28/10/2006

Legenda Íntima 138. Augusto Mota

26/10/2006

o rosto dos gestos

Secreta é a voz que nos fala distante, perdida nas ruas de si própria. Secreto é o olhar que guia os nossos passos pelos atalhos da tarde. Secreto é o perfume que anima o rosto dos gestos, agora, também eles, perdidos nas ruas de si próprios.
Divagando pelas ruas, arrastamos as palavras de encontro aos muros brancos da cidade antiga e neles registamos os sentidos particulares que se escondem por detrás de cada letra de cada palavra. Assim expostos, alguém há-de ajudá-los a encontrar o caminho certo de volta às palavras onde sempre habitaram, antes de a aventura dos dias lhes ter destinado outras paragens.
Em cada gesto mora uma palavra. Em cada palavra mora um gesto. Tudo começa e acaba no gesto do olhar, no rosto dos gestos.
Secreta é a esperança que, como um rio, reflecte o corpo e o rosto. Só as mãos ficam de fora para, do cimo do monte, acenar um adeus ao sol poente que se esconde, ao longe, apressadamente, entre os pinhais da beira-mar, levando consigo, para o outro lado do mundo, um novo sentido para a palavra saudade.
Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.

23/10/2006

a borbonauta

Poema de António Simões
Fotografia de Augusto Mota

22/10/2006

No dia do aniversário de Georges Brassens

Je veux dédier ce poème
a toutes les femmes qu'on aime
pendant quelques instants secrets
a celles qu'on connaît à peine
qu'on destin différent entraîne
et qu'on ne retrouve jamais
A celle qu'on voit apparaître
une seconde à sa fenêtre
et qui, preste, s'évanouit
mais dont la svelte silhouette
est si gracieuse et fluette
qu'on en demeure épanoui
A la compagne de voyage
dont les yeux, charmant paysage
font paraître court le chemin
qu'on est seul, peut-être, à comprendre
et qu'on laisse pourtant descendre
sans avoir effleuré sa main
A celles qui sont déjà prises
et qui, vivant des heures grises
près d'un être trop différent
vous ont, inutile folie,
laissé voir la mélancolie
d'un avenir désespérant
Chères images aperçues
espérances d'un jour déçues
vous serez dans l'oubli demain
pour peu que le bonheur survienne
il est rare qu'on se souvienne
des épisodes du chemin
Mais si l'on a manqué sa vie
on songe avec un peu d'envie
a tous ces bonheurs entrevus
aux baisers qu'on n'osa pas prendre
aux coeurs qui doivent vous attendre
aux yeux qu'on na jamais revus
Alors, aux soirs de lassitude
tout en peuplant sa solitude
des fantômes du souvenir
on pleure les lèvres absentes
de toutes ces belles passantes
que l'on n'a pas su retenir
"Les Passantes", poème de Antoine Pol
Chanté par Georges Brassens
Enviado por Amélia Pais, http://www.barcosflores.blogsot.com


19/10/2006

Legenda Íntima 123. Augusto Mota

18/10/2006

A Dignidade das Mulheres

Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, atravás do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
às forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama.
Friedrich Schiller
Trad. de Maria do Sameiro Barroso

17/10/2006

homenagem a António Ramos Rosa


Fotopoema. Augusto Mota.

António Ramos Rosa...

( desenho a borrona de António Ramos Rosa )
...nasceu em Faro, no dia 10 de Outubro de 1924. É considerado o Poeta do presente absoluto, da "liberdade livre" , e, Urbano Tavares Rodrigues define-o como o empolgante poeta das coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
"A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estreme em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais."
Homenagem a António Ramos Rosa, in "Silves Capital da Palavra Ardente". II Bienal de Poesia, Abril 2005.

15/10/2006

asas de vitral

Trabalho de Augusto Mota
sobre um poema de António Simões

12/10/2006

zig-zag zag-zig


O escritor turco Orhan Pamuk recebeu o Prémio Nobel da Literatura 2006




El escritor turco Orhan Pamuk ha sido galardonado esta mañana con el Premio Nobel de Literatura 2006, según ha anunciado desde Estocolmo la Academia Sueca de la Lengua. Considerado como un vínculo intelectual entre Oriente y Occidente, este novelista fue procesado en su país por mencionar en una entrevista la matanza de armenios y kurdos llevada a cabo por los turcos en 1915. La Academia ha destacado del autor: "La búsqueda del alma melancólica de su ciudad natal ha descubierto nuevos símbolos para el choque y el entrelazamiento entre las culturas".



A Academia Sueca da Língua, sediada em Estocolmo, destacou o escritor turco Orhan Pamuk com o Prémio Nobel da Literatura 2006.
Considerado como um vínculo intelectual entre o Oriente e o Ocidente, este novelista foi processado, na Turquia, por mencionar, numa entrevista, a matança de arménios e kurdos levada a cabo pelos turcos em 1915. Ao galardoá-lo, a Academia menciona do autor “a busca da alma melancólica do seu país põe a descoberto novos significados para o encontro e o aperfeiçoamento entre as culturas”.


Magda Díaz Morales ,in “Apostillas litterarias”
Trad. nossa

10/10/2006

Legenda Íntima 124. Augusto Mota.

receita

Quando, manhã cedo, o sol de Outono realça as formas e aviva as cores dos frutos que pendem, vaidosos, da copa nua de um diospireiro ( Diospyros kaki ) os olhos enchem-se de sabores apetecidos. Mas é às mãos que damos a honra de provar os tons vários de todos os prazeres que, ciosos, se escondem para além da polpa ávida e sumarenta de cada dióspiro.
Que universo de sensações habitam tal fruto quando colhido, com delicadeza, no próprio corpo da árvore!
Quando os ramos já perderam todas as suas folhas escolhe-se um, bem maduro, quase sorvado, sopesa-se, deixando que a sua casca fina e lisa adira completamente à nossa mão e aos dedos, de modo a sentirmos o pulsar de sua polpa deliciosamente doce. Depois, quando o fruto já faz parte do nosso corpo, ele próprio se solta da árvore e inunda-nos os olhos de cores e formas variadas: uns são amarelos, outros alaranjados ou roxos; uns são achatados, outros cónicos ou pontiagudos. Preferimos os que enchem bem a mão e têm a cor laranja de um sereno pôr-de-sol de Inverno sobre o mar, daqueles que costumam anunciar as fortes geadas de Janeiro. Talvez por isso o doce destas bagas enormes tenha um sabor tão frio, parecendo negar o calor da sua sensual aparência.
E a boca? A boca, aguada, fica-se pela aventura da imaginação a caminho de todos os desejos. Vive, sôfrega, entre o que vê e o que sente. E, por vezes, sente mais do que deseja. Por isso a deixamos calada, enquanto as mãos caminham, impacientes, pelos frutos dentro, rumo ao horizonte dos olhos.
Aí descansamos o cansaço da manhã no regaço da colheita.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.

08/10/2006

Legenda Íntima 115. Augusto Mota

Cadernos do Algoz

P
Um fino fio de fumo amarelo sobe-lhe pelos nós dos dedos até às unhas exemplarmente cortadas. Ele larga a beata. A sua mão trémula avança para a maçaneta. Os dedos encarquilham-se-lhe como uma garra. Roda o pulso. Empurra a porta. Entra na sala verde. A mesa está posta.
Na sala verde o condenado está agrilhoado de pés e mãos. Tem as mãos pousadas sobre o tampo. Olha em frente e respira tranquilo. Dois guardas ladeiam-no. Um deles coça ostensivamente os genitais.
O algoz dirige-se-lhe retirando de um dos bolsos um molho de chaves. Liberta-o das algemas e diz: Podes começar.
Ele aferrolha as pálpebras, cura o pescoço, une as palmas das mãos entrelaçando os dedos. Principia a meia voz um poema.
A colher imersa no clado fumegante inicia a subida. O condenado sopra, uma e outra vez, com redobrada atenção antes de a entornar sobre a língua e os dentes. Mal engole a mistura, o prazer enche-lhe de rugas o pano do rosto.
A refeição é composta por - duas fatias simétricas de pão escuro; um pires de azeitonas pretas ( temperadas com alho e orégãos ); um requeijão de ovelha cortado em fatias grossas ( polvilhado com pimenta preta ); uma taça de vinho tinto; e por fim, o caldo verde onde, no cimo das couves, flutua uma rodela de chouriço de soja.
A colher sobe. A colher desce. Bate no prato. Produzindo um som.
Plim.
Enche-se do caldo. Plim. Som esse que irrompe pelo pesado silêncio, juntando-se ao das correntes que gargalham a cada movimento quase imperceptível dos seus pés. As paredes são verdes. A luz difusa. O tecto branco. O chão de mármore. E a colher sobe. E a colher desce e bate. Plim. Enche-se do caldo. Ele repete o gesto uma dúzia de vezes. Tranquila e parcimoniosamente. A um dado momento pára. Inspira. Sorri. Segura numa fatia de pão escuro e cobre-a com duas de requeijão. Os dois guardas que o ladeiam agitam-se e fixam atentamente os seus olhos sobre o pão. Um deles continua freneticamente a coçar os genitais. O condenado não repara. Dá uma, duas dentadas e pousa a fatia novamente na mesa. Com uma delicadeza extrema retira do pires uma azeitona. Depois outra. Olha para o par no centro da sua mão como uma criança olha os seus berlindes preferidos antes de os lançar à cova: cheio de esperança e ternura. Usa a ponta dos dedos. Brinca maquiavelicamente. Aperta suavemente o corpo de cada uma delas entre o indicador e o polegar. Sente-lhes a espessura enquanto as faz girar, obedecendo ao sentido dos ponteiros do relógio. Depois de mastigadas as duas, depõe os seus caroços escuros, como dois cadáveres cilíndricos, paralelos, em cima do guardanapo.
O algoz frenético assiste a tudo. A sua tez confunde-se com as paredes e com o medo. As suas narinas estão dilatadas como as de um touro a resfolegar, bem como as suas pupilas. Uma onda de calor que lhe nasce do ventre invade-lhe todo o corpo. Leva as mãos à cabeça rapada. Arranha, o mais que pode, o couro cabeludo, usando as suas unhas exemplarmente cortadas. Sente um ligeiro formigueiro chegar à ponta dos dedos dos pés. Coça freneticamente os braços e as pernas até deixar vincos na pele. A sua respiração entrecorta-se. Enquanto a colher desce da boca do condenado e bate novamente no prato. Plim. O condenado mastiga. Mastiga. Mastiga. A mistura ultrapassa-lhe as amígdalas, a traqueia, o esófago. O condenado abre os olhos. A colher desce pela útima vez e bate no prato, produzindo o último som. O algoz atenta. O condenado sorri.
Sandro William Junqueira, inédito, in "Cadernos do Algoz".

06/10/2006

23 de Julho 1920 - 06 de Outubro 1999

ESTRANHA FORMA DE VIDA
Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente
Eu não te acompanho mais
Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais
Amália Rodrigues, in "Versos", Cotovia onde encontrei

01/10/2006

Para Que A Memória Não Se Perca ...

30/09/2006

Nas Comemorações do Dia Mundial da Arquitectura

" Metropolis", de Fritz Lang, 1927.

No dia 3 de Outubro comemora-se o Dia Mundial da Arquitectura e a Ordem dos Arquitectos preparou um vastíssimo leque de actividades que decorrerão ao longo do País e nas ilhas, durante todo esse mês.
Assim, no dia 2, segunda-feira, na Biblioteca Municipal de Faro, será projectado o filme que Fritz Lang realizou em 1927, "Metropolis". Acompanha a projecção, a leitura de excertos de Mário Cesariny, Gonçalo M. Tavares, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Allen Ginsberg e Albert Sánchez Piñol, por Sandro William Junqueira.
Luís Conceição, ao piano, interpretará composições de Béla Bartók, Frédéric Chopin e Ludwig von Beethoven.

veja onde lemos

29/09/2006


Fotopoema 66. Augusto Mota.

A Dignidade das Mulheres ( Excerto )

Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, através do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com a mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
As forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama.
Friedrich Schiller.
Trad. de Maria do Sameiro Barroso.

26/09/2006

Legenda Íntima 122. Augusto Mota

11. Tem de ser

Tem de ser um raio de extrema claridade,
onde a densíssima luz da manhã se concentre,
um fio de gelo longo, translúcido, leve como o vento,
espetado neste pão de ternura prometida
ainda quente do forno da infância,
que é o teu sempre menino,
envelhecido coração,
unindo o infinito às secretas câmaras da terra
onde a memória se acomoda;
tem de ser um raio dessa luz que se embebeda
do olhar intenso das crianças
eaquece as frias manhãs da nossa perplexa solidão;
tem de ser um raio que coincida com o eixo do universo
e vá de uma à outra ponta
e me cegue de tal modo
que eu posso finalmente
ver a luz do outro lado -
António Simões, in ( poemas antigos ), inédito.

23/09/2006

Um som profundo do Outono

Como a floresta, faz de mim a tua lira
importa que também as minhas folhas caiam
o tumulto das tuas poderosas harmonias
virá arrancar-nos

um som profundo do Outono
suave, apesar da sua tristeza
Percy Bysshe Shelley ( 1792-1822 )
__________________________
enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com

22/09/2006

o elogio dos sentidos

A caminho do Outono, apressadas, correm as árvores pela paisagem fora. Já são de ouro as cores das folhas que se espalham pelas mãos, à beira de todos os caminhos do corpo, quando o vento anuncia chuva e refresca os olhos cansados de tanta viagem pelo deserto das emoções.
Vamos, em breve, iniciar um outro ciclo de encontros desencontrados, como se o Outono tivesse que ser a estação de partida e de chegada de todas as viagens empreendidas ao sabor da memória e dos dias que a justificam.
Vamos, por certo, atravessar os extensos campos de arroz ( Orysa sativa ) quando os homens e as máquinas já se preparam para a ceifa das espigas maduras e alguns bandos de garças boieiras ( Bubulcus ibis ) ensaiam voos de migração rumo ao sul, rumo à Primavera de todas as aves.
Vamos, ainda, deixar os olhos recordar o verde do vale quando a luz rasante da manhã enobrecia os tons vários dos arrozais, ou quando as cores do poente pareciam antecipar-lhes a maturação. E o Mondego, de permeio, sempre a dividir a jornada entre a ida e a volta, como se ter que atravessar uma ponte fosse a mais correcta desculpa para tudo o que os olhos desejam: habitar, por exemplo, as ruas e os largos daquela aldeia do poeta Afonso Duarte, que a memória ainda vê rodeada de água por todos os lados, qual ilha perdida na bruma dos campos alagados pelas águas férteis de um Inverno que o rio deixou sair das suas margens. De longe, através das janelas de uma velha carruagem de terceira classe, vemos, ainda, nítidas, as casas reflectidas no vasto espelho da manhã, só quebrado aqui e ali pelos ramos angustiados das árvores que tentam sobreviver a tal tormento, enquanto o comboio se afasta, ronceiro, contornando os campos semeados de água e desespero.
Vamos, pois, ter esperança nas viagens que havemos de fazer pelas cores adentro que as árvores, propositadamente, foram abandonando em nossas mãos. E não deixaremos que tal esperança desapareça nas águas quando elas baixarem e quase só alimentarem as valas de enxugo que vão riscar a paisagem como esteiras de luz, anunciando, assim, o fim de todos os invernos. Começam, então, os primeiros amanhos dos campos, com os animais e as máquinas a lavrarem a terra e a água onde crescerão as espigas que iluminam o nosso contentamento de hoje.
Vamos, sobretudo, fazer o elogio dos sentidos que permitem ao corpo o sustento das mãos, espalhando, como adubo natural, as boas recordações de ontem sobre todos os campos agora já arados, para que as espigas cresçam mais depressa e o grão seja mais suculento.
Assim, a boca agradecerá a festa e o esforço.
Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.

21/09/2006

Chegou o Outono

Legenda Íntima 128. Augusto Mota
"O Outono é a Primavera do Inverno "

19/09/2006

Legenda Íntima 125. Augusto Mota.

as rotas do cársico

Os olhos viajam sozinhos pelos caminhos da serra, enquanto a tarde vai diluindo a paisagem no horizonte longínquo, para lá do rio que nos atravessa o corpo e das pontes que atravessam o rio. Pelas rotas do cársico remamos, então, sem destino, ao sabor do tempo que escorre lento pelas aldeias sombreadas do vale. Umas vezes passamos sob as pontes que ligam o passado e o futuro. Outras, passamos sobre aquelas que nos levam ao encontro do presente. Mas em todas navegamos, como se a água fosse a via certa para esta memória do presente.
Cruzando pontes, navegamos recordações. Cruzando recordações, lançamos pontes através dos espaços vazios entre os dedos, quando estes só servem para contar as horas que sobram para a viagem de regresso.
Regressamos ao presente. No mercado de todos os afazeres compramos o tempo que, antes, não tivemos. E passamos sobre pontes que, antes, só passáramos por debaixo, enquanto remávamos, ausentes, em direcção aos algares da memória. E cruzamos a serra em todas as direcções, já que uma subterrânea engenharia nos quis facilitar a inversão do curso dos rios que, agora, como dois mensageiros da noite, correm paralelos rumo aos oceanos perdidos entre o futuro e os continentes das nossas próprias emoções.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.

17/09/2006


Fotopoema 70. Augusto Mota.

10. É só virar a mão

Não me chores quando eu partir:
vou para o outro lado,
para o avesso da vida -
É só virar a mão:
e tens-me de corpo e alma
na concha da tua palma.
António Simões, ( poemas antigos ),inédito

11/09/2006

11 de setembro de 2001

Fotografia de M. Atkinson, in "G.Emini"

Ana Miguel ( 5 anos! sentada ao colo da Avó, Fernanda Sal Monteiro, numa varanda sobre o mar em Olhos d'Água, Albufeira, Algarve )

hoje ,dia 11 de Setembro de 2006 ,todas as estações de televisão ,todas as estações de rádio ,todos os jornais ,nacionais e estrangeiros ,abriram os seus noticiários ou iniciaram os seus editoriais com notícias ou escreveram notas de primeira página sobre o atentado ,mediático ,perpetrado ,há cinco anos ,contra as Torres Gémeas ,em Nova Iorque .foi, segundo alguns analistas ,o facto que mudou a História do Mundo Contemporâneo ,e ,que obrigou/justificou alguns dos maiores erros cometidos pela administração norte americana contra Estados ,ditos teocráticos ,regimes ditatoriais, inventadas ameaças ,ou ,ainda por explicar ,perigos nucleares
.sei ,e como eu a grande maioria das mulheres que não quero ser obrigada a usar uma "burka" ,como sei que quero - 1º - viver e pensar ,sem maniqueísmos de qualquer ordem - 2º - acreditar ser possível construir ,em liberdade ,o meu futuro e o dos meus congéneres - 3º - defender ,de boa fé ,os princípios e valores que acredito e nos quais fui educada
.não sei
fazer futurologia
.não sei
o que inventarão os existentes ,ou novos ,totalitarismos ou outros ismos ,fazedores de guerra
.mas
sei
que quero contribuir para viabilizar

...*...*...*...


.-. Avó, hoje fui a primeira a ver a estrelinha da madrugada!
.-. já reparaste que ela anda sempre perto da lua?
.-. as outras estrelas não brilham tanto...
.-.ela não é bem uma estrela como as outras. É um planeta. É Vénus.
...
.-. Avó, onde dormem as estrelas?
.-. não dormem... Estão sempre no céu.
.-. então, estão coladinhas no céu?
...
.-. Avó, onde dorme o vento?
.-. não sei Ana. Onde será?
.-. se calhar dorme por cima das nuvens...
.-. talvez. É um sítio bonito para dormir.
...
.-. E a chuva, Ana? Onde imaginas tu que ela dorme?
...
.-. Oh, Avó! Talvez dentro das nuvens...
Fernanda Sal Monteiro, 13 de Agosto de 2006 veja

08/09/2006

Há 385 anos...

Jean de La Fontaine,
poeta francês,
nasceu em Château-Tierry, Aisne.
Espírito irreverente, livre e independente, morreu em Paris em 1695.
A Gralha entre os Pavões
Pavão que andava na muda,
sua plumagem largou,
e uma gralha presunçosa
com ela o corpo adornou.
Entre um rancho de pavões
atrevida se meteu,
até que um dos camaradas
a impostora conheceu.
Passou palra aos companheiros,
que em cima dela saltaram,
e não só o adorno alheio,
mas o prório lhe tiraram.
Voltou para as companheiras,
que do sucesso informadas,
a baniram do seu rancho
ao som de mil apupadas.
O que sucedeu à gralha
aos homens pode convir;
aquele que alheio veste,
o vem na praça a despir.
Este caso, além do exposto,
serve também de lição
a todos os que procuram
parecer mais do que são.
Trad. de Curvo Semedo
Enviado por Amélia Pais

07/09/2006

Legenda Íntima 126. Augusto Mota.

estático êxtase

Saborear o perfume dos frutos de uma líchia ( Litchi chinensis ) é como deixar as mãos navegar à sombra das pétalas de todas as rosas que já enfeitaram a esperança dos dias, quando as estações do ano se contavam pela germinação das sementes e pelos frutos que, ansiosamente, guardávamos nos olhos. Mas descascar minuciosamente a casca coriácea de uma líchia, sem ferir a sua polpa sumarenta, é como abandonar a boca ao prazer de todos os frutos exóticos que se escondem, ávidos, atrás das finas roupagens da memória.
A noite é pródiga em tal caminhar pelos saborosos segredos da botânica, mesmo quando a azáfama dos dias nos afasta do mercado de todas as secretas e sensatas sensações. Assim penamos, extáticos, entre as gratas recordações das mãos e o sabor daquela memória que guardamos tão ciosamente como se fosse a secreta receita de um sofisticado licor. Por isso a boca antecipa o que os olhos, gulosos, já não conseguem disfarçar ao ver chegar de longe, pé ante pé, os sábios requintes da madrugada. Neles descansamos o corpo exausto. Neles adivinhamos a repetição dos dias. E neles semeamos, a esmo, erva-cabecinha, ou perpétua-das-areias ( Helichrysum angustifolium ), para que as suas flores animem, com um aroma de culinária exótica, o que ainda resta do sabor das tardes quentes, ou para, com elas bem secas, enchermos as almofadas que nos amparam o sono dorido e os sonhos vigilantes.
É estático este êxtase que adormece o silêncio e a noite, como se a Glória de uma missa-cantilena acabasse, agora mesmo, de percorrer a nave de uma catedral gótica e deixasse as mãos perdidas ante a imponência das colunas e a hesitação dos olhos que, temerosos, vagueiam pelo transepto em busca do infinito de nós.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.

29/08/2006

Fotopoema 68. Augusto Mota.

9. Assalto e desvio de uma palavra

Vou partir na asa de uma palavra,
de uma qualquer,
não escrita ainda,
que venha voando por minha alma fora,
à procura deste poema.
Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei.
António Simões, ( poemas antigos ), inédito.

26/08/2006


Fotopoema 67. Augusto Mota.

8. Um traço

Um traço apenas na folha de papel
( esse teu infinito de trazer por casa ),
Um traço entre a terra e o céu,
fino, direito, vertical -
Que seja ele apenas o sinal da tua presença,
a dizer que estiveste aqui,
estás ainda, estarás sempre -
Nada aí se escreva ou diga,
nada mais se acrescente,
ao que, a lápis, traçaste com mão leve -
Aí estará toda a tua vida:
todos os sonhos que derramaste na hora,
todo o áspero caminhar de teus pés nús
sobre as lâminas aguçadas do instante,
e, acima de tudo,
o som que te levava ao êxtase:
o largo e leve rumor de uma seara,
ao entardecer, nas planuras do teu amado Alentejo.
Quem sabe se alguém um dia não passa por aqui
e ao risco que traçaste acrescente o seu
e o teu sonho infinitamente prolongue.
António Simões, (poemas antigos ), inédito.

24/08/2006

Fotografia de Augusto Mota.
( Magnolia grandiflora )

23/08/2006

semear de lanço

Valeu a pena tanto labor e tanta espera, sem desesperar. Foi mesmo ao anoitecer, quando as árvores e as recordações se confundem, que descemos ao jardim, mas só vimos vultos. Aspirámos, porém, o aroma quente das flores da Magnolia soulangiana nigra e colhemos ainda dois botões que em nossas mãos abriram o segredo das suas pétalas negras e uma fragrância nova envolveu a noite e o cansaço da espera. Para alívio de tanto mal esfregámos, uma a uma, todas as pétalas no rosto e nos olhos doridos, como se tão caseira mezinha fosse a cura há muito ansiada. Tão bela recordação, pelo menos, irá aliviar o sono e, hoje, já poderemos fechar as mãos e dormir descansados sobre o segredo do perfume que envolveu todos os gestos.
Do perfume da esperança que um dia semeámos num canteiro do jardim, debaixo da magnólia, esperamos, pelo menos, a coragem para atravessar a aridez das paisagens que ainda povoam as rotas da noite e a madrugada de alguns dias.
Depois de amanhã repetiremos os gestos largos e seguros de quem semeia de lanço sobre a terra lavrada de fresco e das sementes, assim lançadas a esmo, hão-de germinar novas intenções e frutos saborosos que colheremos na estação própria. Talvez lá para o fim do Estio.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Fotografia de Augusto Mota.
Centro da Passiflora violácea "Victória".