Os olhos viajam sozinhos pelos caminhos da serra, enquanto a tarde vai diluindo a paisagem no horizonte longínquo, para lá do rio que nos atravessa o corpo e das pontes que atravessam o rio. Pelas rotas do cársico remamos, então, sem destino, ao sabor do tempo que escorre lento pelas aldeias sombreadas do vale. Umas vezes passamos sob as pontes que ligam o passado e o futuro. Outras, passamos sobre aquelas que nos levam ao encontro do presente. Mas em todas navegamos, como se a água fosse a via certa para esta memória do presente. Cruzando pontes, navegamos recordações. Cruzando recordações, lançamos pontes através dos espaços vazios entre os dedos, quando estes só servem para contar as horas que sobram para a viagem de regresso. Regressamos ao presente. No mercado de todos os afazeres compramos o tempo que, antes, não tivemos. E passamos sobre pontes que, antes, só passáramos por debaixo, enquanto remávamos, ausentes, em direcção aos algares da memória. E cruzamos a serra em todas as direcções, já que uma subterrânea engenharia nos quis facilitar a inversão do curso dos rios que, agora, como dois mensageiros da noite, correm paralelos rumo aos oceanos perdidos entre o futuro e os continentes das nossas próprias emoções. Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
19/09/2006
17/09/2006
10. É só virar a mão
Não me chores quando eu partir:
vou para o outro lado,
para o avesso da vida -
É só virar a mão:
e tens-me de corpo e alma
na concha da tua palma. António Simões, ( poemas antigos ),inédito
vou para o outro lado,
para o avesso da vida -
É só virar a mão:
e tens-me de corpo e alma
na concha da tua palma. António Simões, ( poemas antigos ),inédito
11/09/2006
Ana Miguel ( 5 anos! sentada ao colo da Avó, Fernanda Sal Monteiro, numa varanda sobre o mar em Olhos d'Água, Albufeira, Algarve )
hoje ,dia 11 de Setembro de 2006 ,todas as estações de televisão ,todas as estações de rádio ,todos os jornais ,nacionais e estrangeiros ,abriram os seus noticiários ou iniciaram os seus editoriais com notícias ou escreveram notas de primeira página sobre o atentado ,mediático ,perpetrado ,há cinco anos ,contra as Torres Gémeas ,em Nova Iorque .foi, segundo alguns analistas ,o facto que mudou a História do Mundo Contemporâneo ,e ,que obrigou/justificou alguns dos maiores erros cometidos pela administração norte americana contra Estados ,ditos teocráticos ,regimes ditatoriais, inventadas ameaças ,ou ,ainda por explicar ,perigos nucleares .sei ,e como eu a grande maioria das mulheres que não quero ser obrigada a usar uma "burka" ,como sei que quero - 1º - viver e pensar ,sem maniqueísmos de qualquer ordem - 2º - acreditar ser possível construir ,em liberdade ,o meu futuro e o dos meus congéneres - 3º - defender ,de boa fé ,os princípios e valores que acredito e nos quais fui educada
.não sei
fazer futurologia
.não sei
o que inventarão os existentes ,ou novos ,totalitarismos ou outros ismos ,fazedores de guerra
.massei
que quero contribuir para viabilizar
...*...*...*...
.-. Avó, hoje fui a primeira a ver a estrelinha da madrugada!
.-. já reparaste que ela anda sempre perto da lua?
.-. as outras estrelas não brilham tanto...
.-.ela não é bem uma estrela como as outras. É um planeta. É Vénus. ... .-. Avó, onde dormem as estrelas?
.-. não dormem... Estão sempre no céu.
.-. então, estão coladinhas no céu? ... .-. Avó, onde dorme o vento?
.-. não sei Ana. Onde será?
.-. se calhar dorme por cima das nuvens...
.-. talvez. É um sítio bonito para dormir. ... .-. E a chuva, Ana? Onde imaginas tu que ela dorme? ... .-. Oh, Avó! Talvez dentro das nuvens... Fernanda Sal Monteiro, 13 de Agosto de 2006 veja
08/09/2006
Há 385 anos...
poeta francês,
nasceu em Château-Tierry, Aisne.
Espírito irreverente, livre e independente, morreu em Paris em 1695.
A Gralha entre os Pavões
Pavão que andava na muda,
sua plumagem largou,
e uma gralha presunçosa
com ela o corpo adornou.
Entre um rancho de pavões
atrevida se meteu,
até que um dos camaradas
a impostora conheceu.
Passou palra aos companheiros,
que em cima dela saltaram,
e não só o adorno alheio,
mas o prório lhe tiraram.
Voltou para as companheiras,
que do sucesso informadas,
a baniram do seu rancho
ao som de mil apupadas.
O que sucedeu à gralha
aos homens pode convir;
aquele que alheio veste,
o vem na praça a despir.
Este caso, além do exposto,
serve também de lição
a todos os que procuram
parecer mais do que são.
Trad. de Curvo Semedo
Enviado por Amélia Pais
07/09/2006
estático êxtase
Saborear o perfume dos frutos de uma líchia ( Litchi chinensis ) é como deixar as mãos navegar à sombra das pétalas de todas as rosas que já enfeitaram a esperança dos dias, quando as estações do ano se contavam pela germinação das sementes e pelos frutos que, ansiosamente, guardávamos nos olhos. Mas descascar minuciosamente a casca coriácea de uma líchia, sem ferir a sua polpa sumarenta, é como abandonar a boca ao prazer de todos os frutos exóticos que se escondem, ávidos, atrás das finas roupagens da memória.A noite é pródiga em tal caminhar pelos saborosos segredos da botânica, mesmo quando a azáfama dos dias nos afasta do mercado de todas as secretas e sensatas sensações. Assim penamos, extáticos, entre as gratas recordações das mãos e o sabor daquela memória que guardamos tão ciosamente como se fosse a secreta receita de um sofisticado licor. Por isso a boca antecipa o que os olhos, gulosos, já não conseguem disfarçar ao ver chegar de longe, pé ante pé, os sábios requintes da madrugada. Neles descansamos o corpo exausto. Neles adivinhamos a repetição dos dias. E neles semeamos, a esmo, erva-cabecinha, ou perpétua-das-areias ( Helichrysum angustifolium ), para que as suas flores animem, com um aroma de culinária exótica, o que ainda resta do sabor das tardes quentes, ou para, com elas bem secas, enchermos as almofadas que nos amparam o sono dorido e os sonhos vigilantes.É estático este êxtase que adormece o silêncio e a noite, como se a Glória de uma missa-cantilena acabasse, agora mesmo, de percorrer a nave de uma catedral gótica e deixasse as mãos perdidas ante a imponência das colunas e a hesitação dos olhos que, temerosos, vagueiam pelo transepto em busca do infinito de nós.Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
29/08/2006
9. Assalto e desvio de uma palavra
Vou partir na asa de uma palavra,
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema. Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei. António Simões, ( poemas antigos ), inédito.
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema. Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei. António Simões, ( poemas antigos ), inédito.
26/08/2006
8. Um traço
Um traço apenas na folha de papel
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue. António Simões, (poemas antigos ), inédito.
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
Quem sabe se alguém um dia não passa por aqui
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue. António Simões, (poemas antigos ), inédito.
23/08/2006
semear de lanço
Valeu a pena tanto labor e tanta espera, sem desesperar. Foi mesmo ao anoitecer, quando as árvores e as recordações se confundem, que descemos ao jardim, mas só vimos vultos. Aspirámos, porém, o aroma quente das flores da Magnolia soulangiana nigra e colhemos ainda dois botões que em nossas mãos abriram o segredo das suas pétalas negras e uma fragrância nova envolveu a noite e o cansaço da espera. Para alívio de tanto mal esfregámos, uma a uma, todas as pétalas no rosto e nos olhos doridos, como se tão caseira mezinha fosse a cura há muito ansiada. Tão bela recordação, pelo menos, irá aliviar o sono e, hoje, já poderemos fechar as mãos e dormir descansados sobre o segredo do perfume que envolveu todos os gestos. Do perfume da esperança que um dia semeámos num canteiro do jardim, debaixo da magnólia, esperamos, pelo menos, a coragem para atravessar a aridez das paisagens que ainda povoam as rotas da noite e a madrugada de alguns dias. Depois de amanhã repetiremos os gestos largos e seguros de quem semeia de lanço sobre a terra lavrada de fresco e das sementes, assim lançadas a esmo, hão-de germinar novas intenções e frutos saborosos que colheremos na estação própria. Talvez lá para o fim do Estio. Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
20/08/2006
Sérgio Vieira de Mello - uma memória em defesa dos direitos e valores humanos
Ontem, dia 19 de Agosto, passaram três anos sobre o trágico atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello, e, a sua acção em nome dos direitos e valores humanos que nos são, particularmente, queridos, leva-nos a perpetuar a sua memória.
À frente de importantes missões humanitárias da ONU no Líbano, no Ruanda, em Timor Leste, no Kosovo e no Iraque, Sérgio Vieira de Mello foi uma das mais respeitadas figuras da diplomacia internacional.
O seu carácter humanista, associado ao seu talento para a negociação e a defesa da democracia, mesmo em situações difíceis, foram factores determinantes para o sucesso de muitas de suas actividades.
Sérgio Vieira de Mello nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de Março de 1948.
Ainda não tinha um mês, a família mudou-se para Buenos Aires, onde o pai foi colocado como diplomata.
Ainda não tinha um mês, a família mudou-se para Buenos Aires, onde o pai foi colocado como diplomata.
Em 1969, formou-se na Universidade de Paris, e, nesse mesmo ano, entrou para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), em Genebra, Suíça.
Na década de 70, acumulando com os estudos em Paris, trabalhou em missões da ONU, no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru.
Em 1974, completou o seu doutoramento em Filosofia, e, na década seguinte, terminou o doutoramento em Ciências Humanas, mais uma vez, na Sorbonne.
No início dos anos 80, foi conselheiro político das Nações Unidas no Líbano, durante a ocupação israelita, e, nos anos 90, actuou na repatriação de refugiados do Cambodja, tendo sido, ainda, representante das Nações Unidas na Bósnia-Herzegovina.
A sua participação, como administrador do governo de transição de Timor Lorosai, até às primeiras eleições, foi, sem dúvida, importantíssima.
Em 12 de Setembro de 2002, vem a ser nomeado Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU e, em Junho do ano seguinte, tornou-se representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para o Iraque, onde perdeu, tragicamente, a vida, no ataque terrorista do dia 19 de Agosto de 2003.
7. Ai, Ai, Tanta Palavra
Ai, ai, tanta palavra
a fervilhar na tua mente -
Faça-se silêncio, de repente,
na tarde de alma -
Deixe-se a água,
deixe-se o vento
varrer de dentro
o que lá estava -
Fique-se olhando
a casa em frente
e o ar azul
que antes cegava -
Sejamos asa imóvel
de pedra,
fiquemos quietos
de corpo e alma. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
a fervilhar na tua mente -
Faça-se silêncio, de repente,
na tarde de alma -
Deixe-se a água,
deixe-se o vento
varrer de dentro
o que lá estava -
Fique-se olhando
a casa em frente
e o ar azul
que antes cegava -
Sejamos asa imóvel
de pedra,
fiquemos quietos
de corpo e alma. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
15/08/2006
O
Chove em X. É a noite lá fora. Dentro de uma das salas do edifício prisional estão dois homens parados. Um está de pé. O outro sentado. O de pé fuma; um pálido fumo ergue-se acima do nariz e dos olhos, rarefazendo-se antes de tocar o tecto. O homem sentado, pousa as mãos e os grilhões em cima do tampo da mesa.
-Como conseguiste mesmo assim?
-O quê?
-Comer nesta hora?
-Tinha fome.
-Tinhas fome como?
-A fome é uma das primeiras consequências da existência.
-Isso não é verdade.
-Não é?
-Não... Não acredito nesta tua fome... A maioria vomita. O medo, os nervos, a ansiedade... Até eu que não estou aí... Nem consigo engolir. Não passa nada por aqui - aponta para a garganta.
-Aquilo estava bom. Há muitos dias que não comia assim.
-Isso não é verdade.
-Então qual é a verdade?
-És escritor. Não acredito que não saibas.
-Já não escrevo.
-Mas escreveste.
-Sou só mais um par de horas.
-Os livros vão mais longe que isso.
-Depende.
-Depende de quê?
-Depende se são mais um livro. Ou se são um livro. E tu?
-Eu?
-Quando pensas em publicar?
-Nunca.
-Porquê?
-Não tenho talento. Não é bom. Ninguém se interessará.
-Como é que tens tanta certeza?
-Sei-o simplesmente.
-Isso não é razão.
-Pode não ser para ti, mas para mim é suficiente. Sei-o, além de tudo, porque também te li. E sei que nunca vou ser capaz. [continua ]
Sandro William Junqueira, inédito.
12/08/2006
11/08/2006
resistência
sorvo o dia quente
no cinzento de um vento violento
que viola a estola a secar em tempo
de viagem sem regresso
ao avesso do sonho viajado e o passado
e o presente sentem o ressentimento
do entardecer
feito aranha resistente
ao riso
dum poeta renascentista
que não resistiu à biópsia
da sua biografia bolas não aguento
tanto unguento deixem-me ser só poesia gabriela rocha martins, inédito veja também, agosto 2006.
no cinzento de um vento violento
que viola a estola a secar em tempo
de viagem sem regresso
ao avesso do sonho viajado e o passado
e o presente sentem o ressentimento
do entardecer
feito aranha resistente
ao riso
dum poeta renascentista
que não resistiu à biópsia
da sua biografia bolas não aguento
tanto unguento deixem-me ser só poesia gabriela rocha martins, inédito veja também, agosto 2006.
10/08/2006
Por vezes escutava os girassóis
Sonhava o esplendor. Eu era assim, vulnerável e sombria,
e a morte pousava inteira, no meu ombro.
No terror não havia ninguém que me abraçasse. Pelos dias fortuitos, talvez as mãos de Deus, onde o silêncio
amainava, aguardando os dias lentos,
porque o tempo era frágil, insaciável e as esferas resplandeciam,
entre plantas mortiças, rodeadas de miasmas perniciosos. Pelo espaço reduzido consultava Tratados sobre a Espiritualidade
e irremediavelmente, o vento soprava.
A lua recomeçava. Pela primavera, chegavam os adivinhos.
Era preciso enfrentar o trabalho dos ventos e os domínios do éter,
na luz coberta de dióspiros, dizendo as coisas simples,
coroadas de fragrâncias, profundamente irreais. Fruia as rosas, a música.
O éter soltava os seus cavalos macios, os seus ritmos langorosos
e a vida constituía-se, entre gaivotas em contraluz,
cabelos soltos, poemas impregnados de areia. Por vezes, ecutava os girassóis e as palavras alteradas
pelo lado dos abismos.
Tudo era incerto, na sua resolução imensa,
as aves eram intermináveis,
os aloendros vergavam-se, leves, carregados de silêncio.
As abelhas zuniam, pelos rios desvelados, a luz ardia e o verão começava, confirmando a luz do sol. Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
e a morte pousava inteira, no meu ombro.
No terror não havia ninguém que me abraçasse. Pelos dias fortuitos, talvez as mãos de Deus, onde o silêncio
amainava, aguardando os dias lentos,
porque o tempo era frágil, insaciável e as esferas resplandeciam,
entre plantas mortiças, rodeadas de miasmas perniciosos. Pelo espaço reduzido consultava Tratados sobre a Espiritualidade
e irremediavelmente, o vento soprava.
A lua recomeçava. Pela primavera, chegavam os adivinhos.
Era preciso enfrentar o trabalho dos ventos e os domínios do éter,
na luz coberta de dióspiros, dizendo as coisas simples,
coroadas de fragrâncias, profundamente irreais. Fruia as rosas, a música.
O éter soltava os seus cavalos macios, os seus ritmos langorosos
e a vida constituía-se, entre gaivotas em contraluz,
cabelos soltos, poemas impregnados de areia. Por vezes, ecutava os girassóis e as palavras alteradas
pelo lado dos abismos.
Tudo era incerto, na sua resolução imensa,
as aves eram intermináveis,
os aloendros vergavam-se, leves, carregados de silêncio.
As abelhas zuniam, pelos rios desvelados, a luz ardia e o verão começava, confirmando a luz do sol. Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
06/08/2006
Sobran Armas!
mis palabras se volverán grises.
Si me lo callo
el corazón se cerrará con llave,
ramos de sol se apagarán al viento,
y el mundo éxplotará si lo silencio.
Hay que desactivar
el llanto, la ignorancia,
la nave con plutonio,
los negociados con el hambre,
la inmutable indiferencia
frente a lo que no tiene conocida marca.
Hay que nombrar al niño,
a los millones de niños
que antes de dejar la niñez
se vuelven viejos.
Panzas con hambre,
huesos deformados
de tanto trabajar.
Hay que desactivar
la ambición que destruye la esperanza.
está faltando amor.
Está faltando pan...
y sobran armas
-Polly Bird.
____________________
"La guerra es la obra de arte de los militares, el broche dorado de su profesion. No han sido creados para brillar en la paz".
-Isabel Allende.
enviado por Maria Toscano.
http://www.emedeamar.blogspot.com
http://www.sulmoura.blogspot.com
04/08/2006
Nunca as palavras tiveram tanta música, nem a música tantas palavras...
Projecto de Composição PoéticaOde apresenta-se como um projecto inovador de composição poética, que resulta de uma nova abordagem à forma de dizer, sentir e interpretar poesia.Feito por quem gosta do que faz, seleccionam em conformidade com o critério estético deles, as palavras dos nossos maiores poetas e escritores - consagrados e novos.
Palavras que avançam e se misturam com as harmonias e acordes das guitarras do Aires F.
Ou harmonias e acordes que abrem lastro ao fogo verbal. E também ao silêncio. O deles. O nosso. O vosso.
Ode propõe vidas e um diálogo entre todos. Convida. Escarafuncha. Ri. Chora. Invade e fecha.
A fórmula síntese: simplicidade e honestidade. Objectivos:
Levar aqueles que consideram a poesia "uma coisa tremendamente chata" a disporem de uma segunda oportunidade.
Levar aqueles que se consideram incapazes de ler poesia, a comprá-la.
Levar aqueles que gostam de poesia a gostar dela ainda mais.
Oferecer magia. E sim, liberdade. Sempre a liberdade.Guitarra e sons: Aires F.
Voz e palavras: Sandro William Junqueira.
03/08/2006
01/08/2006
um alfobre de estrelas
O corpo está exausto e as mãos não reconhecem as cores do arco-íris, nem o sabor do orvalho da madrugada. Por isso deslizam suavemente pelas recordações amenas da tarde e procuram enganar os olhos com gestos e palavras sem significado. É como se estivéssemos perdidos num deserto sem oásis no horizonte. Ou como se o oásis prometedor já não oferecesse tâmaras para alimentar a boca e água fresca para sagrar a caminhada pelas areias escaldantes das dunas. As caravanas já passam muito ao longe e nem o perfume das flores do deserto atrai mercadores de sensações.Agora só chega até nós o silêncio da noite e o brilho das estrelas que recolhemos, felizes, em nossas mãos e que iremos semear, em cama quente, como alfobre da próxima Primavera. Esperaremos a melhor Lua para que a sementeira seja pródiga e milhentas constelações nasçam e incendeiem as noites futuras. E que no deslumbramento do universo saibamos adivinhar qual a nova Estrela Polar que diatará o nosso rumo. Daremos às mãos as coordenadas certas para que a aventura ultrapasse os territórios inóspitos onde soçobram os olhos e as vontades. E, definindo a latitude correcta, esperamos chegar ao arco-íris e lançar as pontes de uma nova aliança que saiba refrescar os lábios da madrugada com o orvalho da noite anterior.As recordações da tarde, aliviadas agora do cansaço do corpo por uma voz que chegou de longe, de um lugar perdido algures no perfume do deserto, serão como frutos exóticos colhidos junto aos olhos-d'água que alimentam as tamareiras ( Phoenix dactylifera ) e a frescura do oásis.Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
29/07/2006
6. O lugar onde estamos
Tem de ser tua força a acompanhar-me,
ó palavra que trago escondida
no mais íntimo da minha carne,
esta carne de alma, onde, esquecida,
corre uma criança
vestida do corpo azul do vento
e que vai, sobre colinas ásperas,
à procura do sol que tem lá dentro -
Tens de ser tu a sustê-la:
amarra-a ao chão,
acorda-a num grito,
para que não procure mais além a estrela
que traz no coração -
Debaixo dos seus pés é que nasce o infinito -
Tens de ser tu a acordá-la,
ó palavra secreta
que o Pai me segredou quando nasci.
Tens de ser tu a dizer-lhe
que o lá, o longe, é aqui -
O lugar onde se está é que é a meta. António Simões [ poemas antigos ], inédito.
ó palavra que trago escondida
no mais íntimo da minha carne,
esta carne de alma, onde, esquecida,
corre uma criança
vestida do corpo azul do vento
e que vai, sobre colinas ásperas,
à procura do sol que tem lá dentro -
Tens de ser tu a sustê-la:
amarra-a ao chão,
acorda-a num grito,
para que não procure mais além a estrela
que traz no coração -
Debaixo dos seus pés é que nasce o infinito -
Tens de ser tu a acordá-la,
ó palavra secreta
que o Pai me segredou quando nasci.
Tens de ser tu a dizer-lhe
que o lá, o longe, é aqui -
O lugar onde se está é que é a meta. António Simões [ poemas antigos ], inédito.
28/07/2006
Quid Juris?
Também ao contrário da Agustina Bessa-Luís
gosto do mar.( muito ao contrário da Agustina !!!! )
do azul do mar.
do mar azul.
e, só deixando vogar minha alma nos meus olhos,
vendo o brilho da luz reflectido nos azuis do mar,
essa minha alma serena.
vem daí a minha tranquilidade,
a minha força,
e então a vida faz sentido.
o mar é perigo,
mas não é insegurança.
é a força, maior do que nós
que nos vence.
( Agustina não admite ser vencida )
( daí a sua insegurança )
( tem medo )
o mar não é efémero.
o mar é eterno
no seu fluxo e refluxo
é sempre o mesmo
e é outro.
( Agustina será/é efémera )
( Agustina é mortal )
( Agustina não é eterna )
( Agustina não gosta do mar )
O mar é MAIOR
eu amo o mar.
a sua luz.
os seus azuis.
o azul límpido da manhã.
o azul estridente
dourado do zénite.
o azul manso do fim da tarde.
o azul noite do seu manto de repouso.
O mar é mais forte do que o homem.
mas eu não o temo.
nem odeio.
Está nele a nossa origem
e a nossa eternidade.
Fernanda Sal Monteiro, viaje até outro inédito.
24/07/2006
Corro Vertiginosamente
Corro vertiginosamente, pelos reinos do opaco , a velocidade
ao centro.
Há corais luminosos, peixes estranhos, súbitos odores
e um texto que destila cândidos venenos. Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo.
Sou tudo o que resta de um antigo papiro, pintado nas redes,
um deus pintado no túmulo de Seti I.
Persigo lentas galerias, desvairados violinos,
há raízes incandescentes que me surpreendem.
No meu corpo, há estiletes de bruma. Pelo mundo coberto de versos marinhos,
há uma rede de peixes efervescentes
e mapas que definem a febre,
as muralhas, uma mulher sentada, sobre um feixe de enigmas.
Acorda-me um som cirúrgico.
Inútil é recordar as manhãs desordenadas. De súbito, a lua nos olhos, os orifícios nocturnos,
um hausto violento a oprimir as sebes, o coração.
Sou tudo o que se desfaz, pela seda pura.
Amo os campos nocturnos que despenham no azul profundo
das turquesas.
Amo a chuva, com as suas bátegas loucas e os seus sarcófagos
lunares. Corro vertiginosamente, a velocidade ao centro.
Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo, os ventrículos
poderosos, as aurículas densas. Penso nas múmias, no abdómen, coberto de panos impregnados
de resinas quentes,
nas facas de silex, leves como plumas, na cerimónia do espírito
revivendo, pela abertura da boca, anunciando o ankh
( símbolo de vida ),
e o sonho que repousa, como um escaravelho antigo,
ao centro.
Há corais luminosos, peixes estranhos, súbitos odores
e um texto que destila cândidos venenos. Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo.
Sou tudo o que resta de um antigo papiro, pintado nas redes,
um deus pintado no túmulo de Seti I.
Persigo lentas galerias, desvairados violinos,
há raízes incandescentes que me surpreendem.
No meu corpo, há estiletes de bruma. Pelo mundo coberto de versos marinhos,
há uma rede de peixes efervescentes
e mapas que definem a febre,
as muralhas, uma mulher sentada, sobre um feixe de enigmas.
Acorda-me um som cirúrgico.
Inútil é recordar as manhãs desordenadas. De súbito, a lua nos olhos, os orifícios nocturnos,
um hausto violento a oprimir as sebes, o coração.
Sou tudo o que se desfaz, pela seda pura.
Amo os campos nocturnos que despenham no azul profundo
das turquesas.
Amo a chuva, com as suas bátegas loucas e os seus sarcófagos
lunares. Corro vertiginosamente, a velocidade ao centro.
Elejo o mundo, a língua, o tenebroso fluxo, os ventrículos
poderosos, as aurículas densas. Penso nas múmias, no abdómen, coberto de panos impregnados
de resinas quentes,
nas facas de silex, leves como plumas, na cerimónia do espírito
revivendo, pela abertura da boca, anunciando o ankh
( símbolo de vida ),
e o sonho que repousa, como um escaravelho antigo,
originariamente colocado
sobre o coração
Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
21/07/2006
5. Vou acordar
Vou acordar -
Com um grito, estilhaço meu casulo de pedra
e saio, vulcânico,
das entranhas da terra mais profunda -
Vou acordar -
trespassar esta folha, este livro,
e todos os livros do universo - Para provar a mim próprio e aos outros
que estou vivo,
basta-me escrever um poema verso a verso. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
Com um grito, estilhaço meu casulo de pedra
e saio, vulcânico,
das entranhas da terra mais profunda -
Vou acordar -
trespassar esta folha, este livro,
e todos os livros do universo - Para provar a mim próprio e aos outros
que estou vivo,
basta-me escrever um poema verso a verso. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
19/07/2006
A Caneta Azul ( conto )
A caneta azul ansiava, mais que nunca, pela chegada do fim do Verão. Tornara-se insuportável a transpiração daquela mão gorda que a apertava e forçava contra os papéis, desbotando-a para escrever ninharias. É certo que há canetas com vidas muito distintas e afortunadas. Chegando algumas, inclusive, a escever versos que perduram; poemas admiráveis. Que mesmo não sendo muito elegantes nem finos do ponto de vista estético, são eficazes. Infelizmente, não era este o caso.Naquelas latitudes, o Verão era longo e desidratante. A economia da região despontava com a chegada dos numerosos turistas vindos do exterior. Assim, adições, multiplicações e subtracções, normas contabilísticas, assinaturas de cheques e ordens de pagamento a fornecedores, ocupavam a maior parte da sua existência.Durante os seis meses que durava a estação balnear, a caneta ficava deitada no aparador ao lado da secretária quase todo o dia sem fazer nada. Para depois das onze da noite, naquela sala estreita e mal iluminada, desatar metamáticas para o papel com vista aos lucros da odorífera mão transpirada que a submetia às suas ordens.Não sabia onde nascera, nem se recordava do local onde tinha sido adquirida. Lembrava-se muito bem, isso sim, das suas primeiras palavras: Secretária: 362.Para quem almejava um dia escrever um romance, ou mesmo um pequeno conto, anotar apenas, para além de números cíclicos, dia sim, dia não, recados de supermercado como: cem gramas de fiambre, pensos higiénicos, iogurtes naturais, cotonetes, cervejas e algumas cebolas - era manifestamente pouco e redutor.
Por isso a caneta desesperava. Chegou mesmo a desejar em certas horas de intolerável angústia que a sua tinta se esgotasse antes do tempo. Ou que alguém mal-intencionado - porque sempre os há -assaltasse o escritório e, num reflexo inato, a levasse sem querer, juntamente com os lucros que se encontravam no cofre fixado na parede, sessenta centímetros acima da sua tampa.
Mas nada disto aconteceu. Findou o Verão e veio o Outono; depois o Inverno, a Primavera e novamente o Verão. O seu sortilégio continuou, bem como a mão inchada que lhe coube. Com o decorrer dos anos, lentamente, como a árvore que envelhece, a caneta deixou de acreditar e sonhar que algum dia seria capaz de escrever um texto minimamente ambicioso. Também os números e as equações, a pouco e pouco, começaram a rarear. Em períodos de longo celibato chegou mesmo a desejá-los escrever ardentemente como se de versos se tratassem: poesia numérica.
Uma manhã, uma mão estrangeira pegou-lhe. Já há muito tempo que a caneta não era usada, nem para números nem para costeletas de porco. A tinta - ou o que ainda restava dela - praticamente secara na sua totalidade. Mas esta mão nova que lhe pegava, elegante e ágil, era obstinada. E depois de premir, de arranhar com força, várias vezes, a sua boca contra a superfície lisa da folha, uma réstia de sangue azul que lhe sobrava, pingou, e ela pode então, finalmente, escrever um texto digno desse nome:
"Faleceu Tomás W.
Sua esposa, filhos, genros e demais família cumprem o doloroso dever de participar o seu falecimento, e que o funeral se realiza amanhã, sábado, pelas 11 horas, no cemitério grande desta cidade"Sandro W. Junqueiro, inédito.
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