18/09/2011

O Fio de Marta


Abrótea (Asphodelus lusitanicus)
foto: augusto mota

(Lengalonga com fim obrigado a morte)

Madruga
Mandrágora madura
Salamandra
Sermantiga
Ortiga
Murta
Morte
Sabugueiro
Funcho
Roseira brava
Rebenta-boi
Erva-cidreira
Flor de laranjeira
Limonete
Pinheiro manso
Pinheiro bravo
Voo de moscardo
Mocho
Corujão
Charneca,
Pilriteiro
Esteva em flor
Ouriço cacheiro
Brejo fecundo
Lanterna de carboreto
No concerto
Do coreto
Corneta
Bombardino
Rabecão
Pandeireta
Aleijão
Porco capado
Vem comer à mão
Jumento sem tesão
Cão sem rabo
Catraio sem o pão
Pata rachada
Corno partido
Lagar na fermentação
Enxofre
De chofre
Sufocação
Batoque
Chambaril
Porco amanhado
Dependurado
Casa do patrão
Tudo a bem da nação
Viva a castração
Lavoura de pobre
Estrume de porcos
Mijonas no chão
Azeite na talha
Azeitonas no pote
Cal viva no latão
Chouriços de sangue
Morcelas no caldeirão
Pardais nos telhados
Perus no balseiro
Galinhas no ninheiro
Ventas no rodeiro
Canga no cachaço
Açoga de enguião
Abóbora porqueira
Sopa de cão
Dor de caganeira
Vida negra
Trovão
Míldio
Filoxera
Gorgulho no grão
Tudo estragação
Má raios partam a inundação
Pedraço do céu
Rédeas ao pendurão
Velhaco
Faz o que te mando
Deus quer
Deus queira
Não me comes a pinha
Ladrão
É só asneira
Cama ao relento
Palha no chão
Emprenha ovelhas
Dorme com velhas
Chuva na cama
Mijo na manta
Borrada no chão
Com fome
Entrevado
Desprezado
Sacramentado
Por Deus chamado
Pelo homem enxotado
Caminho do céu
Pelo demo levado
Caminho do breu
Fundo do chão
Cal viva no caixão
Rosto lavrado
Mão sobre mão
Tudo pelintrice
Requiescat in pace
E mais não disse
A dor acabou
Lá se foi tudo
Quanto Marta fiou.
                               
                                               PEDRO FRAZÃO, Lisboa, anos 70



Pombal, do artesão Mistério, Barcelos
foto: augusto mota



07/09/2011

Sylvia Plath ( 1932 .1963 )




Lady Lazarus

I have done it again.
One year in every ten
I manage it----

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
0 my enemy.
Do I terrify?----

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else,
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.

It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

'A miracle!'
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart----
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash ---
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there----

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air. ( in Poets from Academy of American Poets )

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biobibliografia

Sylvia Plath nasceu em Boston, EUA, em 1932. Teve uma passagem melancólica por Nova York, tentou o suicídio por mais de uma vez, casou em 1956 com o poeta inglês Ted Hughes, foi com ele para Cambridge, Inglaterra. Teve dois filhos. Descasou em 1962, escreveu seus poemas capitais, publicados postumamente no volume Ariel (1965), sua obra mais importante. Dois anos antes, em 1960, lançara o seu primeiro livro, Colossus.
Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia Plath aos 30 anos de idade cometia suicídio inspirando gás na cozinha de sua residência.

Obra

-The Colossus, 1960
-The Bell Jar, 1963
(pseudonym Victoria Lucas)
-Harper and Row, 1971
(edition apparently contains drawings by Plath and a Biographical Note by Lois Ames)
-Ariel, 1965
-Crossing the Water, 1971
-Winter Trees, 1971
-Letters Home:
Correspondence, 1950 - 1963
Ed. with commentary by Aurelia Schober Plath, 1975
-The Bed Book, 1976
-Johnny Panic and the
Bible of Dreams, 1977

03/09/2011

Alexandre O'Neill ( 1924 .1986 )






guichê 3

Dum cutelo-guichê sem higiafone
senti o frio na nuca e, por broma, imaginei-me na nuca de Antonieta
(referência cultural como qualquer outra).
Dar o pescoço e nem por aférese perder a cabeça
não é para todos quando nos burocratas.
Das doze e trinta às catorze e trinta
estive garrotado e encimado por um letreiro: ENCERRADO.
Estiquei a língua para um frasco de cola,
mas só a mosca dos tinteiros nele arriscava duas das patas.
Meditei (que fazer?) a gasta superfície do balcão
e, português derrotado, pensei:
«Onde veio parar a madeira das naus!»
O tempo demorava a passar como aquela estúpida reflexão
e eu, de grossa língua seca, sentia as ardências todas
do nauta que tragou meia barrica de sardinha.
Das mãos fiz passarinhos cegos contra o vidro,
baquetas ruflando a minha impaciência,
aranhas passeando o que me restava de pescoço.
«Vou pôr-me todo nos olhos, que os olhos salvam!»
e pela ponte pênsil dum olhar passei para o relógio,
que adiantei meia discreta hora.
Do mostrador alcancei uma flor num copo.
Com ela devaneei numa lapela imaginária,
mas o passeio não deu para mais nada.
Tocou a campainha e um contínuo entrou.
«Que faz aqui o senhor? O expediente ainda está encerrado!»,
praguejou o contínuo e, dando meia volta,
correu a chamar o general dos contínuos.
Este veio. Passou-me revista. Não se dignou falar-me.
Ainda hoje gostava de saber porquê.
Às catorze e trinta (três pela minha hora)
uma funcionária aproximou-se do guichê,
levantou o cutelo que me sujeitava,
retirou o letreiro e (até amável!) perguntou-me:
"O senhor o que deseja?"
E era, à beira-guichê, como se não tivesse acontecido nada!


Alexandre O’Neill, in "Tomai lá do O’Neill!",
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986



A Bicicleta

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

in: "As horas já de números vestidas", 1981



A Força do Hálito

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"

Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.



A leitura

(brechtiana)

Não te deixes enrolar!
És tu quem tem de pagar...
Põe o dedo em cada letra.
Pergunta:-Por que estáqui?

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algumas notas biobibliográficas:

Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu em Lisboa em 1924.
Em 1948, juntamente com Mário Cesariny, António Pedro, Vespeiro e José Augusto França, lança-se na aventura do surrealismo, fruto de uma época, e, que surgia como provocação ao regime político vigente e à poesia neo realista. Em 1950, porém, O'Neill abandona o Movimento Surrealista, manifestando, desta maneira, o seu desagrado pelo rumo simulado e decadente em que o surrealismo mergulhara. O poeta nunca foi de arrigementar-se e o surrealismo obrigava a uma certa disciplina ideológica.
A sua poesia mantém, no entanto, traços surrealistas.
Colabora com " Os Dissidentes " numa exposição.
À semelhança de muitos artistas portugueses, não pôde ser, apenas, poeta. Costumava afirmar que "vivia de versos e sobrevivia da publicidade" e esta foi a maneira mais fácil de ganhar a vida, numa área que requeria destreza e à vontade com as palavras, campo em que o Poeta sentia-se como peixe na água.
O'Neill não criou nenhum vínculo afectivo com a sua profissão. Idealizou algumas frases publicitárias que ficaram na memória, como o slogan, tornado provérbio, "Há mar e mar, há ir e voltar", mas, a publicidade que lhe deu conforto económico, não lhe deu estabilidade, porque, sempre que se aborrecia, mudava de patrão e agência publicitária!
O seu currículo é vasto e diversificado, onde constam colaborações em jornais, revistas e televisão.
A pátria foi o seu tema preferido, e, a crítica o pincel com que pintou paisagens, gestos e costumes quotidianos.
"Transbordante de sonhos, sedento de realidades submersas, foi em vida e é em morte, incompreendido e votado ao esquecimento. Esse terá sido o preço que pagou por ter.se recusado a aderir ao populismo fácil." ( Truca ).
Faleceu em 1986.

Bibliografia

"A Ampola Miraculosa", Cadernos Surrealistas, 1948
"Tempo de Fantasmas", Cadernos de Poesia, Lisboa, 1951
"No Reino da Dinamarca", Guimarães, Lisboa, 1958
"Abandono Vigiado", Guimarães, Lisboa,1960
"Poemas com Endereço", Morais, Lisboa, 1962
"Feira Cabisbaixa", Ulisseia, Lisboa, 1965
"Portogallo mio rimorso", Einaudi, Torino, 1966
"De Ombro na Ombreira", Dom Quixote, Lisboa, 1969
"As Andorinhas não têm Restaurante", Dom Quixote, Lisboa, 1970
"Jovens, Nova Fronteira", Futura, Lisboa, 1971
"Entre a Cortina e a Vidraça", Estúdios Cor, Lisboa, 1972
"A Saca de Orelhas", Sá da Costa, Lisboa, 1979
"As Horas já de Números Vestidas", 1981
"Dezanove Poemas", 1983
"Uma Coisa em Forma de Assim", Presença, Lisboa, 1985

02/09/2011

Ah, o amor...


O amor não aprende com o amor, tem sido assim desde sempre. Todos conhecemos histórias lendárias. A literatura nos fornece elementos de sobra para verificarmos as diversas artimanhas que tem o amor para apoderar-se do coração das pessoas. Penélope e Ulisses, Dante e Beatriz, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Dom Pedro e Inês de Castro... Conhecemos de cor os símbolos pelos quais o amor é representado, o arco, a flecha, o mito do cupido que manipula a flecha até acertar o coração dos mortais, mas é um conhecimento que não produz imunidade.
No romantismo, em uma época em que os casamentos eram arranjados, os jovens apaixonados tinham seus finais no segundo ato.  Acabavam nos conventos, na miséria, ou mortos. Outro mito, este cunhado pelo romantismo foi o vampiro. Inventado por Byron e ressuscitado atualmente pelo cinema. Um mito que passou por Drácula de Bram Stocker, como um exercício de libertação, a paixão que nos liberta do eu. As amantes se entregavam completamente ao Conde Drácula, a ponto de lhe oferecer as próprias vidas. Por meio do amor elas se transformavam em um vampiro, de modo que alcançavam a vida eterna. Algo que vai ao encontro do que disse o ensaísta suíço Denis de Rougemont, de que estamos presos à matéria, presos no interior de nossos corpos e a paixão, enfim, permitiria transcender esse aprisionamento carnal.
Rougemont ficou conhecido por escrever no livro «A história de amor no ocidente» que “o amor feliz não tem história. Só o amor ameaçado é digno de um romance”. Sem querer polemizar, pergunto: quem já não teve um amor ameaçado ou uma história digna de romance? Se alguém não teve, é melhor ter. Passar por esta vida sem sentir o desejo de escapar de si mesmo e fundir-se com o outro é  não ter vivido plenamente.
Não existe sentimento mais forte do que uma paixão. Algumas são descomunais, terríveis, de derreter os miolos. É arder em febre com lábios e olhos intumescidos e o pensamento se esvaindo como fumaça. É entrar pela porta da lembrança e recordar gestos, pulsações, movimentos e mais uma procissão de acontecimentos que queimam como labaredas. É puro breu.
O consolo é que não somos únicos, sem contar que há narrativas bem piores que as nossas. Não são raras as histórias de amor com finais trágicos. Tristán morre nos braços de Isolda, Julieta nos braços de Romeu. Em «Eneida», a rainha Dido se suicida ao ser informada da partida de Enéas. A inteligente Cleópatra, que tinha uma explícita debilidade por generais romanos, presencia o suicídio lento de Marco António na tumba que dividiu com ele. Por causa de um tremor no coração de um homem, Tróia é destruída e junto com ela uma lista de homens ilustres (Heitor, Aquiles e o próprio Páris...) seduzidos pela magia de Helena. Não é à toa que a paixão nos amedronta.
 As histórias são tantas que não há um único ser humano que já não tenha se dedicado à leitura do tema, ou pelo menos dedicado à temática boa parte de seus pensamentos. Todos temos nossas próprias histórias para contar, nossas pequenas tragédias, nossas paixões concretas, escondidas, recolhidas que tocaram o céu, ou o inferno em algum momento. Mas, apesar da nossa pretensa experiência, o amor continua a ser matéria obscura, o reino da confusão e do enigmático. Continuamos a padecer das mesmas ingenuidades, a esperar durante horas por uma chamada telefónica que não chega, a gemer de raiva por sentir fraqueza, frenesi e ser capaz de oferecer ao outro o sacrifício de sua própria inteligência, para não dizer que emburrecemos quando nos apaixonamos. Outras vezes sentimo-nos ridículos, alienados ou envolvidos num amor perverso do qual já se prevê o final: desgraça.
O problema é que somos seres tão pobres, tão precários, tão pequenos, tão egoístas, tão centrados em nós mesmos, em nosso próprio umbigo que não sabemos mensurar o amor. É possível que não saibamos amar. Muitas vezes sepultamos o amor em nome de nossa covardia, nossa vaidade, nossas dúvidas. Acostumamo-nos ao óbvio, ao que pode ser manipulado, às falsas estruturas da compreensão que estão sob o nosso controle como uma forma de preservar nossa condição de seres susceptíveis a paixões malsucedidas.  Mas uma hora dessas a flecha nos acerta no primeiro ataque, os riscos envolvidos são grandes, entretanto, recordando os versos de um poeta português, já quase um  cliché, sempre vale a pena se a alma não é pequena.

Lucilene Machado / Brasil, Agosto de 2011.

[ experiências ] .-poesia visual




( photoetrys .1)


gabriela rocha martins

01/09/2011

27/08/2011

[ antologia dos meus poetas militantes ] .InVersos .-Jacques Prévert ( 1900-1977 )






LES ENFANTS QUI S' AIMENT

Les enfants qui s'aiment s'embrassent debout
Contre les portes de la nuit
Et les passants qui passent les désignent du doigt
Mais les enfants qui s'aiment
Ne sont là pour personne
Et c'est seulement leur ombre
Qui tremble dans la nuit
Excitant la rage des passants
Leur rage, leur mépris, leurs rires et leur envie
Les enfants qui s'aiment ne sont là pour personne
Ils sont ailleurs bien plus loin que la nuit
Bien plus haut que le jour
Dans l'éblouissante clarté de leur premier amour


POUR PEINDRE UN OISEAU

Peindre d’abord une cage
Avec une porte ouverte
Peindre ensuite
Quelque chose de joli
Quelque chose de simple
Quelque chose de beau
Quelque chose d’utile
Pour l’oiseau
Placer ensuite la toile contre un arbre
Dans un jardin
Dans un bois
Ou dans une forêt
Se cacher derrière l’arbre
Sans rien dire
Sans bouger…

Parfois l’oiseau arrive vite
Mais il pourrait aussi mettre de longues années
Avant de se décider
Ne pas se décourager
Attendre
Attendre s’il le faut pendant des années
La vitesse ou la lenteur de l’arrivée de l’oiseau
N’ayant aucun rapport
Avec la réussite du tableau

Quand l’oiseau arrive
S’il arrive
Observer le plus profond silence
Attendre que l’oiseau entre dans la cage
Et quand il est entré
Fermer doucement la porte avec un pinceau
Puis effacer un à un tous les barreaux
En ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l’oiseau

Faire ensuite le portrait de l’arbre
En choisissant la plus belle de ses branches
Pour l’oiseau
Peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
La poussière du soleil
Et les bruits des bêtes de l’herbe dans la chaleur de l’été
Et puis attendre que l’oiseau se décide à chanter
Si l’oiseau ne chante pas
C’est mauvais signe
Signe que le tableau est mauvais
Mais s’il chante c’est bon signe
Signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
Une des plumes de l’oiseau
Et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


FLEURS ET COURONNE

Homme
Tu as regardé la plus triste
la plus morne de toutes les fleurs de la terre
Et comme aux autres fleurs tu lui as donné un nom
Tu l'as appelée Pensée.
Pensée
C'était comme on dit bien observé
Bien pensé
Et ces sales fleurs qui ne vivent ni ne se fanent jamais
Tu les as appelées immortelles...
C'était bien fait pour elles...
Mais le lilas tu l'as appelé lilas
Lilas c'était tout à fait ça
Lilas... Lilas...
Aux marguerites tu as donné un nom de femme
Ou bien aux femmes tu as donné un nom de fleur
C'est pareil.
L'essentiel c'était que ce soit joli
Que ça fasse plaisir...
Enfin tu as donné les noms simples
à toutes les fleurs simples
Et la plus grande la plus belle
Celle qui pousse toute droite sur le fumier de la misère
Celle qui se dresse à côté des vieux ressorts rouillés
A côté des vieux chiens mouillés
A côte des vieux matelas éventrés
A côté des baraques de planches où vivent les sous-alimentés
Cette fleur tellement vivante
Toute jaune toute brillante
Celle que les savants appellent Hélianthe
Toi tu l'as appelée soleil
...Soleil...
Hélas! hélas! hélas et beaucoup de fois hélas!
Qui regarde le soleil hein ?
Qui regarde le soleil ?
Personne ne regarde plus le soleil
Les hommes sont devenus ce qu'ils sont devenus
Des hommes intelligents...
Une fleur cancéreuse tubéreuse et méticuleuse à leur boutonnière
Ils se promènent en regardant par terre
Et ils pensent au ciel
Ils pensent... Ils pensent... ils n'arrêtent pas de penser...
Ils ne peuvent plus aimer les véritables fleurs vivantes
Ils aiment les fleurs fanées les fleurs séchées
Les immortelles et les pensées
Et ils marchent dans la boue des souvenirs dans la boue des regrets
Ils se traînent
A grand-peine
Dans les marécages du passé
Et ils traînent... ils traînent leurs chaînes
Et ils traînent les pieds au pas cadencé...
Ils avancent à grand-peine
Enlisés dans leurs champs-élysées
Et ils chantent à tue-tête la chanson mortuaire
Oui ils chantent
A tue-tête
Mais tout ce qui est mort dans leur tête
Pour rien au monde ils ne voudraient l'enlever
Parce que
Dans leur tête
Pousse la fleur sacrée
La sale maigre petite fleur
La fleur malade
La fleur aigr e
La fleur toujours fanée
La fleur personnelle...
...La pensée...


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biobibliografia

Jacques Prévert est né le 4 février 1900, à Neuilly-sur-Seine.
Il est un enfant heureux et gai qui rit en toutes circonstances. Il ne manque aucune fête, aucun cirque et déjà, se passionne pour le monde du théâtre. Son père qui connaissait des acteurs, l’emmenait en coulisses avant que les spectacles ne commencent.
Jacques ne veut rien savoir de tout ce qui s’appelle PRISON, il n’aime guère les prêtres et serviteurs d’ Église, car cela représente, à ses yeux, le pouvoir autoritaire, la passéisme le plus absolu et le conformisme le plus borné. La violence de l’anticléricalisme prévertien sera souvent rejetée avec dégoût et escamotée au profit de son intérêt pour les enfants, les fleurs ou les petits oiseaux. Sa mère commence, dès son jeune âge, à lui lire des contes de fées, elle l’initie au monde la fiction et du rêve. C’est elle qui lui apprend à lire. Ses préférences : David Copperfield, La Dame de Montsoreau, Les Trois Mousquetaires...
Le 1er février 1907, Jacques Prévert arrive à Paris, débute l’école et ce, en retard ! Il déteste rester des heures sans bouger, à écouter un maître ennuyeux qui le gronde lorsqu’il regarde les oiseaux ou les fleurs à l’extérieur. Ce dégoût se transposera dans ses écrits Page d’écriture et Le Cancre (Paroles).
Il accompagne souvent son père chez les pauvres et il se met à les aimer, à comprendre leurs joies et leurs peines, à découvrir les trésors de générosité, de délicatesse et de poésie qui se cachent au fond du cœur des plus démunis de la société. Il constate que le monde n’est pas toujours bon ; mais heureusement il y a le rêve, la lecture et le cinéma...
Son petit frère, Pierre, deviendra metteur en scène et Jacques écrira les scénarios et les dialogues d’un grand nombre de films.
C’est l’époque du cinéma muet 1908). Le soir, il va souvent au théâtre, sans payer (son père est critique dramatique) et il dévore plusieurs livres. L’école est insupportable pour lui et son frère Jean, donc ils changent d’école (une grande cour exposée au soleil et de beaux arbres).
1909 - Il commence de plus en plus à faire l’école buissonnière et il s’instruit dans la rue. Le regard de Jacques se teint de tristesse et ne le quittera jamais tout à fait, à la vision désolante du monde qui l’entoure.
1910 - Il déménage à nouveau et se fait de nouveaux amis dont Gavroche. Ils font les cents coups et se retrouvent même au commissariat de police. Ces errances ne l’empêchent pas de décrocher son certificat d’études , qui ne lui procure aucune satisfaction particulière. Sa joyeuse insouciance de ses premières années se brisa définitivement vers 10-11 ans, l’indifférence est devenue une forme de sagesse.
1914 - Il abandonne définitivement l’école et essaie de gagner sa vie. Parallèlement, la guerre s’est déclarée et dans toute son atrocité, elle lui fait horreur.
1915 : Son frère Jean meurt, alors âgé de 17 ans, de la fièvre typhoïde.
1920 - Il est forcé de s’engager dans la marine (son attitude n’est pas exemplaire et il fréquente souvent les prisons).
1922 - Le service militaire s’achève enfin. Le goût pour la littérature ne fait que s’amplifier (il fréquente les librairies et rencontre des auteurs )
1924 - Il découvre avec intérêt La Révolution Surréaliste.
1925 - Il rencontre des surréalistes : le non-conformisme absolu, l’irrévérence totale et aussi la belle humeur y régnaient. ( Rue du Château ou au Café Cyrano ) Ils commencèrent ( surréalistes ) à jouer au cadavre exquis, source naturelle d’inspiration. Cependant, il ne publia rien dans La Révolution Surréaliste.
1928 - Il rédige avec son frère Pierre le scénario d’un reportage sur Paris : Souvenirs de Paris ou Paris - Express . Il fonde alors, la société de production Roebuck films. Hélas, le film n’est pas un succès. Après avoir écrit une critique à l’endroit de Breton, Mort d’un Monsieur, il se sépare d’avec le mouvement surréaliste. Il considère cependant, que ce mouvement a joué un rôle déterminant dans toute la littérature qui a suivi.
1931 - Naissance de Prévert en tant qu’écrivain ( ne ressemble à aucun autre auteur ).
1932 - Une troupe est fondée, et on lui demande d’écrire des textes pour eux. ( Cette troupe deviendra plus tard, le groupe (Octobre). Sa femme, Simone, le quitte.
1933 - Joseph Kosma chante les poèmes de Prévert les plus connus :La Pêche à la baleine, Barbara, Les Feuilles Mortes.
Prévert écrit beaucoup de pièces de théâtre où il y joue et fait jouer ses amis de la troupe Octobre, maintenant fusionnée avec une autre troupe. Il se moque des bourgeois, des curés, de militaires... ce qui provoquait des scandales.
1937 - Sa compétence est de plus en plus reconnue par les professionnels du cinéma. En plus des nombreux films, dont il écrit les scénarios et dialogues, il produit de nombreux textes pour le compte de revues. Il revoit Janine, qu’il avait rencontrée en 1933 et ne se quittent plus. (Premier collage)
1945 - Il publie des livres pour enfants, son premier : Contes pour enfants pas sages.
1946 - Publication de Paroles ayant pour résultat un énorme succès.
1948 - Un dessin animé Le Petit Soldat est suivi de La Bergère et le Ramoneur . Ce court métrage remporta le Grand Prix International du dessin animé à la Biennale de Venise.
1955 - La Pluie et le Beau Temps est son nouveau recueil. Ici on peut y découvrir un Prévert conteur, poète, dramaturge, pamphlétaire, lyrique, réaliste et surréaliste.
1955-56 - il travaille à l’adaptation du roman de Victor Hugo, Notre - Dame- de - Paris .
1962 - Avec André Villers et son ami Picasso, il publie deux livres de photos, peintures et collages. Pablo Picasso a d’ailleurs fait un portrait de Jacques.
1963 - Il publie Histoires et D’autres Histoires : une sorte de continuité du livre Histoires de 1946.
1966 - Il publie Fatras.
1969 - Un journaliste s’entretient avec Prévert et publie, trois ans plus tard,  le résultat de leur rencontre dans un livre nommé Hebdromadaires.
1973 - Il publie Eaux-fortes.
Il fut le scénaristes de plusieurs films célèbres:
Drôles de drames
Les visiteurs du soir
Les enfants du paradis de Carné
Remorque
Lumière d’été
Le 11 avril 1977, Jacques Prévert s’éteint à Omonville - la - Petite, (Manche).

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BIBLIOGRAPHIE

- PAROLES [1949] . Collection Le Point du Jour, Gallimard -poes.
- DES BÊTES... [1950]. Hors série, Gallimard -art
- SPECTACLE [1951]. Collection Le Point du Jour, Gallimard -poes.
- LETTRE DES ÎLES BALADAR [1952]. Hors série, Gallimard -nouv.
- LA PLUIE ET LE BEAU TEMPS [1955] . Collection Le Point du Jour, Gallimard poes.
- HISTOIRES [1963]. Collection Le Point du Jour, Gallimard -poes.
- FATRAS [1966]. Collection Le Point du Jour, Gallimard -poes.
- CHOSES ET AUTRES [1972]. Collection Le Point du Jour, Gallimard -poes.
- ARBRES [1976], Collection blanche, Gallimard -poes.
- GRAND BAL DU PRINTEMPS suivi de CHARMES DE LONDRES [1976] Collection blanche, Gallimard -poes.
- SOLEIL DE NUIT [1980] .Collection blanche, Gallimard -poes.
- COLLAGES [1982]. Textes d'André Pozner , préface de Philippe Soupault. Albums Beaux Livres, Gallimard -art.
- LA CINQUIÈME SAISON [1984] . Édition d'Arnaud et Danièle - - - - Laster. Collection blanche, Gallimard -poes.
- LA FLEUR DE L'ÂGE - DRÔLE DE DRAME [1988]. Hors série, Gallimard- scen.
- JENNY - LE QUAI DES BRUMES [1988] , Hors série, Gallimard -scen.
- LE CRIME DE MONSIEUR LANGE - LES PORTES DE LA NUIT [1990]. Hors série, Gallimard -scen.
- ATTENTION AU FAKIR ! suivi de TEXTES POUR LA SCÈNE ET - - - - -L'ÉCRAN [1995] . Édition d'André Heinrich. Collection Les Cahiers de la NRF, Gallimard -scen.
- CORTÈGE [1998] . Un livre conçu et réalisé par Massin. Hors série, Gallimard ( in La Poesie que j'aime )

26/08/2011

FOTOPOEMA



quadra: António Simões, Agosto de 2011
foto: Augusto Mota, Agosto de 2011 / Lanterna chinesa (Physalis alkekengi)

25/08/2011

[ antologia dos meus poetas militantes ] .InVersos .-nota prévia




.........há meses ,iniciei um novo blogue que levou algum tempo a tomar forma .um dia por uma razão ,nos seguintes por outras ,fui adiando esse projecto, até que o momento e a disposição permitiram que algo indefinido criasse forma .não me preocupei com o que  dali sairia ,nem isso ,jamais ,me interessou
sabia ,apenas que ,InVersos nasceria com o propósito de fazer jus à POIESIS ,sem credos e/ou ideologias políticas .nunca foi nem é minha intenção vender emoções ,muito menos comprá.las ,mas ,como andarilha e vagamunda ,preocupo.me ,outrossim ,em [des]construir através de palavras ,imagens e música ,algumas selectas memórias ,na "companhia dos meus poetas militantes"
... assim ,iniciei a edição da minha antologia poética que ,a partir de agora ,continuará onde deveria ter nascido .aqui ,no PALÁCIO DAS VARANDAS ...

-gabriela rocha martins.

FOTOPOEMA



poema: Gabriela Rocha Martins, in «I Antolologia de poetas lusófonos», Folheto Edições & Design, Leiria, 2007, p. 89.
foto: Augusto Mota, 2011 / Sesbania (Sesbania punicea)

23/08/2011

21/08/2011

"A Poesia Não Vai" ,de Eugénio de Andrade

autor desconhecido



A poesia adora
andar descalça nas areias do verão

e o que tem de acontecer ,acontece

depois de termos andado por outros trilhos;
de termos estado em pousio;
em alguns casos
,de termos dado descanso às cabeças e aos dedos;
resolvemos voltar ,com o mesmo sorriso com que um dia
dissemos,
até logo

,porque temos ( ainda ) muito a partilhar!

07/06/2008

Em Pausa



Este blogue segue em Nas Margens da Poesia


29/05/2008

Eu Também Não!

Socrateando…ou como a filosofia da “banha da cobra” nos pode enganar!

Numa esplanada na praia do Vau, perscrutando o horizonte desse mar infindo, aqui me encontro inquieta, volteando, filosofando, socrateando…
Como é que Portugal, um país tão afortunado em paisagens idílicas e até com alguns recursos naturais, persiste, ao longo da História, em caminhar para o precipício? Há um qualquer feitiço, um destino nefasto que nos persegue desde sempre…talvez um país que nasce da revolta de um filho contra a própria mãe, não augure nada de bom e o fantasma da D.Teresa, mãe de D.Afonso Henriques, ainda nos amaldiçoe …!
Para mim, já se torna difícil encontrar uma explicação lógica e racional para esta auto-destruição que insiste em nos afundar. Vários autores o têm tentado explicar, como por exemplo, Eduardo Lourenço na sua obra fabulosa “O Labirinto da Saudade - Psicanálise mítica do Povo Português” e até mais recentemente José Gil, no livro ”Portugal hoje – o medo de existir”. Mas afinal onde está o busílis da questão – em quem nos governa ou no povo? Não são afinal os governos constituídos por portugueses? Talvez o país precise de ir ao psiquiatra, deitar-se no divã e sujeitar-se a uma psicanálise profunda que o trate, regenere e acabe de vez com esta inércia que o amolece e impede de “pegar o touro pelos cornos”, em vez de continuarmo-nos a lamentar, cochichando pelos cantos, assistindo impávidos e serenos à destruição do nosso património paisagístico, ambiental e das nossas actividades ligadas ao mar e à terra.
Deixemo-nos de vez de procurar salvadores da pátria, emergentes ao longo da História – afinal o rei D. Sebastião teima em não aparecer numa manhã de nevoeiro, o Prof. Cavaco Silva que reinou num período de prosperidade económica, que fez e que faz agora pelo País? E agora o Eng. José Sócrates, a quem os portugueses concederam maioria absoluta, esperando por milagres, constatam afinal que as rosas no regaço da campanha eleitoral não se transformaram em pão, mas sim em presentes envenenados, tais como: aumento desenfreado dos combustíveis, mais desemprego, mais pobreza e onde as desigualdades sociais já superam as dos E.U.A … já há quem pense em trocá-lo pela Dr.ª Manuela Ferreira Leite – esta agora sim, a pessoa ideal, e então onde está essa memória curta que os fez esquecer que também ela já governou e mal… onde como ministra da educação foi um autêntico desastre … para outros o salvador possível seria o Dr. Alberto João Jardim – pois claro, neste reino do faz-de-conta em que já se vive, só falta o bobo-mor da corte para a palhaçada ser completa… Deixemo-nos de ser belas-adormecidas, esperando o beijo milagroso do Príncipe Encantado, que após eleições se transforma num sapo feio e mentiroso…
Olho novamente para o mar… está mais revolto e cinzento, acompanha o meu estado de espírito… os novelos de espuma morrem na areia como alguns dos meus sonhos se esboroaram no tempo… mas olhando as crianças, despreocupadas e felizes, brincando à beira-mar, ainda tenho esperança que agarrem o futuro, tirando o país desta letargia, dignificando-o e devolvendo o verdadeiro significado à palavra Demo-cracia.


Luísa Penisga Gonzalez, Membro pelo B.E. na Assembleia Municipal de Portimão

PS - hoje, via email, recebi da minha amiga, de longa data, e conterrânea, Luísa Penisga, este artigo que publicou no Jornal Barlavento.
Não sou, como ela ,do BE. Sou militante do PS.
Tal não me impede, porém, de ser crítica em relação a algumas posições do PS, de concordar com algumas pessoas que, militantes e/ou simpatizantes de outros Partidos, ou não, pensam pelas suas próprias cabeças.
Partilho, convosco, o texto que a Luísa me enviou.

-gabriela rocha martins.

28/05/2008

entre as colinas da memória

A verde escrevo o sol que escorre pelas minhas mãos e tudo se dilui na saudade de infinito e nos desejos dos olhos claros da madrugada. Antes fosse um poema que perpetuasse os segundos que em mim ardem como bicos aguçados que sangram os lábios e a dor do futuro. Mas futuro é o presente que arde e sente, que fere e pressente o rosto que acaricia um horizonte de mãos entre as colinas da memória.

Se o futuro é cada segundo que hoje vivemos, que se eternize o júbilo da sagração e se festeje cada gesto como dádiva sequiosa que inunda o corpo e percorre, em êxtase, os caminhos da cidade sitiada.

Sobre as colinas de Jerusalém dormem as mãos e a boca dessa memória renascida das cruzadas, dessas lutas sem inimigo, desse esvair por dentro do passado sem futuro, ou do futuro sem presente. De qualquer modo sentem-se e pressentem-se as mãos que ardem entre as colinas da memória, agora rejuvenescida, e sentem-se e pressentem-se as lágrimas que escorrem entre os dedos do dia que amanhece. Serão contas, talvez, de um novo rosário de feitiços e encantamentos.

Um outro sufrágio das mãos ritualiza, agradecido, uma nova religião de gestos em oferenda. O oficiante está pronto para as trindades do amanhecer!


Texto de Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000
Textos Transversais de Augusto Mota.

27/05/2008

o poeta

x .o poeta

é um velho amante crucificado em cruz de lata
que não sabe de onde veio nem para onde vai

é um corsário
um chulo
um prostituto
um canalha
que à noite se deita com a Poesia
e
de manhã brinca com as palavras
deixadas a marinar no riso dos deuses imortais

.
.
.

........
....... um pássaro voa em azul
.... um poeta veste.se de silêncio

.sobram palavras

_______________
poema de gabriela rocha martins
telas de nicoletta.

25/05/2008

Fados dos Quatro Elementos


Fado de Água
Ó fado da minha mágoa
Não apresses o meu fim –
Vou cantar-te fado de água:
Lava a dor que trago em mim.

Lava e leva o sofrimento
Para longe dos meus passos,
Como se fosses o vento
Soprando entre os meus braços.

Ó fado de cada dia,
Em que minha alma procura,
Quando a manhã principia,
Novo amor, nova ternura.

Mal ouço a fonte cantar
Logo sinto o coração
Sua dor suavizar
Na água dessa canção.

Fado de oiro, fado de água,
Só tu fazes esquecer
Esta ferida lacerada
Que rasga todo o meu ser.

Por isso te cantarei
Para que a dor suavizes,
E onde impera a tua lei
A todos tornes felizes.

Vai correndo, fado de água,
Dentro de mim e por fora,
Faz nascer a madrugada
Quando a noite me devora.




( clicar sobre as imagens para aumentar )

Poema de António Simões, inédito [ Fados dos Quatro Elementos ]
Textos Transversais de Augusto Mota.

20/05/2008

De açafate no braço

Excerto de um poema de Teresa Tudela in "Nas Margens da Poesia"
Fotografia e composição de Augusto Mota.

18/05/2008

1. fados dos quatro elementos

FADO DE AR


Diz-se que o ar não tem cor,
Mas nessa eu não acredito,
Basta olhar, por favor,
Quando é hora do sol-pôr,
Para a cor do infinito.

Ele é a grande redoma
Que envolve todo o planeta –
Se a nuvem ao alto assoma,
Voa a águia e voa a pomba,
E também a avioneta.

Eu vou pegar num balão
E enchê-lo num momento –
Ponho lá o coração,
Vai leve como o balão
Para onde for o vento.

Quando ao pé de mim escuto
O teu brando respirar,
Na paz do nosso reduto
Há silêncio absoluto,
Fica à escuta o próprio ar.

Dos elementos és rei,
Desses quatro principais;
Mal eu nasci, respirei,
Ó ar, sem a tua lei
Ninguém vivia jamais.



Poema de António Simões ( inédito )
"Fado", quadro de José Malhoa.

14/05/2008

Textos Transversais


de INFINITO SINGULAR

“Diferentemente dos deuses que sempre falaram ao homem, os textos não falam; acrescentam-se às coisas, tornam-se coisas. Engendram novos espaços para novas coisas. Ou melhor: eles falam, mas o que dizem logo se condensa, ou numa excessiva legibilidade de que só podemos suspeitar, ou numa ilegibilidade que nos obriga a um exercício de decifração que, não raramente, nos conduz a pouco mais do que à premonição de um silêncio que não é uma forma de ser, mas apenas uma espécie de mudez, de afasia.”

in Magalhães, Rui - «INFINITO SINGULAR: Sobre o não-literário»,
cap. Discurso e silêncio do texto, p. 78, ed. Textiverso, Leiria, 2006.
Textos Transversais de Augusto Mota.



13/05/2008

Dentro de momentos toda a verdade

Poema de manuel a domingos, in Antologia da III Bienal de Poesia de Silves//"Nas Margens da Poesia"
Fotografia, manipulação cromática e composição de Augusto Mota.

11/05/2008

abafado no desassossego

excerto de a rosa iniciática in «I Antologia de Poetas Lusófonos», Folheto Edições & Design, Leiria, 2007

Poema de gabriela rocha martins
Fotografia e composição de Augusto Mota.

10/05/2008

infinito branco

in A CHUVA NOS ESPELOS, ed. Alma Azul, 2008

Poema de Maria Azenha
Fotografia e composição de Augusto Mota

08/05/2008

Minha mãe amassa...




( clique sobre as imagens para aumentar )
Poemas de António Simões
Fotografias e composições de Augusto Mota [ da série Minha Mãe Amassa ]

05/05/2008

a litania do azul

Em nosso peito abre-se a rosa azul do prazer que habilidoso jardineiro cultivou em suas experiências de vida e de morte. Assim se libertam as sensações como pétalas caídas no chão que havemos de percorrer em sublime litania. Assim beijamos as pétalas azuis e sentimos um frémito avançar sobre o corpo todo e uma maré de recordações enrubescer as mãos e os pés.
Caminhar agora é difícil. Voar seria a deslocação apetecida. Pairar sobre o jardim das rosas azuis a satisfação plena de nossos desejos.
Tanta energia consumida a tirar, primeiro, os espinhos!
Resta-nos, por hoje, um punhado de pétalas azuis que, sôfregos e sofredores, agarramos bem com ambas as mãos e lançamos ao vento pela janela aberta da nossa desilusão.
Que cada porção de azul se multiplique em fértil terreno e melhores emoções germinem apetecidas em nossas bocas! As mãos, assim, ficarão mais quentes e, agradecidas, colherão as primícias desse jardim, para depois saborearmos o perfume azul da nova botânica.
Tal jardim será o constante renovar dos olhos e das mãos em apoteose.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000
Textos Transversais de Augusto Mota.

17/04/2008

Entrevista a José Sócrates

simplesmente deliciosa...........

16/04/2008

amigos, vinde


[Junto ao Mondego evocando o indomável rio do tempo]

corre o rio -
amigos, vinde
vê-lo correr;
sejamos só
no riso alegre
desta tarde,
um só olhar;
dando as mãos,
mais que o vento
nos elevemos,
ai, mas levando
nas asas brancas,
aquela esperança
que nós sentimos,
azul nascendo,
tão grata e querida,
cada manhã.
amigos, vinde,
que o rio do tempo
não espera por nós;
depois, quando
alto voarmos,
deixemos todos
no mesmo instante
cair as flores
da nossa esperança.
não por magia,
não por mistério,
mas porque nós
um dia cremos
que o nosso sonho
e a nossa morte
era o futuro
por nós nascendo,
paz e amor
será o rio:
esta alegria
cheia das flores
de cada alma -
esta alegria
azul nascendo,
tão grata e querida
cada manhã.



Poema de António Simões, Coimbra, no tempo da ditadura, de 1955/1960
Textos Transversais de Augusto Mota.

14/04/2008

You Are Loved

by Josh Groban

[deixe a música do blogue chegar ao fim
antes de clicar no vídeo para ver as imagens e

ouvir esta cantiga na magnífica voz de Josh Groban]

10/04/2008

o cio do sol


Enquanto lavro o corpo da manhã o Sol, em cio, cavalga um cão de fogo por entre nuvens afiladas e a construção de cidades adivinhadas. Bem perto, porém, há o rodopiar incessante do disco rubro que agora se estampa em nosso olhar. Vemo-lo para além das nuvens. Vemo-lo em cima e para além deste corpo que se adelgaça no esforço de transportar o astro-rei a caminho de outras galáxias bem mais perto de nós.
Rítmica é a sensação do sexo em desespero perante a ingenuidade artesanal do olhar, a firmeza da mão, o gravar da matéria.
Assim se constroem as nossas cidades interiores, que ora são corpo de mulher, ora vielas estreitas por onde vagueamos a tristeza e as mãos vazias de tudo.
As colinas ao longe agridem o espaço como justo contraponto a este paroxismo de dor e de prazer.
Deixemos as coisas acontecer ao ritmo do tempo que tomou conta do nosso acaso.

Augusto Mota, inédito, in "A Geografia do Prazer", 2000.
Textos Transversais de Augusto Mota.

08/04/2008

III Bienal de Poesia de Silves



“Poem’Arte // Nas Margens da Poesia”

A Câmara Municipal de Silves levará a efeito, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 2008, a III Bienal de Poesia – “Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” – a fim de comemorar o 25 de Abril, homenagear Urbano Tavares Rodrigues e inaugurar a novelíssima Biblioteca Municipal.
Ao longo de três dias, e, em mesas redondas, Poetas e Literatos – Aida Monteiro, António Simões, João Rasteiro, Jorge Fragoso, Marco Alexandre Rebelo, Maria Azenha, Maria Gomes, bruno béu, Eduardo Pitta, Graça Magalhães, José Ribeiro Marto, Maria Toscano, Rui Mendes, Teresa Tudela, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Maria do Sameiro Barroso, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Porfírio Al Brandão e Domingos Lobo – moderados por Luís Carlos de Abreu, Paulo Penisga e Silvestre Raposo, falarão sobre Poesia, enquanto o Grupo Experiment’arte intervirá, pontualmente, com provocações poéticas, aos Convidados e ao Público.
Na noite de 26 de Abril, será apresentada a Antologia “Poem’arte // Nas Margens da Poesia”, seguida de leituras por Marta Vargas
Dia 27 de Abril, pelas 18 horas, Domingos Lobo, em lição de sapiência, homenageará Urbano Tavares Rodrigues, o Poeta da Palavra Vida, e,
à noite, o recital de poesia – Palavras Interditas – pelo Experiment’arte, encerrará a Bienal.
À excepção da apresentação da Antologia que será feita no Bar Tapas, da Fábrica do Inglês, as mesas redondas decorrerão na Biblioteca Municipal.
Paralelamente, e, durante os três dias, teremos uma Exposição de Pintura de Marta Jacinto.
visite o blogue da bienal "Nas Margens da Poesia" e acompanhe-a, diariamente [clique sobre o nome do blogue]