28/12/2006

cacto.mania 2


1. maria toscano
e os picos foram sendo retirados

2. m. gomes da torre

pelos novos poetas




3. orlando cardoso

convidados ...

fotografia de Augusto Mota

26/12/2006

o contraponto da tristeza


É triste a tristeza que ameaça as mãos e invade o corpo todo como se a cidade estivesse sitiada, ou fosse o frio seco de uma manhã de Inverno que arrefecesse a alma e fizesse tremer o mais íntimo de nós.
Parecendo habitar os países do norte, o Sol já não abrilhanta as melhores horas do dia e a magia da noite ilude-se com palavras que não conseguem disfarçar o desassossego de algumas emoções. É no corpo que mais se sente o peso da angústia que passou a habitar as horas do trabalho e do sono. Assim, dormir, é antecipar os sonhos maus que gostaríamos de relegar para outras paragens, já que o dia e a noite são uma repetição da mesma tristeza e as mãos já não conseguem ser o que eram, quando certas estrelas desabrochavam em suas palmas e a boca percorria o nome das ruas no roteiro da cidade e da saudade.
A saudade é a traição do tempo que habita o espaço do nosso querer. Por isso adiamos sempre as horas que não coincidem nesse espaço das mãos e dos olhos que sofrem, deste modo, o vazio de tudo e já nem conseguem viver dos prazeres que a memória guarda para nós, com secretas intenções.
Melhores dias e novos desígnios serão, amanhã, o contraponto ajustado a este despovoado existir.
Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.

19/12/2006

cacto.mania .1

o jardineiro-filósofo ,Augusto Mota ,lançou ,
a alguns poetas da nossa praça ,um curioso
desafio
...

enviou.lhes esta imagem cactónica
...


e pediu.lhes um poema.
eis como
o António Simões ,a Fernanda Sal Monteiro e o Carlos Alberto Silva
se "picaram"
...

12/12/2006

há 185 anos, no dia 12 de Dezembro, nasceu ...




... Gustave Flaubert

( Rouen 1821 - Croisset, próximo de Rouen, 1880 )

Escritor francês. A vida de Gustave Flaubert é a de um artista completamente dedicado a aperfeiçoar a sua arte. Filho de um cirurgião, sendo criança, em 1836, conhece Elise Foucault, objecto da grande e incompleta paixão da sua vida que lhe inspira "A Educação Sentimental". Em 1840 transfere-se para Paris para estudar Direito, mas descuida os estudos para viver no mundo das Letras. Pouco depois, por causa de uma grave doença nervosa, regressa a Rouen. Quando da morta do pai, instala-se com a mãe e a sobrinha na casa de campo de Croisset. Nela vive o resto da sua vida, exceptuando as viagens e as temporadas em Paris. em 1846 conhece a escritora Louise Colet, com quem manteve uma abundante correspondência até 1855. Em 1849-51, viaja pela Grécia, Itália e Médio Oriente. Em 1857 o seu romance "Madame Bovary" leva-o aos tribunais, acusado de ofensa à moral e à religião. Em 1875, para salvar da falência o marido da sobrinha, vende todas as suas propriedades e tem de aceitar uma modesta pensão do Estado.

Flaubert leva à perfeição o romance realista e consegue a mais completa harmonia entre a arte e a realidade. Para ele, a verdade e a beleza estão unidas; por isso põe tanto cuidado na sintaxe e na escolha do vocabulário e concede tanta importância à estrutura. Na sua obra literária, não muito extensa, Flaubert aspira à criação de um conjunto harmónico, à elaboração de toda uma trama simbólica que une os diferentes personagens. A sensibilidade de Flaubert chega a cair no sentimentalismo e, nesses momentos, entrega-se ao deísmo e a vagos sentimentos rousseaunianos envoltos em oratória; mas quando se recupera destes desvios, a obra de Flaubert, trabalhada com uma ânsia de perfeição e um esforço quase dolorosos, é uma maravilha de harmonia e realidade.

Os romances e contos de Flaubert oferecem um panorama de realismo em diversos campos. "Madame Bovary" e "Bouvard et Pécuchet" movem-se no campo do realismo burguês. "Salammbô" no do realismo histórico. Os "Três Contos" caracterizam-se pelo seu realismo imaginativo e romântico e "A Educação Sentimental" mostra um amplo realismo vital.

Algumas citações suas:
Não desculpo de modo algum aos homens de acção que não vençam, uma vez que o êxito é a única medida do seu mérito
A moral da arte reside na sua própria beleza
A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo
Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere
O estilo está sob as palavras como dentro delas. É igualmente a alma e a carne de uma obra
in citador - http://www.citador.pt
Imperativo - ler ou reler "Madame Bovary".

08/12/2006

Amor Virtual


Se as mãos de alguém viessem, virtuais,
suavizar-me a dor, afagar-me a testa! -
Ligo o computador, busco os sinais,
gigaherz da ternura que resta.
Carrego numa tecla e tu sais
ao meu encontro com ar de festa:
e nas mãos, de súbito naturais,
o afago mais doce se manifesta.
Peço ao computador que derrame
dentro de mim mais memória ram,
pra reter-te para sempre num ficheiro.
1000 gigabites, meu coração,
onde cabem os que a mim se dão,
como tu a mim te deste por inteiro.




António Simões, inédito.
Legendas íntimas - fotografias de Pedro Carvalho;

textos e composição de Augusto Mota.

06/12/2006


Agapanto branco e centro de Dália
fotografias de Augusto Mota.

05/12/2006

No Jardim dos Livros

Os livros são objectos aromáticos guardados nas estantes
da memória, sementes de orvalho, estrelas onde assoma o infinito.
Nos seus jardins de goma-arábica, como céu nas margens,
verde, cor de marfim é a sua volúpia acesa,
a sua centelha branca, a sua seiva cor de sangue.
Luxurioso é seu corpo, o seu júbilo, a sua forma, o seu perfume,
onde a sede e a veemência se prolongam.
Na exactidão do seu lume, irradiam a luz, a cor,
a sua chama sempre viva.
Entre estrelas, dinamite, é lá que o coração dos seres respira
e o silêncio pulsa,
envolto na sedução da luz e dos oásis.
Com lábios de areia e musgo, é lá que bebo o mar, a luz,
a terra a apodrecer
- o corpo flutuando entre estrelas, madrepérola.
É lá que afluem objectos preciosos, roseiras, grutas, pirilampos.
Nas suas árvores de raízes negras, irreais,
assomam as fábulas, poemas, em taças volumosas,
transparentes.
Nas suas vogais, há cais secretos, nascentes ébrias,
fósforo incandescente.
Nelas se inscreve a língua arguta das pedras eloquentes.
No seu mar de peixes exóticos, espalham-se,
as lombadas da vida, as aguadas da morte.
E nada impede o coração, cotovia inadiada.
No seu murmúrio, derrama-se a vertigem em flor.
Maria do Sameiro Barroso, in "Afectos", Labirinto, Fafe, 2006.