06/12/2006
05/12/2006
No Jardim dos Livros
da memória, sementes de orvalho, estrelas onde assoma o infinito.
Nos seus jardins de goma-arábica, como céu nas margens,
verde, cor de marfim é a sua volúpia acesa,
a sua centelha branca, a sua seiva cor de sangue.
Luxurioso é seu corpo, o seu júbilo, a sua forma, o seu perfume,
onde a sede e a veemência se prolongam.
Na exactidão do seu lume, irradiam a luz, a cor,
a sua chama sempre viva. Entre estrelas, dinamite, é lá que o coração dos seres respira
e o silêncio pulsa,
envolto na sedução da luz e dos oásis.
Com lábios de areia e musgo, é lá que bebo o mar, a luz,
a terra a apodrecer
- o corpo flutuando entre estrelas, madrepérola. É lá que afluem objectos preciosos, roseiras, grutas, pirilampos.
Nas suas árvores de raízes negras, irreais,
assomam as fábulas, poemas, em taças volumosas,
transparentes. Nas suas vogais, há cais secretos, nascentes ébrias,
fósforo incandescente.
Nelas se inscreve a língua arguta das pedras eloquentes.
No seu mar de peixes exóticos, espalham-se,
as lombadas da vida, as aguadas da morte.
E nada impede o coração, cotovia inadiada. No seu murmúrio, derrama-se a vertigem em flor. Maria do Sameiro Barroso, in "Afectos", Labirinto, Fafe, 2006.
30/11/2006
13. Amigos, cantai

Quando eu for livre,
do corpo liberto,
dirão: "onde vive
ele agora ao certo?" Vivo no anil,
do ar me alimento -
meu corpo subtil
mais leve que o vento. Vivo onde a asa
não se aventura:
a alma tão alta
deceu à fundura. E agora voa
no céu de si mesma,
e atravessa a sombra
para a luz que a cega. Essa luz cegante
vai-me por à prova:
pra seguir adiante
só com vista nova

"Quando eu me for...",
não é bem assim:
morte é o amor
que volta para mim.
vou nascer de novo -
dá-se novo parto,
tenho outro corpo, que é feito da luz
que na carne ardia,
e a carne reduz
à cinza mais fria.
Mas enquanto habito
o corpo de agora,
o prazer infinito
da dor me devora - Nela canto e ardo,
dela me alimento,
e sei que não tardo:
chegará o tempo de voltar ao Pai -
viva-se entretanto!
Amigos, cantai
dentro do meu canto.
António Simões ,inédito , in "Poemas Antigos".
Fotopoema 76- poema de António Simões. Fotografia e composição de Augusto Mota.
Fotopoema 78 - poema de Fernanda sal Monteiro. Fotografia e composição de Augusto Mota.
26/11/2006
até sempre ,Mário!

Mário Cesariny , o poeta / pintor ,do surrealismo português ,faleceu ,esta manhã ,em Lisboa

até sempre ,Mário!
Todos por Um
A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza
Santos
Mártires
e Heróis
Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.
Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de recorrer à vala comum.
Mário Cesariny , in ,"Homenagem a Mário Cesariny" ,triplov, 2005.
25/11/2006
o sortilégio dos frutos
23/11/2006
Luz Sobre o Aberto*
Não há árvore, fruto ou abismo que o teu coração não conheça,
mas improvável é sempre a chama da tua respiração,
na luz sobre o aberto,
onde o caminho para o infinito é o ardor que toda a palavra sustém.
Em ti brilham as sílabas, as imagens, as entranhas das páginas.
Nenhum grito te rasga porque és a própria luz sobre o abismo
inominado das origens. Nenhum grito te abre, nenhum gume te fere, porque és
a própria abertura.
Nas tuas árvores, na tua pele, brilham as dunas, o deserto,
as entranhas do mundo.
Nas tuas veias, brilham oásis sempre férteis.
Nenhum grito te raga, porque és o grito intraduzível
de uma respiração poderosa.
No teu sangue, derramam-se cascatas brancas, cascatas fulvas,
onde corre um rio exaltado de preciosas salinas.
Os teus ouvidos são membranas vibráteis,
abertas sobre as constelações da noite. Em ti, todas as chamas são lagoas de linfa ,sulcos, estrias,
meandros do indizível.
Os teus próprios muros são silêncios, fruto, jóia,
apontamento íntimo.
As tuas clareiras são rasgadas por sulcos.
De bálsamo e frescura é o teu rosto.
Quando falas das feridas, escuto as guitarras, as árvores,
os insectos, as paredes brancas, as aves mais puras. Nenhum grito te rasga, porque és a própria nudez despojada.
No turbilhão dos labirintos, voltas-te sempre para o sítio,
onde as janelas se abrem e se incendeiam,
nos fluxos de lava, onde os aprendizes se acolhem. Quando indagas o mundo e os seus enigmas, indagas o silêncio,
a bruma, nos arcos transparentes habitados pelo Ser.
És sempre a espiral de uma vertigem que se encontra,
em seu clamor de veludo, em suas águas de silêncio,
onde desejo e alvor se fundem, na madrugada do teu corpo,
onde o universo é uma metonímia de figuras azuis.
20/11/2006
desafio a seis mãos

Carlos Alberto Silva escreve
António Simões não lhe fica atrás
Gabriela Rocha Martins segue o desafio
e a Fernanda Sal Monteiro finaliza.o
( asseguro.vos que tentei introduzir os fotopoemas pela sua ordem natural ,só que o blogger publicou.os como muito bem entendeu .desculpem a arbitrariedade do post ... nem sempre os autores decidem ... )
e, ... sabem quem foi o autor do desafio e da fotografia?
claro ,só podia! Augusto Mota ,o jardineiro/filósofo.
19/11/2006
antigas cumplicidades
Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei
António Simões escreveu
Augusto Mota fotografou e compôs
16/11/2006
A taça das tuas mãos
a água fresca do dia,
quando o vento se liquefaz
sob o meu olhar atento
e o meu corpo é menos carne do que vento,
porque minha alma lá dentro não cabia,
excessiva, enorme - Vá, toca-me ao de leve com tuas mãos,
para que a tarde sobre mim se entorne. António Simões, inédito, in "Poemas Antigos".
11/11/2006
08/11/2006
Mário Viegas diz Caeiro / Pessoa

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide, de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
07/11/2006
06/11/2006
a 6 de Novembro ...
de 1919 ,nasceu no Porto
Sophia de Mello Breyner Andersen

em 2005
Augusto Mota compôs
Gabriela Rocha Martins escreveu
o teu passado -distância
o meu presente -futuro
o jardim
o sol
o muro
o mar
hoje regressas
Olympia
ao teu lugar
( homenagem a Sophia de Mello Breyner Andersen ,Julho de 2004 )01/11/2006
A Mão Semeada
moribundas.
E a vida canta, inóspita, à beira de outras nuvens.
Pelas aras de cinza, nada me resta senão o voo invisível,
pelas margens da agonia,
e a noite incessante que me traz a terra, a espessura do sangue,
os caminhos frescos. Agora sou o limite que emerge, o pulso, o grito,
o som que principia.
E chego, porque há novas harpas que se enredam nos dias.
Alguém me fala. Sobre negros precipícios, há espelhos negros
e a vida mal definida que preenche as casas.
Algures os limoeiros florescem e reanimam a face lívida,
olvidada pela música. Pelos tinteiros de luz, pinto estrelas de sombra.
As cinzas dormem e há novas raízes que se libertam,
pela mão semeada, adormecida.
É, pelo corpo, cercado de espelhos, que vivo e atravesso
o olhar, a assonância crescente, a semente do diálogo.
Alguém escutará o novo fulgor, o embate cego
contra os muros, a complexa ogiva. Como uma lâmpada, caminhará a palavra,
pedra cintilante, nome e destino, vagido enigmático,
luzeiro obscuro, esporo de veludo,
26/10/2006
o rosto dos gestos
23/10/2006
22/10/2006
No dia do aniversário de Georges Brassens
Je veux dédier ce poèmea toutes les femmes qu'on aime
pendant quelques instants secrets
a celles qu'on connaît à peine
qu'on destin différent entraîne
et qu'on ne retrouve jamais
A celle qu'on voit apparaître
une seconde à sa fenêtre
et qui, preste, s'évanouit
mais dont la svelte silhouette
est si gracieuse et fluette
qu'on en demeure épanoui
A la compagne de voyage
dont les yeux, charmant paysage
font paraître court le chemin
qu'on est seul, peut-être, à comprendre
et qu'on laisse pourtant descendre
sans avoir effleuré sa main
A celles qui sont déjà prises
et qui, vivant des heures grises
près d'un être trop différent
vous ont, inutile folie,
laissé voir la mélancolie
d'un avenir désespérant
Chères images aperçues
espérances d'un jour déçues
vous serez dans l'oubli demain
pour peu que le bonheur survienne
il est rare qu'on se souvienne
des épisodes du chemin
Mais si l'on a manqué sa vie
on songe avec un peu d'envie
a tous ces bonheurs entrevus
aux baisers qu'on n'osa pas prendre
aux coeurs qui doivent vous attendre
aux yeux qu'on na jamais revus
Alors, aux soirs de lassitude
tout en peuplant sa solitude
des fantômes du souvenir
on pleure les lèvres absentes
de toutes ces belles passantes
que l'on n'a pas su retenir
"Les Passantes", poème de Antoine Pol
Chanté par Georges Brassens
Enviado por Amélia Pais, http://www.barcosflores.blogsot.com
18/10/2006
A Dignidade das Mulheres
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, atravás do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
às forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama. Friedrich Schiller
Trad. de Maria do Sameiro Barroso
17/10/2006
António Ramos Rosa...
15/10/2006
12/10/2006
zig-zag zag-zig

El escritor turco Orhan Pamuk ha sido galardonado esta mañana con el Premio Nobel de Literatura 2006, según ha anunciado desde Estocolmo la Academia Sueca de la Lengua. Considerado como un vínculo intelectual entre Oriente y Occidente, este novelista fue procesado en su país por mencionar en una entrevista la matanza de armenios y kurdos llevada a cabo por los turcos en 1915. La Academia ha destacado del autor: "La búsqueda del alma melancólica de su ciudad natal ha descubierto nuevos símbolos para el choque y el entrelazamiento entre las culturas".
A Academia Sueca da Língua, sediada em Estocolmo, destacou o escritor turco Orhan Pamuk com o Prémio Nobel da Literatura 2006.
Considerado como um vínculo intelectual entre o Oriente e o Ocidente, este novelista foi processado, na Turquia, por mencionar, numa entrevista, a matança de arménios e kurdos levada a cabo pelos turcos em 1915. Ao galardoá-lo, a Academia menciona do autor “a busca da alma melancólica do seu país põe a descoberto novos significados para o encontro e o aperfeiçoamento entre as culturas”.
Magda Díaz Morales ,in “Apostillas litterarias”
Trad. nossa
10/10/2006
receita
08/10/2006
Cadernos do Algoz
06/10/2006
23 de Julho 1920 - 06 de Outubro 1999
01/10/2006
30/09/2006
Nas Comemorações do Dia Mundial da Arquitectura
" Metropolis", de Fritz Lang, 1927. No dia 3 de Outubro comemora-se o Dia Mundial da Arquitectura e a Ordem dos Arquitectos preparou um vastíssimo leque de actividades que decorrerão ao longo do País e nas ilhas, durante todo esse mês.
29/09/2006
A Dignidade das Mulheres ( Excerto )
rosas divinas na vida terrena,
entrançam do amor o venturoso laço
e, através do véu casto das Graças,
vigilantes, alimentam o fogo eterno
de sentimentos mais belos, com a mão sagrada.
(...)
Na mais modesta cabana materna
foram deixadas, com modos envergonhados,
as filhas fiéis da natureza piedosa.
(...)
Mas, com modos mais brandos e persuasivos,
as mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
As forças hostis que se odeiam
ensinam a maneira de ser harmoniosa,
e reúnem o que no eterno se derrama. Friedrich Schiller.
Trad. de Maria do Sameiro Barroso.
26/09/2006
11. Tem de ser
onde a densíssima luz da manhã se concentre,
um fio de gelo longo, translúcido, leve como o vento,
espetado neste pão de ternura prometida
ainda quente do forno da infância,
que é o teu sempre menino,
envelhecido coração,
unindo o infinito às secretas câmaras da terra
onde a memória se acomoda;
tem de ser um raio dessa luz que se embebeda
do olhar intenso das crianças
eaquece as frias manhãs da nossa perplexa solidão;
tem de ser um raio que coincida com o eixo do universo
e vá de uma à outra ponta
e me cegue de tal modo
que eu posso finalmente
ver a luz do outro lado - António Simões, in ( poemas antigos ), inédito.
23/09/2006
Um som profundo do Outono
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enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com























