24/01/2008

2ª Edição de Wanya - Escala em Orongo, uma viagem no tempo...



Porque estamos a dois dias do lançamento da 2ª edição de "Wanya - Escala em Orongo", achámos pertinente "pedir emprestados" alguns textos e imagens, à Sara Franco e à Maria João Franco.
Mas, se quiser, e, achamos, obviamente, que o deverá fazer, ler todos os pormenores sobre esta obra, e, também sobre a entrevista feita, em 1973, por Vasco Granja, a Augusto Mota e Nelson Dias, faça.o aqui...

1 .Augusto Mota ( fotografia actual )
VASCO GRANJA SOBRE "WANYA - ESCALA EM ORONGO", EM 1973

Nelson Dias
, um pintor que se sentiu atraído pela linguagem da banda desenhada, confessa-nos que este meio de comunicação é a mais específica forma de arte que conhece. Professor de Desenho na Escola Industrial e Comercial de Leiria desde 1964, Nelson Dias acaba de lançar, em edição da Assírio e Alvim aquilo que pode ser considerado o primeiro álbum de narração figurativa portuguesa de concepção moderna: Wanya - Escala em Orongo.
Dias é o autor dos desenhos e a seu lado encontra-se Augusto Mota, que escreveu o argumento deste álbum. Igualmente professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria, Augusto Mota tem desenvolvido uma actividade constante na crítica literária e nas artes gráficas, tendo participado em diversas exposições colectivas de pintura.
Para Nelson Dias a narração figurativa é um meio eficaz de comunicação, especialmente em Portugal onde tudo está por explorar num domínio tão vasto e aliciante.
Perguntei a Nelson Dias quais os autores que mais o influenciaram na criação do seu estilo. "Não directamente", respondeu o desenhador, "mas Saga de Xam, de Nicolas Devil, representou muito para mim, estimulando-me bastante no sentido da criação gráfica. Influências de outros autores só por acaso é que as poderia sentir."
Augusto Mota, por seu lado, acha benéfico o aparecimento de Wanya - Escala em Orongo, por permitir um movimento de expectativa em torno de novos autores. Qualquer coisa talvez semelhante ao que está a passar-se em Espanha, onde nestes últimos tempos surgiram numerosos autores de estilos diversos e apresentando criações que nada têm a ver com a produção tradicional. Três anos foi quanto levou a executar este álbum aos seus autores. Claro que este prolongado período só se compreende num país onde os quadradinhos não são ainda considerados como uma manifestação artística. Mas Mota e Dias confiam na boa recepção do seu trabalho por parte do público e da crítica. Ambos estão atentos ao que de mais importante se passa em Espanha, na Itália, na França, nos Estados Unidos. Autores como Esteban Maroto, Enric Slo, Victor de La Fuente, Hernandez Palacios, José Bea, Guido Crepax, Philippe Druillet ou Robert Crumb significam muito para os dois criadores de banda desenhada. Certamente que o impacte gráfico nestes autores é frequentemente superior à validade temática das suas histórias.
Um tipo de narração figurativa tomando como base a crítica da sociedade, ou seja, uma forma de arte de intervenção social, é aquilo que preocupa Nelson Dias e Augusto Mota. Tudo isto é visível em Wanya, onde se nota uma mensagem pacifista de carácter universal, propondo-se a heroína desta história eliminar os derradeiros vestígios de uma civilização que pretende fazer da guerra a sua razão de ser. Tendo perfeita consciência dos problemas que afectam o aparecimento de um estilo português de banda desenhada, Augusto Mota e Nelson Dias sugerem em Wanya uma das vias possíveis para a concretização da actividade normal neste sector da criação artística - reflectir nos quadradinhos os problemas que preocupam o homem, servindo-se de uma concepção gráfica autónoma sem qualquer referência obrigatória às produções estrangeiras.
Wanya - Escala em Orongo é a prova evidente de que pode existir uma banda desenhada portuguesa de qualidade. Mas a última palavra cabe, como não pode deixar de ser, ao público, que decidirá se deve apoiar ou contestar o esforço de Augusto Mota e Nelson Dias.

Texto de Vasco Granja (1973)
(Publicado por Sara Franco)
***

2 .Nelson Dias ( fotografia de Augusto Mota )

3 .Convite.


4 .Capa Final de "Wanya - Escala em Orongo"


3 .Prancha inédita.

"WANYA - ESCALA EM ORONGO", UMA TOMADA DE POSIÇÃO NO CONTEXTO CULTURAL PORTUGUÊS

Um acontecimento de relevante importância ocorreu recentemente na Livraria Opinião com o lançamento de um álbum de banda desenhada que se afasta deliberadamente de tudo aquilo que se fez até hoje em Portugal: Wanya – Escala em Orongo.
Os seus autores, Augusto Mota e Nelson Dias, concederam-nos alguns momentos de atenção, durante os quais procurámos avaliar as suas intenções, detectando o que representa para ambos a linguagem da banda desenhada.

Vasco Granja – Diga-me, Augusto Mota, que significa a vossa criação de “Wanya – Escala em Orongo”?

Augusto Mota – Parece-me ser necessário referir, em primeiro lugar, a necessidade de produzir banda desenhada, encarando este facto como uma experiência importante para nós.
É também uma experiência importante editar uma obra como “Wanya - Escala em Orongo”. É também uma enorme responsabilidade para o editor, pois, como se sabe, verifica-se uma certa relutância no nosso meio em editar banda desenhada como uma forma de arte.

V.G. – É portanto uma experiência inédita para vocês.


A.M. – Eu até preferia chamar-lhe, em vez de banda desenhada, um outro nome, por exemplo, narração figurativa, pois de “Wanya – Escala em Orongo” sai um pouco fora do âmbito normal dos quadradinhos na medida em que o grafismo é diferente, concedendo um lugar destacado a uma visão subjectiva, e o texto é utilizado com uma força distinta do habitual, sublinhando determinados aspectos do desenho. Com esta obra, e sem pretender intelectualizar a narração figurativa, tentámos que ela fique enquadrada, no contacto português, dentro do plano de criação cultural positiva.
Por entendermos que muitos dos intelectuais portugueses se afastam de tudo o que seja a narração por imagens, decidimos mostrar que esta deficiência de natureza estética não tem justificação.
“Wanya – Escala em Orongo”, significa portanto uma tomada de posição em relação a certos preconceitos mantidos por uma geração que não aceita a originalidade da narração figurativa.

A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM

V.G. – Encara a narração figurativa como uma forma de arte?

A.M. – Sim. Tudo o que é imagem tem um significado muito especial no mundo de hoje. Permito-me destacar a importância da narração figurativa onde a imagem representa uma função diferente daquela que desempenha no cinema ou na televisão, cujo carácter fugitivo não permite o espectador apreender os seus pormenores. Claro, trata-se de linguagens distintas, cada uma delas com os seus próprios princípios.

V.G. – A narração figurativa para si é o meio ideal de comunicação?

A.M. – Para mim, representa alguma coisa mais do que aquilo que nos permite a palavra.

V.G. – Como nasceu “Wanya – Escala em Orongo”?

A. M. – O trabalho inicial deve-se a Nelson Dias, que começou a criar desenhos sem qualquer texto. Executou seis pranchas, mostrou-mas e solicitou a minha colaboração como argumentista.

UMA EXPERIÊNCIA QUE RESULTOU

V.G. - É melhor perguntar a Nelson Dias como a história se desenvolveu…


Nelson Dias – Tudo começou por eu sentir uma irresistível necessidade de desenhar. Sou pintor por formação e toda a minha vida tem sido dedicada à pintura. Mas em certo momento, numa época em que as condições de trabalho não eram muito favoráveis, por não dispor de um estúdio para pintar, decidi começar a desenhar segundo uma óptica particular que é a narração figurativa.
A banda desenhada exige uma disciplina muito peculiar. Inventei uma personagem, sem pensar em qualquer base narrativa, pois nunca pensei que as experiências então feitas levassem à concepção de uma história. Estava convencido de que não passava de uma experiência, da qual acabaria por desistir devido a diversos factores.
Quando cheguei a acumular seis pranchas mostrei o trabalho ao Mota que se entusiasmou e comprometeu-se a elaborar um texto, obrigando-me a prosseguir o que estava feito.

A BANDA DESENHADA É POSSÍVEL EM PORTUGAL

V.G. – Como vê o aproveitamento deste álbum no panorama geral da cultura portuguesa?

N.D. – A nossa preocupação é mostrar que se pode fazer banda desenhada em Portugal. Com conteúdo filosófico tão empenhado como o que estamos habituados a ver na produção estrangeira. Como não há revistas onde os originais portugueses possam ser publicados, a solução que nos pareceu melhor foi a edição do álbum, o que nos permitiu uma maior liberdade de concepção gráfica. A este respeito posso dizer que “Wanya – Escala em Orongo” não teve qualquer imperativo comercial a limitar o nosso esforço criativo

Entrevista com Vasco Granja
(Publicado por Sara Franco)

22/01/2008

e o Almirante agradeceu ...

Textos Transversais de Augusto Mota.

o nosso presente de aniversário ...

...feito de palavras, música e fotografias... PARABÉNS ,ALMIRANTE!!!!!!!!!

1 .mas foi assim que, no ano passado, comemorámos esta efeméride ...


... cantam as nossas almas
para o nosso Almirante
uma salva de palmas ...

FELICIDADES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
deseja.lhe a tripulação - do Contra Almirante ao Grumete
2 ... e, há dois anos, foi assim que o fizemos ...

"estamos sós com aquilo que amamos"

é o vigésimo segundo dia do mês de Janeiro ."esse ponto exacto à volta do qual tudo oscila, testemunha do balanço entre a noite de um inverno exterior e a aurora de uma primavera interior"
o dia cai .a noite antecipa-se
é o 22º dia do mês de Janeiro .o rito .a celebração da arte ,na Arte...
salut! ao alto da gávea .a um palácio de palavras e imagens grés

divagamos...
sabemo-nos presos a um corpo ,presos à matéria ,e ,recusamos aceitar ser esse o local da nossa morte .um corpo ,afinal ,nada mais é do que um fim que se elabora num erro .então ,só podemos aspirar aos objectos que tenham o estatuto de pensamento .mas ,também neste caso ,os objectos tornam-se insuportáveis ,na medida em que o corpo ,como objecto criador do pensamento , também é insuportável .e ,é esta deficiência técnica que ,para os cépticos ,como eu ,faz surgir a estranheza e o medo da morte
todavia ,tudo isto é um erro .um erro crasso
primeiro ,porque na dicotomia objecto/corpo ,objecto/pensamento ,há ,apenas ,uma verdade insofismável - cada um ,ao nascer ,transporta ,em si ,um cadáver
segundo ,porque há que aprender os limites da ideia .há que saber os limites da linguagem .há que saber ser nos limites da linguagem e da matéria .saber ,ainda ,calcular a distância entre a matéria e o pensamento ,entre a nossa vontade perceptiva e o estado real do objecto ,porque a mesma pode resultar da fuga do objecto
este deixa de ser para querer ser
então ,os objectos podem deixar de existir .existe sim a esperança do objecto que especifica a fuga e a ausência ,e esta é a forma de consciencializar uma afeição
todavia ,a falta do objecto nunca nos faz aproximar dele ,porque realmente o que amamos é a ausência ,a deslocação ,a esperança do objecto ."estamos sós com aquilo que amamos" - escreveu Friedrich Novalis
julgo imperioso cultivar o espaço bruto se quisermos ,de facto ,escrever o Poema Final
deambulamos num espaço ,literalmente ,vazio ,no espaço que fica entre corpos e ideias ,nomes e/ou objectos .mas ,como preencher esse vazio?
um Poeta ,por exemplo ,sobe as montanhas da Palavra e aí ,entre o dia e a noite ,julga-se um fugitivo ,sem saber que nunca sai do mesmo lugar .deseja ser um grito e ter asas de ouro .mergulha a fronte suave nas mãos geladas e deixa o corpo cair .sonha .procura na terra negra uma flor azul .sabe da escuridão e do frio que enchem esse vazio
então ,e só então ,cumpre-se na Ausência
gabriela rocha martins.



20/01/2008

15, 16 e 17



Textos Transversais de Augusto Mota.

17/01/2008

....................

o silêncio
desceu as veredas
e constituiu.se
voz
no lado sul da encosta
norte
o vento deixou
o ritmo
acre
do suor
era tarde
meu amor
quando desceste
suado
das madrugadas


Poema de Gabriela Rocha Martins
Fotopoemas de Augusto Mota sobre textos de Anamar e Gabriela R Martins.

14/01/2008

Lírica

Sete Rios
Entrecampos
Olha Adília
O Campo das Cebolas!

As palmeiras carecas
os cravos-da-Índia
os lírios roxos esparsos
serão flores da tua estima
no roupão do Senhor dos Passos
no reboliço das rimas
Os anjinhos de cuecas
no teu bazar de bonecas
nuas ou vestidinhas
são lírios e profecias
borboletas e azias
Sete Rios
Entrecampos
Olha Adília
O Mar da Palha!
O cheiro da tua rima
é precioso e é novo
gosto dessa comidinha
e do poema do ovo




Poema de José Marto, in "profanus"
Textos Transversais de Augusto Mota.

10/01/2008

Wanya - Escala em Orongo :: Lançamento

Caros amigos,

Convido-vos a estarem presentes no lançamento do livro "Wanya - Escala em Orongo", que terá lugar no próximo dia 26 de Janeiro, pelas 16h30, na Livraria Trama, R.S. Filipe Nery, ao Rato.
Rui Zink, Geraldes Lino e José de Matos-Cruz irão apresentar o livro que revolucionou a banda desenhada portuguesa.
Apareçam!
Sara Franco
Contactos:
email: wanya2008@gmail.com ( por razões técnicas o email oficial passará a ser este )
cell: (+351)96 006 10 76

09/01/2008

zig-zag zag-zig

Orgão do Mar, na Cidade de Zadar, Croácia


Situado em Zadar, uma cidade no litoral da Croácia, duramente castigada durante a 2ª Guerra Mundial, encontramos o Orgão do Mar, ou seja, degraus cravados em rochas que têm no seu interior um interessante sistema de tubulações e que, quando empurradas pelos movimentos do mar, forçam o ar e, dependendo do tamanho e velocidade das ondas, criam notas musicais ou sons aleatórios.
Criado em 2005 e tendo ganho um prémio europeu para espaços públicos - European Prize for Urban Public Space - este Orggão do Mar recebe turistas de várias partes do mundo e que aqui vêm escutar uma música original que traz muita paz.
Por outro lado, o lugar também é conhecido por oferecer um belíssimo pôr-de-sol, o que ainda mais agrada às pessoas que visitam a cidade


Veja a estrutura interna das "escadas" e o detalhe das cordas e notas musicais que somadas à energia das ondas criam sons...
Curiosamente, as aberturas no cimento servem para o Orgão "respirar" e, simultaneamente, para repercutir os sons criados nas tibulações.





08/01/2008

ainda Luiz Pacheco*






Nascido em 1925, faleceu sábado à noite, aos 82 anos

PGL Portugal.- «O paradoxo de duas pernas» ou «Luiz Pacheco é ... Luíz Pacheco», segundo Saramago, são apenas algumas das definições atribuídas ao homem/ escritor/ editor/ crítico literário que, tal «como um meteorito, passou pelo céu de Lisboa, rebentou e ficou em milhares de pedaços incandescentes, que foram caindo, e ainda hoje caem... ». Mas qualquer definição que se atribua a Luiz Pacheco será sempre insuficiente face a um percurso que se pode considerar simultaneamente trágico e cómico, mas sem dúvida, com momentos de genialidade.
[+...]

Quem foi Luiz Pacheco?

Nascido em Lisboa a 7 de Maio de 1925, Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco desde cedo manifestou talento para a escrita tendo frequentado o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, sendo um aluno excepcional, mas acabou por desistir por dificuldades financeiras.

Luiz Pacheco publicou dezenas de artigos em vários jornais e revistas, incluindo o antigo Diário Popular e a Seara Nova, e foi fundador da editora Contraponto, em 1950, onde publicou obras de escritores como Raul Leal, Mário Cesariny, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder e Virgílio Ferreira.

Dedicou-se também à crítica literária e cultural, ganhando fama como crítico irreverente, que denunciava a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime do Estado Novo.

Nas dificuldades que passou ao longo de uma vida atribulada, em que se viu algumas vezes sem meios de subsistência para sustentar a família, Luiz Pacheco encontrou inspiração para escrever o conto "Comunidade" (1964), que muitos consideram ser a obra-prima do escritor.

Oriundo de uma família da burguesia rural, Luiz Pacheco sempre contrariou todas as regras de uma vida estável e confortável, chegando mesmo a viver de esmolas. Tanto na vida como na obra, ele viveu sempre no limite, afrontando, sem hesitação, as regras impostas pela sociedade. Numa época em que a censura não permitia a liberdade de expressão, Luiz Pacheco foi um dos escritores portugueses que abordou a homossexualidade na literatura (em obras como «O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (1970)»). Chocou muita gente ao passar para texto uma cena de engate com um magala, durante a guerra colonial, naquele que ficou conhecido como um dos textos mais badalados da sua obra.

Bissexual, foi preso diversas vezes, pelos textos que publicou e pelas mulheres menores com que se envolveu. Teve três mulheres oficiais e oito filhos. Mas o facto de ter posto a literatura acima da própria família levou à desagregação daquilo que ele chamava a sua "tribo". Os textos de Luiz Pacheco são considerados na sua grande maioria autobiográficos, reflectindo muitos deles as suas vivências diárias.

Mas a importância de Luiz Pacheco vai muito além daquilo que ele escreveu.

Considerado o "Sacristão do Surrealismo", Luiz Pacheco teve um papel fundamental na literatura portuguesa enquanto editor. Publicou obras de Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Herberto Helder, Natália Correia, Virgílio Ferreira, entre muitos outros. Luiz Pacheco foi ainda o primeiro editor do Marquês de Sade em Portugal e de muitos outros autores não divulgados anteriormente.

Uma das suas facetas mais polémicas é a de crítico literário. Por diversas vezes gerou verdadeiras ondas de consternação no meio literário português, ao publicar a sua opinião sobre autores e obras. Um dos seus folhetos mais célebres ó que denuncia uma situação de plágio entre dois conhecidos escritores portugueses (plágio de Fernando Namora a Virgílio Ferreira, denunciada na sua obra «O caso do sonâmbulo chupista»).

Depois de ter vivido em inúmeras casas e quartos e de ter percorrido o país de lés a lés por diversas vezes, Luiz Pacheco "assentou" num lar em Lisboa, onde passou estes seus últimos anos. Morreu ontem no Hospital do Barreiro, o libertino, o libertário, ou mesmo como gostava de se definir numa fusão das duas, o libertinário.

Excertos do conto «Comunidade (1964)»

«Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva. (...) Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor. (...) Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços. “



O documentário “Mais um dia de noite “, de António José de Almeida

A RTP produziu recentemente um excelente documentário de 58 minutos sobre Luiz Pacheco, com realização de António José de Almeida. Neste documentário (ainda não disponível na integra na rede) temos a oportunidade de ouvir o testemunho do próprio Luiz Pacheco e o daqueles que com ele conviveram ou ainda convivem de perto. José Saramago, Mário Soares, Rui Zink, Eduardo Ferro Rodrigues, Vítor Silva Tavares e os próprios filhos, entre outros, falam da sua experiência e da sua opinião acerca de um homem que está longe de gerar consensos. Episódios únicos, relatados na primeira pessoa, com frontalidade, humor e emoção, intercalados com a representação dos próprios textos de Luiz Pacheco. Numa das suas últimas entrevistas à revista Visão, Luiz Pacheco, disse sobre este documentário, «Houve agora um filme aí ... Eu recusei-me a ver, porque não vou agora desmentir o que eles lá dizem. Chamei àquilo filme-cangalheiro: morte minha e aquilo ia logo nessa noite para a televisão!». Mais uma vez Luiz Pacheco acertou ... ontem à noite, na noite da sua morte, este documentário-filme-cangalheiro passou em repetição na RTP2”.

Apresentamos abaixo alguns excertos desta obra:


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Luiz Pacheco - o Tradutor, excerto do documentário “Mais um dia de noite“
Ligação Youtube


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Luiz Pacheco – Os amigos, excerto do documentário “Mais um dia de noite“
Ligação Youtube

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Luiz Pacheco – O cachecol do artista, excerto do documentário “Mais um dia de noite“
Ligação Youtube

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Luiz Pacheco – O crítico, excerto do documentário “Mais um dia de noite”
Ligação Youtube

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+ Ligações externas:

Luiz Pacheco, na Wikipédia.


Luiz Pacheco 82 anos, no YouTube.


Notícia da morte de Luiz Pacheco, no DN.


Notícia da morte de Luiz Pacheco, no Público.


Mais uma notícia da morte de Luiz Pacheco, no Público.


Excertos da «Comunidade (1964)» (I).


Excertos da «Comunidade (1964)» (e II).


Excertos de «O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (1970)».
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*obrigada, Rui Mendes.

06/01/2008

faleceu Luiz Pacheco .uma brevíssima homenagem







ontem ,sábado ,dia 5 ,faleceu Luiz Pacheco .tinha 82 anos .como autor ,deixa alguns livros que (como quase sempre entre nós) estão esquecidos.
ouvidos pela Lusa ,Vítor Aguiar e Silva ,da Universidade do Minho ,e ,Manuel Gusmão ,da Universidade de Lisboa ,disseram: «Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. [...] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país.» [V.A.S]; «Obra escassa, mas bastante interessante, com destaque para Comunidade e O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor [...] praticou uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista.» [M.G.]
curiosamente, em vida de Luiz Pacheco, não nos parece que tenham escrito sequer uma linha a seu respeito .mas ,a distracção pode ter sido nossa, razão porque os citamos

nestes dois filmes ,a homenagem de toda a tripulação de uma irreverente "nau"

05/01/2008

entregas


a minha irmã
Vinhas receber notícias ao portal,
era a hora do meio dia
em que a sirene dos bombeiros,
gritava a ferida da manhã
e da tarde a dividia.
O correio já não era a loja
não vinham as cartas
fechadas na saquinha do pão,
em que se juntava grão e tinta
alimento e ilusão.
Agora o carteiro chegava,
ouvia-se da moto o motor,
vinha do longe a rigor,
caprichando na entrega
na refrega do calor.
Depunha nas tuas mãos a carta
que antes era letra era pão
agora era uma borboleta
de asas brancas linha preta,
bem desenhada e aberta
a pousar na tua mão.
Abria-la quando ele desaparecia
deixando-te ao sol
abraçada a quase nada,
só a solidão da espera
sempre àquela hora do dia
em que teus passos
em direcção a casa, linha a linha
tu lias, como corriam os dias
como corriam as cartas
como se ajustavam as horas
como se cumpriam as datas.
Era à tarde que cantavas
as tuas sãs alegrias
só quando te calavas
havia dúvida em ti, se merecias
essas cartas, essas dádivas.


Poema de José Marto, inédito, in "A Celebração dos Dias", 1993
Textos Transversais de Augusto Mota.

01/01/2008

esperança

1.
noite funda, amor,
absurda e louca noite longa
em que ninguém adormece.
tua mão na minha - uma flor!
( a esperança que o amor prolonga )
- e de repente amanhece!


2.
lenta, a voz negra te sufoca
mas teu canto claro permanece

lenta, a noite sobe em teus dedos
e o teu canto é o dia que acontece.


Poemas de António Simões, 1964
Fotografias e composições de Augusto Mota sobre poemas de carlos Alberto Silva, António Simões e Gabriela R. Martins.




31/12/2007

2008


Composição de Fernanda Sal Monteiro sobre fotografia de Augusto Mota.

30/12/2007

.....................feliz ano novo

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__________________________________feliz ano novo________________________________
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fotografia retirada da net
manipulação e composição de gabriela r martins.

28/12/2007

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
( mal vivido talvez ou sem sentido )
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior )
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
( planta recebe mensagens?
passa telegramas? )
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Poema de Carlos Drummond de Andrade
Textos transversais de Augusto Mota.

27/12/2007

para o Rodrigo Freitas

não é necessário o natal para nos lembrarmos dos AMIGOS
fotografia e composição de Augusto Mota.

16/12/2007

queremos ser os primeiros

fotografia de augusto mota.

15/12/2007

Lançamento da I Antologia dos Poetas Lusófonos

Adélio Amaro, coordenador editorial da Folheto ,Edições & Design.
No cavalete , em segundo plano ,vê.se a tela de Renato Bordini ( artista plástico brasileiro ) que serve de capa à Antologia.


Arménio Vasconcelos, presidente do Elos Clube de Leiria, no uso da palavra.


Marita Minelli da Academia Brasileira de Letras ( e outras Academias ).

A assitência.
Sala do auditório da sede da Região de Turismo de Leiria/Fátima ,em Leiria.

Outro ângulo da assistência.

******
Presidente do Brasil saúda I Antologia de Poetas Lusófonos

O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, endereçou uma mensagem de cumprimentos à Editora leiriense Folheto Edições, após ter conhecimento da apresentação da "I Antologia de Poetas Lusófonos", levada a efeito, hoje, dia 15 de Dezembro de 2007


A "I Antologia de Poetas Lusófonas" é uma edição da Editora leiriense Folheto Edições & Design com a colaboração do Elos Clube de Leiria.
Participaram 81 Poetas de 9 Países de 4 Continentes (Europa, América, África e Ásia), com 244 Poemas.
Esta obra, com 264 páginas, que tem como objectivo a promoção da Língua Portuguesa, apresenta na capa uma obra de arte da autoria do reconhecido artista plástico brasileiro, neo surrealista, comendador Renato Bordini.

Depois da apresentação em Leiria, a "I Antologia de Poetas Lusófonos" será apresentada em Lisboa na Livraria Bulhosa, Faro, Zurique (Suíça), Paris (França) e também no Rio de Janeiro (Brasil).
fotografias de Augusto Mota.

12/12/2007

de um exercício escolar:"sublinhar as expressões..."



o voo livre da ave
é um traço no azul da tarde -
um simples traço branco.
mas das vozes que ouço,
desse rumor fraterno dos homens,
nasce um canto de amor -
o voo da ave,
livre, pelo céu macio,
sublinha o canto.


António Simões, 1970.
Textos Transversais de Augusto Mota.

10/12/2007

Convite

A Folheto Edições & Design com a colaboração do Elos Clube de Leiria e eu ,como um dos autores ,temos o prazer de convidar V. Excia e Família para o lançamento do livro
I Antologia de Poetas Lusófonos
dia 15 de Dezembro de 2007 ,pelas 16 horas ,no Auditório da Região de Turismo de Leiria/Fátima, em Leiria
Com a participação de 81 Poetas de 9 Países e 244 Poemas ,esta obra ,com o objectivo de promover a Língua Portuguesa, será apresentada por Arménio Vasconcelos, Presidente do Elos Clube de Leiria, e Adélio Amaro, Coordenador Editorial.
Haverá um momento de poesia com a participação de vários poetas e ainda um momento musical com composições e direcção do maestro Vicente Narciso e vozes de Dina Malheiros, Genealda Sousa e Lucília Narciso.

04/12/2007

AQUI-AMANHÃ .3 amor


puseram algemas em minhas mãos
e elas ficaram nuas,
para apertarem as de todos os irmãos,
noutras minhas também, as tuas.
Poemas de António Simões
Fotografias, Composição e Arranjo Gráfico de Augusto Mota.

03/12/2007

Fotopoemas 71, 72 e 73



Fotopoemas de Augusto Mota sobre poemas de gabriela r martins e Carlos Alberto Silva.

29/11/2007

Na génese dos frutos

Na génese dos frutos, algum anjo deixou cair as suas asas,
lavrando o trigo, o orvalho, o silêncio sagrado,
as árvores do mundo.
Nas planícies resplandecentes, vivo até ao seu último degrau.
Na matéria destruída vivo, cresço.
No domínio das trevas, trabalham os deuses,
os altares, os livros por dentro, as muralhas sagradas.
Pouco a pouco, escuto as portas, os ruídos,
os labirintos de febre, o fulgor das brancas alavancas.
Nas ruas, viajo com a bruma, a chama, o alecrim.
Nas vielas antigas, vivo, cresço.
Nas fachadas barrocas, habita o ouro, o esmalte,
o azul, um violino.
Nos montes, há feno, névoa, nascentes eternas,
santuários sumptuosos, flores de rosmaninho.
Na fonte do Ídolo, uma oferenda, uma inscrição,
um culto antigo -
uma deusa de nome Nabia abençoa o lugar
onde o silêncio flui e os lábios se reúnem.
Nos muros da Sé, uma pedra recorda uma inscrição
de uma sacerdotiza da deusa Ísis.
Às portas da cidade, sou ritmo de chuva, alfazema,
luzeiro de estrelas,
eco da cidade indígena, romana, medieval.
Subo pelas lâmpadas, pelas asas, as alamedas,
os jardins, as janelas brancas.
Em sílabas dormentes, lavro todas as sínteses,
entre cinza, broquéis, coroas de ouro.
Berço de mim, corola acesa, meu corpo é litania,
ardor, dourada semente.
Na pedra indissolúvel, habito a pedra, as criptas, a luz.
Na memória errante, paira o meu nome,
cálice, flor, lira ancestral,
colina verde, lua vaporosa, sacrário do tempo.


Maria do Sameiro Barroso, in "Mealibra", nº 21, Centro Cultural do Alto Minho, Outono 2007, pp. 139-140.
Textos Transversais de Augusto Mota.

25/11/2007

1052 .Emily Dickinson ( 1830-1886 )


I never saw a Moor-
I never saw the Sea-
Yet know I how the Heather looks
And wath a Billow be.
I never spoke with Good
Nor visited in Heaven-
Yet certain am I of the spot
As if Cheeks were given-
_____________________
Nunca vi uma Charneca-
Nunca vi o Mar-
Todavia sei que aspecto tem a Urze
E o que uma Onda é sei imaginar
Nunca falei com Deus
Nem visitei no Céu a sua mansão-
Todavia tenho a certeza do lugar
Como se tivesse o Mapa na mão
Emily Dickinson,
in "Antologia de Poesia Anglo-Americana - de Chaucer a Dylon Thomas", ( edição bilingue ), selecção, tradução, prefácio e notas de António Simões, ed. Campo das Letras, 2002, pp.334-335.
Fotografia e Arranjo Gráfico de Augusto Mota.