Por vezes escutava os girassóis

Sonhava o esplendor. Eu era assim, vulnerável e sombria,
e a morte pousava inteira, no meu ombro.
No terror não havia ninguém que me abraçasse.
Pelos dias fortuitos, talvez as mãos de Deus, onde o silêncio
amainava, aguardando os dias lentos,
porque o tempo era frágil, insaciável e as esferas resplandeciam,
entre plantas mortiças, rodeadas de miasmas perniciosos.
Pelo espaço reduzido consultava Tratados sobre a Espiritualidade
e irremediavelmente, o vento soprava.
A lua recomeçava.
Pela primavera, chegavam os adivinhos.
Era preciso enfrentar o trabalho dos ventos e os domínios do éter,
na luz coberta de dióspiros, dizendo as coisas simples,
coroadas de fragrâncias, profundamente irreais.
Fruia as rosas, a música.
O éter soltava os seus cavalos macios, os seus ritmos langorosos
e a vida constituía-se, entre gaivotas em contraluz,
cabelos soltos, poemas impregnados de areia.
Por vezes, ecutava os girassóis e as palavras alteradas
pelo lado dos abismos.
Tudo era incerto, na sua resolução imensa,
as aves eram intermináveis,
os aloendros vergavam-se, leves, carregados de silêncio.
As abelhas zuniam, pelos rios desvelados, a luz ardia
e o verão começava, confirmando a luz do sol.
Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".

06/08/2006

Sobran Armas!

Si no lo digo
mis palabras se volverán grises.
Si me lo callo
el corazón se cerrará con llave,
ramos de sol se apagarán al viento,
y el mundo éxplotará si lo silencio.
Hay que desactivar
el llanto, la ignorancia,
la nave con plutonio,
los negociados con el hambre,
la inmutable indiferencia
frente a lo que no tiene conocida marca.
Hay que nombrar al niño,
a los millones de niños
que antes de dejar la niñez
se vuelven viejos.
Panzas con hambre,
huesos deformados
de tanto trabajar.
Hay que desactivar
la ambición que destruye la esperanza.
está faltando amor.
Está faltando pan...
y sobran armas
-Polly Bird.
____________________
"La guerra es la obra de arte de los militares, el broche dorado de su profesion. No han sido creados para brillar en la paz".
-Isabel Allende.
enviado por Maria Toscano.

04/08/2006

Nunca as palavras tiveram tanta música, nem a música tantas palavras...

Projecto de Composição Poética
Ode apresenta-se como um projecto inovador de composição poética, que resulta de uma nova abordagem à forma de dizer, sentir e interpretar poesia.
Feito por quem gosta do que faz, seleccionam em conformidade com o critério estético deles, as palavras dos nossos maiores poetas e escritores - consagrados e novos.
Palavras que avançam e se misturam com as harmonias e acordes das guitarras do Aires F.
Ou harmonias e acordes que abrem lastro ao fogo verbal. E também ao silêncio. O deles. O nosso. O vosso.
Ode propõe vidas e um diálogo entre todos. Convida. Escarafuncha. Ri. Chora. Invade e fecha.
A fórmula síntese: simplicidade e honestidade.
Objectivos:
Levar aqueles que consideram a poesia "uma coisa tremendamente chata" a disporem de uma segunda oportunidade.
Levar aqueles que se consideram incapazes de ler poesia, a comprá-la.
Levar aqueles que gostam de poesia a gostar dela ainda mais.
Oferecer magia. E sim, liberdade. Sempre a liberdade.
Guitarra e sons: Aires F.
Voz e palavras: Sandro William Junqueira.

03/08/2006

Fotopoema 58. Augusto Mota.
Painel em Azulejo de Manuela Martinho.

Queimada


corro
ao morro
socorro
ao morro
e
morro
em

.

Marcos Cesaretti, inédito.

01/08/2006

Legenda Íntima 116. Augusto Mota.

um alfobre de estrelas

O corpo está exausto e as mãos não reconhecem as cores do arco-íris, nem o sabor do orvalho da madrugada. Por isso deslizam suavemente pelas recordações amenas da tarde e procuram enganar os olhos com gestos e palavras sem significado. É como se estivéssemos perdidos num deserto sem oásis no horizonte. Ou como se o oásis prometedor já não oferecesse tâmaras para alimentar a boca e água fresca para sagrar a caminhada pelas areias escaldantes das dunas. As caravanas já passam muito ao longe e nem o perfume das flores do deserto atrai mercadores de sensações.
Agora só chega até nós o silêncio da noite e o brilho das estrelas que recolhemos, felizes, em nossas mãos e que iremos semear, em cama quente, como alfobre da próxima Primavera. Esperaremos a melhor Lua para que a sementeira seja pródiga e milhentas constelações nasçam e incendeiem as noites futuras. E que no deslumbramento do universo saibamos adivinhar qual a nova Estrela Polar que diatará o nosso rumo. Daremos às mãos as coordenadas certas para que a aventura ultrapasse os territórios inóspitos onde soçobram os olhos e as vontades. E, definindo a latitude correcta, esperamos chegar ao arco-íris e lançar as pontes de uma nova aliança que saiba refrescar os lábios da madrugada com o orvalho da noite anterior.
As recordações da tarde, aliviadas agora do cansaço do corpo por uma voz que chegou de longe, de um lugar perdido algures no perfume do deserto, serão como frutos exóticos colhidos junto aos olhos-d'água que alimentam as tamareiras ( Phoenix dactylifera ) e a frescura do oásis.
Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.

29/07/2006

Fotopoema 64. Augusto Mota.

6. O lugar onde estamos

Tem de ser tua força a acompanhar-me,
ó palavra que trago escondida
no mais íntimo da minha carne,
esta carne de alma, onde, esquecida,
corre uma criança
vestida do corpo azul do vento
e que vai, sobre colinas ásperas,
à procura do sol que tem lá dentro -
Tens de ser tu a sustê-la:
amarra-a ao chão,
acorda-a num grito,
para que não procure mais além a estrela
que traz no coração -
Debaixo dos seus pés é que nasce o infinito -
Tens de ser tu a acordá-la,
ó palavra secreta
que o Pai me segredou quando nasci.
Tens de ser tu a dizer-lhe
que o lá, o longe, é aqui -
O lugar onde se está é que é a meta.
António Simões [ poemas antigos ], inédito.

28/07/2006

Fotografia de Fernanda Sal Monteiro.

Quid Juris?

Também ao contrário da Agustina Bessa-Luís

( muito ao contrário da Agustina !!!! )

gosto do mar.
do azul do mar.
do mar azul.
e, só deixando vogar minha alma nos meus olhos,
vendo o brilho da luz reflectido nos azuis do mar,
essa minha alma serena.
vem daí a minha tranquilidade,
a minha força,
e então a vida faz sentido.
o mar é perigo,
mas não é insegurança.
é a força, maior do que nós
que nos vence.

( Agustina não admite ser vencida )
( daí a sua insegurança )
( tem medo )

o mar não é efémero.
o mar é eterno
no seu fluxo e refluxo
é sempre o mesmo
e é outro.

( Agustina será/é efémera )
( Agustina é mortal )
( Agustina não é eterna )
( Agustina não gosta do mar )

O mar é MAIOR
eu amo o mar.
a sua luz.
os seus azuis.
o azul límpido da manhã.
o azul estridente
dourado do zénite.
o azul manso do fim da tarde.
o azul noite do seu manto de repouso.

O mar é mais forte do que o homem.
mas eu não o temo.
nem odeio.
Está nele a nossa origem
e a nossa eternidade.

Fernanda Sal Monteiro, viaje até outro inédito.

24/07/2006

Deus-Sol. Deus egípcio ( Kephra )
Imagem retirada da Net.

Corro Vertiginosamente

Corro vertiginosamente, pelos reinos do opaco , a velocidade
ao centro.
Há corais luminosos, peixes estranhos, súbitos odores
e um texto que destila cândidos venenos.
Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo.
Sou tudo o que resta de um antigo papiro, pintado nas redes,
um deus pintado no túmulo de Seti I.
Persigo lentas galerias, desvairados violinos,
há raízes incandescentes que me surpreendem.
No meu corpo, há estiletes de bruma.
Pelo mundo coberto de versos marinhos,
há uma rede de peixes efervescentes
e mapas que definem a febre,
as muralhas, uma mulher sentada, sobre um feixe de enigmas.
Acorda-me um som cirúrgico.
Inútil é recordar as manhãs desordenadas.
De súbito, a lua nos olhos, os orifícios nocturnos,
um hausto violento a oprimir as sebes, o coração.
Sou tudo o que se desfaz, pela seda pura.
Amo os campos nocturnos que despenham no azul profundo
das turquesas.
Amo a chuva, com as suas bátegas loucas e os seus sarcófagos
lunares. Corro vertiginosamente, a velocidade ao centro.
Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo, os ventrículos
poderosos, as aurículas densas.
Penso nas múmias, no abdómen, coberto de panos impregnados
de resinas quentes,
nas facas de silex, leves como plumas, na cerimónia do espírito
revivendo, pela abertura da boca, anunciando o ankh
( símbolo de vida ),
e o sonho que repousa, como um escaravelho antigo,
originariamente colocado
sobre o coração
Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".

21/07/2006

Legenda Íntima 118. Augusto Mota.

5. Vou acordar

Vou acordar -
Com um grito, estilhaço meu casulo de pedra
e saio, vulcânico,
das entranhas da terra mais profunda -
Vou acordar -
trespassar esta folha, este livro,
e todos os livros do universo -
Para provar a mim próprio e aos outros
que estou vivo,
basta-me escrever um poema verso a verso.
António Simões, [ poemas antigos ], inédito.

19/07/2006

Fotografia de Augusto Mota.

A Caneta Azul ( conto )

A caneta azul ansiava, mais que nunca, pela chegada do fim do Verão. Tornara-se insuportável a transpiração daquela mão gorda que a apertava e forçava contra os papéis, desbotando-a para escrever ninharias. É certo que há canetas com vidas muito distintas e afortunadas. Chegando algumas, inclusive, a escever versos que perduram; poemas admiráveis. Que mesmo não sendo muito elegantes nem finos do ponto de vista estético, são eficazes. Infelizmente, não era este o caso.
Naquelas latitudes, o Verão era longo e desidratante. A economia da região despontava com a chegada dos numerosos turistas vindos do exterior. Assim, adições, multiplicações e subtracções, normas contabilísticas, assinaturas de cheques e ordens de pagamento a fornecedores, ocupavam a maior parte da sua existência.
Durante os seis meses que durava a estação balnear, a caneta ficava deitada no aparador ao lado da secretária quase todo o dia sem fazer nada. Para depois das onze da noite, naquela sala estreita e mal iluminada, desatar metamáticas para o papel com vista aos lucros da odorífera mão transpirada que a submetia às suas ordens.
Não sabia onde nascera, nem se recordava do local onde tinha sido adquirida. Lembrava-se muito bem, isso sim, das suas primeiras palavras: Secretária: 362.
Para quem almejava um dia escrever um romance, ou mesmo um pequeno conto, anotar apenas, para além de números cíclicos, dia sim, dia não, recados de supermercado como: cem gramas de fiambre, pensos higiénicos, iogurtes naturais, cotonetes, cervejas e algumas cebolas - era manifestamente pouco e redutor.
Por isso a caneta desesperava. Chegou mesmo a desejar em certas horas de intolerável angústia que a sua tinta se esgotasse antes do tempo. Ou que alguém mal-intencionado - porque sempre os há -assaltasse o escritório e, num reflexo inato, a levasse sem querer, juntamente com os lucros que se encontravam no cofre fixado na parede, sessenta centímetros acima da sua tampa.
Mas nada disto aconteceu. Findou o Verão e veio o Outono; depois o Inverno, a Primavera e novamente o Verão. O seu sortilégio continuou, bem como a mão inchada que lhe coube. Com o decorrer dos anos, lentamente, como a árvore que envelhece, a caneta deixou de acreditar e sonhar que algum dia seria capaz de escrever um texto minimamente ambicioso. Também os números e as equações, a pouco e pouco, começaram a rarear. Em períodos de longo celibato chegou mesmo a desejá-los escrever ardentemente como se de versos se tratassem: poesia numérica.
Uma manhã, uma mão estrangeira pegou-lhe. Já há muito tempo que a caneta não era usada, nem para números nem para costeletas de porco. A tinta - ou o que ainda restava dela - praticamente secara na sua totalidade. Mas esta mão nova que lhe pegava, elegante e ágil, era obstinada. E depois de premir, de arranhar com força, várias vezes, a sua boca contra a superfície lisa da folha, uma réstia de sangue azul que lhe sobrava, pingou, e ela pode então, finalmente, escrever um texto digno desse nome:
"Faleceu Tomás W.
Sua esposa, filhos, genros e demais família cumprem o doloroso dever de participar o seu falecimento, e que o funeral se realiza amanhã, sábado, pelas 11 horas, no cemitério grande desta cidade"
Sandro W. Junqueiro, inédito.

17/07/2006

Fotografia de Augusto Mota.

16/07/2006

Os massacres no Líbano continuam...

15 July 2006
Marwaheen Massacre Today: re-run of Mansoureh & Qana Massacres of 1996
The number of dead in this new massacre today in Marwaheen is 23 dead 9 of them children. Their vehicles were on the road. Going away from their village. Seeking refuge in another city after the UN refused to shelter them. It is Qana and Mansoureh of 1996 all over again. Massacres by IOF ( Israel Offensive Forces ). In Mansoureh parents sent their children in ambulances thinking that the "moral" IOF will not target them. Well they are wrong. In Qana, well we all know what happened. Don't we?
enviado por Adel Sidarus [ in http://urshalim.blogspot.com ]

15/07/2006

Gustave Klimt.

14/07/2006

zig-zag zag-zig

Também a 14 de Julho, mas de 1862, nasceu em Baumgarten, perto de Viena, Áustria, Gustave Klimt, pintor, líder do movimento secessionista local.
Klimt foi quem melhor inseriu a beleza feminina no meio artístico, criando o conceito de que o mundo tem uma aparência feminina.
Pintou, seguindo uma estética erótico-hedonista.
Faleceu em 1918.

14 de Julho de 1789 - Tomada da Bastilha

Delacroix - La Liberté guidant le Peuple
Liberdade
Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome
Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome
Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome
Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome
Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome
Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome
No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome
Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome
Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome
Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome
No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome
No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome
No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome
Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome
Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome
Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome
Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome
Pelo poder duma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te
liberdade
Paul Eluard.
Trad. Jorge de Sena
Fotografia de Augusto Mota.

13/07/2006

A Lei do Palhaço

Carta aberta do Prof. Sílvio Camerino P. Barreto.
Solar Camerino - Recife - Pernambuco
"Conta certa história que, numa determinada cidade, apareceu um circo. Entre os seus artistas havia um palhaço com um poder de divertir, sem medida, as pessoas da platéia. O riso que provocava era tão bom, tão profundo e natural que se tornava terapêutico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas passaram a ser indicados pelo médico do lugar para assistirem ao tal artista, que ele mesmo tinha visto atuar e que possuia o dom de fazer reduzir ou até mesmo eliminar angústias.
Um dia, porém, um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o médico. Este, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros de um "jeito perdido" de ser, de tristezas com ou sem causa. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direcção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou:
"Não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço!"
Como professor vejo que, muitas vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que fez e faz. Tenho a impressão que ensino no vazio ( e sei que não estou só nesse sentimento ) porque depois de formados, meus ex-alunos parecem se acostumar rapidamente com aquele mundo de iniqüidades que combatíamos. Parece que quando meus meninos e meninas caem no mercado de trabalho, a única coisa que vale é quanto cada um vai lucrar, não importando quem vai pagar essa conta e nem se alguém vai ser lesado nesse processo. Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente e nem se comovem com o choro alheio.
Digo isso, até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades. Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários, idiotas ou excluídos.
É uma total inversão de virtudes, de conceitos.
A honestidade não precisa de propaganda, nem de homenagens, precisa de exemplos.
Quem plantar joio, jamais colherá trigo.
Quando reflexões assim são feitas, cada um de nós se sente o palhaço perdido no palco das ilusões. A gente se sente vendendo o que não pode viver, não porque não mereça, mas porque não há ambiente para isso. Quando seria de se esperar uma vaia colectiva pelo tombo, pelo golpe dado na decência, na coerência, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a população em coro delirante gritando "bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza. Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo! bravo! E vamos todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara, o resto que se dane".
Enquanto isso o Brasil, tantos heróis e heroinas, anônimos ou não, mas que diminuíram a dor deste país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até à porta, vira-se e diz:
"Esse é o problema... eu sou o palhaço".
Ninguém tem a felicidade garantida. A vida simplesmente dá a cada pessoa tempo e espaço. Depende de você enchê-los de alegria. ( S. Brown )
Enviado por Marcos Cesaretti.

12/07/2006

Fotografia de Augusto Mota.