31/07/2016

Texto transversal

 
 
 



28/07/2016

Rosário breve




TERRORISMOS  ESTIVAIS







1. O terrorismo não se esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia, por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais “periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas palavras que uso.

2. Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa politica. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?

3. Termino por esta semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha. Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta, raios o partam.





Crónica de Daniel Abrunheiro, in "O Ribatejo", 28 de Julho de 2016
Fotos de "Explosões solares" obtidas na net 

Edição de augusto mota


16/07/2016

Café com livros





No passado Sábado, 9 de Julho, teve lugar no Museu Moinho do Papel, em Leiria, a tertúlia "Café com livros" com a presença do escritor António Tavares, vencedor do Prémio Leya 2015, com o romance «O Coro dos Defuntos», tendo já sido finalista do mesmo prémio em 2013 com a obra «As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia».



Cristina Barbosa fez a apresentação do convidado: António Tavares nasceu em Angola em 1960, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e é pós-grtaduado em Direito da Comunicação pela mesma universidade.
Foi professor do ensino secundário e, actualmente, exerce o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.

Rosa Neves, António Tavares e Cristina Barbosa

Escreveu peças de teatro - Trilogia da Arte de Matar, Gémeos 6, O Menino Rei -, estudos e ensaios - Luís Cajão, o Homem e  o Escritor; Manuel Fernandes Thomás e a Liberdade de Imprensa; Arquétipos e Mitos da Psicologia Social Figueirense; Redondo Júnior e o Teatro - entre outros.
Foi jornalista, fundador e director do periódico regional «A Linha do Oeste». Fundou e coordenou a revista de estudos «Litorais». Como romancista, obteve uma menção honrosa no prémio Alves Redol, atribuída em 2013 pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira ao romance «O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde», ainda no prelo, e foi finalista do prémio Leya 2013 com a obra «As Palavras Que me Deverão Guiar Um Dia», publicado pela editora Teorema e também finalista do Prémio Literário Fernando Namora. Participou no "Festival do Primeiro Romance" de Chambéry, em França, em 2015.

Dr. Gonçalo Lopes, vice-presidente da Câmara M. de Leiria e vereador da Cultura, Rosa Neves,
António Tavares e Cristina Barbosa

Para um necessário enquadramento histórico-social do romance, transcrevemos da contracapa do livro a apresentação feita pela editora:

"Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna - espécie de divã freudiano do lugar - é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que que embrulham as bogas do  Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar...
Com personagens inesquecíveis e um recurso narrativo extremamente original, «O Coro dos Defuntos» é um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974."
  


Da delaração do júri do Prémio Leya 2015 importa transcrever as palavras que vêm reproduzidas na badana da capa deste livro:

«[...] O romance reanima, com conhecimento empático e com ironia, uma ruralidade ancestral - flagrante nos ambientes e nos modos de viver, nos horizontes de crença e nos saberes empíricos, na linguagem e na imaginação mítica. E é sobre esse fundo ancestral que vêm inscrever-se as notícias das transformações aceleradas do mundo contemporâneo e o jogo de alusão e de metáfora sobre o devir da nossa sociedade e o agonizar do antigo regime político - até ao anúncio da revolução.

É sempre o plano narrativo que predomina, dado através do recurso a uma forma inovadora na apresentação da voz narrativa, que alterna entre o quadro da província beirã e o mundo da emigração na Suiça e nos Estados Unidos.

À versatilidade na composição da narrativa e no cruzamento de vozes e perspectivas corresponde a diversidade de personagens - realistas e simbólicas, típicas e insólitas - , num estilo que sabe combinar matizes tradicionais e actuais da língua portuguesa.[...]»  

O júri: Manuel Alegre (Presidente), José Carlos Seabra Pereira, José Castello, Lourenço do Rosário, Nuno Júdice, Pepetela e Rita Chaves


Este romance presta-se a um bom exercício em relação a uma tipificação mais correcta do narrador nas suas várias vertentes, uma vez que  o autor arquitectou uma estrutura singular, com o recurso sitemático a um Diz ela, uma personagem anónima que vai narrando a história sem se intrometer na sua trama. Será o que, quanto à presença no desenvolvimento da acção, é chamado de narrador heterodiegético. Já quanto  ao saber, ou à ciência, estamos perante um narrador omnisciente, pois conhece tudo sobre a vida passada, presente e, até, futura  das personagens e o desenrolar da acção. E será por acaso que este narrador é do sexo feminino? Não será! No ambiente fechado das aldeias portuguesas de então havia o que, depreciativamente, se designava por "conversas de soalheiro", para, em tempos de ócio, murmurar, ao sol, acerca da vida alheia, tendo sido mesmo, nesses tempos, cunhada a expressão "mulher de soalheiro", que tem uma forte carga negativa. O autor, porém, neste romance reabilita o papel da mulher que tudo sabe da sua aldeia, atribuindo-lhe a nobre categoria de narrador omnisciente! 



Durante a sessão foram lidos por Rosa Neves e Cristina Barbosa alguns trechos de «O Coro dos Defuntos», cabendo a Mariana Neves a  leitura de uma longa passagem de «As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia».


Após as várias leituras de trechos destas suas duas obras o autor foi respondendo, com simplicidade e sem alardes intelectuais, a todas as questões que iam sendo colocadas pela assistência, especialmente como construíu uma aldeia beirã a partir de uma aturada investigação e algumas informações de terceiros, pois antes de ter escrito «O Coro dos Defuntos» nunca vivera ou estivera em qualquer aldeia da Beira. 



Antes de se ter entrado no objecto desta tertúlia e da apresentação do convidado, Rosa Neves deu a palavra a Wolfgang Schaden e a Belinha Schaden para, na sequência do tema da tertúlia anterior, lerem os textos que escreveram sobre as suas experiências como reformados.

Wolfgang Schaden e Belinha Schaden

Como tem vindo a acontecer desde sempre, "Café com livros" orgulha-se de ser um ponto de encontro de afectos, de amigos e de amigos que aparecem de surpresa, mesmo vindos de longe. Foi o caso, desta vez, com o casal Ana Ramon / António Figueiredo que, pela segunda vez, se deslocaram propositadamente de uma aldeia do concelho de Santa Comba Dão para estar presente nesta tertúlia. E já o tinham feito em Março de 2014.



Augusto Mota, Ana Ramon, António Figueiredo, Rosa Neves e Mariana Neves

Para melhor se perceber o que acima foi dito sobre "Café com livros" ser um lugar de afectos, ver os encontros-surpresa de Daniel Abrunheiro, Francisco Fanhais e Manuel Freire com os convidados de duas tertúlias, em 2014 e 2015:  
http://palaciodasvarandas.blogspot.pt/2014/03/tertulia-cafe-com-livros.html http://palaciodasvarandas.blogspot.pt/2015/01/cafe-com-livros.html

E no fim de cada tertúlia há sempre lugar para uma útil troca de informações sobre os mais variados assuntos:

António Tavares parece bastante interessado na informação de uma assistente

 À esquerda, a  Drª Sofia Carreira, directora do Museu Moinho do Papel e do Agromuseu, 
em Ortigosa, trocando impressões sobre plantas e outros assuntos conexos 

E assim terminou mais um "Café com livros". Voltaremos a encontrar-nos no final de Setembro, em local a anunciar, para estarmos à conversa com Pedro Preto sobre os seus livros de fotografia «Lisboa – capital da ilusão», editora  Blurb, Incorporated, 2015, e «Lisboa – capital do insólito», editora Calçada das Letras, 2010. Também deverá ser abordada a sua microficção, já editada ou inédita. Tem editado um livro de “contos reais”: «O Mundo é um Berlinde com Piada», edição Fonte da Palavra, 2012.     

Até lá não recusem:

                       Um café quente

  
                                      Um livro fresco

  
                                                      Uma ideia nova



Texto e edição: Augusto Mota

Fotos: Joaquim Cordeiro 


10/07/2016

Crónica de um renascimento



 

No passado dia 6 deste mês de Julho foi apresentado no Museu Moinho do Papel, em Leiria, o livro de David Teles Ferreira «Crónica de um renascimento e outras escritas de bolso», numa edição de autor (190 pp. / 16x10,5 cm), sendo este o primeiro livro em prosa que David Teles publica. A apresentação esteve a cargo do escritor Fernando José Rodrigues.

David Teles Ferreira nasceu em Coimbra em 1962 e vive em Leiria onde exerceu a profissão de Delegado de Informação Médica. Faz parte  do Te-Ato – Grupo de Teatro de Leiria, onde se estreou como actor em 1998, na peça «Pretextos Teatrais», de Jaime Salazar Sampaio, encenada por João Lázaro. No Te-Ato, ao longo de dez anos, tem feito produção de espectáculos, apoio técnico e animação de rua, bem como sessões de poesia. Ocasionalmente diz poesia em tertúlias e lançamento de livros.
  Escreve desde a adolescência: «assumindo a terra» é o primeiro livro de poesia que publica (Editorial Diferença, Leiria, 1999) seguido de «as encostas voltadas a norte» / «o mar nos teus olhos» em co-autoria com o pintor Jorge Melo (Som da Tinta, Ourém, 2002).
Organizou em 1999 a colectânea «Juntos por Loro Sae», um conjunto de textos, poemas e desenhos de autores leirienses em solidariedade com Timor.
Colaborou com o semanário «Jornal das Cortes» onde durante alguns anos assinou a crónica "Vemos, ouvimos e lemos".  


Dr. Gonçalo Lopes, vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara, David Teles Ferreira e Fernando José Rodrigues

As certezas quanto a um passado ainda bem presente e dúvidas quanto a um incerto porvir marcam indelevelmente os textos de David Teles Ferreira. Três exemplos:


A dúvida   
     A dúvida cresce insidiosa dentro do peito. Devia dizer que cresce na cabeça, mas é no peito que se sente. Naquela sensação de vazio que, por antítese, o preenche. Naquela mágoa que faz bater mais forte o coração. Naquela sensação que não é dor, mas quase. A cabeça a afastar os pensamentos e o coração a bater, a bater. A não deixar afastar a dúvida. A trazer de volta os pensamentos. Como uma maré cheia de vazio.
(p.10)
 Bruma 
     Que importa a bruma se sigo sem destino? Se o que busco está em mim? Avanço névoa adentro sem receios. Aceito as surpresas e obstáculos. A palavra perder-me não tem cabimento nesta jornada. Só se perde quem sabe para onde quer ir. Eu apenas vou. Para onde saberei quando lá chegar. Se alguma vez chegar a saber. Por isso o nevoeiro é um irmão acolhedor. Um amigo que me faz concentrar no mais essencial. Sem horizontes longíquos que me distraiam, sem vislumbrar árduos longes que me desencoragem, viajo melhor dentro de mim. 
(p.50)
A química do físico
     É uma química. A química do físico. Dizem. A química dos corpos. Por isso uns nos atraem e outros não. Por causa dela funcionamos com uns e outros não. É por ela que, às vezes, a cabeça nos diz que sim e o corpo nos diz que não. Ou ao contrário. Não tem explicação. Não é racional. Apenas se sente ou não. Nada tem a ver com a atracção que sentimos por pessoas com os mesmos valores e aspirações. O ideal é quando as duas coisas se conjugam. Chama-se amor perfeito. Acho.
(p.114)   


                                   



        Edição: Augusto Mota
        Fotos: António Nunes e Augusto Mota