14/09/2014

Fotopoema









in «O CORPO, LUGAR DE EXÍLIO», edição "Castália", 2013 

O livro está à venda em www.amazon.com 
Quem estiver interessado e não esteja familiarizado com as compras na Amazon poderá dirigir-se directamente à autora. 




Texto transversal







10/09/2014

Fotopoema








Editado por Augusto Mota

04/09/2014

Crónica


ISTO DAS CORES





Na mesa em frente à minha, um homem doente. É quase ’inda rapaz: uns bons (ou maus) quinze anos deve ele perfazer a menos dos meus. O rosto dele é um clarão sanguíneo. A moção gestual dele é muito lenta – como se até o ar lhe doesse. De que sofrerá? De estar vivo naquele corpo, talvez. Tomou (mas tão lentamente!) um copo alto de café-com-leite. Ei-lo a respirar do esforço. O copo de água atira-lhe quatro comprimidos (um azul, um verde, um rosa e um prateado) para o labirinto gástrico (vermelho-negro). O olhar dele é feito de duas ilhotas pretas sobre nácar coagulado. A roupa é de lavada decência – alguém (a mãe?) trata dele ainda. Usa ao pescoço um fio religioso que lhe pesa na cerviz: Deus custa quilogramas na aflição.
Tomou-o cedo de mais a terminação: o meu Leitor e eu, é a um moribundo que assistimos.
Repórter coscuvilheiro, junto da patroa do botequim indago dele. Diz-me ela que o rapaz é de família de bem & de bens. Mais me conta que, de quatro filhos, é ele o último. Último duas vezes: porque dos quatro o mais novo e porque único desde que, aos três outros, os finou aquela maleita irreciclável da turbina cardíaca.
Chega entretanto à esplanada a minha pomba das sete e dez. Veio com a alba no bico. É lustrosa fêmea: maciça, virente-plúmbea, duas graciosas dedadas de tinta permanente na junção posterior das asas. Cabeça muito viva, mui latina, mui ladina. Mesmeriza-me sem pudor: quer do comer que sabe ela lhe trago eu no saco. Faço-a esperar um pouco: estou a escrever para o meu Leitor. Ela circunvagueia como um polícia aborrecido da vida. Pica do chão, por desfastio, uma migalha invisível. Sinto a indignação a crescer nela. Mas, por me faltarem dois parágrafos crónicos, haverá de esperar um pouco mais.
Quando dela aparto o olhar, descubro, para serena mágoa minha, que se foi já embora o moço do atávico coração. Ei-lo longe já além, além passando milimetricamente a passadeira. Causa ele uma fila nervosa de carros impacientes: ser automobilista é não cuidar do coração. Perdi-o. O meu Leitor perde-se dele. Não voltaremos, talvez a escreve-lê-lo. Resta-nos a pomba. São sete e dezassete da manhã, sete minutos a demorámos já.
Vou ao saco. Tenho arroz para ela. Quatro singelos bagos tenho eu para ela: um azul, um verde, um rosa e um todo de prata – como só ela. 

Crónica de Daniel Abrunheiro, in "O Ribatejo", de 4 de Setembro de 2014

Ilustração: Arte postal, Miguel Flávio, flo-master e tinta da china sobre postal dos CTT, 1963

Editado por augusto mota
  

15/08/2014

Ficção breve



SALA DE ESPERA  I






Estas mulheres cheiram a flores de enterro.
Sentadas nas cadeiras verdes, quase todas vestidas de negro, orelhas argoladas de ouro, poderiam ser minhas mães. Estoiradas de filhos, gastas mas rijas, contam-se mutuamente os episódios iguais das vidas. Uma só vida multiplicada: o mesmo filho de motorizada, o mesmo falecido esposo, os mesmos vasos com sardinheiras ao mesmo janelo da cozinha. Eu não tenho motorizada, mas poderia ter tido. Talvez devesse ter tido uma. O que tenho é sono. Vem-se cedo para aqui, há muita gente para o mesmo. Copos, depressões, tristezas vitalícias. Chá, café ou leite. Dão bolachas. A instalação sonora debita o terço dos nomes, esses portáteis rosários. Espero o meu nome. Uma reprodução fotográfica do tamanho da parede apresenta um caminho na manhã de uma bosque.  Ninguém vê o caminho. Celestina de Jesus, gabinete 3 . Só sabemos este caminho, ao cabo do qual nos darão bolachas, paroxetina e flores velhas como mães de motorizadas. 




Texto de Daniel Abrunheiro, in «O Preço da Chuva», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006, p. 119

Foto de Augusto Mota, com manipulação cromática


editado por augusto mota 
  

01/08/2014

Texto transversal 106







Ficção breve



O  CASO  DA  MORAL  DA  PORCA






O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia da matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra "amor" serem as quatro primeiras, também, de "a morte". Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava "saída". Ele respondeu: "Anda distraída. E despreza o comer." Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só iria se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, está acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo "corpo", por outra ordem, as mesmas letras de "porco".
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.


 Texto de Daniel Abrunheiro, in «O Preço da Chuva», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006, p. 93.

 Foto obtida na net.

editado por augusto mota

 

Texto breve


O SENHOR  DO  MEL




Depois da cresta, uma alça da colmeia ainda com algum mel


O senhor do mel cochila à sombra.
Aos pés, a caixa de papelão com boiões de mel caseiro também passa pelas brasas. Está um calor de alto julho. As moscas irisadas de verdeazul tracejam de som a hora da tarde. O ar resulta da condensação da luz e da memória da água. O senhor do mel está velho. Tem cabelos brancos e pele encarnada. A boca entreaberta como um pano de teatro mastiga palavras sonhadas, trabalho de abelhas. Eu passo e escrevo.



Texto de Daniel Abrunheiro, in «O Preço da Chuva», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006, p. 131.

Foto de Augusto Mota

27/07/2014

Texto transversal 105









Texto breve



O  LUME





O chefe da polícia cria galinhas na capoeira que herdou, com a casa, dos avós.
Quando chega a casa, dedica-se às poedeiras. O cão rodeia-o solícito lambedor da autoridade agora civil. Há laranjeiras no pátio, que rega por sulcos abertos a enxada: autor de caminhos da água. O chefe da polícia é sossegado. Só o desassossega a memória quotidiana da cabeça do guarda 1253, cujos malares romanos, perfeito nariz e queixo duro guardam a toda a volta a boca comedora de beijos. Cuidadas as galinhas, o chefe da polícia divide a ceia com o cão, senta-se a fumar nos degraus da marquise aspirando o suor das laranjeiras. Lá dentro, no fogão de ferro, o lume arde para ninguém. 1253 menos 1253 igual a zero.



Texto de Daniel Abrunheiro, in «O Preço da Chuva», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006, p. 41.


Foto de Augusto Mota, 26.07.2014, com os agradecimentos ao dono do prato, que é exemplar único, feito por encomenda.  


24/07/2014

Texto transversal 104








Oito quadras



MINHA  MÃE  AMASSA  A  VIDA






Minha mãe amassa a vida,
E a vida cabe-lhe inteira
Na farinha desmedida,
No infinito da peneira.

Minha mãe amassa e diz
Pra dentro do coração,
Que só pode ser feliz
Quando os outros também são.

Minha mãe amassa e crê
Na grande família humana:
Que o pão a todos se dê
E toda a gente se irmana.

Minha mãe amassa e teme,
O que pensando aprofunda,
Com gente mesquinha ao leme,
A barca humana se afunda.

Minha mãe amassa e sabe
Que em seu grande coração,
O Amor do mundo cabe,
O ódio, esse é que não.

E, enquanto amassa, escreve
Sobre a massa a levedar,
Com essa grafia leve
Que o coração sabe usar.

E as palavras que escrevia,
Paz e Amor, passarão,
Como em gesto de magia,
Pra dentro de cada pão.

Ela amassa enquanto lavra
O chão do seu pensamento:
Amassa o chão da palavra,
Da palavra faz fermento. 


António Simões


foto: Augusto Mota / Centro de um Hibisco (Hibiscus rosa-sinensis)

Texto transversal 103







Crónica




A SECRETA VITÓRIA





Mosteiro da Batalha - Capelas incompletas


Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos. A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhadora pedra, é eterna. Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.


Daniel Abrunheiro  

in www.canildodaniel.blogspot.pt / 23 de Julho de 2014

foto de Augusto Mota


19/07/2014

Texto transversal 102








18/07/2014

Texto transversal 101








05/07/2014

Recordatório