10/10/2006
receita
Quando, manhã cedo, o sol de Outono realça as formas e aviva as cores dos frutos que pendem, vaidosos, da copa nua de um diospireiro ( Diospyros kaki ) os olhos enchem-se de sabores apetecidos. Mas é às mãos que damos a honra de provar os tons vários de todos os prazeres que, ciosos, se escondem para além da polpa ávida e sumarenta de cada dióspiro.Que universo de sensações habitam tal fruto quando colhido, com delicadeza, no próprio corpo da árvore!Quando os ramos já perderam todas as suas folhas escolhe-se um, bem maduro, quase sorvado, sopesa-se, deixando que a sua casca fina e lisa adira completamente à nossa mão e aos dedos, de modo a sentirmos o pulsar de sua polpa deliciosamente doce. Depois, quando o fruto já faz parte do nosso corpo, ele próprio se solta da árvore e inunda-nos os olhos de cores e formas variadas: uns são amarelos, outros alaranjados ou roxos; uns são achatados, outros cónicos ou pontiagudos. Preferimos os que enchem bem a mão e têm a cor laranja de um sereno pôr-de-sol de Inverno sobre o mar, daqueles que costumam anunciar as fortes geadas de Janeiro. Talvez por isso o doce destas bagas enormes tenha um sabor tão frio, parecendo negar o calor da sua sensual aparência.E a boca? A boca, aguada, fica-se pela aventura da imaginação a caminho de todos os desejos. Vive, sôfrega, entre o que vê e o que sente. E, por vezes, sente mais do que deseja. Por isso a deixamos calada, enquanto as mãos caminham, impacientes, pelos frutos dentro, rumo ao horizonte dos olhos.Aí descansamos o cansaço da manhã no regaço da colheita.Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
08/10/2006
Cadernos do Algoz
P
Um fino fio de fumo amarelo sobe-lhe pelos nós dos dedos até às unhas exemplarmente cortadas. Ele larga a beata. A sua mão trémula avança para a maçaneta. Os dedos encarquilham-se-lhe como uma garra. Roda o pulso. Empurra a porta. Entra na sala verde. A mesa está posta.
Na sala verde o condenado está agrilhoado de pés e mãos. Tem as mãos pousadas sobre o tampo. Olha em frente e respira tranquilo. Dois guardas ladeiam-no. Um deles coça ostensivamente os genitais.
O algoz dirige-se-lhe retirando de um dos bolsos um molho de chaves. Liberta-o das algemas e diz: Podes começar.
Ele aferrolha as pálpebras, cura o pescoço, une as palmas das mãos entrelaçando os dedos. Principia a meia voz um poema.A colher imersa no clado fumegante inicia a subida. O condenado sopra, uma e outra vez, com redobrada atenção antes de a entornar sobre a língua e os dentes. Mal engole a mistura, o prazer enche-lhe de rugas o pano do rosto.
A refeição é composta por - duas fatias simétricas de pão escuro; um pires de azeitonas pretas ( temperadas com alho e orégãos ); um requeijão de ovelha cortado em fatias grossas ( polvilhado com pimenta preta ); uma taça de vinho tinto; e por fim, o caldo verde onde, no cimo das couves, flutua uma rodela de chouriço de soja.
A colher sobe. A colher desce. Bate no prato. Produzindo um som.
Plim.
Enche-se do caldo. Plim. Som esse que irrompe pelo pesado silêncio, juntando-se ao das correntes que gargalham a cada movimento quase imperceptível dos seus pés. As paredes são verdes. A luz difusa. O tecto branco. O chão de mármore. E a colher sobe. E a colher desce e bate. Plim. Enche-se do caldo. Ele repete o gesto uma dúzia de vezes. Tranquila e parcimoniosamente. A um dado momento pára. Inspira. Sorri. Segura numa fatia de pão escuro e cobre-a com duas de requeijão. Os dois guardas que o ladeiam agitam-se e fixam atentamente os seus olhos sobre o pão. Um deles continua freneticamente a coçar os genitais. O condenado não repara. Dá uma, duas dentadas e pousa a fatia novamente na mesa. Com uma delicadeza extrema retira do pires uma azeitona. Depois outra. Olha para o par no centro da sua mão como uma criança olha os seus berlindes preferidos antes de os lançar à cova: cheio de esperança e ternura. Usa a ponta dos dedos. Brinca maquiavelicamente. Aperta suavemente o corpo de cada uma delas entre o indicador e o polegar. Sente-lhes a espessura enquanto as faz girar, obedecendo ao sentido dos ponteiros do relógio. Depois de mastigadas as duas, depõe os seus caroços escuros, como dois cadáveres cilíndricos, paralelos, em cima do guardanapo.
O algoz frenético assiste a tudo. A sua tez confunde-se com as paredes e com o medo. As suas narinas estão dilatadas como as de um touro a resfolegar, bem como as suas pupilas. Uma onda de calor que lhe nasce do ventre invade-lhe todo o corpo. Leva as mãos à cabeça rapada. Arranha, o mais que pode, o couro cabeludo, usando as suas unhas exemplarmente cortadas. Sente um ligeiro formigueiro chegar à ponta dos dedos dos pés. Coça freneticamente os braços e as pernas até deixar vincos na pele. A sua respiração entrecorta-se. Enquanto a colher desce da boca do condenado e bate novamente no prato. Plim. O condenado mastiga. Mastiga. Mastiga. A mistura ultrapassa-lhe as amígdalas, a traqueia, o esófago. O condenado abre os olhos. A colher desce pela útima vez e bate no prato, produzindo o último som. O algoz atenta. O condenado sorri.Sandro William Junqueira, inédito, in "Cadernos do Algoz".
06/10/2006
23 de Julho 1920 - 06 de Outubro 1999
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de DeusQue estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vidaCoração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independenteEu não te acompanho mais
Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais
Amália Rodrigues, in "Versos", Cotovia onde encontrei
01/10/2006
30/09/2006
Nas Comemorações do Dia Mundial da Arquitectura
" Metropolis", de Fritz Lang, 1927. No dia 3 de Outubro comemora-se o Dia Mundial da Arquitectura e a Ordem dos Arquitectos preparou um vastíssimo leque de actividades que decorrerão ao longo do País e nas ilhas, durante todo esse mês.
Assim, no dia 2, segunda-feira, na Biblioteca Municipal de Faro, será projectado o filme que Fritz Lang realizou em 1927, "Metropolis". Acompanha a projecção, a leitura de excertos de Mário Cesariny, Gonçalo M. Tavares, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Allen Ginsberg e Albert Sánchez Piñol, por Sandro William Junqueira.
Luís Conceição, ao piano, interpretará composições de Béla Bartók, Frédéric Chopin e Ludwig von Beethoven.
29/09/2006
A Dignidade das Mulheres ( Excerto )
Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, através do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com a mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
As forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama. Friedrich Schiller.
Trad. de Maria do Sameiro Barroso.
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, através do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com a mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
As forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama. Friedrich Schiller.
Trad. de Maria do Sameiro Barroso.
26/09/2006
11. Tem de ser
Tem de ser um raio de extrema claridade,
onde a densíssima luz da manhã se concentre,
um fio de gelo longo, translúcido, leve como o vento,
espetado neste pão de ternura prometida
ainda quente do forno da infância,
que é o teu sempre menino,
envelhecido coração,
unindo o infinito às secretas câmaras da terra
onde a memória se acomoda;
tem de ser um raio dessa luz que se embebeda
do olhar intenso das crianças
eaquece as frias manhãs da nossa perplexa solidão;
tem de ser um raio que coincida com o eixo do universo
e vá de uma à outra ponta
e me cegue de tal modo
que eu posso finalmente
ver a luz do outro lado - António Simões, in ( poemas antigos ), inédito.
onde a densíssima luz da manhã se concentre,
um fio de gelo longo, translúcido, leve como o vento,
espetado neste pão de ternura prometida
ainda quente do forno da infância,
que é o teu sempre menino,
envelhecido coração,
unindo o infinito às secretas câmaras da terra
onde a memória se acomoda;
tem de ser um raio dessa luz que se embebeda
do olhar intenso das crianças
eaquece as frias manhãs da nossa perplexa solidão;
tem de ser um raio que coincida com o eixo do universo
e vá de uma à outra ponta
e me cegue de tal modo
que eu posso finalmente
ver a luz do outro lado - António Simões, in ( poemas antigos ), inédito.
23/09/2006
Um som profundo do Outono
importa que também as minhas folhas caiam
o tumulto das tuas poderosas harmonias
virá arrancar-nos
um som profundo do Outono
suave, apesar da sua tristeza
Percy Bysshe Shelley ( 1792-1822 )__________________________
enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com
22/09/2006
o elogio dos sentidos
A caminho do Outono, apressadas, correm as árvores pela paisagem fora. Já são de ouro as cores das folhas que se espalham pelas mãos, à beira de todos os caminhos do corpo, quando o vento anuncia chuva e refresca os olhos cansados de tanta viagem pelo deserto das emoções. Vamos, em breve, iniciar um outro ciclo de encontros desencontrados, como se o Outono tivesse que ser a estação de partida e de chegada de todas as viagens empreendidas ao sabor da memória e dos dias que a justificam. Vamos, por certo, atravessar os extensos campos de arroz ( Orysa sativa ) quando os homens e as máquinas já se preparam para a ceifa das espigas maduras e alguns bandos de garças boieiras ( Bubulcus ibis ) ensaiam voos de migração rumo ao sul, rumo à Primavera de todas as aves. Vamos, ainda, deixar os olhos recordar o verde do vale quando a luz rasante da manhã enobrecia os tons vários dos arrozais, ou quando as cores do poente pareciam antecipar-lhes a maturação. E o Mondego, de permeio, sempre a dividir a jornada entre a ida e a volta, como se ter que atravessar uma ponte fosse a mais correcta desculpa para tudo o que os olhos desejam: habitar, por exemplo, as ruas e os largos daquela aldeia do poeta Afonso Duarte, que a memória ainda vê rodeada de água por todos os lados, qual ilha perdida na bruma dos campos alagados pelas águas férteis de um Inverno que o rio deixou sair das suas margens. De longe, através das janelas de uma velha carruagem de terceira classe, vemos, ainda, nítidas, as casas reflectidas no vasto espelho da manhã, só quebrado aqui e ali pelos ramos angustiados das árvores que tentam sobreviver a tal tormento, enquanto o comboio se afasta, ronceiro, contornando os campos semeados de água e desespero. Vamos, pois, ter esperança nas viagens que havemos de fazer pelas cores adentro que as árvores, propositadamente, foram abandonando em nossas mãos. E não deixaremos que tal esperança desapareça nas águas quando elas baixarem e quase só alimentarem as valas de enxugo que vão riscar a paisagem como esteiras de luz, anunciando, assim, o fim de todos os invernos. Começam, então, os primeiros amanhos dos campos, com os animais e as máquinas a lavrarem a terra e a água onde crescerão as espigas que iluminam o nosso contentamento de hoje. Vamos, sobretudo, fazer o elogio dos sentidos que permitem ao corpo o sustento das mãos, espalhando, como adubo natural, as boas recordações de ontem sobre todos os campos agora já arados, para que as espigas cresçam mais depressa e o grão seja mais suculento. Assim, a boca agradecerá a festa e o esforço. Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
21/09/2006
19/09/2006
as rotas do cársico
Os olhos viajam sozinhos pelos caminhos da serra, enquanto a tarde vai diluindo a paisagem no horizonte longínquo, para lá do rio que nos atravessa o corpo e das pontes que atravessam o rio. Pelas rotas do cársico remamos, então, sem destino, ao sabor do tempo que escorre lento pelas aldeias sombreadas do vale. Umas vezes passamos sob as pontes que ligam o passado e o futuro. Outras, passamos sobre aquelas que nos levam ao encontro do presente. Mas em todas navegamos, como se a água fosse a via certa para esta memória do presente. Cruzando pontes, navegamos recordações. Cruzando recordações, lançamos pontes através dos espaços vazios entre os dedos, quando estes só servem para contar as horas que sobram para a viagem de regresso. Regressamos ao presente. No mercado de todos os afazeres compramos o tempo que, antes, não tivemos. E passamos sobre pontes que, antes, só passáramos por debaixo, enquanto remávamos, ausentes, em direcção aos algares da memória. E cruzamos a serra em todas as direcções, já que uma subterrânea engenharia nos quis facilitar a inversão do curso dos rios que, agora, como dois mensageiros da noite, correm paralelos rumo aos oceanos perdidos entre o futuro e os continentes das nossas próprias emoções. Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
17/09/2006
10. É só virar a mão
Não me chores quando eu partir:
vou para o outro lado,
para o avesso da vida -
É só virar a mão:
e tens-me de corpo e alma
na concha da tua palma. António Simões, ( poemas antigos ),inédito
vou para o outro lado,
para o avesso da vida -
É só virar a mão:
e tens-me de corpo e alma
na concha da tua palma. António Simões, ( poemas antigos ),inédito
11/09/2006
Ana Miguel ( 5 anos! sentada ao colo da Avó, Fernanda Sal Monteiro, numa varanda sobre o mar em Olhos d'Água, Albufeira, Algarve )
hoje ,dia 11 de Setembro de 2006 ,todas as estações de televisão ,todas as estações de rádio ,todos os jornais ,nacionais e estrangeiros ,abriram os seus noticiários ou iniciaram os seus editoriais com notícias ou escreveram notas de primeira página sobre o atentado ,mediático ,perpetrado ,há cinco anos ,contra as Torres Gémeas ,em Nova Iorque .foi, segundo alguns analistas ,o facto que mudou a História do Mundo Contemporâneo ,e ,que obrigou/justificou alguns dos maiores erros cometidos pela administração norte americana contra Estados ,ditos teocráticos ,regimes ditatoriais, inventadas ameaças ,ou ,ainda por explicar ,perigos nucleares .sei ,e como eu a grande maioria das mulheres que não quero ser obrigada a usar uma "burka" ,como sei que quero - 1º - viver e pensar ,sem maniqueísmos de qualquer ordem - 2º - acreditar ser possível construir ,em liberdade ,o meu futuro e o dos meus congéneres - 3º - defender ,de boa fé ,os princípios e valores que acredito e nos quais fui educada
.não sei
fazer futurologia
.não sei
o que inventarão os existentes ,ou novos ,totalitarismos ou outros ismos ,fazedores de guerra
.massei
que quero contribuir para viabilizar
...*...*...*...
.-. Avó, hoje fui a primeira a ver a estrelinha da madrugada!
.-. já reparaste que ela anda sempre perto da lua?
.-. as outras estrelas não brilham tanto...
.-.ela não é bem uma estrela como as outras. É um planeta. É Vénus. ... .-. Avó, onde dormem as estrelas?
.-. não dormem... Estão sempre no céu.
.-. então, estão coladinhas no céu? ... .-. Avó, onde dorme o vento?
.-. não sei Ana. Onde será?
.-. se calhar dorme por cima das nuvens...
.-. talvez. É um sítio bonito para dormir. ... .-. E a chuva, Ana? Onde imaginas tu que ela dorme? ... .-. Oh, Avó! Talvez dentro das nuvens... Fernanda Sal Monteiro, 13 de Agosto de 2006 veja
08/09/2006
Há 385 anos...
poeta francês,
nasceu em Château-Tierry, Aisne.
Espírito irreverente, livre e independente, morreu em Paris em 1695.
A Gralha entre os Pavões
Pavão que andava na muda,
sua plumagem largou,
e uma gralha presunçosa
com ela o corpo adornou.
Entre um rancho de pavões
atrevida se meteu,
até que um dos camaradas
a impostora conheceu.
Passou palra aos companheiros,
que em cima dela saltaram,
e não só o adorno alheio,
mas o prório lhe tiraram.
Voltou para as companheiras,
que do sucesso informadas,
a baniram do seu rancho
ao som de mil apupadas.
O que sucedeu à gralha
aos homens pode convir;
aquele que alheio veste,
o vem na praça a despir.
Este caso, além do exposto,
serve também de lição
a todos os que procuram
parecer mais do que são.
Trad. de Curvo Semedo
Enviado por Amélia Pais
07/09/2006
estático êxtase
Saborear o perfume dos frutos de uma líchia ( Litchi chinensis ) é como deixar as mãos navegar à sombra das pétalas de todas as rosas que já enfeitaram a esperança dos dias, quando as estações do ano se contavam pela germinação das sementes e pelos frutos que, ansiosamente, guardávamos nos olhos. Mas descascar minuciosamente a casca coriácea de uma líchia, sem ferir a sua polpa sumarenta, é como abandonar a boca ao prazer de todos os frutos exóticos que se escondem, ávidos, atrás das finas roupagens da memória.A noite é pródiga em tal caminhar pelos saborosos segredos da botânica, mesmo quando a azáfama dos dias nos afasta do mercado de todas as secretas e sensatas sensações. Assim penamos, extáticos, entre as gratas recordações das mãos e o sabor daquela memória que guardamos tão ciosamente como se fosse a secreta receita de um sofisticado licor. Por isso a boca antecipa o que os olhos, gulosos, já não conseguem disfarçar ao ver chegar de longe, pé ante pé, os sábios requintes da madrugada. Neles descansamos o corpo exausto. Neles adivinhamos a repetição dos dias. E neles semeamos, a esmo, erva-cabecinha, ou perpétua-das-areias ( Helichrysum angustifolium ), para que as suas flores animem, com um aroma de culinária exótica, o que ainda resta do sabor das tardes quentes, ou para, com elas bem secas, enchermos as almofadas que nos amparam o sono dorido e os sonhos vigilantes.É estático este êxtase que adormece o silêncio e a noite, como se a Glória de uma missa-cantilena acabasse, agora mesmo, de percorrer a nave de uma catedral gótica e deixasse as mãos perdidas ante a imponência das colunas e a hesitação dos olhos que, temerosos, vagueiam pelo transepto em busca do infinito de nós.Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
29/08/2006
9. Assalto e desvio de uma palavra
Vou partir na asa de uma palavra,
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema. Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei. António Simões, ( poemas antigos ), inédito.
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema. Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei. António Simões, ( poemas antigos ), inédito.
26/08/2006
8. Um traço
Um traço apenas na folha de papel
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue. António Simões, (poemas antigos ), inédito.
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
Quem sabe se alguém um dia não passa por aqui
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue. António Simões, (poemas antigos ), inédito.
23/08/2006
semear de lanço
Valeu a pena tanto labor e tanta espera, sem desesperar. Foi mesmo ao anoitecer, quando as árvores e as recordações se confundem, que descemos ao jardim, mas só vimos vultos. Aspirámos, porém, o aroma quente das flores da Magnolia soulangiana nigra e colhemos ainda dois botões que em nossas mãos abriram o segredo das suas pétalas negras e uma fragrância nova envolveu a noite e o cansaço da espera. Para alívio de tanto mal esfregámos, uma a uma, todas as pétalas no rosto e nos olhos doridos, como se tão caseira mezinha fosse a cura há muito ansiada. Tão bela recordação, pelo menos, irá aliviar o sono e, hoje, já poderemos fechar as mãos e dormir descansados sobre o segredo do perfume que envolveu todos os gestos. Do perfume da esperança que um dia semeámos num canteiro do jardim, debaixo da magnólia, esperamos, pelo menos, a coragem para atravessar a aridez das paisagens que ainda povoam as rotas da noite e a madrugada de alguns dias. Depois de amanhã repetiremos os gestos largos e seguros de quem semeia de lanço sobre a terra lavrada de fresco e das sementes, assim lançadas a esmo, hão-de germinar novas intenções e frutos saborosos que colheremos na estação própria. Talvez lá para o fim do Estio. Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
20/08/2006
Sérgio Vieira de Mello - uma memória em defesa dos direitos e valores humanos
Ontem, dia 19 de Agosto, passaram três anos sobre o trágico atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello, e, a sua acção em nome dos direitos e valores humanos que nos são, particularmente, queridos, leva-nos a perpetuar a sua memória.
À frente de importantes missões humanitárias da ONU no Líbano, no Ruanda, em Timor Leste, no Kosovo e no Iraque, Sérgio Vieira de Mello foi uma das mais respeitadas figuras da diplomacia internacional.
O seu carácter humanista, associado ao seu talento para a negociação e a defesa da democracia, mesmo em situações difíceis, foram factores determinantes para o sucesso de muitas de suas actividades.
Sérgio Vieira de Mello nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de Março de 1948.
Ainda não tinha um mês, a família mudou-se para Buenos Aires, onde o pai foi colocado como diplomata.
Ainda não tinha um mês, a família mudou-se para Buenos Aires, onde o pai foi colocado como diplomata.
Em 1969, formou-se na Universidade de Paris, e, nesse mesmo ano, entrou para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), em Genebra, Suíça.
Na década de 70, acumulando com os estudos em Paris, trabalhou em missões da ONU, no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru.
Em 1974, completou o seu doutoramento em Filosofia, e, na década seguinte, terminou o doutoramento em Ciências Humanas, mais uma vez, na Sorbonne.
No início dos anos 80, foi conselheiro político das Nações Unidas no Líbano, durante a ocupação israelita, e, nos anos 90, actuou na repatriação de refugiados do Cambodja, tendo sido, ainda, representante das Nações Unidas na Bósnia-Herzegovina.
A sua participação, como administrador do governo de transição de Timor Lorosai, até às primeiras eleições, foi, sem dúvida, importantíssima.
Em 12 de Setembro de 2002, vem a ser nomeado Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU e, em Junho do ano seguinte, tornou-se representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para o Iraque, onde perdeu, tragicamente, a vida, no ataque terrorista do dia 19 de Agosto de 2003.
7. Ai, Ai, Tanta Palavra
Ai, ai, tanta palavra
a fervilhar na tua mente -
Faça-se silêncio, de repente,
na tarde de alma -
Deixe-se a água,
deixe-se o vento
varrer de dentro
o que lá estava -
Fique-se olhando
a casa em frente
e o ar azul
que antes cegava -
Sejamos asa imóvel
de pedra,
fiquemos quietos
de corpo e alma. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
a fervilhar na tua mente -
Faça-se silêncio, de repente,
na tarde de alma -
Deixe-se a água,
deixe-se o vento
varrer de dentro
o que lá estava -
Fique-se olhando
a casa em frente
e o ar azul
que antes cegava -
Sejamos asa imóvel
de pedra,
fiquemos quietos
de corpo e alma. António Simões, [ poemas antigos ], inédito.
15/08/2006
O
Chove em X. É a noite lá fora. Dentro de uma das salas do edifício prisional estão dois homens parados. Um está de pé. O outro sentado. O de pé fuma; um pálido fumo ergue-se acima do nariz e dos olhos, rarefazendo-se antes de tocar o tecto. O homem sentado, pousa as mãos e os grilhões em cima do tampo da mesa.
-Como conseguiste mesmo assim?
-O quê?
-Comer nesta hora?
-Tinha fome.
-Tinhas fome como?
-A fome é uma das primeiras consequências da existência.
-Isso não é verdade.
-Não é?
-Não... Não acredito nesta tua fome... A maioria vomita. O medo, os nervos, a ansiedade... Até eu que não estou aí... Nem consigo engolir. Não passa nada por aqui - aponta para a garganta.
-Aquilo estava bom. Há muitos dias que não comia assim.
-Isso não é verdade.
-Então qual é a verdade?
-És escritor. Não acredito que não saibas.
-Já não escrevo.
-Mas escreveste.
-Sou só mais um par de horas.
-Os livros vão mais longe que isso.
-Depende.
-Depende de quê?
-Depende se são mais um livro. Ou se são um livro. E tu?
-Eu?
-Quando pensas em publicar?
-Nunca.
-Porquê?
-Não tenho talento. Não é bom. Ninguém se interessará.
-Como é que tens tanta certeza?
-Sei-o simplesmente.
-Isso não é razão.
-Pode não ser para ti, mas para mim é suficiente. Sei-o, além de tudo, porque também te li. E sei que nunca vou ser capaz. [continua ]
Sandro William Junqueira, inédito.
12/08/2006
11/08/2006
resistência
sorvo o dia quente
no cinzento de um vento violento
que viola a estola a secar em tempo
de viagem sem regresso
ao avesso do sonho viajado e o passado
e o presente sentem o ressentimento
do entardecer
feito aranha resistente
ao riso
dum poeta renascentista
que não resistiu à biópsia
da sua biografia bolas não aguento
tanto unguento deixem-me ser só poesia gabriela rocha martins, inédito veja também, agosto 2006.
no cinzento de um vento violento
que viola a estola a secar em tempo
de viagem sem regresso
ao avesso do sonho viajado e o passado
e o presente sentem o ressentimento
do entardecer
feito aranha resistente
ao riso
dum poeta renascentista
que não resistiu à biópsia
da sua biografia bolas não aguento
tanto unguento deixem-me ser só poesia gabriela rocha martins, inédito veja também, agosto 2006.
10/08/2006
Por vezes escutava os girassóis
Sonhava o esplendor. Eu era assim, vulnerável e sombria,
e a morte pousava inteira, no meu ombro.
No terror não havia ninguém que me abraçasse. Pelos dias fortuitos, talvez as mãos de Deus, onde o silêncio
amainava, aguardando os dias lentos,
porque o tempo era frágil, insaciável e as esferas resplandeciam,
entre plantas mortiças, rodeadas de miasmas perniciosos. Pelo espaço reduzido consultava Tratados sobre a Espiritualidade
e irremediavelmente, o vento soprava.
A lua recomeçava. Pela primavera, chegavam os adivinhos.
Era preciso enfrentar o trabalho dos ventos e os domínios do éter,
na luz coberta de dióspiros, dizendo as coisas simples,
coroadas de fragrâncias, profundamente irreais. Fruia as rosas, a música.
O éter soltava os seus cavalos macios, os seus ritmos langorosos
e a vida constituía-se, entre gaivotas em contraluz,
cabelos soltos, poemas impregnados de areia. Por vezes, ecutava os girassóis e as palavras alteradas
pelo lado dos abismos.
Tudo era incerto, na sua resolução imensa,
as aves eram intermináveis,
os aloendros vergavam-se, leves, carregados de silêncio.
As abelhas zuniam, pelos rios desvelados, a luz ardia e o verão começava, confirmando a luz do sol. Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
e a morte pousava inteira, no meu ombro.
No terror não havia ninguém que me abraçasse. Pelos dias fortuitos, talvez as mãos de Deus, onde o silêncio
amainava, aguardando os dias lentos,
porque o tempo era frágil, insaciável e as esferas resplandeciam,
entre plantas mortiças, rodeadas de miasmas perniciosos. Pelo espaço reduzido consultava Tratados sobre a Espiritualidade
e irremediavelmente, o vento soprava.
A lua recomeçava. Pela primavera, chegavam os adivinhos.
Era preciso enfrentar o trabalho dos ventos e os domínios do éter,
na luz coberta de dióspiros, dizendo as coisas simples,
coroadas de fragrâncias, profundamente irreais. Fruia as rosas, a música.
O éter soltava os seus cavalos macios, os seus ritmos langorosos
e a vida constituía-se, entre gaivotas em contraluz,
cabelos soltos, poemas impregnados de areia. Por vezes, ecutava os girassóis e as palavras alteradas
pelo lado dos abismos.
Tudo era incerto, na sua resolução imensa,
as aves eram intermináveis,
os aloendros vergavam-se, leves, carregados de silêncio.
As abelhas zuniam, pelos rios desvelados, a luz ardia e o verão começava, confirmando a luz do sol. Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
06/08/2006
Sobran Armas!
mis palabras se volverán grises.
Si me lo callo
el corazón se cerrará con llave,
ramos de sol se apagarán al viento,
y el mundo éxplotará si lo silencio.
Hay que desactivar
el llanto, la ignorancia,
la nave con plutonio,
los negociados con el hambre,
la inmutable indiferencia
frente a lo que no tiene conocida marca.
Hay que nombrar al niño,
a los millones de niños
que antes de dejar la niñez
se vuelven viejos.
Panzas con hambre,
huesos deformados
de tanto trabajar.
Hay que desactivar
la ambición que destruye la esperanza.
está faltando amor.
Está faltando pan...
y sobran armas
-Polly Bird.
____________________
"La guerra es la obra de arte de los militares, el broche dorado de su profesion. No han sido creados para brillar en la paz".
-Isabel Allende.
enviado por Maria Toscano.
http://www.emedeamar.blogspot.com
http://www.sulmoura.blogspot.com
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