22/02/2007
Q
20/02/2007
17/02/2007
fim
olhou o mar e sentou.se na areia branca dos desejos .há muito que esqueceu a côr das ondas que adormecem nas manhãs de sol .deixou.se embalar segundo o ritmo dos amantes e ouviu.se no requebro das flores que a praia rejeitou .nas praias não há flores .há poetas que se diluem nas madrugadas dos sonhos .utópicos .possuídos pela maré cheia da loucura .ocultos .são o silêncio do mar que os desenha .cobrem.se com a areia que lhes corre no sangue .e são em desamor .e sentidos .e revêem.se na surpresa das madrugadas sempre aquém no precipício do ser .no objecto .no desejo
definem.se como a contradição e sabem.se nos crisântemos ,flor ,que ,um dia ,descreveram em poemas .ele ,o poeta ,moribundo ,sabe.se no universo das pétalas e tingiu.a ,absoluta ,no malmequer desenhado a giz .tem.se como o poeta das flores .ela olhou a mesa .em cima ,uma jarra .vazia .a casa repercute.lhe os sons das flores que ele deixou ,esquecidas ,sobre a cadeira .colhidas pela manhã .à tarde ,há.de correr entre os crisântemos e vê.los de um modo diferente .presos à voz .dele a janela aberta .o trilho do combóio iniciado em nenhures .na praia .foi o início da loucura que há.de projectá.los mais além e souberam.se
no limite da imortalidade .o poema deixou.o inerte .rasgado no cesto dos papéis que tinha sob a mesa onde costumava escrever .as imagens sobrepunham.se e começou a deixar.se prender aos fios da vida .soube.se no limite preciso da sua existência de homem e isso deixou.a mergulhada numa profunda tristeza .a certeza do seu fim .do princípio ,não teve consciência .não se lembrou como o poema lhe apareceu na frente e se impôs .sentiu ,apenas ,a necessidade imperiosa de o passar para a folha .percebeu ,finalmente ,que a razão escorreu entre as suas mãos .soube.se louca entre a flor e a cadeira .alguém esqueceu as flores sobre a cadeira .alguém ousou perverter.lhe os sonhos .desfrutou a utopia de se saber entre os crisântemos que ele colheu de manhã .não .foi ,de véspera ,que se prendeu ao ritmo da maresia .ou foi hoje?esgotou.se no silêncio das ondas que lhe ofereceram muito mais além
e soube.se
descalça sobre a areia .teve.se em casa .na sua casa .dentro do poema que ele lhe deixou ,ao adormecer .vagueou no ritmo das palavras soltas e esqueceu o nome que lhe soou aos ouvidos .foi a voz do mar .do mesmo mar que ,anos atrás ,lhe adormeceu o amor .e os sentidos .entregou.se ao som dos pássaros que ,em bando ,abandonaram o areal e foram à demanda de novos horizontes .também ela se perdeu no horizonte do sonho. do ritmo das marés vivas .inócuo .segurou o crisântemo e absorveu.o ,inteiro ,nas palavras e nos poemas .ele ,o poeta das flores ,pegou no ramo .sentou.se na cadeira e esperou.a e ela veio .pegou.lhe na mão .partiram os dois desligaram a máquina .o poeta das flores era um homem morto e ela chorou.o gabriela rocha martins ,inédito in outro fim
fotografias de augusto mota ( Foz do Liz e Mar na Praia da Vieira ).
Crisântemo

15/02/2007
pérolas do ensino


Eis alguns exemplos de respostas imaginativas dadas por não menos imaginativos alunos nos seus testes escolares. Estão separados por disciplinas e escritos tal e qual no original. História A História divide-se em quatro - Antiga, Média, Moderna e Momentânea ( esta, a dos nossos dias );10/02/2007
Amor Virtual
suavizar-me a dor, afagar-me a testa! -
ligo o computador, busco os sinais,
Gigaherz da ternura que resta. Carrego numa tecla e tu sais
ao meu encontro com ar de festa:
e nas mãos, de súbito naturais,
o afago mais doce se manifesta. peço ao computador que derrame
dentro de mim mais memória ram,
pra reter-te pra sempre num ficheiro. 1000 gigabites, meu coração,
onde cabem os que a mim se dão,
como tu a mim te deste por inteiro. António Simões
01/02/2007
dia de anos
Com que então caiu na asneirade fazer na quinta-feira
... ! Que tolo!
ainda se os desfizesse...
mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo! Não sei quem foi que me disse
que fez a mesma tolice
aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
como lhe tomou o gosto,
que faz o mesmo? Coitado! Não faça tal; porque os anos
que nos trazem? Desenganos
que fazem a gente velho:
faça outra coisa; que em suma
não fazer coisa nenhuma,
também lhe não aconselho. Olhe que a gente começa
às vezes por brincadeira,
mas depois se se habitua,
já não tem vontade sua,
e fá-los queira ou não queira!

22/01/2007
hoje é dia de festa ...


... cantam as nossas almaspara o nosso Almirante
uma salva de palmas ... FELICIDADES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! deseja.lhe a tripulação - dos Contra Almirantes ao Grumete
20/01/2007
Mozart e os Mistérios Iniciáticos

A Ésquilo - Edições Multimédia - lançará, no Espaço D.Dinis, sito na Av. António Augusto de Aguiar, 17-4º Esq., em Lisboa, na próxima terça-feira, 23 de Janeiro, pelas 19h00, o livro "Mozart e os Mistérios Iniciáticos", da autoria de Maria do Sameiro Barroso, Manuel Anes e Paulo Alexandre Loução. Os autores estarão presentes e serão oradores na sessão. A publicação deste livro está integrada nas Comemorações do 250º Aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart. Para além dos ensaios dos autores sobre a relação de Mozart com os mistérios iniciáticos, esta obra inclui a edição integral e bilingue do libreto da ópera "A Flauta Mágica", a partir da 1ª edição fac-similada de 1791. No final da sessão será servido um Porto de Honra _____________________ Mozart e os Mistérios Iniciáticos "De facto, há três características marcantes em Mozart que (...) são impossíveis de separar: o instrumentista virtuoso, o génio musical e o demandador da luz. (...)
18/01/2007
mítica cavalgada
Hoje a cidade anoiteceu envolta em névoa, como se o rio transportasse, desde as fontes que o alimentam, uma outra e nova dimensão para as coisas e para as pessoas que actuam para lá do ténue pano de boca, onde os actores continuam a cumprir o seu papel numa extenuante récita diária. As luzes multiplicam-se, difusas, em miríades de minúsculas gotas de água e os sons desprendem-se, abafados, do trânsito que se escoa para os arredores. As lojas fecham as portas e as ruas parecem ter um só sentido: todas se dirigem para casa. A cidade, agora silenciosa, transforma-se, subitamente, nos arredores de si mesma, enquanto montes e fontes se povoam de sonhos e pela alcáçova do castelo esvoaça a sorrateira coruja-das-torres ( Tyto alba ) e o veloz rasante morcego-anão ( Pippistrellus pippistrelus ). Senhoriais, os mastins arremetem contra a noite, imaginando faunos a correr pelos bosques de ulmeiros ( Ulmus procera ) ao som de um prelúdio de Debussy. Eles, os mastins, são os guardas da noite e da névoa. Serão, também, os guardas da madrugada. Que encantamento é este que recupera as cavalgadas pelas paisagens da História? Teremos de subir à Torre de Menagem e, de lá de cima, lançarmos o sonho sobre noite intensa, fazendo-o esvoaçar três vezes à volta da cidade adormecida. Assim se quebrará o mau agoiro. E, assim, viajaremos no tempo, para norte, até aos Campos de Ulmar e poisaremos, de mansinho, no Porto da Ruivaqueira para ir, rio abaixo, até à foz do Lis. Passaremos por muitos outros portos, sempre guiados por um vistoso e irrequieto guarda-rios ( Alcedo atthis ). Passaremos pelo Porto da Bóca, pelo de Monte Real, e da Caravela, e da Passagem, e da Galeota, até o sonho e o rio encontrarem as águas da maré-cheia. Aí lançaremos âncora à espera que a corrente da vazante nos arraste, sem esforço, pelo mar dentro, rumo à realidade. Entretanto é manhã. O sol acarinha os últimos vestígios de névoa e a cidade afasta-se dos arredores. As ruas voltam a ter dois sentidos. Augusto Mota, in "Geografia do Prazer", inédito, 2000. __________________________09/01/2007
Ditirambo
que os deuses antigos
apareçam sozinhos.
Mal surge Baco, o atraente,
logo surge Amor, jovem, sorridente,
Febo majestoso faz a sua entrada.
Dizei-me, como hei-de receber
eu ,humano e terreno,
o coro celestial?
Concedei-me a vossa vida imortal
ó deuses! Que podereis dar a um mortal?
Elevai-me até ao vosso Olimpo.
Entrega-lhe a taça!
Oferece-a ao Poeta, Hebe,
serve-lhe apenas uma.
Humedece-lhe os olhos com orvalho divino,
para que do Estige odiado não se aproxime,
e que um dos nossos se imagine.
Friedrich Schiller
Tradução de Maria do Sameiro Barroso
05/01/2007
cacto.mania 4
e
o Silvestre Raposo "poemou" ...
Glória Maria Marreiros,
a primeira deste grupo,
acrescentou ...
para
Gabriela Rocha Martins
terminar ...

( com um blogger "feminista" )
... o desafio lançado pelo
jardineiro/filósofo Augusto Mota
01/01/2007
cacto.mania 3
o dia 1 de Janeiro de 2007chegou com uma lufada de ar muito fresco
e três novos poemas
de três Marias

maria do sameiro barroso
maria toscano
maria gomes
que responderam , também elas ,ao jardineiro/filósofo Augusto Mota
_________________________ para todos os nossos Amigos e Visitantesum Bom Ano de 2007!
28/12/2006
cacto.mania 2

2. m. gomes da torre
pelos novos poetas
convidados ...
fotografia de Augusto Mota
26/12/2006
o contraponto da tristeza

É triste a tristeza que ameaça as mãos e invade o corpo todo como se a cidade estivesse sitiada, ou fosse o frio seco de uma manhã de Inverno que arrefecesse a alma e fizesse tremer o mais íntimo de nós.Parecendo habitar os países do norte, o Sol já não abrilhanta as melhores horas do dia e a magia da noite ilude-se com palavras que não conseguem disfarçar o desassossego de algumas emoções. É no corpo que mais se sente o peso da angústia que passou a habitar as horas do trabalho e do sono. Assim, dormir, é antecipar os sonhos maus que gostaríamos de relegar para outras paragens, já que o dia e a noite são uma repetição da mesma tristeza e as mãos já não conseguem ser o que eram, quando certas estrelas desabrochavam em suas palmas e a boca percorria o nome das ruas no roteiro da cidade e da saudade.A saudade é a traição do tempo que habita o espaço do nosso querer. Por isso adiamos sempre as horas que não coincidem nesse espaço das mãos e dos olhos que sofrem, deste modo, o vazio de tudo e já nem conseguem viver dos prazeres que a memória guarda para nós, com secretas intenções.Melhores dias e novos desígnios serão, amanhã, o contraponto ajustado a este despovoado existir.Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
19/12/2006
cacto.mania .1
enviou.lhes esta imagem cactónica
...
e pediu.lhes um poema.eis como
o António Simões ,a Fernanda Sal Monteiro e o Carlos Alberto Silva
se "picaram"
...
12/12/2006
há 185 anos, no dia 12 de Dezembro, nasceu ...

... Gustave Flaubert
( Rouen 1821 - Croisset, próximo de Rouen, 1880 )
Escritor francês. A vida de Gustave Flaubert é a de um artista completamente dedicado a aperfeiçoar a sua arte. Filho de um cirurgião, sendo criança, em 1836, conhece Elise Foucault, objecto da grande e incompleta paixão da sua vida que lhe inspira "A Educação Sentimental". Em 1840 transfere-se para Paris para estudar Direito, mas descuida os estudos para viver no mundo das Letras. Pouco depois, por causa de uma grave doença nervosa, regressa a Rouen. Quando da morta do pai, instala-se com a mãe e a sobrinha na casa de campo de Croisset. Nela vive o resto da sua vida, exceptuando as viagens e as temporadas em Paris. em 1846 conhece a escritora Louise Colet, com quem manteve uma abundante correspondência até 1855. Em 1849-51, viaja pela Grécia, Itália e Médio Oriente. Em 1857 o seu romance "Madame Bovary" leva-o aos tribunais, acusado de ofensa à moral e à religião. Em 1875, para salvar da falência o marido da sobrinha, vende todas as suas propriedades e tem de aceitar uma modesta pensão do Estado.
Flaubert leva à perfeição o romance realista e consegue a mais completa harmonia entre a arte e a realidade. Para ele, a verdade e a beleza estão unidas; por isso põe tanto cuidado na sintaxe e na escolha do vocabulário e concede tanta importância à estrutura. Na sua obra literária, não muito extensa, Flaubert aspira à criação de um conjunto harmónico, à elaboração de toda uma trama simbólica que une os diferentes personagens. A sensibilidade de Flaubert chega a cair no sentimentalismo e, nesses momentos, entrega-se ao deísmo e a vagos sentimentos rousseaunianos envoltos em oratória; mas quando se recupera destes desvios, a obra de Flaubert, trabalhada com uma ânsia de perfeição e um esforço quase dolorosos, é uma maravilha de harmonia e realidade.
Os romances e contos de Flaubert oferecem um panorama de realismo em diversos campos. "Madame Bovary" e "Bouvard et Pécuchet" movem-se no campo do realismo burguês. "Salammbô" no do realismo histórico. Os "Três Contos" caracterizam-se pelo seu realismo imaginativo e romântico e "A Educação Sentimental" mostra um amplo realismo vital.
Algumas citações suas:Não desculpo de modo algum aos homens de acção que não vençam, uma vez que o êxito é a única medida do seu mérito
A moral da arte reside na sua própria beleza
A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo
Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere
O estilo está sob as palavras como dentro delas. É igualmente a alma e a carne de uma obra
in citador - http://www.citador.pt
Imperativo - ler ou reler "Madame Bovary".
08/12/2006
Amor Virtual
Se as mãos de alguém viessem, virtuais,
suavizar-me a dor, afagar-me a testa! -
Ligo o computador, busco os sinais,
gigaherz da ternura que resta. Carrego numa tecla e tu sais
ao meu encontro com ar de festa:
e nas mãos, de súbito naturais,
o afago mais doce se manifesta. Peço ao computador que derrame
dentro de mim mais memória ram,
pra reter-te para sempre num ficheiro. 1000 gigabites, meu coração,
onde cabem os que a mim se dão,
como tu a mim te deste por inteiro.

António Simões, inédito.
Legendas íntimas - fotografias de Pedro Carvalho;
textos e composição de Augusto Mota.
05/12/2006
No Jardim dos Livros
da memória, sementes de orvalho, estrelas onde assoma o infinito.
Nos seus jardins de goma-arábica, como céu nas margens,
verde, cor de marfim é a sua volúpia acesa,
a sua centelha branca, a sua seiva cor de sangue.
Luxurioso é seu corpo, o seu júbilo, a sua forma, o seu perfume,
onde a sede e a veemência se prolongam.
Na exactidão do seu lume, irradiam a luz, a cor,
a sua chama sempre viva. Entre estrelas, dinamite, é lá que o coração dos seres respira
e o silêncio pulsa,
envolto na sedução da luz e dos oásis.
Com lábios de areia e musgo, é lá que bebo o mar, a luz,
a terra a apodrecer
- o corpo flutuando entre estrelas, madrepérola. É lá que afluem objectos preciosos, roseiras, grutas, pirilampos.
Nas suas árvores de raízes negras, irreais,
assomam as fábulas, poemas, em taças volumosas,
transparentes. Nas suas vogais, há cais secretos, nascentes ébrias,
fósforo incandescente.
Nelas se inscreve a língua arguta das pedras eloquentes.
No seu mar de peixes exóticos, espalham-se,
as lombadas da vida, as aguadas da morte.
E nada impede o coração, cotovia inadiada. No seu murmúrio, derrama-se a vertigem em flor. Maria do Sameiro Barroso, in "Afectos", Labirinto, Fafe, 2006.
30/11/2006
13. Amigos, cantai

Quando eu for livre,
do corpo liberto,
dirão: "onde vive
ele agora ao certo?" Vivo no anil,
do ar me alimento -
meu corpo subtil
mais leve que o vento. Vivo onde a asa
não se aventura:
a alma tão alta
deceu à fundura. E agora voa
no céu de si mesma,
e atravessa a sombra
para a luz que a cega. Essa luz cegante
vai-me por à prova:
pra seguir adiante
só com vista nova

"Quando eu me for...",
não é bem assim:
morte é o amor
que volta para mim.
vou nascer de novo -
dá-se novo parto,
tenho outro corpo, que é feito da luz
que na carne ardia,
e a carne reduz
à cinza mais fria.
Mas enquanto habito
o corpo de agora,
o prazer infinito
da dor me devora - Nela canto e ardo,
dela me alimento,
e sei que não tardo:
chegará o tempo de voltar ao Pai -
viva-se entretanto!
Amigos, cantai
dentro do meu canto.
António Simões ,inédito , in "Poemas Antigos".
Fotopoema 76- poema de António Simões. Fotografia e composição de Augusto Mota.
Fotopoema 78 - poema de Fernanda sal Monteiro. Fotografia e composição de Augusto Mota.
26/11/2006
até sempre ,Mário!

Mário Cesariny , o poeta / pintor ,do surrealismo português ,faleceu ,esta manhã ,em Lisboa

até sempre ,Mário!
Todos por Um
A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza
Santos
Mártires
e Heróis
Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.
Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de recorrer à vala comum.
Mário Cesariny , in ,"Homenagem a Mário Cesariny" ,triplov, 2005.
25/11/2006
o sortilégio dos frutos
23/11/2006
Luz Sobre o Aberto*
Não há árvore, fruto ou abismo que o teu coração não conheça,
mas improvável é sempre a chama da tua respiração,
na luz sobre o aberto,
onde o caminho para o infinito é o ardor que toda a palavra sustém.
Em ti brilham as sílabas, as imagens, as entranhas das páginas.
Nenhum grito te rasga porque és a própria luz sobre o abismo
inominado das origens. Nenhum grito te abre, nenhum gume te fere, porque és
a própria abertura.
Nas tuas árvores, na tua pele, brilham as dunas, o deserto,
as entranhas do mundo.
Nas tuas veias, brilham oásis sempre férteis.
Nenhum grito te raga, porque és o grito intraduzível
de uma respiração poderosa.
No teu sangue, derramam-se cascatas brancas, cascatas fulvas,
onde corre um rio exaltado de preciosas salinas.
Os teus ouvidos são membranas vibráteis,
abertas sobre as constelações da noite. Em ti, todas as chamas são lagoas de linfa ,sulcos, estrias,
meandros do indizível.
Os teus próprios muros são silêncios, fruto, jóia,
apontamento íntimo.
As tuas clareiras são rasgadas por sulcos.
De bálsamo e frescura é o teu rosto.
Quando falas das feridas, escuto as guitarras, as árvores,
os insectos, as paredes brancas, as aves mais puras. Nenhum grito te rasga, porque és a própria nudez despojada.
No turbilhão dos labirintos, voltas-te sempre para o sítio,
onde as janelas se abrem e se incendeiam,
nos fluxos de lava, onde os aprendizes se acolhem. Quando indagas o mundo e os seus enigmas, indagas o silêncio,
a bruma, nos arcos transparentes habitados pelo Ser.
És sempre a espiral de uma vertigem que se encontra,
em seu clamor de veludo, em suas águas de silêncio,
onde desejo e alvor se fundem, na madrugada do teu corpo,
onde o universo é uma metonímia de figuras azuis.
20/11/2006
desafio a seis mãos

Carlos Alberto Silva escreve
António Simões não lhe fica atrás
Gabriela Rocha Martins segue o desafio
e a Fernanda Sal Monteiro finaliza.o
( asseguro.vos que tentei introduzir os fotopoemas pela sua ordem natural ,só que o blogger publicou.os como muito bem entendeu .desculpem a arbitrariedade do post ... nem sempre os autores decidem ... )
e, ... sabem quem foi o autor do desafio e da fotografia?
claro ,só podia! Augusto Mota ,o jardineiro/filósofo.
19/11/2006
antigas cumplicidades
Antes que sobre ele inicie sua descida,
a ela, que vem ainda cheia de energia da viagem,
vou desviá-la, para que me leve
para o outro lado da folha -
e, levando-me em seus braços,
desça, sem rumor,
sobre a nudez da nova página,
e me deixe ficar para sempre
no poema que nunca escreverei
António Simões escreveu
Augusto Mota fotografou e compôs


















