07/08/2007

ziguezagueando ...

Editorial Minerva - DNA
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Projectos literários com atitude, ousadia & diferença



CONVITE

EDITORIAL MINERVA e os autores têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra POIESIS - antologia de poesia e prosa poética portuguesa contemporânea, Vol. XV - (capa do artista plástico Miguel d’Hera), a realizar no dia 13 (Sábado) de Outubro de 2007, pelas 16:30 horas em:

AUDITÓRIO CARLOS PAREDES

Avª Gomes Pereira, 17 – Benfica – Lisboa
Acessos: Autocarros: 16 C, 24, 50, 84

VEJA AQUI A LOCALIZAÇÃO DO AUDITÓRIO

Apresentação dos autores e da obra pelo “animador de ideias” Ângelo Rodrigues. Todos os autores interessados terão oportunidade de uma breve intervenção. Momento de dança contemporânea e clássica pelo grupo da professora Fernanda Mafra - Barreiro. Selecção e leitura de dois poemas da obra por Cristina Estrompa e von Trina.
Alguns Autores:
Ana d’Ascenção
Ana Paula da Conceição Nunes
Ana Paula da Cruz Santos
António Augusto de Aguiar
Eva Fontes
Gabriela Rocha Martins,
etc...

Gratos pela honra da comparência
Será servido um Porto de Honra

04/08/2007

a harpa celta

Despir os sentimentos é aquecer o corpo junto ao fogo que se vê arder no lar das emoções. É, ainda, repousar os olhos nas estrelas que iluminam os caminhos do universo e desenham a trajectória dos gestos. É, também, ver como as palavras ficam a meio caminho dos desejos e o silêncio incendeia a música que as mãos dedilham nas cordas de uma harpa celta, de onde os sons brotam como água fresca de uma nascente entre seixos lisos e arredondados. É, sobretudo, acariciar o corpo e os sentidos à luz ténue das achas que ardem na fogueira da noite.
As mãos! Sempre as mãos viveram à frente das palavras e hoje regressaram ao futuro, ao encontro das lendas mágicas que animam os tesouros escondidos da infância e dos dias passados entre o corpo e a memória. Ou entre o corpo da memória. Ou entre a memória do corpo. Dessa memória que vemos alimentar o desejo das mãos, ou o rosto dos dias, e que atravessa entre nós e a noite, assim adiando o sono e os percursos do corpo.
Percorremos o corpo desenhando, com os apuros da técnica, os traços de uma tapeçaria que há-de expor-se ao museu dos sentimentos, que hoje despimos à luz da fogueira. Por isso derramámos cores várias e quentes pelos espaços brancos e livres, compondo uma sinfonia de formas e tons que a melodia da harpa harmonizava ainda mais. E os gestos saíam precisos e preciosos. E a obra ia ganhando a dimensão do nosso desejo, até sair dos limites apertados do tear electrónico onde os fios da teia e da urdidura se foram transformando nas distantes constelações que habitam lá para os lados da Estrela Polar. Ainda programámos a máquina com novas latitudes e longitudes, mas já não conseguimos reaver as linhas mestras da obra que fomos compondo ao longo da noite. Apenas vivem em nós as cores e os sons que animarão o museu de todos os sentimentos.
Todas as noites de céu estrelado havemos de olhar o infinito em busca das constelações que hoje desenhámos no universo das emoções.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composição de Augusto Mota sobre poema de Fernando Miguel Bernardes.

29/07/2007

um texto único ( conclusão )

IV
Já perdido numa traição ou vingança, resta-me apenas partilhar por intantes, alguns momentos, ... São momentos de paixão, estejam preparados, porque o que conto é intenso e nada ficou como antes, escutem...
- Posso dar-lhe um abraço?
Foi assim o reconhecer de uma enorme paixão.
- Claro meu Amor, ...
Levantei-me e fui em sua direcção, dizendo com o meu olhar para que permanecesse onde estava, ... Agarrei-a nos meus braços, e desviámo-nos de olhares indiscretos, se bem que não havia mais ninguém.
Encostado fortemente à parede do escritório, senti o aperto de seus braços, mas era o seu toque, o seu chorado de prazer, o seu cheiro, que foram imperando, preenchendo e bem vorazmente, obrigando-me a limitar os meus receios.
Sentia os seus delicados peitos que me tocavam e aqueciam o corpo suado, com a fragrância do imenso desejo. Castigando num beijo molhado, forcei-me a esquecer tudo ou a não querer pensar em mais nada.
Sim foi isso, foi assim que nos mantivemos por longos momentos, mas um castigo merecido corrigia o tempo acelerando-o ao ritmo dos nossos corações, mas acredito que por escassos instantes soube o que era a verdadeira paixão. Os nossos lábios tocavam-se, enquanto as nossas mãos percorriam os contornos dos nossos corpos, tínhamos de sair dali, ...
Ainda hoje procuro compreender o que aconteceu depois, porque nunca me irei esquecer, foi como viver de novo.
Recordo-me apenas daquele amor conforme o entreguei, pois dificilmente voltará para o reaver.
V
Não passou muito tempo até que nos voltassemos a encontrar, pois estávamos ali - como disse antes, os dois - constantemente, mas agora o tempo escorria por entre os dedos, como a areia fina das praias, onde passeámos juntos e o mar albergava os nossos corações com o som inconfundível do rebentar das ondas sobre o tom acobrado do areal.
O nosso olhar reflectia - ao que sei até hoje ser - Amor, em cada piscar de olhos perdi a oportunidade de contemplar a sua beleza, e mesmo em silêncio, compreendíamos instintivamente o que certamente iria acontecer.
Porém, nada aconteceu.
Na minha cabeça, pensei estar rodeado de paixão, mas tudo desapareceu tão rapidamente em relação ao que o meu Amor sentia por mim, como o final deste conto.
FIM


Manuel Rodrigues, in "As mãos de um louco não dizem pouco"( Vulto evidente )
Composições de Augusto Mota sobre poemas de autor desconhecido e maria gomes.

27/07/2007

um texto único


I

Num amanhecer diferente, ou num despertar incómodo algo acontece ou nunca terá sido assim?
Fiquei ali parado a olhar, não sentia a respiração nem sequer o eco de uma batida do meu coração, continuei parado por momentos de olhos abertos mas, sem um único pestanejar. Senti encerrado um sentimento de inactividade constante, dormente...
Não sei quanto tempo durou, não me contentei num qualquer sufoco ou sequer tremi, mesmo que por um pouco, estava ali mas, sem um pensamento inócuo.
Tentei levantar-me, creio ter sido esse o meu único pensamento, tentei fazer algo com o meu corpo para desviar o medo, criar uma barreira a todos os sentidos para que ao permanecer ali "presente"me defendesse, mas senti-me,... cuidado!
II
Afastei os lábios, num fechar de olhos delicado, senti uma secura enorme, apesar das mãos suadas, continuei ali deitado aproveitando o sussurrar de mais um amanhecer frio e bastante calmo.
A agitação empurrava os sentidos para uma luminosidade imperfeita, ofuscada uma e outra vez pelos fantasmas do pensamento ou de um abrir e fechar de olhos encadeado, ... porque à procura de uma ilusão perdida ou vagamente imaginada.
O silêncio de novo, sim, o silêncio voltava como uma onda de dor vibrante, arrebatadora como um coágulo que aumenta a cada inspirar profundo de tristeza, assim devastador porque de uma maneira ou de outra existem acontecimentos que não vamos nunca controlar.
Foi durante muito tempo algo iníquo, não saberei bem quanto porque ainda não terminou.
Continua a ser tão difícil entender, como um desejo me leva à obsessão e mais impraticável, porque não posso aceitar o quão ténue e rarefeito coloco desse ponto, a distância imensurável, ao ódio penoso.
A caminhada continua longa, ainda que encantado, não há espera de um carinho, mas de uma outra desilusão, vingança.

III

Obcecado no teu olhar, sem nunca o dizer, era com muito orgulho que te sentia na minha companhia todos os dias. À medida que os acontecimentos irrequietos iam moldando as nossas vidas, o mesmo orgulho que me inspiravas foi-se revelando na sua plenitude, ao ponto de parecer não ter retorno.
Vi o Amor, pensei e compreendi que jamais poderia estar a acontecer algo de tão excepcional, mas mais uma vez, lembrei-me da maneira mais dura que,... o Amor é cego, porém, os amantes,... conhecem-se.
Consegui reconhecer também a enormidade nesse mesmo Amor, porque a vastidão do Universo reduzida apenas a dois seres, o tempo que altera o ritmo quase tão depressa como o bater do nosso coração, a respiração ofegante, a procura do Amor.
O Amor é perfeito, apenas isso entendo, e retiro dos momentos vibrantes em que fomos amantes.

( continua )
Texto de Manuel Rodrigues, inédito.
Composições e ilustrações de Augusto Mota.





24/07/2007

na esteira de um poeta popular

Manuel Alves faleceu, ao meio dia, de 24 de Julho de 1901, faz hoje, precisamente, 106 anos, porventura consolado com o livro que Tomás da Fonseca lhe entregara tempos antes, mas humanamente triste porque se lhe estavam a abrir as portas do mistério que mais cantou e temeu - a morte.
Não terá sido "o maior poeta do mundo", como proclamou uma velhinha à passagem do funeral, em dia de mercado na Moita.
Também não fora um génio, como pretendiam, exaltados, os intelectuais de Coimbra que aqui vinham admirá-lo.
Mas era, seguramente, o maior poeta possível, de um tempo ( ainda não completamente erradicado ) em que os povos sofriam as suas vidas entre a ignorância e a miséria.
"É o Alves que canta agora,
Senhores, dai-me atenção.
Vou cantar duas cantigas
daquelas que melhores são"

O meu canto principio,
visto que assim me pertence;
mas não quero que alguém pense
que venho em desafio...
Nem eu mereço elogio
da gente que está de fora,
nem minha voz é sonora,
nem tem tal delicadeza...
Sei só dizer com certeza:
é o Alves que canta agora.
Esta pouca inteligência
que de mim estais a escutar,
se ela vos incomodar,
ouvi-me com paciência.
Bem podia a Providência
fazer-me outro Salomão!
Mas faltando esse condão,
peço aqui, seja a quem for,
por especial favor:
senhores, dai-me atenção.
Eu tenho lido na história,
profana, como sagrada;
mas o ler não vale nada
ao que é falto de memória.
Nem tu, do canto ó vitória,
tens momentos que me sigas!...
P'ra tão longe te desligas,
queres sem mim viver sozinha...
Eu com esta voz mesquinha
vou cantar duas cantigas.
Mil romances tenho tido,
dramas de bons escritores,
e sei dizer-vos, senhores,
que nada tenho entendido!
De bons génios tenho lido
páginas de perfeição;
conheço por tradição
obras de crentes e ateus,
mesmo as de João de Deus,
daquelas que melhores são.
Manuel Alves, inédito, poeta popular.
"A Poesia", óleo de Fuseli.

23/07/2007

atalho

As palavras, como as lamentações, nascem e morrem entre a névoa da manhã e a luz dourada de um fim de tarde outonal. Mas é junto às muralhas da nossa própria cidade que ritualizamos as orações e os lamentos da memória. Por isso ninguém escuta as orações dos sentidos em redor do corpo e do tempo.
Assim, que religião diviniza os segundos que sofremos em busca de uma outra cidade perdida entre anseios e devaneios? Secreta é a oração que alimenta o rosário de tais emoções! E quantas sensações comemoramos neste silêncio, quando as mãos se encostam às muralhas das recordações e adiam a conquista da cidade adormecida no regaço da noite!
Como continuar a escalada barbacã, se os sentidos e as palavras e os sentidos das palavras são as únicas armas de que dispomos para o cerco da cidade?

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Toscano.

20/07/2007

Sabres, Sementes

O homem que lavra a terra,
abre um sulco;
assim é a palavra:
rasga como um sabre,
mas é ela própria semente
em tudo o que lavra -
Abre-lhe teu coração
confiadamente,
deixa que ela se aninhe
lá dentro,
e cresça e fermente,
e te intumesça o sonho -
Deixa que a palavra seja,
ao mesmo tempo,
o arado,
a semente e a seara:
para cresceres
em direcção à luz,
não precisas
de mais nada.


António Simões, in "Diário de Lisboa" ( ligeiramente modificado ), 1.2.1981
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Anamar e Carlos Alberto Silva

16/07/2007

as cidades invisíveis

São invisíveis as cidades que criamos à volta de nós mesmos e dos passos que damos em direcção aos pontos cardeais de uma secreta navegação interior. A nosso bel-prazer lançamos os alicerces de novos horizontes e, serenamente, construímos ruas e avenidas que correm ao nosso lado, mas que, por vezes, nos ultrapassam sempre que é preciso adiantar as pontes de que nos servimos para alcançar o outro lado das palavras.
No seio desta cidade repousa a glória das viagens tantas vezes empreendidas ao sabor de um acaso que disfarça as rotas íntimas da solidão. Por vezes é nas mãos frias que aquecemos o peito abandonado ao ritmo apressado da respiração. E com elas modelamos os edifícios que bordejam as ruas e avenidas da nossa construção. E com elas, em jeito de concha, sorvemos a água das fontes que ornamentam as praças da nossa liberdade. E ainda com elas, agora aquecidas de tanto caminhar pelas sensações adentro, saboreamos os frutos das árvores que soubemos ir plantando ao longo da nossa imaginação.
É nos frutos da liberdade que ousamos descansar os olhos doridos do traçado metódico das palavras que se atrevem a significar o impossível. As cidades possíveis, essas, continuarão a ser invisíveis, mesmo que as pontes das palavras nos levem ao outro lado das emoções.

Augusto Mota, inédito, "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre textos de Carlos Alberto Silva e André Ala dos Reis.

13/07/2007

rosas ao fim da tarde

fotografias e textos de fernanda sal monteiro

12/07/2007

Sílaba de sol

ter uma sílaba de sol na boca,
procurar com ela uma palavra,
uma palavra que lavre
que brilhe, não escureça.
uma lava de som
num bosque de anacoreta,
uma palavra que dita ou escrita
não arrefeça.
uma palavra quente:
a dor, por exemplo a dor
uma rosa de carne, dizes
eu predigo tempo, prossigo.
Ah, o rumor dos dias quase felizes!
uma palavra na boca,
uma sílaba trémula
outra sílaba áspera,
uma sílaba de janela
com a palavra diáspora
e por ela, só por ela,
o som se acha.
uma rosa de carne viva
uma centelha, uma faísca
onde tudo cresça, se vista
e só com o fogo exista


José Marto, inédito.
Textos Transversais de Augusto Mota.




10/07/2007

..................valham-nos os deuses!!!!!!!!!!!








Almirante!!!!!!

A "nau" acabou de ser bombardeada com ,nada mais ,nada menos ,do que cinco distinções .Quem deveria agradecer e passar o testemunho era o "meu almirante" ( salvo seja! ) ... Mas já estou a ver a cara de admiração e a pergunta da praxe ... "O que é isto?" ... Um blogue amigo resolveu distinguir.nos ... Ainda há quem goste de nós ,e como não somos nada ,mas mesmo nada ,exagerados ,as menções vêm ,logo ,em grupo de cinco ... Não há nada como a fartura .O pior agora é escolher os blogues que classificamos excelentes ... Ora vamos lá a ver se não ferimos susceptibilidades ... A nossa vontade ,vontadinha ,era passar o testemunho a todos .Na impossibilidade ,cá vai ( valham.nos os deuses!!!! )

08/07/2007

................................regresso

como a ave que adormece
entre as mãos ausentes do poeta
retorno ao húmus da terra
exangue
para continuar
humana
entre as pedras e as árvores
densas
da barbárie


gabriela rocha martins ,inédito ,in "Canto.Chão"
composição de Augusto Mota sobre poemas de Carlos Alberto Silva.

04/07/2007

verão

por campos e casas
bufando como um touro
passa o suão
com o seu hálito de fogo
e as bagas são brasas
na tarde de verão

poema de antónio simões
composição de Augusto Mota sobre poema de António Simões


03/07/2007

Os Tigres

"Escreves
enquanto os cisnes passam" -*

mas tu procuras os tigres
da sombra e da luz,
para os cavalgares até à exaustão -
Deixa ficar os cisnes, imóveis,
no lago parado da memória -
( era no jardim da tua infância,
e ao domingo havia música no coreto ),
e vem, felino, domar os tigres da sombra e da luz,
que esperam por ti junto ao cais da noite;
para neles viajares dentro do teu sonho -
Vamos, salta-lhes para cima,
agarra-te bem às rédeas de luz das suas crinas,
e vai voando sobre os prados em flor
que crescem no avesso da noite,
até chegares às margens
onde nasce a manhã -
e aceitando as vestes novas que o dia te estende,
levando pela mão
os agora pacificados tigres do teu coração,
deixa-te ir vogando, tranquilo, no regaço do vento -

(*citação de um poema de Yvette Centeno )


António Simões, inédito, Louredo, 1995
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

01/07/2007

Margem Sul ( Canção Patuleia )



Ó Alentejo dos pobres,
reino da salvação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.
Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.
A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Urbano Tavares Rodrigues, ( cantado por Adriano Correia de Oliveira, in "Margem Sul", Orfeu, 1967. "Obra Completa", Movieplay, 1994 )
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

26/06/2007

Marés

Vêm as marés de água indefinida,
vê-se a chegada a borbulhar
só a areia estremece
quando frágeis no mundo
compreendemos o que vêm trazer,
o que querem levar.
Nossos passos só se desfazem
para cá e para lá,
olhamos para o longe
nossa fragilidade a palpitar.
Soletramos água,
soletramos sol
e deixamos a tábua no mar.


José Ribeiro Marto, inédito, in "A celebração dos dias".
Textos transversais de Augusto Mota.



19/06/2007

retorno ... i return ... je retour

como a ave que adormece
entre as mãos ausentes do poeta
retorno ao húmus da terra
exangue
para continuar
humana
entre as pedras e as árvores
densas
da barbárie
as the bird that sleep
between the absent hands of the poet

I return to humus of the land

without blood

to continue
human being
between the rocks and the trees

dense

of the barbarity

comme l'oiseau qui s'endort
entre les mains absentes du poète

je retour à la humus de la terre

exangue

pour continuer
humaine
entre les roches et les arbres

denses

de la barbarie

Gabriela Rocha Martins ,inédito ,Imprimatvr ,2007
Fotopoema de Augusto Mota.

17/06/2007

R


O coveiro subiu os três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que conseguiu os seus grandes olhos amarelos infectados. E quando, finalmente, a deitou sobre o lado virgem da cama, e cobriu metade da sua morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los; tenho comichão mas não posso coçá-los; se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, o coveiro deitou-se a seu lado. Os seios da morta, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. Virando-se para ela, o coveiro afagou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o seu nariz mal treinado para odores mais íntimos a uma das suas axilas recém-barbeadas. E foi nesse preciso instante que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, deitada a seu lado; coberta de geada; mas ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluia todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo. Com uma enorme erecção dentro das calças, o coveiro constatou para si mesmo:
-É isto afinal o mundo.
( continua na letra S )

Sandro William Junqueiro, inédito, in "Diário do Algoz".
Fotografias de Augusto Mota.

15/06/2007

Perceval

Perceval
não percebe,
na incessante aventura,
que ele é o próprio Graal
que procura -
O sonho que persegue,
trá-lo dentro de si -
e quanto mais longe
o projecta,
mais perto fica a meta,
o lá é logo ali -
A busca do Graal
é o despir definitivo
do último disfarce:
buscando,
vai buscar-se.

António Simões, poemas inéditos, 1990.
Composições de Augusto Mota sobre poema de António Simões e citação de Gabriela Rocha Martins.

14/06/2007

O tempo esqueceu-se

No jardim da minha Avó, havia sol azul e perfume de laranjeira.
E éramos meninos a brincar.
No jardim da minha Avó, havia o murmúrio embalador da fonte
escorrendo água e aroma verde de Lúcia-lima.
E éramos jovens a sonhar.
Os sonhos subiram colinas, atravessaram rios nas planícies...
No jardim da minha Avó espera a agridoce malva rosa na sombra fresca da tarde.
Por onde se perdem as nossas ausências?
No jardim da minha Avó, há o absurdo do silêncio esquecido.



Fernanda Sal Monteiro in matebarco , 13.06.2007
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões e Cristina Coroa.

12/06/2007

o cio do sol


Enquanto lavro o corpo da manhã o Sol, em cio, cavalga um cão de fogo por entre nuvens afiladas e a construção de cidades adivinhadas. Bem perto, porém, há o rodopiar incessante do disco rubro que agora se estampa em nosso olhar. Vemo-lo para além das nuvens. Vemo-lo em cima e para além deste corpo que se adelgaça no esforço de transportar o astro-rei a caminho de outras galáxias bem mais perto de nós.
Rítmica é a sensação do sexo em desepero perante a ingenuidade artesanal do olhar, firmeza da mão, o gravar da matéria.
Assim se constroem as nossas cidades interiores, que ora são corpo de mulher, ora vielas estreitas por onde vagueamos a tristeza e as mãos vazias de tudo.
As colinas ao longe agridem o espaço como justo contraponto a este paroxismo de dor e de prazer.
Deixemos as coisas acontecer ao ritmo do tempo que tomou conta do nosso acaso.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Fotopoemas - Composições de Augusto Mota. Poemas de Carlos Alberto Silva.

10/06/2007

No Dia de Camões e de Portugal

Camões e a tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
calúnias desamor inveja ardente
e sempre os inimigos sobejaram
a quem ousou mais ser que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
porque estavam curvados dobrados
pela paciência cuja mão de cinza
tinha apagado os olhos do seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagens compostas por Augusto Mota, a partir de textos seus e de António Simões

nota - o poema de Sophia Andresen foi-nos enviado por Amélia Pais

06/06/2007

breviário .2

13 .jura.
"És o sol da minha vida, a luz do
meu caminho" - repetia vezes sem
conta. Um dia houve um eclipse
total do astro-rei e a paixão perdeu-
se para sempre no labirinto da
realidade.
Texto de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legenda Íntima de Augusto Mota.

03/06/2007

Vida de Cão

Mas, amanhã, cá estaremos de volta... Se o vento estiver de feição!

20/05/2007

breviário .1

01. desejo.
Viveu prisoneiro do seu próprio corpo.
No seu testamento apenas exigiu que
transportassem a urna numa viatura
de desencarceramento dos bombeiros
voluntários.

51. prazer.
Tinha para com a produção artística
uma relação quase sexual. Passado
o gozo da criação, ficava triste. E
adormecia.


47. visão.
"Os políticos cada vez têm menos
sentido de orientação" - dizia,
desiludido. Por isso recorreu ao
microcrédito e montou um negócio
promissor. Uma escola de treino
para cães de cegos.


18. navegação.
A vida não lhe corria nada bem.
Teve que contratar um mestre-
jardineiro para aprender a navegar
num mar de rosas.


14. metamorfose.
Odiava moscas. Uma noite sonhou
que se transformara em camaleão.
Ficou radiante.

Textos de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.