25/11/2007

1052 .Emily Dickinson ( 1830-1886 )


I never saw a Moor-
I never saw the Sea-
Yet know I how the Heather looks
And wath a Billow be.
I never spoke with Good
Nor visited in Heaven-
Yet certain am I of the spot
As if Cheeks were given-
_____________________
Nunca vi uma Charneca-
Nunca vi o Mar-
Todavia sei que aspecto tem a Urze
E o que uma Onda é sei imaginar
Nunca falei com Deus
Nem visitei no Céu a sua mansão-
Todavia tenho a certeza do lugar
Como se tivesse o Mapa na mão
Emily Dickinson,
in "Antologia de Poesia Anglo-Americana - de Chaucer a Dylon Thomas", ( edição bilingue ), selecção, tradução, prefácio e notas de António Simões, ed. Campo das Letras, 2002, pp.334-335.
Fotografia e Arranjo Gráfico de Augusto Mota.










18/11/2007

fogo de artifício

Hoje há festa. Subo ao céu da noite agarrado à cana de um foguete de luzes e, de repente, sinto-me pairar sobre o arraial, envolto em flores de mil cores. É fogo este artifício que inunda os olhos e queima as mãos. É de artifício este fogo que desabrocha antecipadamente em nova Primavera, enquanto pétalas de luz desfazem por entre os dedos, riscando a noite em todas as direcções.
É efémera esta viagem aos confins do tempo! Mas os olhos querem ir sempre mais além do que as mãos podem tocar. Por isso voamos sobre a noite da festa, entre foguetes e luzes. Por isso imaginamos o adro, lá em baixo, ornado de recordações e sabores. É o passado que vem até nós, agora na forma de arcos ornados de flores recortadas em papel de seda e cheiros típicos dos Invernos gelados, só aquecidos pelas fogueiras de rua e pelo café da púcara, assente à pressa com uma brasa viva bem soprada. Chega-nos ainda o som das bandas de música dos dois coretos, a tocar ao desafio, enquanto pares de ocasião volteiam à vontade na estrada, até que algum automóvel vem interromper a dança. Que depois segue, ainda mais animada.
Tudo vemos aqui de cima. O tempo. O espaço. A memória. A festa de hoje.
O fogo de artifício continua a subir e o céu já está cinzento de tanto fumo. Vou descer agarrado a um dos minúsculos pára-quedas azuis que um foguete de luzes espalhou, agora mesmo, ao redor da noite.
Tudo vimos lá de cima. O tempo. O espaço. A memória. A festa de sempre.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Textos Transversais de Augusto Mota.

15/11/2007

manhã, manhã, manhã

onde quer que estejas,
sê quanto és:
na solidão da rua,
na solidão da casa,
teu pensamento mantenhas
numa linha clara;
e lá dentro de ti,
na solidão que és,
acende tua fogueira:
arda tua esperança,
tuas horas lúcidas
aquelas em que foste
coração do mundo
gerando a manhã.
e nasça e irrompa
na fogueira clara,
tua alma, teus dedos
acariciando o fruto,
asa de frescura,
a paz apetecida,
da negada manhã.

sê quanto és
sê intenso e claro;
aperta em teus dedos
o fruto conseguido;
aperta, dá-lhe a forma
do vento que te leva
pelo coração dos outros -
ai asa de ternura,
coração do mundo
sangrando a manhã.
e na noite que te envolve
mantém a alma acesa

fermentando o DIA.



Poema inédito de António Simões
Fotografias de Fernanda Sal Monteiro, em Paris.

13/11/2007

um grão de texto musical

encontrei na minha pauta
um grão de música disforme
vindo de qualquer acorde
soprado na minha flauta
onde dormia obscura fome
num dó num ré num sol afogado
que fazer com aquele grão
na minha pauta encrostado
vibrando na minha mão
por meus lábios encontrado
José Ribeiro Marto ,inédito ,in "a celebração dos dias"
fotografias de Fernanda Sal Monteiro ,em Paris
edição do filme - gabriela r martins.

08/11/2007

a estação fértil

Fértil é a estação do ano onde proliferam as angústias que, como folhas de árvore amarelecidas pelo tempo, descem, suavemente, em nossas mãos outonais. Também elas - as mãos - vão deixando cair no esquecimento as memórias dos dias que ainda não antecipavam nada para além do que, sofridamente, iam desenhando no horizonte áspero e branco do papel. Também elas, silenciosamente, nos arrastavam - e arrastam - até esse horizonte onde a espera é sempre igual ao cansaço das noites passadas entre viagens e vertigens, entre fendas e fugas, sobre precipícios perdidos à beira de caminhos sem pontes visíveis entre as margens do delírio e as da imaginação fértil. Assim ficámos - e ficamos -, permanentemente, à ilharga da madrugada, sem nos atrevermos a escalar outras dificuldades para além das que os olhos pressentiam - e pressentem - e as mãos conseguiam - e conseguem - dominar.
Fértil é a noite onde proliferam as sendas sinuosas dos desencontros que, como rios de fogo, avançam pelas vertentes áridas da angústia a caminho das várzeas verdes da esperança. Mas que esperança podemos esperar depois de todas as colheitas terem desaparecido debaixo da lava incandescente de tanta espera?!
É pelo sossego da noite, antes de as mãos, cansadas, adormecerem encostadas ao brilho sôfrego dos olhos, que empreendemos as grandes viagens por entre os espaços vazios da música e do silêncio. Seguimos a magia das palavras que nos vão acordando os passos incertos e os significados menos esperados, sempre a caminho da memória das cores e das coisas. E dos cheiros que, por vezes, arrastam consigo o saber e o sabor do passado.
Fértil é a viagem por entre os silêncios da música, quando tudo parece ir acabar em breve e sentimos a pressa das mãos por cima das letras que vão escrevendo as palavras que, inesperadamente, vêm ao nosso encontro. Mas nem sempre elas conseguem evocar todas as imagens que vivem agarradas à memória dos aromas vários de uma merenda de trabalhadores por entre paveias de pasto acabado de cortar, ou agarradas à memória do cheiro ácido e quente da terra abençoada pelo bico de uma charrua, enquanto as leivas deslizam pelo aço luzidio da folha, pondo a descoberto os pequenos bolbos da erva-canária, ou trevo-azedo ( Oxalix pes-caprae ), que, à noite, antes da ceia, torrávamos na lareira da infância, junto ao brasido. Por isso desesperamos. Por isso viajamos, entre o ontem e o futuro que as palavras antecipam a cada esquina dos seus e dos nossos próprios sentidos.
Férteis são todos os sentidos do corpo e das palavras .Por isso, só ficamos apaziguados quando as mãos conseguem desenhar, letra a letra, as imagens vivas que arrastam os olhos e a memória pelos íngremes atalhos do corpo, onde já se pressentem as vertigens de uma viagem, sem retorno, ao centro da própria noite.

Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
Fotografias e composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Toscano e Carlos Alberto Silva.

04/11/2007

Sonnet XVIII


Shall I compare thee to a Summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
and summer's lease hath all too short date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
and often is his gold complexion dimmed;
and every fair from fair sometimes declines,
by chance or nature's changing course untrimmed.
But thy eternal summer shall not fade,
nor loose possession of that fair thou ow'st,
nor shall Death brag thou wand'rest in his shade,
when in eternal lines to time thou grow'st.
So long as men can breathe or eyes can see,
so long lives this, and this gives live to thee.

William Shakespeare ( 1564-1616 )
Tradução de António Simões
Fotografia de Fernanda Sal

Arranjo gráfico de Augusto Mota.

01/11/2007

divirtam-se ,srs professores...

...se isso vos apraz!

....................pai

quero.me na criança que atravessa
o quarto desenhado a preto e
branco e
onde guardo os abraços firmes
de meu pai

tenho.o na imagem que revejo e
nos barcos que deixam
sós
o cais

são como eu feitos
de gritos
e de silêncios
vagos

revejo.me na criança que brinca
à cabra cega e ao arco e
sinto.a tão próxima de mim
que tenho medo de perdê.la
ao acordar

há um ritmo em cada estação de vida
e a paragem mais próxima
do teu nome

pai

é o verbo a conjugar

___________________________

ainda digo mãe
mas pai já não
quando o digo
é um sussurro
estranho quase mudo
espero um pouco
tenho uma festa no cabelo -
como se da vida inteira
nesse instante tivesse tudo

1ºtexto - gabriela r martins ,inédito ,"canto.chão"
2º texto - josé r marto ,inédito
edição - gabriela r martins.

31/10/2007

cantos de outro tempo - 1ª série


1. esperança
noite funda, amor;
absurda e louca noite longa
em que ninguém adormece.

tua mão na minha - uma flor!
( a esperança que o amor prolonga )
- e em nossas mãos amanhece!


2. sim
irmão, é aqui -
é aqui que o mumdo acaba e principia,
onde as crianças riem dos mistérios

e os rios correm sem metáforas;
onde os homens de pedra envelhecem
e os deuses ressonam e cheiram mal dos pés:
é aqui.
AQUI-AMANHÃ


António Simões, inéditos, "cantos de outro tempo".
Textos Transversais de Augusto Mota.

24/10/2007

a faina maior

Os comboios partem antes de nos transportarem ao destino mais conveniente .Sem bilhete, nem moeda corrente, como num pesadelo, acordamos no cais de embarque de uma apressada estação ferroviária, estranha e estrangeira, onde não há ligação, em tempo útil, para o interior de nós.
Há mulheres a abraçar despedidas e a oferecer os doces tradicionais dos grandes entroncamentos ferroviários . Já não sabemos para onde vamos. Vamos. E sujeitamo-nos a viajar numa carruagem em jeito de bancada, na companhia de altas patentes de um exército da noite, como se assistíssemos à final de um jogo de guerra. Iniciamos a viagem. O revisor começa a sua tarefa. Sem bilhete, disfarçamos a angústia atrás dos galões reluzentes dos generais que connosco viajam para um campo de batalha desconhecido. O revisor, agora também ele general, toma o comando das operações e o comboio apita em direcção ao cais dos lugares que nos hão-de levar a uma Terra Nova qualquer, onde a faina maior será a pesca à linha das nossas próprias emoções.
Os pesadelos da noite antecipam sempre, teimosamente, as angústias que se alimentam da memória de ontem. Por isso os dias pesam mais sobre o corpo. Por isso, as mãos, exaustas, adormecem junto à fogueira, quando lhes apeteceria mais traçar, nos mapas do tempo, as rotas de outras viagens. Por isso os olhos, atentos, se ausentam na distância que vai de uma estação ao cais da madrugada do dia seguinte. Por isso.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Textos Transversais de Augusto Mota.

21/10/2007

as mãos

as mãos
as mãos todas
as mãos de toda a gente
as mãos de todas as coisas-
as mãos das árvores e das nuvens
as mãos das pedras e das flores
as mãos dos pântanos e dos rios
as mãos da terra e do mar;
tudo e toda a gente de mãos dadas
a lançar a semente da seara futura-
e as mãos do vento a escrever ternura no ar.
( para si ,Contra.Almirante ,o primeiro a cair nas "garras" do
grumete ,uma nova experiência ,feita com muita amizade ... e
não se zangue com sua - dele - ousadia )

16/10/2007

....................o verbo

uma experiência que ofereço aos meus amigos:
Fernanda Sal Monteiro
e
Augusto Mota
( como ,ainda ,não domino a técnica da filmagem ,com o à vontade que desejo ,não me atrevo a brincar com os vossos textos ... mas lá chegarei .prometo a toda a tripulação! )

13/10/2007

photoetrys ( da imagem ao texto )


uma pequena brincadeira de principiante também aqui

03/10/2007

Entregas

olha a minha pele, esta chama vermelha e azul
ardendo como papel, vibrando como lume
olha esta demora pelo corpo pelo cutelo
pala vibração do sangue pela tensão, estou mudo
olha a minha pele, a cor castanha, a veia negra, vermelha
olha este pulsar de mão, esta franca distensão, a veia azul

olha a minha pele nua, escura, tecendo como agulha
o risco, e nela o florescer do tempo neste instante
na corrente das horas permanece quente, dura
olha a minha pele, a carne, o lume que incendeia
continua aceso, agora o sangue alumia
e a nossa obsidiante teia irradia
a vibrante, a perfeita, a inconclusa teia.
olha a minha pele, olho a tua nela
no momento incandescente morremos
com a pulsão dos dentes mordemos
a luz comovente, aberta da janela
José Marto, inédito, 2006.
Fotografia e composição de Augusto Mota sobre poema de Maria Toscano.

30/09/2007

minha mãe

Fotografias e composição cromática de Augusto Mota sobre poemas de António Simões

23/09/2007

cinco variações para o mesmo tema - Outono

I
canto por ti o vento
a vida
em mês de Outono
e
a folha
guarda o sentido
oculto
.em mim.

II
na sagração
das árvores
nuas
celebra.se o ritmo
e a dança
o vento
em tom de liberdade
.outono.

III
a folha
sela o sagrado
e
o profano
.outono em mim.


gabriela r martins ,in "canto.chão".
fotografias e composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões e gabriela r martins.

12/09/2007

Voa meu Corpo

3. Voa meu corpo
Voa, meu corpo,
na brisa do vento,
no bafo do suão
que arde violento
e varre as planuras
como um lobo de lume -
Voa ,meu corpo,
ancorado na luz.
4. Falávamos do tempo
Falávamos do tempo -
Tocaste-me ao de leve os cabelos
e foste abrindo clareiras para o vento passar;
perto, uma mulher cantava em surdina,
num quintal, encostada a um muro de pedras soltas -
O sol do Alentejo cegava-nos as palavras:
o que íamos dizendo sobre o tempo
escorria-nos agora dos nossos olhos
ancorados na luz.


António Simões ,inéditos , 1999.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

05/09/2007

miosótis



Como um anjo persa descemos do trono para semear, como penitência, miosótis ( Myosotis scorpioides ) pelos campos alagados dos territórios da ausência e do sonho. Assim não vamos esquecer o trajecto dos olhos a caminho de umas mãos agora vazias dos frutos da véspera. Vamos, pois, esperar pela estação própria, quando na terra húmida germinar uma delicada renda vegetal para, então, bordar uma coroa de singelas flores azuis nas mãos frescas da madrugada e, com elas assim enfeitadas, subir a grande escadaria que antecede o arco-íris de todas as sensações. De lá de cima espalharemos aos quatro ventos sementes de bonina ( Bellis perennis ) que também hão-de germinar em abundância por montes e vales, assim perpetuando a memória dos dias claros.
E pelos bosques do arco-íris descansaremos os sentidos ao longo de veredas orladas de pervinca ( Vinca minor ), enquanto aguardamos o desabrochar do azul-violáceo de suas flores. Com elas faremos um filtro raro que acautele a distância do tempo e traga de volta o feitiço das noites quentes, quando as vozes chegam de muito longe, de tão longe que apenas adivinhamos o verdadeiro rosto das palavras, embora o saibamos coroado de miosótis e de boninas.
E pelos lagos que animam a frescura destes bosques havemos de procurar o nenúfar ( Nymphaea alba ) e o golfão-amarelo ( Nuphar luteum ) para com os seus pedúnculos e flores, pacientemente, fazer os colares honoríficos que irão distinguir os bons serviços prestados por nós mesmos, em nosso proveito próprio.
Assim frutifiquem todas as sementes que lançámos aos ventos do sonho!
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Fotografias e Composição de Augusto Mota.

03/09/2007

Dizendo




Nas veias remotas do rosto do descampado,
no branco véu oculto, nas pedras , na sede
ou na água do próprio gado
está outro deus presente,
talvez do mar profundo
a ressomar no retolhado.

Nunca pronunciei bem certas palavras -
sempre traído pela escuridão fonética
das espadas da minha fala

digo castelo
e de guerreiro fiel ao dizê-lo,
visto à espreita no vale a minha pele
digo cruz ,digo rei
digo magoada solidão
e nela a cruz da mulher da grei

o deus nos olhos é de mágoa
as preces longínquas nas estradas
são de água

digo desembainhada espada,
o mesmo é dizer uma flor branca,
saída do colo de uma princesa perdida

digo sal e uma barca salta dos dedos
aos olhos do guerreiro
escondido, atento ao rio

nunca pronunciei bem certas palavras -
sempre traído pela escuridão fonética
das espadas na minha fala
a ver rezar:
- à outra, à mesma ou à sobreposta pedra
in a celebração dos dias

José Marto, inédito.
Fotografias de Augusto Mota.




31/08/2007

Excessos




3. Excessos

Excessiva, esta emoção
de fim de tarde -

Excesso
de quem traz dentro do peito
o universo
e sente rebentar-lhe o coração
porque a alma já não cabe

4.Ninguém Mais

Numa galáxia distante,
um pássaro pousou
numa pedra
num som quase imperceptível de veludo -
Ninguém mais o ouviu em todo o universo
senão minha alma que ouve e sabe tudo

5.Tão leve Que Fica

Há os que passam na rua
e mal tocam o chão,
têm passos de lua,
tão leves que vão.

O amor que é pesado,
e pesa um milhão,
neles é levitado
porque aos outros se dão.
São mistérios do amor
que assim se multiplica:
a alma do doador
deu tudo, ficou mais rica.
Quando a alma se eleva,
o corpo logo levita,
de amor tão pesado
tão leve que fica.

António Simões, poemas inéditos
Brian Eno, "The Plateau of Mirror, First Ligth" and "Becalmed"

26/08/2007

48 .silogismo









Era um jardineiro -filósofo. Cada flor
acarinhada seria a enunciação de
uma premissa. A exuberância dos
canteiros a conclusão lógica de tão
aromáticas proposições
.

Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado"
Montagem de gabriela r martins sobre fotografias de Augusto Mota.

Swan Lake - Pas de Deux .Polina Semionova e Vladimir Malakhov

23/08/2007

2. O Cálice dos Olhos

Estendes o olhar -
o cálice dos olhos! -
e nele recolhes,
gota a gota,
a derradeira luz do dia -
Uma asa tardia de andorinha,
retida nessa última gota,
vai ficar voando
no infinito de teus olhos.
Com ela,
tonta ainda,
( tontos os dois! )
do vinho avermelhado do poente
que te enche o cálice
até à borda,
atravessas o sono e o sonho,
e, num ruflar macio de asas,
irás, por fim, pousar
junto ao pequeno charco de luz
onde nasce o dia.

Exausta
da travessia-embriaguez da noite,
a andorinha tua alma
ainda dorme
no aconchego das pálpebras,
no silêncio desta página -

Viremo-la, pois,
sem rumor,
e passemos,
pé-ante-pé
ao próximo
poema



António Simões, inédito.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

21/08/2007

conselhos de um velho apaixonado

poema de carlos drummond de andrade

20/08/2007

exorcismo

______________exorcismo
no universo mítico das cores ,o branco mistura.se ao negro
e nesse momento sublime de criação
o pintor exorciza a morte_________________.

texto de gabriela r martins.
composição cromática de Augusto Mota sobre foto de Araújo Lacerda.

19/08/2007

a ribeira das fragas

para o Orlando Cardoso
Do mirante vimos o revérbero do calor bater nas fragas abruptas do outro lado do desfiladeiro.
Mas olhar para o fundo da garganta, ver a ribeira de Alge a saltar pequenas cachoeiras e a correr por entre a ramaria de árvores frondosas antecipou-nos a frescura das suas águas e o conforto da sombra de tanto amieiro ( Alnus glutinosa ), de tanto carvalho ( Quercus faginea ), de tanto freixo ( Fraxinus angustifolium ), de tanto loureiro ( Laurus nobilis ). E descer lá abaixo, depois de tanto calor, foi descer a uma outra realidade, onde um subtil jogo de luz e sombras parecia criar uma ilustração tridimensional de um bocado do paraíso, com a água a correr por entre penedos e manchas de claridade projectadas por um sol da tarde, coado pela folhagem viva e agradecida daquela floresta primeva. Como numa catedral havia o silêncio respeitoso das pessoas a quererem gozar a sua paz e a paz dos outros. Só as levadas que outrora deram força às engrenagens das azenhas pareciam querer impor a música diluída da sua corrente, apressada em retomar o curso da ribeira.
Apetecia mergulhar os pés e as mãos naquela água límpida e caminhar, caminhar por aquele líquido silêncio, até encontrar o resto do paraíso, ou, então, adormecer bem no meio da ribeira, em cima de um penedo arredondado e batido pelo sol para, como uma sereia, divagar pelos caminhos encantados das mãos, dos olhos e das palavras. Construiríamos a noite em pleno dia e saudaríamos a vontade de ver as árvores florescerem milhares de estrelas. Estrelas para iluminarem o rasto das palavras que vamos deixando atrás de nós, como indício de uma peregrinação a caminho de nada e de tudo. Talvez até construíssemos uma jangada que nos levasse a outros continentes, perdidos entre a memória e os dias claros.
Se aportássemos ao litoral da memória, em dia bem claro, iríamos, por certo, a uma azenha trocar grão para, depois, espoar muito bem a farinha e fazer pão fino que alimentasse o sonho e o passado. Do farelo tenderíamos alimento para os cães que estivessem de guarda ao nosso sossego, ou nos ajudassem a pescar alguma truta ( Salmo trutta ) mais distraída. De varas de eucalipto ( Eucalyptus globulus ) faríamos uma ponte de aventura suspensa sobre os dias escuros, já que do outro lado há sempre lugar para novas esperanças. Ou, então, atravessaríamos a ribeira a vau, se a corrente não fosse muito forte e não houvesse o perigo de sermos arrastados para as margens longínquas do passado. Uma vez do lado de lá regressaríamos à realidade de uma tarde quente de domimgo.
Do mirante vimos o reverbéro da emoção ao bater nas fragas abruptas do outro lado da memória.

Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de António Simões.

18/08/2007

.....................................louca mente

quero dormir a noite e
acordar o dia
no silêncio de mim ou na confusão
de ti
quero olvidar o complexo
solto de um afago negado
sentido de repente na mão
que estendo ao encontro
de nós
quero ser água e vento
lamento quente ausente
presente no estar aqui em ti
sem mim
quero abrir o pranto à alegria
imensa de um encontro a sós
em nós pensado em sol
sustenido ou sentido no piano tocado
a sul e inventado a norte
quero ser a ausência presente
no sentimento vivido nas mãos
que percorrem os meus e os teus cabelos
revoltos
quero
inventar um canto de repente
não!
quero dormir e acordar
somente e
se alguém ou quem disser o contrário
mente.

gabriela rocha martins, in "de nada".
Composições de Augusto Mota sobre poemas de autor desconhecido e Maria Toscano.

17/08/2007

je m'apelle Bagdad

o beijo

eu
sou
o silêncio a pulsar
nas mãos enfeitadas
por flores de almíscar
colhidas
no verão
dos sonhos
confiscados
tu
és
o
beijo
roubado
a Kreonte


gabriela rocha martins, in "de nada ..."
composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Toscano.

15/08/2007

1. Corpoema


quando sinto a poesia
dentro do corpo
é que sei
que não estou morto -
Sob as pálpebras,
no rosto,
entre os dedos,
as palavras,
como crisálidas adormecidas,
esperam,
trémulas,
as asas que as desprendam -
as asas que tu lhes trazes! -
Pois é só quando chegas
e me beijas o corpo,
verso a verso,
e o lês como se lê um livro,
que elas se libertam
e eu sei que estou vivo -
E vou
e voo
em cada palavra
ao encontro de ti
ao encontro de mim
no corpo do poema.


António Simões, inédito, "Versos Antigos".
Textos Transversais de Augusto Mota.


14/08/2007

variações cromáticas sobre uma dália

fotos e manipulações de Augusto Mota.

saudade de mim - glosa*

o teu corpo e o meu corpo
ternura feita saudade
bruma sono outonal
hora que foge
perdida
.
louca
durmo o crepúsculo
e todo azul-de-agonia
em teu corpo esmaecido
em sombra a além me sumo

*mário de sá carneiro
glosado por gabriela r martins

13/08/2007

variações cromáticas sobre um girassol de cor


fotos e manipulação de Augusto Mota.

12/08/2007

uma homenagem a Torga


caricatura de Luís Veloso manipulada por gabriela r martins.

Centenário do nascimento de Miguel Torga



Aos Poetas
Somos nós
as humanas cigarras!
Nós,
desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
que se abriga
ao luar.
Nós, que nunca passamos
a passar!...
Somos nós, e só nós podemos ter
asas sonoras,
asas que em certas horas
palpitam,
asas que morrem, mas que ressuscitam
da sepultura!
E que da planura
da seara
erguem a um campo de maior altura
a mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto
a taça fraternal deste meu canto,
e bebo em vossa honra o doce vinho
da amizade e da paz!
vinho que não é o meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!
E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
de uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
que se calcem de sonho e de poesia
pela graça infantil da vossa mão!
Miguel Torga ( 1907 - 1995 )

11/08/2007

troncos, texturas e folhas

fotografias de augusto mota

a nau dos corvos

O farol na ponta do cabo adensa o mistério que fica para além do horizonte cerrado e, em breve, uma chuva grossa, tocada a vento, impede a viagem pelos miradouros do sonho. Não é noite, mas gostaríamos que os olhos corressem por uns secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a estibordo da nau que navega o mar de todas as sensações. Não há corvos, mas gostaríamos que o seu grasnar anunciasse o fim de todas as tempestades, como se a barca em que vogamos fosse a redenção para as lágrimas de todos os queixumes. Ouvem-se, apenas, os gritos das gaivotas contra o vento forte que as faz planar sobre as rochas marcadas pelo tempo e pelas vagas. Mesmo assim continuamos a viagem a caminho de um novo regresso.
Regressa-se sempre pelos caminhos apressados que as mãos vão talhando e atalhando nas paisagens marítimas do nosso olhar. Mesmo em dias cinzentos sabemos esculpir as nuvens para que o sol festeje o verde que corre pelos campos fora até às arribas que os protegem da maré-cheia. E o amarelo que pontilha montes e vales é o que resta da sagração do mar e da Primavera da terra. São secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a bombordo das sensações que povoam o mar de todas as naus. E é nelas que poisam os corvos-marinhos ( Phalacrocorax carbo ) dos bons e dos maus presságios. E é nelas que, no silêncio da espera, aportamos, peregrinos, em terras distantes e tristes. E é nelas que, no silêncio do desejo, transportamos as árvores que plantamos à beira do sonho, ou arrecadamos os frutos silvestres que alimentam a viagem. Levamos, por vezes, abrunhos bravos, colhidos em manhãs orvalhadas, para matar a sede e a saudade.
Que terras distantes são estas que ficam para além dos gestos e do olhar? Difíceis viagens esperam o corpo nas rotas de tamanha empresa!
Se a sede se mata com o orvalho dos frutos selvagens, já a saudade se alimenta das árvores que abrolham, perpetuamente, à ilharga das ilusões.

Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
Textos Transversais de Augusto Mota.

10/08/2007

Soneto já Antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres pra Iorque, onde nasceste ( dizes ...
que eu nada que tu digas acredito ),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem julguei amar,
nada se importará... depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Soneto de Álvaro de Campos.
Composições de Augusto Mota sobre poemas de Maria Gomes e Maria Toscano.

08/08/2007

Daisyspairing*

Ah, Daisy, se eu um dia te encontrasse
À esquina de um verso, de surpresa,
Sem que o Álvaro soubesse, acesa
Plo súbito rubor da tua face,
Minha alma, então, talvez tentasse
Livrar-te do soneto onde estás presa.
E tu, Cecily, vinhas, com certeza,
Ajudar-nos a sair deste impasse.
Mas, minha Cecily, pensando bem,
A Daisy, recordo, ainda tem
Recados do Álvaro, que é Fernando,
Pra dar aos amigos e, claro, a ti -
Vai, Daisy, que eu ficarei aqui,
À esquina do verso, te esperando.
*despairing of meeting Daisy


António Simões, in "Diário de Lisboa", 8 de Novembro de 1988
( a propósito do Soneto Já Antigo de Álvaro de Campos, "em conversa" com Daisy e a "estranha" Cecily )
Textos Transversais de Augusto Mota.

07/08/2007

ziguezagueando ...

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CONVITE

EDITORIAL MINERVA e os autores têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra POIESIS - antologia de poesia e prosa poética portuguesa contemporânea, Vol. XV - (capa do artista plástico Miguel d’Hera), a realizar no dia 13 (Sábado) de Outubro de 2007, pelas 16:30 horas em:

AUDITÓRIO CARLOS PAREDES

Avª Gomes Pereira, 17 – Benfica – Lisboa
Acessos: Autocarros: 16 C, 24, 50, 84

VEJA AQUI A LOCALIZAÇÃO DO AUDITÓRIO

Apresentação dos autores e da obra pelo “animador de ideias” Ângelo Rodrigues. Todos os autores interessados terão oportunidade de uma breve intervenção. Momento de dança contemporânea e clássica pelo grupo da professora Fernanda Mafra - Barreiro. Selecção e leitura de dois poemas da obra por Cristina Estrompa e von Trina.
Alguns Autores:
Ana d’Ascenção
Ana Paula da Conceição Nunes
Ana Paula da Cruz Santos
António Augusto de Aguiar
Eva Fontes
Gabriela Rocha Martins,
etc...

Gratos pela honra da comparência
Será servido um Porto de Honra