Sandro William Junqueiro, inédito, in "Diário do Algoz".
Fotografias de Augusto Mota.
17/06/2007
R
15/06/2007
Perceval
Percevalnão percebe,
na incessante aventura,
que ele é o próprio Graal
que procura -
O sonho que persegue,
trá-lo dentro de si -
e quanto mais longe
o projecta,
mais perto fica a meta,
o lá é logo ali -
A busca do Graal
é o despir definitivo
do último disfarce:
buscando,
vai buscar-se.
António Simões, poemas inéditos, 1990.
Composições de Augusto Mota sobre poema de António Simões e citação de Gabriela Rocha Martins.
14/06/2007
O tempo esqueceu-se
No jardim da minha Avó, havia sol azul e perfume de laranjeira.E éramos meninos a brincar.
No jardim da minha Avó, havia o murmúrio embalador da fonte
escorrendo água e aroma verde de Lúcia-lima.
E éramos jovens a sonhar.
Os sonhos subiram colinas, atravessaram rios nas planícies...
No jardim da minha Avó espera a agridoce malva rosa na sombra fresca da tarde.
Por onde se perdem as nossas ausências?
No jardim da minha Avó, há o absurdo do silêncio esquecido.

Fernanda Sal Monteiro in matebarco , 13.06.2007Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões e Cristina Coroa.
12/06/2007
o cio do sol

Enquanto lavro o corpo da manhã o Sol, em cio, cavalga um cão de fogo por entre nuvens afiladas e a construção de cidades adivinhadas. Bem perto, porém, há o rodopiar incessante do disco rubro que agora se estampa em nosso olhar. Vemo-lo para além das nuvens. Vemo-lo em cima e para além deste corpo que se adelgaça no esforço de transportar o astro-rei a caminho de outras galáxias bem mais perto de nós.Rítmica é a sensação do sexo em desepero perante a ingenuidade artesanal do olhar, firmeza da mão, o gravar da matéria.
Assim se constroem as nossas cidades interiores, que ora são corpo de mulher, ora vielas estreitas por onde vagueamos a tristeza e as mãos vazias de tudo.
As colinas ao longe agridem o espaço como justo contraponto a este paroxismo de dor e de prazer.
Deixemos as coisas acontecer ao ritmo do tempo que tomou conta do nosso acaso.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
10/06/2007
No Dia de Camões e de Portugal
Irás ao paço. Irás pedir que a tençaseja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
calúnias desamor inveja ardente
e sempre os inimigos sobejaram
a quem ousou mais ser que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
porque estavam curvados dobrados
pela paciência cuja mão de cinza
tinha apagado os olhos do seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
pois não te pedem canto mas paciência. Este país te mata lentamente.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagens compostas por Augusto Mota, a partir de textos seus e de António Simões
nota - o poema de Sophia Andresen foi-nos enviado por Amélia Pais
06/06/2007
breviário .2
03/06/2007
20/05/2007
breviário .1
01. desejo.Viveu prisoneiro do seu próprio corpo.
No seu testamento apenas exigiu que
transportassem a urna numa viatura
de desencarceramento dos bombeiros
voluntários.
51. prazer.
Tinha para com a produção artística
uma relação quase sexual. Passado
o gozo da criação, ficava triste. E
adormecia.
47. visão.
"Os políticos cada vez têm menos
sentido de orientação" - dizia,
desiludido. Por isso recorreu ao
microcrédito e montou um negócio
promissor. Uma escola de treino
para cães de cegos.
18. navegação.
A vida não lhe corria nada bem.
Teve que contratar um mestre-
jardineiro para aprender a navegar
num mar de rosas.
14. metamorfose.
Odiava moscas. Uma noite sonhou
que se transformara em camaleão.
Ficou radiante.
Textos de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
11/05/2007
zig.zag zag.zig
Finka-pé é um agrupamento de mulheres cabo-verdianas ( Santiago ) que se expressam de forma intensa e vibrante, através do batuque ou "batucadas". O espaço tradicional do batuque é o terreiro: o pátio interior ou as traseiras da casa onde pela noite fora, as mulheres se sentem em círculo, com a(s) dançarina(s) no centro, tocando a "tchabeta". Uma cantadeira improvisa longas melodias que falam da vida, das alegrias e das tristezas, da difícil condição feminina das suas componentes e dos problemas concretos com que têm de se confrontar. Num processo improvisado atinge-se a "rabira" - momento em que a(s) dançarina(s) faz(em) a "dança do torno", exibindo as suas habilidades coreográficas que resultam em acontecimentos que vivem da grande alegria e do envolvimento colectivo.25/04/2007
a alguns amigos, hoje


Despontou um raio ténuepor entre os castelos brancos
de bruma e
embargou-o a suspeita
de ter sido o tempo de
incredulidade um desperdício inútil
de alegria
Desenrolava-se a tarde por meio de sonhos
de infância
anteriores ao apertar do medo
anteriores ao apertar da patologia da
tiranização
anteriores à luva de ferro
que haveria de interpor-se
entre a pele e o amor
raramente deposta
era uma tarde de mais um
25 de Abril mais de trinta anos
depois e havia então
certezas feitas de peitos claros
e mesmo assim se foram
desvanecendo fogacidades
em jantares antropófagos e
caros
muito caros ao círculo de ferro
que instiga o carrocel do real
país que somos em pertinaz
recusa
infindável submissíssima negação
olhando o espelho
confundia-se a luva e a mão
facilmente a jaula
em vitrine de museu
e o exemplar humano atrelado
atento
ao mínimo detalhe
do horário da exposição
olhando o espelho
o exemplar humano atrelado
perguntará de si
onde ficou
no espaço translúcido
entre a roupa e a pele
adensar-se-á
implacável
a bruma
em castelos
até que desponte um raio ténue
e a suspeita
de ter sido todo o tempo
de incredulidade um desperdício
inútil
e será tarde
e urgente
a sede
da pele doente
se banhar líquida
em volúpia de alegria
onde a terra
em fogo
tiver secado o exalar
da bruma
e houver de nascer
do espelho
um exemplar humano novo
nu
em novo círculo de fogo
imagens sobre o 25 de Abril;
poema de Teresa Tudela, inédito, 25 de Abril de 2007.
um novo 25 de Abril


alimento ,ano após ano ,a loucura de saber.me apaixonada pela Utopia ,e então corro ,solta ,pelo sonho dentro cartazes do 25 de Abril retirados da net;
15/04/2007
zag . zig zig . zag ( ainda pelo Algarve )

"O Amor dos Outros" é uma abordagem singular à multiplicidade e complexidade de relações amorosas entre dois seres humanos - entre o Eu, o Outro e os Outros - num cozinhado explosivo de ingredientes, onde o amor, o desejo, a fantasia, o sexo, o ciúme, a inveja e a raiva, em doses desmedidas, se misturam e confundem.
Esta produção independente á da responsabilidade do encenador Paulo Moreira e do actor João Evaristo, conhecidos intervenientes da cena teatral algarvia e tem como fonte de inpiração textos do escritor brasileiro Alexandre Ribondi
De acordo com a imprensa, este é um "excelente espectáculo algarvio" no qual João Evaristo "conseguiu atingir a maioridade da representação subordinada a uma estética de qualidade" ( Ana Oliveira, in Jornal do Algrave, 22 de Março de 2007 )
Al-Masrah
informações e Reservas
96 777 8972 / 281 321 256 / alteatro.c@gmail.com
a bilheteira abre 1 hora antes do início do espectáculo
Espaço da Corredoura
Rua D. Marcelino Franco, 41, Apt. 433
8801-904 Tavira
zig . zag zag . zig
Neste trabalho, JP Simões assume, pela primeira vez, a totalidade do processo criativo, ao escrever músicas, letras e assumindo os arranjos e a produção musical do disco.
11/04/2007
Ó pedra que estás parada
Ó pedra que estás parada,onde estão tuas raízes?
mas ficas sempre calada,
ó pedra, e nada me dizes.
Por que não voas então?
que te impede de voar?
se fosses meu coração,
voavas solta no ar,
como voa o pensamento
que vai para onde quer.
Fosses tu irmã do vento,
serias minha mulher -
e eu casava contigo
fazia o que sempre quis,
como amante, como amigo:
ser para sempre feliz
Na solidez do teu corpo -
ser um a soma dos dois,
habitar-se como um todo,
( as asas vinham depois ).
Com a minha fantasia,
teríamos aéreo lar -
a gente depois vivia
só do sonho de voar.
António Simões, inédito, 2001
( Do ciclo "poemas com pedras dentro ).
08/04/2007
a grande obra


Não uso palavras. Uso acções. Sou um poeta da acção. Convenciono poesia nos meus gestos e directrizes. Por isso todos me vêem e concebem como um homem rude e mau, tenho a perfeita consciência disto. Nada de mais errado. Note! Olhe bem para mim, neste momento. Estando aqui sentado à sua frente a compartilhar consigo este maravilhoso charuto, pareço-lhe um homem malévolo? Responda-me com sinceridade.-Não.
- Como vê - solta uma nova gargalhada - apenas me situo à frente do tempo. Como todos aqueles, aliás, que de alguma forma, marcaram e alteraram o rumo e o ritmo da história. Além disso, todos aqueles que trabalham comigo, de mais perto, sabem que não gosto de dividir, os gestos ou acções, em bons ou maus gestos, em boas ou más acções. Para mim não existem dualidades nem questões dúbias: existem regras, existem leis e circunstâncias. Mas são apenas - quanto a mim -as circunstâncias que definem a verdade, a moral, a justiça, a vida, a morte. O mais importante para mim é a obediência e a noção do novo: o espanto. Como sabe todos os poetas são seres malditos, visionários e, portanto, incompreensíveis para a maioria. Porque observam o que mais ninguém vê. Vêem mais longe. Poetas como eu e você...
Mas se quer seguir um conselho, não deveria guardar só para si os seus escritos. Não leve a mal esta minha consideração. Mas incomoda-me a cobardia. Os pusilânimes. Mas sei, não ser este o seu caso. Não o é decerto.
No seu caso concreto, parece-me evidente ter chegado o seu momento. É chegada a sua hora. A hora do grande salto. A hora H.
Ergueu-se da cadeira e dirigiu-se ao outro. Circundando-o, ofereceu-lhe o cinzeiro para que também ele apagasse o charuto. Colocou, com intensa ternura, as suas mãos sobre os seus ombros, e, devagar, subiu-as até ao pescoço, principiando, sub-repticiamente a apertá-lo ,a apertá-lo, cada vez com mais força.
-Eis a minha grande obra - concluiu.
Texto de Sandro William Junqueiro.
23/03/2007
2. Meu corpo é agora um barco


Sento-me no bancodo pequeno largo -
o vento arredonda
os meus sobressaltos
e perde-se no ar.
O dia arde ainda na copa das árvores,
nas asas dos pássaros,
nos olhos dos velhos
perdidos no tempo -
meu corpo é um barco
ancorado na luz.
Poema de António Simões ,1999.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
22/03/2007
19/03/2007
De Que Fala o Silêncio

O tempo é anterior a ti, a mim, a nós,
e nada está escrito, excepto essa interioridade
que habita a inocência das palavras,
consumando o corpo, o seu início, o seu extremo,
deixando o espírito intacto para fruir
esses momentos puros, primordiais,
nessa abertura,
lâmpada rútila, navio eloquente, frémito intacto,
chama preciosa que, de outra forma,
tudo diz, tudo revela,
no tempo esquecido, no tempo sem tempo,
entre a magia e a volúpia,
no luar, no silêncio,
no tempo das clepsidras esquecidas.
Maria do Sameiro Barroso, in "Meandros Translúcidos", 2006.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
11/03/2007
A Flor de Mil Pétalas



06/03/2007
ser livre

Felizes decerto os que se descobriram na evidência de um valor, transposto à essência de si mesmos, para lá do valor primeiro de serem em autenticidade, ou seja, de serem livres. A nós coube-nos apenas essa liberdade e não aquilo em função do qual ela existisse. Mas em torno dela se reorganiza a dignidade de nós, a afirmação esclarecida de nós, contra quem no-la queira entenebrecer. Aí fundamos a nossa cultura, aí fundamos o nosso modo de sermos livres. Vergílio Ferreira.Legendas Íntimas de Augusto Mota.
02/03/2007
As Árvores Crescem
quando o crepúsculo
desce
no estremecimento sem fim
dos primeiros pássaros depois é o sono
a pedra nocturna
dos anjos essa vaga caligrafia
de sinos submersos
sob as pálpebras percursos tão vários
do esquecimento Luís Serrano ,in "Antologia da II Bienal de Poesia de Silves, 2005".
27/02/2007
desigualdades


Barco cheiobarco vazio
é a sorte quem comanda,
ou a Lua.
Num momento
surge o vento de levante.
Como rastilho de prata
o cardume lá se afasta...
O barco fica vazio.
Glória Maria Marreiros ,in "Algarve a gente e o mar".
Legendas Íntimas de Augusto Mota.









