17/06/2007

R


O coveiro subiu os três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que conseguiu os seus grandes olhos amarelos infectados. E quando, finalmente, a deitou sobre o lado virgem da cama, e cobriu metade da sua morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los; tenho comichão mas não posso coçá-los; se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, o coveiro deitou-se a seu lado. Os seios da morta, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. Virando-se para ela, o coveiro afagou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o seu nariz mal treinado para odores mais íntimos a uma das suas axilas recém-barbeadas. E foi nesse preciso instante que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, deitada a seu lado; coberta de geada; mas ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluia todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo. Com uma enorme erecção dentro das calças, o coveiro constatou para si mesmo:
-É isto afinal o mundo.
( continua na letra S )

Sandro William Junqueiro, inédito, in "Diário do Algoz".
Fotografias de Augusto Mota.

15/06/2007

Perceval

Perceval
não percebe,
na incessante aventura,
que ele é o próprio Graal
que procura -
O sonho que persegue,
trá-lo dentro de si -
e quanto mais longe
o projecta,
mais perto fica a meta,
o lá é logo ali -
A busca do Graal
é o despir definitivo
do último disfarce:
buscando,
vai buscar-se.

António Simões, poemas inéditos, 1990.
Composições de Augusto Mota sobre poema de António Simões e citação de Gabriela Rocha Martins.

14/06/2007

O tempo esqueceu-se

No jardim da minha Avó, havia sol azul e perfume de laranjeira.
E éramos meninos a brincar.
No jardim da minha Avó, havia o murmúrio embalador da fonte
escorrendo água e aroma verde de Lúcia-lima.
E éramos jovens a sonhar.
Os sonhos subiram colinas, atravessaram rios nas planícies...
No jardim da minha Avó espera a agridoce malva rosa na sombra fresca da tarde.
Por onde se perdem as nossas ausências?
No jardim da minha Avó, há o absurdo do silêncio esquecido.



Fernanda Sal Monteiro in matebarco , 13.06.2007
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões e Cristina Coroa.

12/06/2007

o cio do sol


Enquanto lavro o corpo da manhã o Sol, em cio, cavalga um cão de fogo por entre nuvens afiladas e a construção de cidades adivinhadas. Bem perto, porém, há o rodopiar incessante do disco rubro que agora se estampa em nosso olhar. Vemo-lo para além das nuvens. Vemo-lo em cima e para além deste corpo que se adelgaça no esforço de transportar o astro-rei a caminho de outras galáxias bem mais perto de nós.
Rítmica é a sensação do sexo em desepero perante a ingenuidade artesanal do olhar, firmeza da mão, o gravar da matéria.
Assim se constroem as nossas cidades interiores, que ora são corpo de mulher, ora vielas estreitas por onde vagueamos a tristeza e as mãos vazias de tudo.
As colinas ao longe agridem o espaço como justo contraponto a este paroxismo de dor e de prazer.
Deixemos as coisas acontecer ao ritmo do tempo que tomou conta do nosso acaso.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Fotopoemas - Composições de Augusto Mota. Poemas de Carlos Alberto Silva.

10/06/2007

No Dia de Camões e de Portugal

Camões e a tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
calúnias desamor inveja ardente
e sempre os inimigos sobejaram
a quem ousou mais ser que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
porque estavam curvados dobrados
pela paciência cuja mão de cinza
tinha apagado os olhos do seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagens compostas por Augusto Mota, a partir de textos seus e de António Simões

nota - o poema de Sophia Andresen foi-nos enviado por Amélia Pais

06/06/2007

breviário .2

13 .jura.
"És o sol da minha vida, a luz do
meu caminho" - repetia vezes sem
conta. Um dia houve um eclipse
total do astro-rei e a paixão perdeu-
se para sempre no labirinto da
realidade.
Texto de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legenda Íntima de Augusto Mota.

03/06/2007

Vida de Cão

Mas, amanhã, cá estaremos de volta... Se o vento estiver de feição!

20/05/2007

breviário .1

01. desejo.
Viveu prisoneiro do seu próprio corpo.
No seu testamento apenas exigiu que
transportassem a urna numa viatura
de desencarceramento dos bombeiros
voluntários.

51. prazer.
Tinha para com a produção artística
uma relação quase sexual. Passado
o gozo da criação, ficava triste. E
adormecia.


47. visão.
"Os políticos cada vez têm menos
sentido de orientação" - dizia,
desiludido. Por isso recorreu ao
microcrédito e montou um negócio
promissor. Uma escola de treino
para cães de cegos.


18. navegação.
A vida não lhe corria nada bem.
Teve que contratar um mestre-
jardineiro para aprender a navegar
num mar de rosas.


14. metamorfose.
Odiava moscas. Uma noite sonhou
que se transformara em camaleão.
Ficou radiante.

Textos de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

11/05/2007

zig.zag zag.zig

Finka-pé é um agrupamento de mulheres cabo-verdianas ( Santiago ) que se expressam de forma intensa e vibrante, através do batuque ou "batucadas". O espaço tradicional do batuque é o terreiro: o pátio interior ou as traseiras da casa onde pela noite fora, as mulheres se sentem em círculo, com a(s) dançarina(s) no centro, tocando a "tchabeta". Uma cantadeira improvisa longas melodias que falam da vida, das alegrias e das tristezas, da difícil condição feminina das suas componentes e dos problemas concretos com que têm de se confrontar. Num processo improvisado atinge-se a "rabira" - momento em que a(s) dançarina(s) faz(em) a "dança do torno", exibindo as suas habilidades coreográficas que resultam em acontecimentos que vivem da grande alegria e do envolvimento colectivo.

25/04/2007

a alguns amigos, hoje



Despontou um raio ténue
por entre os castelos brancos
de bruma e
embargou-o a suspeita
de ter sido o tempo de
incredulidade um desperdício inútil
de alegria
Desenrolava-se a tarde por meio de sonhos
de infância
anteriores ao apertar do medo
anteriores ao apertar da patologia da
tiranização
anteriores à luva de ferro
que haveria de interpor-se
entre a pele e o amor
raramente deposta
era uma tarde de mais um
25 de Abril mais de trinta anos
depois e havia então
certezas feitas de peitos claros
e mesmo assim se foram
desvanecendo fogacidades
em jantares antropófagos e
caros
muito caros ao círculo de ferro
que instiga o carrocel do real
país que somos em pertinaz
recusa
infindável submissíssima negação
olhando o espelho
confundia-se a luva e a mão
facilmente a jaula
em vitrine de museu
e o exemplar humano atrelado
atento
ao mínimo detalhe
do horário da exposição
olhando o espelho
o exemplar humano atrelado
perguntará de si
onde ficou
no espaço translúcido
entre a roupa e a pele
adensar-se-á
implacável
a bruma
em castelos
até que desponte um raio ténue
e a suspeita
de ter sido todo o tempo
de incredulidade um desperdício
inútil
e será tarde
e urgente
a sede
da pele doente
se banhar líquida
em volúpia de alegria
onde a terra
em fogo
tiver secado o exalar
da bruma
e houver de nascer
do espelho
um exemplar humano novo
nu
em novo círculo de fogo
imagens sobre o 25 de Abril;
poema de Teresa Tudela, inédito, 25 de Abril de 2007.

um novo 25 de Abril



alimento ,ano após ano ,a loucura de saber.me apaixonada pela Utopia ,e então corro ,solta ,pelo sonho dentro
cartazes do 25 de Abril retirados da net;
citação de gabriela rocha martins.

15/04/2007

zag . zig zig . zag ( ainda pelo Algarve )

"O Amor dos Outros"
pela Companhia de Teatro Al-Masrah
encenador Paulo Moreira
intérprete João Evaristo


Dias 20 e 21 de Abril
21.30 horas


"O Amor dos Outros" é uma abordagem singular à multiplicidade e complexidade de relações amorosas entre dois seres humanos - entre o Eu, o Outro e os Outros - num cozinhado explosivo de ingredientes, onde o amor, o desejo, a fantasia, o sexo, o ciúme, a inveja e a raiva, em doses desmedidas, se misturam e confundem.
Esta produção independente á da responsabilidade do encenador Paulo Moreira e do actor João Evaristo, conhecidos intervenientes da cena teatral algarvia e tem como fonte de inpiração textos do escritor brasileiro Alexandre Ribondi
De acordo com a imprensa, este é um "excelente espectáculo algarvio" no qual João Evaristo "conseguiu atingir a maioridade da representação subordinada a uma estética de qualidade" ( Ana Oliveira, in Jornal do Algrave, 22 de Março de 2007 )


Al-Masrah
informações e Reservas
96 777 8972 / 281 321 256 /
alteatro.c@gmail.com

a bilheteira abre 1 hora antes do início do espectáculo

Espaço da Corredoura
Rua D. Marcelino Franco, 41, Apt. 433
8801-904 Tavira

zig . zag zag . zig

JP Simões editou o seu primeiro disco a solo - "1970" - em Janeiro de 2007
Depois de ter deixado a sua marca na melhor música feita em Portugal nos últimos 10 anos, como um dos mentores de alguns projectos como os Belle Chase Hotel e Quinteto Tati, JP Simões inicia, com "1970", uma carreira a solo que se antevê brilhante, quer pela extrema qualidade da sua escrita, quer pela inquestionável personalidade da sua voz.
Neste trabalho, JP Simões assume, pela primeira vez, a totalidade do processo criativo, ao escrever músicas, letras e assumindo os arranjos e a produção musical do disco.
"1970" é uma obra que coloca JP Simões na trilha dos melhores cant'autores da música portuguesa.

11/04/2007

Ó pedra que estás parada

Ó pedra que estás parada,
onde estão tuas raízes?
mas ficas sempre calada,
ó pedra, e nada me dizes.
Por que não voas então?
que te impede de voar?
se fosses meu coração,
voavas solta no ar,
como voa o pensamento
que vai para onde quer.
Fosses tu irmã do vento,
serias minha mulher -
e eu casava contigo
fazia o que sempre quis,
como amante, como amigo:
ser para sempre feliz
Na solidez do teu corpo -
ser um a soma dos dois,
habitar-se como um todo,
( as asas vinham depois ).
Com a minha fantasia,
teríamos aéreo lar -
a gente depois vivia
só do sonho de voar.
António Simões, inédito, 2001
( Do ciclo "poemas com pedras dentro ).

08/04/2007

a grande obra



Não uso palavras. Uso acções. Sou um poeta da acção. Convenciono poesia nos meus gestos e directrizes. Por isso todos me vêem e concebem como um homem rude e mau, tenho a perfeita consciência disto. Nada de mais errado. Note! Olhe bem para mim, neste momento. Estando aqui sentado à sua frente a compartilhar consigo este maravilhoso charuto, pareço-lhe um homem malévolo? Responda-me com sinceridade.
-Não.
- Como vê - solta uma nova gargalhada - apenas me situo à frente do tempo. Como todos aqueles, aliás, que de alguma forma, marcaram e alteraram o rumo e o ritmo da história. Além disso, todos aqueles que trabalham comigo, de mais perto, sabem que não gosto de dividir, os gestos ou acções, em bons ou maus gestos, em boas ou más acções. Para mim não existem dualidades nem questões dúbias: existem regras, existem leis e circunstâncias. Mas são apenas - quanto a mim -as circunstâncias que definem a verdade, a moral, a justiça, a vida, a morte. O mais importante para mim é a obediência e a noção do novo: o espanto. Como sabe todos os poetas são seres malditos, visionários e, portanto, incompreensíveis para a maioria. Porque observam o que mais ninguém vê. Vêem mais longe. Poetas como eu e você...
Mas se quer seguir um conselho, não deveria guardar só para si os seus escritos. Não leve a mal esta minha consideração. Mas incomoda-me a cobardia. Os pusilânimes. Mas sei, não ser este o seu caso. Não o é decerto.
No seu caso concreto, parece-me evidente ter chegado o seu momento. É chegada a sua hora. A hora do grande salto. A hora H.
Ergueu-se da cadeira e dirigiu-se ao outro. Circundando-o, ofereceu-lhe o cinzeiro para que também ele apagasse o charuto. Colocou, com intensa ternura, as suas mãos sobre os seus ombros, e, devagar, subiu-as até ao pescoço, principiando, sub-repticiamente a apertá-lo ,a apertá-lo, cada vez com mais força.
-Eis a minha grande obra - concluiu.
Legendas de Augusto Mota.
Texto de Sandro William Junqueiro.

23/03/2007

2. Meu corpo é agora um barco



Sento-me no banco
do pequeno largo -
o vento arredonda
os meus sobressaltos
e perde-se no ar.
O dia arde ainda na copa das árvores,
nas asas dos pássaros,
nos olhos dos velhos
perdidos no tempo -
meu corpo é um barco
ancorado na luz.
Poema de António Simões ,1999.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

22/03/2007

como há 32 anos atrás ...


... hoje ,dia 21 de Março de 2007 ,o Palácio das Varandas comemora o regresso da Primavera e o Dia Mundial da Poesia!

Versos de Fernando Miguel Bernardes,
ilustração e composição de Augusto Mota.

19/03/2007

De Que Fala o Silêncio


O tempo é anterior a ti, a mim, a nós,
e nada está escrito, excepto essa interioridade
que habita a inocência das palavras,
consumando o corpo, o seu início, o seu extremo,
deixando o espírito intacto para fruir
esses momentos puros, primordiais,
nessa abertura,
lâmpada rútila, navio eloquente, frémito intacto,
chama preciosa que, de outra forma,
tudo diz, tudo revela,
no tempo esquecido, no tempo sem tempo,
entre a magia e a volúpia,
no luar, no silêncio,

no tempo das clepsidras esquecidas.
Maria do Sameiro Barroso, in "Meandros Translúcidos", 2006.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

11/03/2007

A Flor de Mil Pétalas




Abres a porta à procura da luz -
Um galo canta no cimo da hora,
e tu estremeces e agitas as sombras,
e a luz foge para longe.
Abres a porta à procura do nada:
um rato rói a alma por dentro,
e tu estremeces e agitas o vento -
e o nada foge para dentro de ti.
Abres-te para o verde cantante das searas:
uma cobra rasteja por entre os caules,
e estremeces de novo,
e a água foge da tua sede -
é então que ao pé da luz,
a sombra se casa com a água,
e a seara cresce desmedidamente,
e os deuses riem dos gestos dos homens,
confusos demais para abrirem caminhos -
contudo, sem que eles o saibam,
lá no fundo da sua alma,
num recanto obscuro da mente,
uma pequena flor começa a ganhar raiz -
ela vai crescer para todos os lados
e atravessar o mundo e o próprio universo:
e homens e deuses e pássaros e pedras
e árvores e asas e campos e casas
e pontes e portas, senhores e servos,
e tudo o que mexe e o que fica imóvel,
e tudo o que fala e tudo o que cala
são as pétalas infinitas dessa flor.
António Simões, inédito. 9 de Fevereiro de 2002.
Escrito entre a vigília e o sonho, numa tarde mágica dos campos do Louredo.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

06/03/2007

ser livre


Felizes decerto os que se descobriram na evidência de um valor, transposto à essência de si mesmos, para lá do valor primeiro de serem em autenticidade, ou seja, de serem livres. A nós coube-nos apenas essa liberdade e não aquilo em função do qual ela existisse. Mas em torno dela se reorganiza a dignidade de nós, a afirmação esclarecida de nós, contra quem no-la queira entenebrecer. Aí fundamos a nossa cultura, aí fundamos o nosso modo de sermos livres.
Vergílio Ferreira.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

02/03/2007

entardecer

Poema de Carlos Alberto Silva
com fotografia e composição de Augusto Mota

As Árvores Crescem

As árvores crescem
ouço-as respirar
quando o crepúsculo
desce
no estremecimento sem fim
dos primeiros pássaros
depois é o sono
a pedra nocturna
dos anjos
essa vaga caligrafia
de sinos submersos
sob as pálpebras
percursos tão vários
do esquecimento
Luís Serrano ,in "Antologia da II Bienal de Poesia de Silves, 2005".

27/02/2007

desigualdades



Barco cheio
barco vazio
é a sorte quem comanda,
ou a Lua.
Num momento
surge o vento de levante.
Como rastilho de prata
o cardume lá se afasta...
O barco fica vazio.
Glória Maria Marreiros ,in "Algarve a gente e o mar".
Legendas Íntimas de Augusto Mota.

22/02/2007


Legendas Íntimas. Augusto Mota.

Q

Vindo do corredor o guarda aproxima-se da porta. Hesita duas vezes antes de bater.
Dentro da sala, o inspector, de olhos cerrados, masturba freneticamente o seu pénis grosso e duro, com a mão esquerda. Masturba-se com uma imagem. Fechado dentro da sua cabeça está um homem forte e musculado, ruivo e de olhos claros, nú, encostado à parede da sala, a açoitar os seus próprios genitais, os mamilos, a cuspir saliva ao mesmo tempo que ri. O inspector deseja agarrá-lo, beijá-lo e esbofeteá-lo. Segura um guardanapo expectante na mão direita enquanto o agarra, o beija, o espanca. Contorce o tronco e as pernas ao mesmo tempo que da sua garganta se soltam ligeiros grunhidos guturais semelhantes a arfares de foca. Lá fora o guarda hesita novamente.
Num espasmo violento, e mordendo os prórios lábios, o inspector acaba por derramar o seu sémen branco no papel. O guarda finalmente bate à porta. O inspector abre os olhos e limpa cuidadosamente os seus dedos e o pénis que lentamente começa a perder força. Dobra o guardanapo semeado e guarda-o no bolso do casaco. Ao cheirar os dedos da sua mão lúbrica, sorri. Levanta-se e dá duas voltas à chave.
A porta abre-se e o guarda entra.
O inspector indica-lhe o lugar.
- Sente-se. Estava precisamente a pensar em si.
Depois de uma disfarçada continência, o guarda obedece, sentando-se na única cadeira disponível, defronte da secretária.
O inspector dá duas voltas à chave:
- Você fuma?
- Os regulamentos internos dizem-me que não posso.
- E se eu lhe disser para que fume.
- Não posso fumar em serviço.
- Diga-me ... Quem criou este regulamento interno?
- O governo.
- Muito bem...
Sabe porque o mandei chamar? Não? Vou confessar-lhe... Estive esta manhã debruçado sobre o seu dossier. E despertou-me muita curiosidade. Interessou-me... Interessou-me muitíssimo o seu caso, para ser o mais sincero possível. Por isso o mandei chamar. Olhe bem para mim, neste momento. Estando aqui sentado à sua frente a compartilhar consigo este momento, pareço-lhe um homem malévolo? Responda-me com sinceridade.
- Não.
- O mais importante para mim é a obediência e a noção do novo: o espanto. Como sabe, todos os poetas são seres malditos, visionários e portanto incompreensíveis para a maioria. Porque observam o que mais ninguém vê. Vêem mais longe. Poetas como eu e você... Mas se quer seguir um conselho, não deveria guardar só para si os seus escrits. Não leve a mal esta minha consideração. Mas incomoda-me a cobardia. Os pusilânimes. Não sei se acredita em pressentimentos. Mas neste caso concreto, parece-me evidente ter chegado o seu momento. É chegada a sua hora. A hora do grande salto. É chegado o momento de escrever, se quiser, a obra de uma vida. A grande obra...
( continua )
Sandro William Junqueiro ,inédito