03/09/2007

Dizendo




Nas veias remotas do rosto do descampado,
no branco véu oculto, nas pedras , na sede
ou na água do próprio gado
está outro deus presente,
talvez do mar profundo
a ressomar no retolhado.

Nunca pronunciei bem certas palavras -
sempre traído pela escuridão fonética
das espadas da minha fala

digo castelo
e de guerreiro fiel ao dizê-lo,
visto à espreita no vale a minha pele
digo cruz ,digo rei
digo magoada solidão
e nela a cruz da mulher da grei

o deus nos olhos é de mágoa
as preces longínquas nas estradas
são de água

digo desembainhada espada,
o mesmo é dizer uma flor branca,
saída do colo de uma princesa perdida

digo sal e uma barca salta dos dedos
aos olhos do guerreiro
escondido, atento ao rio

nunca pronunciei bem certas palavras -
sempre traído pela escuridão fonética
das espadas na minha fala
a ver rezar:
- à outra, à mesma ou à sobreposta pedra
in a celebração dos dias

José Marto, inédito.
Fotografias de Augusto Mota.




31/08/2007

Excessos




3. Excessos

Excessiva, esta emoção
de fim de tarde -

Excesso
de quem traz dentro do peito
o universo
e sente rebentar-lhe o coração
porque a alma já não cabe

4.Ninguém Mais

Numa galáxia distante,
um pássaro pousou
numa pedra
num som quase imperceptível de veludo -
Ninguém mais o ouviu em todo o universo
senão minha alma que ouve e sabe tudo

5.Tão leve Que Fica

Há os que passam na rua
e mal tocam o chão,
têm passos de lua,
tão leves que vão.

O amor que é pesado,
e pesa um milhão,
neles é levitado
porque aos outros se dão.
São mistérios do amor
que assim se multiplica:
a alma do doador
deu tudo, ficou mais rica.
Quando a alma se eleva,
o corpo logo levita,
de amor tão pesado
tão leve que fica.

António Simões, poemas inéditos
Brian Eno, "The Plateau of Mirror, First Ligth" and "Becalmed"

26/08/2007

48 .silogismo









Era um jardineiro -filósofo. Cada flor
acarinhada seria a enunciação de
uma premissa. A exuberância dos
canteiros a conclusão lógica de tão
aromáticas proposições
.

Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado"
Montagem de gabriela r martins sobre fotografias de Augusto Mota.

Swan Lake - Pas de Deux .Polina Semionova e Vladimir Malakhov

23/08/2007

2. O Cálice dos Olhos

Estendes o olhar -
o cálice dos olhos! -
e nele recolhes,
gota a gota,
a derradeira luz do dia -
Uma asa tardia de andorinha,
retida nessa última gota,
vai ficar voando
no infinito de teus olhos.
Com ela,
tonta ainda,
( tontos os dois! )
do vinho avermelhado do poente
que te enche o cálice
até à borda,
atravessas o sono e o sonho,
e, num ruflar macio de asas,
irás, por fim, pousar
junto ao pequeno charco de luz
onde nasce o dia.

Exausta
da travessia-embriaguez da noite,
a andorinha tua alma
ainda dorme
no aconchego das pálpebras,
no silêncio desta página -

Viremo-la, pois,
sem rumor,
e passemos,
pé-ante-pé
ao próximo
poema



António Simões, inédito.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

21/08/2007

conselhos de um velho apaixonado

poema de carlos drummond de andrade

20/08/2007

exorcismo

______________exorcismo
no universo mítico das cores ,o branco mistura.se ao negro
e nesse momento sublime de criação
o pintor exorciza a morte_________________.

texto de gabriela r martins.
composição cromática de Augusto Mota sobre foto de Araújo Lacerda.

19/08/2007

a ribeira das fragas

para o Orlando Cardoso
Do mirante vimos o revérbero do calor bater nas fragas abruptas do outro lado do desfiladeiro.
Mas olhar para o fundo da garganta, ver a ribeira de Alge a saltar pequenas cachoeiras e a correr por entre a ramaria de árvores frondosas antecipou-nos a frescura das suas águas e o conforto da sombra de tanto amieiro ( Alnus glutinosa ), de tanto carvalho ( Quercus faginea ), de tanto freixo ( Fraxinus angustifolium ), de tanto loureiro ( Laurus nobilis ). E descer lá abaixo, depois de tanto calor, foi descer a uma outra realidade, onde um subtil jogo de luz e sombras parecia criar uma ilustração tridimensional de um bocado do paraíso, com a água a correr por entre penedos e manchas de claridade projectadas por um sol da tarde, coado pela folhagem viva e agradecida daquela floresta primeva. Como numa catedral havia o silêncio respeitoso das pessoas a quererem gozar a sua paz e a paz dos outros. Só as levadas que outrora deram força às engrenagens das azenhas pareciam querer impor a música diluída da sua corrente, apressada em retomar o curso da ribeira.
Apetecia mergulhar os pés e as mãos naquela água límpida e caminhar, caminhar por aquele líquido silêncio, até encontrar o resto do paraíso, ou, então, adormecer bem no meio da ribeira, em cima de um penedo arredondado e batido pelo sol para, como uma sereia, divagar pelos caminhos encantados das mãos, dos olhos e das palavras. Construiríamos a noite em pleno dia e saudaríamos a vontade de ver as árvores florescerem milhares de estrelas. Estrelas para iluminarem o rasto das palavras que vamos deixando atrás de nós, como indício de uma peregrinação a caminho de nada e de tudo. Talvez até construíssemos uma jangada que nos levasse a outros continentes, perdidos entre a memória e os dias claros.
Se aportássemos ao litoral da memória, em dia bem claro, iríamos, por certo, a uma azenha trocar grão para, depois, espoar muito bem a farinha e fazer pão fino que alimentasse o sonho e o passado. Do farelo tenderíamos alimento para os cães que estivessem de guarda ao nosso sossego, ou nos ajudassem a pescar alguma truta ( Salmo trutta ) mais distraída. De varas de eucalipto ( Eucalyptus globulus ) faríamos uma ponte de aventura suspensa sobre os dias escuros, já que do outro lado há sempre lugar para novas esperanças. Ou, então, atravessaríamos a ribeira a vau, se a corrente não fosse muito forte e não houvesse o perigo de sermos arrastados para as margens longínquas do passado. Uma vez do lado de lá regressaríamos à realidade de uma tarde quente de domimgo.
Do mirante vimos o reverbéro da emoção ao bater nas fragas abruptas do outro lado da memória.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

18/08/2007

.....................................louca mente

quero dormir a noite e
acordar o dia
no silêncio de mim ou na confusão
de ti
quero olvidar o complexo
solto de um afago negado
sentido de repente na mão
que estendo ao encontro
de nós
quero ser água e vento
lamento quente ausente
presente no estar aqui em ti
sem mim
quero abrir o pranto à alegria
imensa de um encontro a sós
em nós pensado em sol
sustenido ou sentido no piano tocado
a sul e inventado a norte
quero ser a ausência presente
no sentimento vivido nas mãos
que percorrem os meus e os teus cabelos
revoltos
quero
inventar um canto de repente
não!
quero dormir e acordar
somente e
se alguém ou quem disser o contrário
mente.

gabriela rocha martins, in "de nada".
Composições de Augusto Mota sobre poemas de autor desconhecido e Maria Toscano.

17/08/2007

je m'apelle Bagdad

o beijo

eu
sou
o silêncio a pulsar
nas mãos enfeitadas
por flores de almíscar
colhidas
no verão
dos sonhos
confiscados
tu
és
o
beijo
roubado
a Kreonte


gabriela rocha martins, in "de nada ..."
composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Toscano.

15/08/2007

1. Corpoema


quando sinto a poesia
dentro do corpo
é que sei
que não estou morto -
Sob as pálpebras,
no rosto,
entre os dedos,
as palavras,
como crisálidas adormecidas,
esperam,
trémulas,
as asas que as desprendam -
as asas que tu lhes trazes! -
Pois é só quando chegas
e me beijas o corpo,
verso a verso,
e o lês como se lê um livro,
que elas se libertam
e eu sei que estou vivo -
E vou
e voo
em cada palavra
ao encontro de ti
ao encontro de mim
no corpo do poema.


António Simões, inédito, "Versos Antigos".
Textos Transversais de Augusto Mota.


14/08/2007

variações cromáticas sobre uma dália

fotos e manipulações de Augusto Mota.

saudade de mim - glosa*

o teu corpo e o meu corpo
ternura feita saudade
bruma sono outonal
hora que foge
perdida
.
louca
durmo o crepúsculo
e todo azul-de-agonia
em teu corpo esmaecido
em sombra a além me sumo

*mário de sá carneiro
glosado por gabriela r martins

13/08/2007

variações cromáticas sobre um girassol de cor


fotos e manipulação de Augusto Mota.

12/08/2007

uma homenagem a Torga


caricatura de Luís Veloso manipulada por gabriela r martins.

Centenário do nascimento de Miguel Torga



Aos Poetas
Somos nós
as humanas cigarras!
Nós,
desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
que se abriga
ao luar.
Nós, que nunca passamos
a passar!...
Somos nós, e só nós podemos ter
asas sonoras,
asas que em certas horas
palpitam,
asas que morrem, mas que ressuscitam
da sepultura!
E que da planura
da seara
erguem a um campo de maior altura
a mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto
a taça fraternal deste meu canto,
e bebo em vossa honra o doce vinho
da amizade e da paz!
vinho que não é o meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!
E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
de uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
que se calcem de sonho e de poesia
pela graça infantil da vossa mão!
Miguel Torga ( 1907 - 1995 )

11/08/2007

troncos, texturas e folhas

fotografias de augusto mota

a nau dos corvos

O farol na ponta do cabo adensa o mistério que fica para além do horizonte cerrado e, em breve, uma chuva grossa, tocada a vento, impede a viagem pelos miradouros do sonho. Não é noite, mas gostaríamos que os olhos corressem por uns secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a estibordo da nau que navega o mar de todas as sensações. Não há corvos, mas gostaríamos que o seu grasnar anunciasse o fim de todas as tempestades, como se a barca em que vogamos fosse a redenção para as lágrimas de todos os queixumes. Ouvem-se, apenas, os gritos das gaivotas contra o vento forte que as faz planar sobre as rochas marcadas pelo tempo e pelas vagas. Mesmo assim continuamos a viagem a caminho de um novo regresso.
Regressa-se sempre pelos caminhos apressados que as mãos vão talhando e atalhando nas paisagens marítimas do nosso olhar. Mesmo em dias cinzentos sabemos esculpir as nuvens para que o sol festeje o verde que corre pelos campos fora até às arribas que os protegem da maré-cheia. E o amarelo que pontilha montes e vales é o que resta da sagração do mar e da Primavera da terra. São secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a bombordo das sensações que povoam o mar de todas as naus. E é nelas que poisam os corvos-marinhos ( Phalacrocorax carbo ) dos bons e dos maus presságios. E é nelas que, no silêncio da espera, aportamos, peregrinos, em terras distantes e tristes. E é nelas que, no silêncio do desejo, transportamos as árvores que plantamos à beira do sonho, ou arrecadamos os frutos silvestres que alimentam a viagem. Levamos, por vezes, abrunhos bravos, colhidos em manhãs orvalhadas, para matar a sede e a saudade.
Que terras distantes são estas que ficam para além dos gestos e do olhar? Difíceis viagens esperam o corpo nas rotas de tamanha empresa!
Se a sede se mata com o orvalho dos frutos selvagens, já a saudade se alimenta das árvores que abrolham, perpetuamente, à ilharga das ilusões.

Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
Textos Transversais de Augusto Mota.

10/08/2007

Soneto já Antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres pra Iorque, onde nasceste ( dizes ...
que eu nada que tu digas acredito ),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem julguei amar,
nada se importará... depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Soneto de Álvaro de Campos.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Gomes e Maria Toscano.

08/08/2007

Daisyspairing*

Ah, Daisy, se eu um dia te encontrasse
À esquina de um verso, de surpresa,
Sem que o Álvaro soubesse, acesa
Plo súbito rubor da tua face,
Minha alma, então, talvez tentasse
Livrar-te do soneto onde estás presa.
E tu, Cecily, vinhas, com certeza,
Ajudar-nos a sair deste impasse.
Mas, minha Cecily, pensando bem,
A Daisy, recordo, ainda tem
Recados do Álvaro, que é Fernando,
Pra dar aos amigos e, claro, a ti -
Vai, Daisy, que eu ficarei aqui,
À esquina do verso, te esperando.
*despairing of meeting Daisy


António Simões, in "Diário de Lisboa", 8 de Novembro de 1988
( a propósito do Soneto Já Antigo de Álvaro de Campos, "em conversa" com Daisy e a "estranha" Cecily )
Textos Transversais de Augusto Mota.

07/08/2007

ziguezagueando ...

Editorial Minerva - DNA
Rua da Alegria, nº 30 - 1250-007 Lisboa - Portugal

- Próximo do Parque Mayer e do Hot Club -

Tel. (+351) 21 322 49 50 - Fax (+351) 21 322 49 52

http://www.editorialminerva.com/
minerva_dna@netcabo.pt



Projectos literários com atitude, ousadia & diferença



CONVITE

EDITORIAL MINERVA e os autores têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra POIESIS - antologia de poesia e prosa poética portuguesa contemporânea, Vol. XV - (capa do artista plástico Miguel d’Hera), a realizar no dia 13 (Sábado) de Outubro de 2007, pelas 16:30 horas em:

AUDITÓRIO CARLOS PAREDES

Avª Gomes Pereira, 17 – Benfica – Lisboa
Acessos: Autocarros: 16 C, 24, 50, 84

VEJA AQUI A LOCALIZAÇÃO DO AUDITÓRIO

Apresentação dos autores e da obra pelo “animador de ideias” Ângelo Rodrigues. Todos os autores interessados terão oportunidade de uma breve intervenção. Momento de dança contemporânea e clássica pelo grupo da professora Fernanda Mafra - Barreiro. Selecção e leitura de dois poemas da obra por Cristina Estrompa e von Trina.
Alguns Autores:
Ana d’Ascenção
Ana Paula da Conceição Nunes
Ana Paula da Cruz Santos
António Augusto de Aguiar
Eva Fontes
Gabriela Rocha Martins,
etc...

Gratos pela honra da comparência
Será servido um Porto de Honra

04/08/2007

a harpa celta

Despir os sentimentos é aquecer o corpo junto ao fogo que se vê arder no lar das emoções. É, ainda, repousar os olhos nas estrelas que iluminam os caminhos do universo e desenham a trajectória dos gestos. É, também, ver como as palavras ficam a meio caminho dos desejos e o silêncio incendeia a música que as mãos dedilham nas cordas de uma harpa celta, de onde os sons brotam como água fresca de uma nascente entre seixos lisos e arredondados. É, sobretudo, acariciar o corpo e os sentidos à luz ténue das achas que ardem na fogueira da noite.
As mãos! Sempre as mãos viveram à frente das palavras e hoje regressaram ao futuro, ao encontro das lendas mágicas que animam os tesouros escondidos da infância e dos dias passados entre o corpo e a memória. Ou entre o corpo da memória. Ou entre a memória do corpo. Dessa memória que vemos alimentar o desejo das mãos, ou o rosto dos dias, e que atravessa entre nós e a noite, assim adiando o sono e os percursos do corpo.
Percorremos o corpo desenhando, com os apuros da técnica, os traços de uma tapeçaria que há-de expor-se ao museu dos sentimentos, que hoje despimos à luz da fogueira. Por isso derramámos cores várias e quentes pelos espaços brancos e livres, compondo uma sinfonia de formas e tons que a melodia da harpa harmonizava ainda mais. E os gestos saíam precisos e preciosos. E a obra ia ganhando a dimensão do nosso desejo, até sair dos limites apertados do tear electrónico onde os fios da teia e da urdidura se foram transformando nas distantes constelações que habitam lá para os lados da Estrela Polar. Ainda programámos a máquina com novas latitudes e longitudes, mas já não conseguimos reaver as linhas mestras da obra que fomos compondo ao longo da noite. Apenas vivem em nós as cores e os sons que animarão o museu de todos os sentimentos.
Todas as noites de céu estrelado havemos de olhar o infinito em busca das constelações que hoje desenhámos no universo das emoções.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composição de Augusto Mota sobre poema de Fernando Miguel Bernardes.

29/07/2007

um texto único ( conclusão )

IV
Já perdido numa traição ou vingança, resta-me apenas partilhar por intantes, alguns momentos, ... São momentos de paixão, estejam preparados, porque o que conto é intenso e nada ficou como antes, escutem...
- Posso dar-lhe um abraço?
Foi assim o reconhecer de uma enorme paixão.
- Claro meu Amor, ...
Levantei-me e fui em sua direcção, dizendo com o meu olhar para que permanecesse onde estava, ... Agarrei-a nos meus braços, e desviámo-nos de olhares indiscretos, se bem que não havia mais ninguém.
Encostado fortemente à parede do escritório, senti o aperto de seus braços, mas era o seu toque, o seu chorado de prazer, o seu cheiro, que foram imperando, preenchendo e bem vorazmente, obrigando-me a limitar os meus receios.
Sentia os seus delicados peitos que me tocavam e aqueciam o corpo suado, com a fragrância do imenso desejo. Castigando num beijo molhado, forcei-me a esquecer tudo ou a não querer pensar em mais nada.
Sim foi isso, foi assim que nos mantivemos por longos momentos, mas um castigo merecido corrigia o tempo acelerando-o ao ritmo dos nossos corações, mas acredito que por escassos instantes soube o que era a verdadeira paixão. Os nossos lábios tocavam-se, enquanto as nossas mãos percorriam os contornos dos nossos corpos, tínhamos de sair dali, ...
Ainda hoje procuro compreender o que aconteceu depois, porque nunca me irei esquecer, foi como viver de novo.
Recordo-me apenas daquele amor conforme o entreguei, pois dificilmente voltará para o reaver.
V
Não passou muito tempo até que nos voltassemos a encontrar, pois estávamos ali - como disse antes, os dois - constantemente, mas agora o tempo escorria por entre os dedos, como a areia fina das praias, onde passeámos juntos e o mar albergava os nossos corações com o som inconfundível do rebentar das ondas sobre o tom acobrado do areal.
O nosso olhar reflectia - ao que sei até hoje ser - Amor, em cada piscar de olhos perdi a oportunidade de contemplar a sua beleza, e mesmo em silêncio, compreendíamos instintivamente o que certamente iria acontecer.
Porém, nada aconteceu.
Na minha cabeça, pensei estar rodeado de paixão, mas tudo desapareceu tão rapidamente em relação ao que o meu Amor sentia por mim, como o final deste conto.
FIM


Manuel Rodrigues, in "As mãos de um louco não dizem pouco"( Vulto evidente )
Composições de Augusto Mota sobre poemas de autor desconhecido e maria gomes.

27/07/2007

um texto único


I

Num amanhecer diferente, ou num despertar incómodo algo acontece ou nunca terá sido assim?
Fiquei ali parado a olhar, não sentia a respiração nem sequer o eco de uma batida do meu coração, continuei parado por momentos de olhos abertos mas, sem um único pestanejar. Senti encerrado um sentimento de inactividade constante, dormente...
Não sei quanto tempo durou, não me contentei num qualquer sufoco ou sequer tremi, mesmo que por um pouco, estava ali mas, sem um pensamento inócuo.
Tentei levantar-me, creio ter sido esse o meu único pensamento, tentei fazer algo com o meu corpo para desviar o medo, criar uma barreira a todos os sentidos para que ao permanecer ali "presente"me defendesse, mas senti-me,... cuidado!
II
Afastei os lábios, num fechar de olhos delicado, senti uma secura enorme, apesar das mãos suadas, continuei ali deitado aproveitando o sussurrar de mais um amanhecer frio e bastante calmo.
A agitação empurrava os sentidos para uma luminosidade imperfeita, ofuscada uma e outra vez pelos fantasmas do pensamento ou de um abrir e fechar de olhos encadeado, ... porque à procura de uma ilusão perdida ou vagamente imaginada.
O silêncio de novo, sim, o silêncio voltava como uma onda de dor vibrante, arrebatadora como um coágulo que aumenta a cada inspirar profundo de tristeza, assim devastador porque de uma maneira ou de outra existem acontecimentos que não vamos nunca controlar.
Foi durante muito tempo algo iníquo, não saberei bem quanto porque ainda não terminou.
Continua a ser tão difícil entender, como um desejo me leva à obsessão e mais impraticável, porque não posso aceitar o quão ténue e rarefeito coloco desse ponto, a distância imensurável, ao ódio penoso.
A caminhada continua longa, ainda que encantado, não há espera de um carinho, mas de uma outra desilusão, vingança.

III

Obcecado no teu olhar, sem nunca o dizer, era com muito orgulho que te sentia na minha companhia todos os dias. À medida que os acontecimentos irrequietos iam moldando as nossas vidas, o mesmo orgulho que me inspiravas foi-se revelando na sua plenitude, ao ponto de parecer não ter retorno.
Vi o Amor, pensei e compreendi que jamais poderia estar a acontecer algo de tão excepcional, mas mais uma vez, lembrei-me da maneira mais dura que,... o Amor é cego, porém, os amantes,... conhecem-se.
Consegui reconhecer também a enormidade nesse mesmo Amor, porque a vastidão do Universo reduzida apenas a dois seres, o tempo que altera o ritmo quase tão depressa como o bater do nosso coração, a respiração ofegante, a procura do Amor.
O Amor é perfeito, apenas isso entendo, e retiro dos momentos vibrantes em que fomos amantes.

( continua )
Texto de Manuel Rodrigues, inédito.
Composições e ilustrações de Augusto Mota.





24/07/2007

na esteira de um poeta popular

Manuel Alves faleceu, ao meio dia, de 24 de Julho de 1901, faz hoje, precisamente, 106 anos, porventura consolado com o livro que Tomás da Fonseca lhe entregara tempos antes, mas humanamente triste porque se lhe estavam a abrir as portas do mistério que mais cantou e temeu - a morte.
Não terá sido "o maior poeta do mundo", como proclamou uma velhinha à passagem do funeral, em dia de mercado na Moita.
Também não fora um génio, como pretendiam, exaltados, os intelectuais de Coimbra que aqui vinham admirá-lo.
Mas era, seguramente, o maior poeta possível, de um tempo ( ainda não completamente erradicado ) em que os povos sofriam as suas vidas entre a ignorância e a miséria.
"É o Alves que canta agora,
Senhores, dai-me atenção.
Vou cantar duas cantigas
daquelas que melhores são"

O meu canto principio,
visto que assim me pertence;
mas não quero que alguém pense
que venho em desafio...
Nem eu mereço elogio
da gente que está de fora,
nem minha voz é sonora,
nem tem tal delicadeza...
Sei só dizer com certeza:
é o Alves que canta agora.
Esta pouca inteligência
que de mim estais a escutar,
se ela vos incomodar,
ouvi-me com paciência.
Bem podia a Providência
fazer-me outro Salomão!
Mas faltando esse condão,
peço aqui, seja a quem for,
por especial favor:
senhores, dai-me atenção.
Eu tenho lido na história,
profana, como sagrada;
mas o ler não vale nada
ao que é falto de memória.
Nem tu, do canto ó vitória,
tens momentos que me sigas!...
P'ra tão longe te desligas,
queres sem mim viver sozinha...
Eu com esta voz mesquinha
vou cantar duas cantigas.
Mil romances tenho tido,
dramas de bons escritores,
e sei dizer-vos, senhores,
que nada tenho entendido!
De bons génios tenho lido
páginas de perfeição;
conheço por tradição
obras de crentes e ateus,
mesmo as de João de Deus,
daquelas que melhores são.
Manuel Alves, inédito, poeta popular.
"A Poesia", óleo de Fuseli.

23/07/2007

atalho

As palavras, como as lamentações, nascem e morrem entre a névoa da manhã e a luz dourada de um fim de tarde outonal. Mas é junto às muralhas da nossa própria cidade que ritualizamos as orações e os lamentos da memória. Por isso ninguém escuta as orações dos sentidos em redor do corpo e do tempo.
Assim, que religião diviniza os segundos que sofremos em busca de uma outra cidade perdida entre anseios e devaneios? Secreta é a oração que alimenta o rosário de tais emoções! E quantas sensações comemoramos neste silêncio, quando as mãos se encostam às muralhas das recordações e adiam a conquista da cidade adormecida no regaço da noite!
Como continuar a escalada barbacã, se os sentidos e as palavras e os sentidos das palavras são as únicas armas de que dispomos para o cerco da cidade?

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Toscano.

20/07/2007

Sabres, Sementes

O homem que lavra a terra,
abre um sulco;
assim é a palavra:
rasga como um sabre,
mas é ela própria semente
em tudo o que lavra -
Abre-lhe teu coração
confiadamente,
deixa que ela se aninhe
lá dentro,
e cresça e fermente,
e te intumesça o sonho -
Deixa que a palavra seja,
ao mesmo tempo,
o arado,
a semente e a seara:
para cresceres
em direcção à luz,
não precisas
de mais nada.


António Simões, in "Diário de Lisboa" ( ligeiramente modificado ), 1.2.1981
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Anamar e Carlos Alberto Silva

16/07/2007

as cidades invisíveis

São invisíveis as cidades que criamos à volta de nós mesmos e dos passos que damos em direcção aos pontos cardeais de uma secreta navegação interior. A nosso bel-prazer lançamos os alicerces de novos horizontes e, serenamente, construímos ruas e avenidas que correm ao nosso lado, mas que, por vezes, nos ultrapassam sempre que é preciso adiantar as pontes de que nos servimos para alcançar o outro lado das palavras.
No seio desta cidade repousa a glória das viagens tantas vezes empreendidas ao sabor de um acaso que disfarça as rotas íntimas da solidão. Por vezes é nas mãos frias que aquecemos o peito abandonado ao ritmo apressado da respiração. E com elas modelamos os edifícios que bordejam as ruas e avenidas da nossa construção. E com elas, em jeito de concha, sorvemos a água das fontes que ornamentam as praças da nossa liberdade. E ainda com elas, agora aquecidas de tanto caminhar pelas sensações adentro, saboreamos os frutos das árvores que soubemos ir plantando ao longo da nossa imaginação.
É nos frutos da liberdade que ousamos descansar os olhos doridos do traçado metódico das palavras que se atrevem a significar o impossível. As cidades possíveis, essas, continuarão a ser invisíveis, mesmo que as pontes das palavras nos levem ao outro lado das emoções.

Augusto Mota, inédito, "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre textos de Carlos Alberto Silva e André Ala dos Reis.

13/07/2007

rosas ao fim da tarde

fotografias e textos de fernanda sal monteiro

12/07/2007

Sílaba de sol

ter uma sílaba de sol na boca,
procurar com ela uma palavra,
uma palavra que lavre
que brilhe, não escureça.
uma lava de som
num bosque de anacoreta,
uma palavra que dita ou escrita
não arrefeça.
uma palavra quente:
a dor, por exemplo a dor
uma rosa de carne, dizes
eu predigo tempo, prossigo.
Ah, o rumor dos dias quase felizes!
uma palavra na boca,
uma sílaba trémula
outra sílaba áspera,
uma sílaba de janela
com a palavra diáspora
e por ela, só por ela,
o som se acha.
uma rosa de carne viva
uma centelha, uma faísca
onde tudo cresça, se vista
e só com o fogo exista


José Marto, inédito.
Textos Transversais de Augusto Mota.




10/07/2007

..................valham-nos os deuses!!!!!!!!!!!








Almirante!!!!!!

A "nau" acabou de ser bombardeada com ,nada mais ,nada menos ,do que cinco distinções .Quem deveria agradecer e passar o testemunho era o "meu almirante" ( salvo seja! ) ... Mas já estou a ver a cara de admiração e a pergunta da praxe ... "O que é isto?" ... Um blogue amigo resolveu distinguir.nos ... Ainda há quem goste de nós ,e como não somos nada ,mas mesmo nada ,exagerados ,as menções vêm ,logo ,em grupo de cinco ... Não há nada como a fartura .O pior agora é escolher os blogues que classificamos excelentes ... Ora vamos lá a ver se não ferimos susceptibilidades ... A nossa vontade ,vontadinha ,era passar o testemunho a todos .Na impossibilidade ,cá vai ( valham.nos os deuses!!!! )

08/07/2007

................................regresso

como a ave que adormece
entre as mãos ausentes do poeta
retorno ao húmus da terra
exangue
para continuar
humana
entre as pedras e as árvores
densas
da barbárie


gabriela rocha martins ,inédito ,in "Canto.Chão"
composição de Augusto Mota sobre poemas de Carlos Alberto Silva.

04/07/2007

verão

por campos e casas
bufando como um touro
passa o suão
com o seu hálito de fogo
e as bagas são brasas
na tarde de verão

poema de antónio simões
composição de Augusto Mota sobre poema de António Simões


03/07/2007

Os Tigres

"Escreves
enquanto os cisnes passam" -*

mas tu procuras os tigres
da sombra e da luz,
para os cavalgares até à exaustão -
Deixa ficar os cisnes, imóveis,
no lago parado da memória -
( era no jardim da tua infância,
e ao domingo havia música no coreto ),
e vem, felino, domar os tigres da sombra e da luz,
que esperam por ti junto ao cais da noite;
para neles viajares dentro do teu sonho -
Vamos, salta-lhes para cima,
agarra-te bem às rédeas de luz das suas crinas,
e vai voando sobre os prados em flor
que crescem no avesso da noite,
até chegares às margens
onde nasce a manhã -
e aceitando as vestes novas que o dia te estende,
levando pela mão
os agora pacificados tigres do teu coração,
deixa-te ir vogando, tranquilo, no regaço do vento -

(*citação de um poema de Yvette Centeno )


António Simões, inédito, Louredo, 1995
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

01/07/2007

Margem Sul ( Canção Patuleia )



Ó Alentejo dos pobres,
reino da salvação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.
Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.
A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Urbano Tavares Rodrigues, ( cantado por Adriano Correia de Oliveira, in "Margem Sul", Orfeu, 1967. "Obra Completa", Movieplay, 1994 )
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.