22/12/2013

Lançamento de livro 2






(Clique, no texto abaixo, em multifacetado escritor para aceder à biografia do autor)


No passado Domingo, dia 15 de Dezembro, pelas 17.30 h, teve lugar no belo auditório da Filarmónica das Chãs a apresentação do livro «PEGADAS DO TEMPO», da autoria de Luís Lourenço, mais uma obra a juntar ao seu curriculum de multifacetado escritor. Solicitou-me o autor que lhe fizesse a apresentação da obra, tarefa que aceitei dadas as características muito específicas do livro. É que me surpreendeu com uma bem conseguida incursão pelos territórios do haikai, ou haiku, modalidade poética muito cultivada no Brasil na década de 1930, não só por imigrantes da vasta colónia japonesa, mas também por intelectuais brasileiros que por tal forma de arte se deixaram seduzir e a adaptaram ao ritmo e sonoridade da língua portuguesa. O haikai caracteriza-se por um esquema muito simples de 3 versos (5-7-5 sílabas), em que o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo, normalmente, tem uma rima interna na 2ª sílaba, que rima com a 7ª sílaba. 
  
Pároco de Regueira de Pontes, Augusto Mota e Luís Lourenço


O autor apresentando o apresentador

Luís Lourenço que, como escritor, é mais conhecido e reconhecido no Brasil do que em Portugal, foi lá que contactou com o haikai e com as diversas correntes de opinião quanto à respectiva estrutura, hoje mais liberta dos rígidos cânones tradicionais. Há os que defendem mais o conteúdo, para realçarem a concisão, a intuição e a emoção, enquanto outros são adeptos de uma forma rígida, seguindo a norma das 17 sílabas e o jogo da rima. Luís Lourenço afastou-se do espartilho de ambos para construir a sua  própria estrutura de curtos tercetos, com uma rima variável, que voga ao sabor da emoção e das imagens que os motivaram: umas vezes tal rima é a-a-b, outras  a-b-a, ou ainda a-b-b. Também o poeta não se assumiu em parte alguma da obra como cultor do haikai. Apenas o autor do prefácio nos remete, logo no início, para “a poesia haiku, talvez para dar uma pista ao leitor para este género de composição. Mas já outros poetas portugueses se dedicaram, esporadicamente, a este tipo de exercício conciso, sem terem a preocupação de o catalogar. Interessou-lhes, apenas, o resultado final. Recordo alguns nomes, cujos poemas breves já ilustrei e expus como Fotopoemas, portanto com o texto fazendo parte integrante das imagens. De Cruzeiro Seixas: “Silenciosa flor / do meu jardim / que ar amargo / guardas para mim.”, ou “Desfolhar uma rosa / é poesia / ou prosa?”; de António Simões: “ quem deu asas de oiro às giestas / e às borboletas, pétalas macias? / ah! Já sei: tu chegaste!” (título «primavera»); de Luís Pignatelli: “uma cabra / ruminando a manhã / o arco-íris / a sua erva.”; de Carlos Alberto Silva: "há um banquete de pólen / no jardim do amor / eu serei abelha e tu a flor" / (título «refeição nua»); ou ainda de Eugénio de Andrade: “Vê como o verão / subitamente / se faz água no teu peito, / e a noite se faz barco, / e minha mão marinheiro.” 


 
Aspecto parcial da assistência

Ao contrário dos poetas acima referidos, cujos textos nasceram apenas da vivência poética de seus autores, Luís Lourenço teve a feliz ideia de motivar todos os seus tercetos com fotografias a cores, cuja selecção já denota um critério para-poético, bem como as múltiplas vivências na sua aldeia natal, que, depois, interpreta transversalmente, dando-nos não uma mera descrição do texto icónico, portanto da imagem, mas um texto verbal que implica da parte do leitor um exercício reconstrutivo, o qual interfere subjectivamente no objecto retratado. Ao leitor exige-se, pois, um esforço interpretativo, devendo também ele fazer um apelo à sua cultura, às suas vivências e experiências. 


 Lendo poesia minimalista de Tchello d'Barros

Aproveitando a ocasião, e porque tudo se liga com tudo, não quis deixar de chamar a atenção para outras modalidades poéticas como a poesia minimalista do brasileiro Tchello d’Barros, do qual li alguns exemplos, e para uma modalidade típica da língua inglesa - os Limericks -, criados por Edward Lear, que publica anonimamente o seu primeiro livro de limericks em 1846: «Book of Nonsense» (Livro dos Disparates). Este género teve cultores de renome como Lewis Carroll, Rudyard Kipling e até mesmo T.S. Eliot. O limerick tem, como o haikai tradicional, uma estrutura rígida, mas de cinco versos, rimando a-a-b-b-a, sendo o terceiro e quarto versos mais curtos do que os outros. Tem de constituir uma unidade temática, satírica, política ou, até, brejeira, mas, tal como acontece com outras modalidades poéticas, é deixada ao leitor toda a liberdade de interpretação. Do livro «Pensar Sem Senso – Limericks Portugueses», de Hélio Osvaldo Alves, edição Campo das Letras, Porto, 2002, (esgotado) li um com bastante actualidade: “Havia um Sistema Nacional de Saúde / Que, vai ou não vai, falha amiúde. / Os utentes protestavam, / E peticionavam, / Mas o sistema insistia em falhar amiúde.”/ (p.65).


 Uma imagem para memória futura

Igualmente chamei a atenção para as Décimas tão portuguesas, já cultivadas por Camões e que hoje permanecem vivas só no Alentejo, principalmente entre os poetas populares, que a partir de uma quadra, que é o mote, desenvolvem quatro glosas de 10 versos, tendo o 10º verso da primeira glosa que ser o 1º verso do mote e assim sucessivamente. Portanto o 10º verso da última glosa é o 4º verso da quadra. E há os repentistas, que conseguem desenvolver as glosas de improviso, sendo o mais célebre o Ti Limpas, de seu nome Manuel Inácio Veladas, de Ferreira de Capelins, Alandroal, que vi e ouvi dizer na Confraria do Pão (Alentejo) uma décima em louvor de Bento de Jesus Caraça, durante uma homenagem à  sua memória, que lá se realizou em 23 e 24 de Junho de 2001. Estamos longe, portanto, da simplicidade e concisão dos haikais, dos limericks e da poesia minimalista, mas muito perto do que é genuinamente nosso e tão saboroso como o genuíno pão artesanal alentejano! 

"A descoberta consiste 
em ver o que todos viram e
  em pensar no que ninguém pensou."
 ALBERT SZENT-GYORGYI  






Reprodução de duas páginas de «Pegadas do Tempo»



Texto de Augusto Mota
Fotos de Rui Jorge Rebelo

21/12/2013

Fotopoema

 
Aí está ele de novo!...






... o sempre apetecido poema de António Simões e a foto do meu jardim nos últimos dias de um qualquer Outono, quando o sol da manhã incendiou a folhagem da Liquidambar styraciflua, como que a anunciar a chegado próxima do Inverno.

foto: augusto mota

Lançamento de livro 1






No dia 11 deste mês de Dezembro teve lugar em Lisboa, numa sala do Palácio da Independência, o lançamento do romance de Teresa Fernandes «Exercícios de Amor e Apartar», editado pela DG Edições. A apresentação esteve a cargo de Fernando Dacosta, que também é o autor do prefácio. É um romance de exercícios de amores e desamores urbanos, típico da vida sôfrega e vertiginosa de uma grande metrópole, onde tudo parece acontecer por acaso. Mas é um acaso provocado ao ritmo do pulsar das sensações que percorrem as artérias de todas as personagens, femininas e masculinas, lhes define os sentimentos e faz fluir a acção de um modo natural. «Invulgar fluidez» intitula, com razão, Fernando Dacosta o seu texto introdutório, que, com a devida vénia, passamos a transcrever, para melhor dar a conhecer a técnica narrativa de Teresa Fernandes:

Teresa Fernandes é uma escritora que agora nos surge com um romance singular, expressivamente intitulado Exercícios de Amor e Apartar. Nele, a autora encontra, e impõe, caminhos próprios, tendo na sensibilidade, na criatividade balizas inamovíveis. A realidade que lhe coube partilhar e a imaginação que lhe coube dilatar, foi-as escrevendo, ardendo nas margens da imprevisibilidade.

Com minúcia e exigência, Teresa Fernandes torna-se referência no território literário que abriu. Dotada de capacidades de observação invulgares, que a inteligência, a vivência decantaram, afirma um espaço próprio para si e para a sua (futura) obra.

Discreta, secreta, desdobrou, dobou íntimas reflexões de íntimas vidas que fingiu desocultar para melhor ocultar.

O que faz grandes livros, dizia-me Jorge de Sena (gigante no fazê-los), é a respiração, a atmosfera que lhe inculca o autor.

Teresa Fernandes surpreende-nos precisamente pela respiração, pela atmosfera que impregna esta sua obra – cumpliciada a quente. Tudo nela é rítmico, harmonioso, envolvente; os frios que a perpassam diluem-se sem agressões nem rupturas; as inquietações avistadas dissolvem-se, as lonjuras esbatem-se. Muita vida há nestas páginas de invulgar fluidez e fundura transmitidas com a serenidade dos que dominam as crispações sofridas.”



 Fernando Dacosta, Teresa Fernandes e Daniel Gouveia, o editor



foto: Ana Ramon, a quem agradeço o exemplar oferecido, autografado pela autora.

19/12/2013

Tempo de circo 1





Minha mãe amassa o circo
Quando ele está na aldeia -
                                                         São só fatias de riso
                                                         Esse pão da nossa ceia.

Minha mãe amassa o circo
    Com seus bichos e palhaços -
                                                         Ainda hoje me divirto
                                                         Na arena dos seus braços.


Quadras de  António Simões, in «Minha mãe amassa o pão», edição da Câmara Municipal de Beja, 2001, p.41

Ilustração digital de Augusto Mota, 2001, da série «Quadras&Quadros» baseada em 30 quadras deste livro

Tempo de circo 2



TRAPEZA - a cidade dos circos ambulantes




Há palhaços pelas ruas da cidade. Há crianças felizes por todas as ruas da cidade. A vida é um permanente espectáculo de diversão nesta cidade de circos ambulantes. Ao longe já se avistam as cúpulas frágeis da cidade de lona e ouvem-se os altifalantes gritando diversão para a humanidade. Trapeza não conhece tristeza. Trapeza não conhece miséria. Trapeza não conhece guerra. Lá tudo é esforço para superar o homem aniquilado. Ali há espectáculo permanente de escalada vertical. O homem sente-se equilibrista desafiando leis naturais que só uma certeza nas suas reais possibilidades consegue animar. Desloca-se, como funâmbulo, sobre precipícios aparentemente intransponíveis, com um à-vontade de vitória segura. Mais ainda, exercita-se mesmo sobre as bocarras escancaradas, como que a escarnecer das forças que o atraem a cada passo.

E a vitória? A vitória está em cada aplauso da assistência, está na ressonância de uma apoteose que mais excita a luta e mais compensa o esforço. Cada espectador avalia bem esta ascese de movimentos síncronos, marcados como que por um relógio automático que ordenasse e exigisse correspondência imediata, sob pena de um desarranjo na máquina propulsora.

É isto Trapeza em seu rítmico pulsar, onde a respiração dos amantes corresponde a movimentos de espectáculo circense. Aqui as próprias crianças choram sobre os túmulos dos palhaços flores de risos aplaudidos e gravam epitáfios de pétalas vermelhas, com poemas de movimentos dinâmicos, perpetuando sempre o ritmo que animou esta cidade desde a sua concepção.

Morrem palhaços em Trapeza? Não. Em Trapeza não morrem palhaços. Em Trapeza os palhaços apenas descansam entre cada espectáculo e as crianças que gostam de os aplaudir imitam os risos dos adultos e o choro das próprias crianças que nunca viram palhaços.

Mas em Trapeza também há poetas. Por isso o homem lá recolheu as últimas esperanças de alegria e lá guardou todas as crianças que ainda encontrou em si.


Augusto Mota, texto 9 de «Metáfora,», 1960

- Textos de iniciação e reconhecimento.

       Publicado em “Texto e Diálogo” / Jornal da Costa do Sol, 8.6.1977




Ilustrações: ARTE POSTAL / desenhos de Augusto Mota, 1962

Rosário Breve




Nem o palhaço se lembrou desta da avó e da bezerra





Perto de minha casa, num vasto terreiro ermo que só os ventos de marítima origem usam franquear, acampou agora, por e para um mês, um circo. A tristeza do costume: espécie em lona de acampamento funâmbulo-cigano, é presídio de animais tristes e condenados à prisão perpétua sem qualquer culpa formada, tugúrio de artistas tisnados dourando a cárie da gargalhada postiça sem riso dentro e castiçal de bandeirolas virente-rubras tipo Euro-2004 com o mesmo resultado (da) final.
Aderindo aos maus tempos d’agora, todo o santo dia aquele pagode de pano encardido e desbotado ladra stum-stuns de bárbara cacofonia de discoteca equivalentes a descomunais arritmias cardíacas que sobressaltam a passarada num raio de dez milhas terrestres e me inviabilizam, pelo menos até 6 de Janeiro próximo, o passeio beira-fluvial do dia (que para mim é às seis da manhã, Inverno ou Verão, que começa).
Não se trata, todo este ror de repugnâncias minhas, de ter alguma coisa contra a esfarrapada nação circense. Trata-se tão-só de nada ter a favor dela, por mais que tente. Poucas coisas nesta vida me são tão instantaneamente deprimentes quão os circos. De menino que assaz me fazem mal à pituitária lírica. Na cidade marítima onde veraneávamos (sim, tempos houve já em que as famílias operárias também veraneavam – e nem era muito longe dos ricos frequentadores do casino, do ténis-clube, do hipódromo de contraplacado, do chá-dançante e das casadas com os oficiais da capitania), dizia-Vos eu então que, na cidade marítima onde veraneávamos, o circo era fatal como a morte da avó (ou da bezerra, no caso dá o mesmo).
Reparai: tenho cinco anos e recordo, como se agora fosse, as jaulas inçadas de ímpias moscas atormentando os leões mais magros, mais famélicos e mais tristes do mundo; o patriarcal elefante padecendo a insuportável humilhação do exílio e com ar de quem sonha ainda poder um dia deixar correr, ou morrer, o marfim ao mesmo campo-santo de seus livres antepassados indiano-africanos; o ar de barbeiro pelado dos chimpanzés, tão parecidos sempre com os nossos primos da Beira Alta; a lustral gordura alvinitente da gentil senhorita assistente do atirador de facas; o palhaço sem pingo de graça mas muita pinga de bagaço e de cachaça; a mulher-às-vezes-aranha-às-vezes-das-barbas lavando e pondo a estiolar ao vento marinho suas ceroulas museológicas e suas cartas de um amor antigo que se recusa a secar; o fadista internacional que nunca passou nem a norte da Mealhada, nem a sul de Portel, nem a disco gravado, a Oeste como a Leste; a arrogância toleirona do Director de Arena, esse patusco dos bigodes retorcidos em parêntesis para sussurro da frase em linha dos lábios e sempre com aquela casaca de granadeiro napoleónico que não tirava nem para tomar o banho que nunca tomou; e o lixo que cada fim de época balnear aquela malta abandonava ao dissabor eólico da praia cercana.
Por não ter eu salvaguardado ainda, ou já, o dinheiro q.b. para ir habitar o deserto, levo com o circo à porta. Isso me fez, antes de enviá-la em definitivo ao jornal, telefonar esta crónica a um Amigo a quem também os circos deprimem sem remédio. Ele fez muito que sim logo às primeiras instâncias respiratórias do primeiro parágrafo. Também ele redesceu logo a menino, logo de novo assistindo, como se agora fosse, àquilo a que pelas aldeias chamavam “comédias”: famílias andrajosas que, queimadas do frio e do mau hábito da fome, pandeiretavam e símio-realejavam por as eiras e os fontanários das paróquias as últimas maravilhas de uma ilusão que há muito deixara, já então, de ser a primeira.
E agora isto: acontecer-me que a escrita desta crónica acabasse por me cabisbaixar o brio – como se tivesse ido ao circo. Ou como se, havendo finalmente logrado adormecer, adormecido sonhasse com o leão liberto, liberto de homens e de moscas e de verões não africanos que nunca voltam a ser o de 1969, esse outra vez livre e forte rei fazendo rugir a altífona goela à aparição da gentil senhorita, também ela farta, e liberta finalmente ela também, do sacanita que lhe atirava facas.


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», de 19 de Dezembro de 2013


 

 Ilustrações: Arte Postal / desenhos de Pedro Frazão, 1962