16/01/2014

Rosário breve



O Henrique, o David e eu com dentes novos





Pode ser uma chatice, isto de acordar às seis da manhã já vestido e na pastelaria já. À saída do transe, a vida põe-se toda a saber a bolos de ontem e a aguadilha de café refervido. Na nublação, as caras não chegam a rostos: parecem, antes, moedas gastas, trocos indiferentes de nota nenhuma cujo único câmbio áureo é o amarelo do alerta-idem que há semanas invernosamente varre o litoral continental de Norte a Sul.
A coisa agrava-se se, como segunda-feira passada foi o meu caso, for manhã de ir ao dentista. Lá estive, de bocarra escancarada como betoneira mole, exposto ao doutor que implacavelmente me garimpava poços novos naquela parte do corpo que uso para urdir sílabas, cuspos e ontens cariados. Mas estou melhor, obrigadinho, isto passa – como tudo passa.
“Toda a gente quer endireitar o mundo; ninguém quer ajudar o vizinho.”
Assim fala um homem chamado Henrique Moleiro. Por apreciar o que dele ouço, presto-lhe uma atenção mais por escrito. Não faz mal que tenham dado já as nove e ¼ e que por isso seja eu o único freguês da confeitaria, tirante a empregada, que é Deolinda e também sofre dos dentes. Não faz mal que Henrique seja de facto Henry e Miller em vez de Moleiro, que o que lhe ouço dizer esteja afinal escrito em Max e os Fagócitos Brancos, prosa que escancarei no tampo da mesa, à maneira da própria boca no trono reclinado do odontologista, para melhor suporte meu da realidade dos outros.
Faz-se entretanto horas-de-não-sei-quê. No entrementes, chega o David Jornaleiro com os jornais do dia para leitura gratuita dos fregueses. A Deolinda dá-lhe a esmola discreta do galão-pão-com-margarina, esta afinal sempre ajuda o vizinho ao contrário do que o Miller diz, o David é vizinho de toda a gente por ser sem-abrigo, isto de entregar os jornais pelos Cafés e de andar aos recados é um favor que lhe deixam fazer a troco do pão-margarina de cada dia. O mundo que se endireite por conta própria, afinal o David sempre faz pela vida, que a esperança pode ser a última a morrer mas cada um de nós é o penúltimo a fazer o mesmo.
O jornal traz a doutrina do costume: ex-maridos que, possessos de furioso ciúme venatório, caçadeiram as ex-mulheres, multibancos estoirados à botija, velhotes que, como pescadores em terra, amanhecem afogados dentro de poços a céu-aberto (como a minha bocarra no dentista segunda-feira passada, já não me lembro se Vos falei disso já), baixas mortais da guerra civil em que o trânsito rodoviário se tornou, Cavaco escrevendo Direita por linhas mortas. E São Cristiano Ronaldo, espécie de anjo feliz com lágrimas que, na esteira multigloriosa de Santo Eusébio, nos reitera o rotativismo monárquico-geracional do “rei morto, rei posto”.
Vale-nos, de França, que uma certa errante fragrância parisiense de sedosas saias e de anáguas emanuellianas, com furtivos motociclos abandonando de madrugada o ninho-de-amor à mistura, nos chega das peripécias com uma actriz até jeitosinha frequentada a nu pelo senhor presidente gaulês, monsieur que, por se chamar Hollande, sempre dá outro prospecto erótico a moinhos rouges e a tulipas abaixo do nível do mar em plenos Champs Elysées. Nos arredores tristonhos desse divertimento com Tour Eiffel ao fundo, aqui a maltosa cá vai aprendendo inglês pelo lado mais dark da moon, que é como por mania os Bifes chamam a uma coisa que se vê logo ser a Lua. Exemplos desse poliglotismo: bullying escolar (suicídio do miúdo de 15 anos no concelho de Braga), carjacking (com fartura e por todo o lado), rating (agências ratonas de Wall Street em desprezo total pelas Constituições ex-livres e ex-democráticas das nações), spread (manigâncias tipo usura-à-BPN), swaps (tipo papagaio-louro-de-bico-amarelo-põe-as-pensões-pobres-dentro-dum-chinelo): e tudo isto com sotaque à Lauro António, tipo léte-se-lu-két’da-trêila.
Indiferentes a tais apuros apenas humanos, porém, a Grande Roda do Tempo marcha em ímpia surdez rumo ao próximo Natal via Época-de-Incêndios-Caça-ao-Bombeiro-do-Verão. Que até lá, enfim, nos não doa fisicamente a cabeça. Ou os dentes. A mim de certeza que não, digo os dentes, que por essa altura já não hei-de ter nenhum dos naturais, por tê-los estragado com bolos tão de ontem como a vida, mas sim daqueles que fazem do sorriso um pequeno milagre feito de resina acrílica, cuspinhenta e silábica, ó Deolinda.


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», de 16 de Janeiro de 2014
  
Ilustração de Vlasta Zábranský, in «Pardon», revista satírica alemã,  década de 1970 


*editado por augusto mota

15/01/2014

Mini-soneto


QUEM, COM LEVEZA DE MÃO




quem, com leveza de mão,
afaga minha cabeça?
o mais certo que aconteça
é ser o vento suão.

iludido, o coração
‘inda espera que apareça
alguém, que por afeição,
a mão me estenda sem pressa –

e em meus cabelos pousada,
vá abrindo a madrugada,
numa carícia sem fim;

‘té que triste e humilhado,
por esse vento enganado,
fujo pra dentro de mim.


                                         António Simões


foto: augusto mota / teia de aranha orvalhada, com manipulação cromática.

 

A Geografia do Prazer



LAVRANDO A ÁGUA




Campos do Mondego inundados / Zona de Montemor-o-Velho / Inverno de 2001


A caminho do Outono, apressadas, correm as árvores pela paisagem fora. Já são de ouro as cores das folhas que se espalham pelas mãos, à beira de todos os caminhos do corpo, quando o vento anuncia chuva e refresca os olhos cansados de tanta viagem pelo deserto das emoções.

Vamos, em breve, iniciar um outro ciclo de encontros desencontrados, como se o Outono tivesse que ser a estação de partida e de chegada de todas as viagens empreendidas ao sabor da memória e dos dias que a justificam.

Vamos, por certo, atravessar os extensos campos de arroz quando os homens e as máquinas já se preparam para a ceifa das espigas maduras e alguns bandos de garças-boieiras ensaiam voos de migração rumo ao sul, rumo à Primavera de todas as aves.

Vamos, ainda, deixar os olhos recordar o verde do vale quando a luz rasante da manhã enobrecia os tons vários dos arrozais, ou quando as cores do poente pareciam antecipar-lhes a maturação. E o Mondego, de permeio, sempre a dividir a jornada entre a ida e a volta, como se ter que atravessar uma ponte fosse a mais correcta desculpa para tudo o que os olhos desejam: habitar, por exemplo, as ruas e os largos daquela aldeia do poeta Afonso Duarte, que a memória ainda vê rodeada de água por todos os lados, qual ilha  perdida  na  bruma  dos  campos  alagados  pelas  águas  férteis  de  um Inverno que o rio deixou sair de suas margens. De longe, através das janelas  de uma velha  carruagem de terceira classe, vemos ainda, nítidas, as casas reflectidas no vasto espelho da manhã, só quebrado aqui e ali pelos ramos angustiados das árvores que tentam sobreviver a tal tormento, enquanto o comboio se afasta, ronceiro, contornando os campos semeados de água e desespero.

Vamos, pois, ter esperança nas viagens que havemos de fazer pelas cores adentro que as árvores, propositadamente, foram abandonando em nossas mãos. E não deixaremos que tal esperança desapareça nas águas quando elas baixarem e quase só alimentarem as valas de enxugo que vão riscar a paisagem como esteiras de luz, anunciando, assim, o fim de todos os invernos. Começam, então, os primeiros amanhos dos campos, com os animais e as máquinas a lavrarem a terra e a água onde crescerão as espigas que iluminam o nosso contentamento de hoje.

Vamos, sobretudo, fazer o elogio da lavoura que permite ao corpo o sustento das mãos, espalhando, como adubo natural, as boas recordações de ontem sobre todos os campos agora já arados, para que as espigas cresçam mais depressa e o grão seja mais suculento.

Assim, a boca agradecerá a festa  e o esforço. 


Augusto Mota, texto 87 de «A Geografia do Prazer», 1999

- exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.



Campos do Mondego inundados / Inverno de 2001



(in  http://colateralidades1.blogspot.pt/2014/01/a-geografia-do-prazer_4138.html / onde está a ser publicada a obra completa)
  
* editado por augusto mota, que também é o autor das fotos.


10/01/2014

Fotopoema














MEU TRAVESSO CORAÇÃO





Meu travesso coração,
Não sei pra onde me levas –
Fica a arder na minha mão,
Deixa-me longe das trevas.

Ó meu velho coração,
Tu continuas travesso,
Podes ser d’oiro ou não,
Que para mim não tens preço.

Meu travesso coração,
Ó coração de menino,
Nos tempos que já lá vão,
Eras ledo como um sino.

Meu travesso coração
Batendo num canto de água,
És minha mãe ao serão
Embalando minha mágoa.

Meu travesso coração,
Tão leve como se fosse
Esse manjar d’arroz doce
Dos velhos tempos de então.

Meu travesso coração,
Ó meu carro dos brinquedos,
Fugindo de supetão
Pela estrada dos meus dedos.

Meu travesso coração,
Minha folha de alabaça,
Vibrando se o vento passa
Ou se lhe sopra a paixão.

Meu travesso coração,
Ó meu motor de magia,
Bates noutra dimensão
Quando eu me for um dia.

Meu travesso coração,
Meu motor bem oleado,
Toda a vida te ouvirão,
Aqui e no outro lado.

Meu travesso coração
Cantando pela manhã,
Se tu és do sonho irmão,
A vida é tua irmã.

Meu travesso coração,
Nunca mais ganhas juízo:
Assentas os pés no chão,
O resto no paraíso!

Meu travesso coração,
Aonde vais tão à pressa?
Devagar, ó meu irmão,
A vida apenas começa.

                      António Simões, 2008


ilustração: um coração que andava "perdido" na net !
*escrito e editado por augusto mota