28/02/2012

Mais uma razão ( de força ) porque sou contra o novo AO*

O vício de forma do acordo ortográfico


“A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos
– Erasmo de Roterdão

Um dos aspectos mais bizarros que tem caracterizado o imbróglio em que já se tornou o novo Acordo Ortográfico (AO) é o facto de, do ponto de vista jurídico, ele nunca ter reunido os pressupostos legais para entrar em vigor na nossa ordem jurídica, apesar de o vermos ser aplicado acriticamente por todo o lado. Na verdade, não só toda a gente parece dá-lo como adquirido e inquestionável, como os poucos que ainda se vão manifestando publicamente contra esta aberração jurídica é que são acusados de prevaricadores da lei. Porém, uma simples leitura da Resolução da Assembleia da República n.º 26/91, que acolhe entre nós o AO assinado em Lisboa a 16 de Novembro de 1990, vem apontar em sentido contrário. Se não vejamos: vem referido no seu artigo 3.º que “O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrará em vigor a 1 de Janeiro de 1994, após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto da República Portuguesa”, sendo esses Estados aqueles que constituem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (Timor-Leste só aderiu ao mesmo mais tarde, com o segundo protocolo modificativo de 2004). Ora, tal ratificação por parte de todos os Estados nunca chegou a acontecer até hoje, já que países como Angola e Moçambique não o ratificaram, nem consta que a ratificação esteja para breve segundo os ventos que nos chegam de lá. Dirão alguns que o segundo protocolo modificativo do AO altera a redacção do artigo 3.º, passando a determinar que “O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa”, mas a verdade é que também esse protocolo modificativo não foi ratificado por todos os Estados signatários, o que faz com que nenhuma das convenções tenha entrado em vigor na ordem jurídica portuguesa! Isto porque nos termos do n.º 2 do artigo 8.º da Constituição, se o AO, enquanto convenção internacional, ainda não está regularmente ratificado para vigorar na ordem jurídica internacional, ele não poderá ter vigência na ordem jurídica interna. E se não vigora em nenhuma ordem jurídica, não produz efeitos. Como afirma e bem Vasco Graça Moura na sua coluna de opinião do DN, o grande problema é portanto o de que cumprir o Acordo Ortográfico, no presente estado de coisas do nosso Estadode Direito, implica não o aplicar! Desta forma, como defende o mesmo colunista, a Resolução n.º 8/2011 do conselho de ministros do anterior governo que determinou a entrada em vigor do AO na nossa ordem jurídica viola o próprio AO, já que, ao determiná-lo, vai contra o estipulado no próprio texto do AO.

Mas esse não é o único problema jurídico, pois encontramos outro pressuposto errado da Resolução n.º 8/2011, quando enuncia no seu preâmbulo que adopta “o Vocabulário Ortográfico do Português, produzido em conformidade com o Acordo Ortográfico”. Mas… qual vocabulário? Mais uma vez a simples leitura da Resolução n.º 26/91 vem desmentir o referido acto normativo: refere o artigo 2.º do AO que “Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providencias necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, e um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias cientificas e técnicas”. Ora, este vocabulário nunca chegou a ser objecto de acordo. Como refere pertinentemente Paulo Jorge Assunção na sua coluna de opinião do Jornal Público de 27 de Fevereiro de 2012 (também aqui) “o que se lê, num Anexo, é apenas um conjunto de regras gerais (muito mal feitas), para serem mais tarde concretizadas (artigo 2.º do AO90) através do estabelecimento de um vocabulário ortográfico comum a todos os países signatários (ou seja, por via de outro acordo, específico), que nunca foi feito. Isto significa que o AO90 ficou (nos seus próprios termos) inaplicável, suspenso de facto futuro.” Ou seja, para além de não estar oficialmente em vigor em lado nenhum, ao AO falta-lhe um objecto, pois o estabelecimento de um vocabulário comum previsto na convenção nunca foi elaborado.

Mas o pior é que as coisas não ficam por aqui. Tendo em conta que a ortografia actualmente em vigor foi a estabelecida no Decreto 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, em consequência de um outro acordo denominado de Convenção Luso-Brasileira ortográfica de 1945, mais tarde ratificada pelo Decreto-Lei nº 32/73 de 6 de Fevereiro, então, como alega António de Macedo (citado aqui por David Soares), a mesma jamais poderia ser revogada por uma resolução da Assembleia da República já que esta constitui uma mera recomendação e é hierarquicamente inferior a um decreto-lei, um acto legislativo com força vinculativa (artigo 12.º n.º 1 da Constituição). Só uma lei, decreto-lei ou um acto normativo hierarquicamente superior o poderia fazer. Em conclusão, nem o novo AO entrou em vigor na nossa ordem jurídica nem a antiga ortografia (como os jornais gostam de lhe chamar) está juridicamente revogada, pelo contrário: a ortografia em vigor é estabelecida no acordo de 1945.

Posto isto, tudo aponta para o facto deste AO ser uma autêntica ficção jurídica, acerca do qual só nos resta perguntar como foi possível ter-se estabelecido tão confortavelmente no nosso seio. Muitos argumentos se podem digladiar a favor ou contra a implementação de um acordo ortográfico para a língua portuguesa, mas aqui muito honestamente não estamos no campo dos argumentos, mas sim dos factos. Esta discussão deveria preceder todas as outras respeitantes ao AO, pois estamos no domínio da legalidade, e a primeira pergunta deveria ser se do ponto de vista legal o AO está ou não em vigor, para depois se discutir a sua viabilidade. E se o AO padece de um vício de forma insanável (tendo em conta que o próprio acordo previa um prazo para a sua implementação, ao abrigo do artigo 3.º) então são os seus próprios fundamentos (a garantia de uma maior uniformização ortográfica com vista a reforçar o papel da língua portuguesa no plano internacional) que caem por terra. O AO não tem nenhuma razão de ser se em cada canto do espaço da lusofonia se continuar a praticar a respectiva grafia, como está neste momento a acontecer.

A saúde de um Estado de Direito, orientado pelo primado da lei, também se mede por questões como esta. É natural que nem todas as leis susceptíveis de aplicação entrem imaculadas ou isentas de vícios numa ordem jurídica, mas o mais inacreditável neste imbróglio está na forma acrítica como os principais meios de comunicação social, entidades e serviços estatais, agrupamentos escolares, académicos, empresariais, e demais sectores da sociedade civil em geral se vergaram perante o nova ortografia oficial, acusando em certos casos aqueles que se recusam a aplicar o AO de violarem a lei, quando é precisamente o contrário. Certamente nunca terão lido o texto do AO, indo a reboque do que outros dizem, escrevem e apregoam. Claro que existem algumas iniciativas para tentar travar este acordo galopante, como é o caso da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (http://ilcao.cedilha.net/) e que são sempre de louvar e divulgar. Mas na sociedade em que vivemos são estes que, segundo Eramo de Roterdão, estão a cometer a pior das loucuras. Depois dos acordos ortográficos anteriores se terem revelado um fracasso (como reconhece o próprio Anexo II da Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 que acolhe o AO) seria de esperar que tivéssemos aprendido qualquer coisa, ao invés de voltar a dar uma machadada na língua portuguesa.

Como já defendi aqui, é a língua portuguesa que fica mais pobre com o novo AO. Uma língua é mutável por natureza, e ainda bem que evoluiu ao ponto da grafia de hoje não ser a mesma do tempo de D.Dinis ou de Luiz de Camões. Mal seria se nada se tivesse alterado em todos estes séculos. O que contesto neste acordo é, em primeiro lugar, a legitimidade desta reforma, isto é, a ideia em como uma língua, sendo por natureza mutável e cuja evolução acompanha o desenvolvimento histórico, cultural, artístico e/ou cientifico de um povo, pode ser alterada administrativamente por decreto, e imposta através de um Estado ou de um acordo entre Estados; em segundo lugar, os seus objectivos, que passam pela uniformização da língua portuguesa, quando tenho a plena convicção de que a riqueza de uma língua enquanto património imaterial de um povo está na sua diversidade geográfica e cultural, e seria na sua preservação e aprofundamento que o espaço da lusofonia se deveria consolidar; e, por último, contesto os resultados obtidos com a implementação do acordo, levando a uma dissonância entre a grafia e a fonética operada burocraticamente, que adultera alguns dos pilares basilares da nossa língua, não tendo em conta as vicissitudes da mesma e a etimologia das nossas palavras.

-Filipe C., in Sem Justa Causa

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*Gabriela Rocha Martins.

23/02/2012

Homenagem a José Afonso






Poema: Luís Serrano, 1985, in «Entre Sono e Abandono», Estante Editora, Aveiro, 1990, p. 66
Foto: Augusto Mota / José Afonso numa sessão de Canto Livre em Leiria, 1974

02/02/2012

Parabenizando - II


obrigada ,minha querida Amiga!



-fotografia de Fernanda Sal Monteiro.

Parabenizando - I


obrigada ,amigo Almirante!



-texto e fotografia de Augusto Mota

EHEHEHEHEHEH - When I'm Sixty Four - Bem!!!!!!!!!!!

28/01/2012

Rosário Breve




O outro lado de Aníbal & Maria na mercearia

A minha mulher e eu estamos ambos desempregados excepto ela, felizmente. Cada primeiro sábado seguinte a ela receber, lá vamos nós à mercearia arregimentar víveres para as quatro semanas porvenientes. Chamamos a esse dia Sábado da Marca-Branca. Tal como o casal Aníbal & Maria, somos muitos poupados.
Compramos daquela margarina que sabe a manteiga. Cubos daquele caldo concentrado que sabe a galinha. Salsichas daquelas que sabem a lata de salsichas. Pão daquele que sabe a plástico de pão. Vinho daquele de cozinha que sabe a saudades de uva. Sangacho de atum daquele negro como a selecção de futebol da França. Toucinho salgado que sabe a porão de caravela rumo à Índia. Delícias-do-mar daquelas que sabem a chiclete de lagosta. Rabos e badanas de bacalhau que dão aquele gosto norueguês à açorda de pão com coentros. Tomate do espanhol que sabe a escravatura de beirões analfabetos na Andaluzia. Pasta de vísceras de salmão de aviário para a gata que a gente às vezes faz de conta que é pâté de canard au porto e prova em pão de plástico e vai-se a ver e até nem é mau, conforme o quanto vinho de cozinha que nessa mesma noite encetamos em aura & aparato de champanhe francófono da Anadia. Dois rissóis de leitão daqueles congelados que nos recordam os dourados dias do nosso primeiro acasalamento, que ocorreu por ocasião de eu andar a trabalhar ao negro, como pintor de uma engorda de bacorinhos para os estaminés da especialidade da Mealhada. Uma onça daquele tabaco de enrolar que sabe a hálito de prostituta de berma-estrada. Quatro laranjas daquelas ferrugentas como cuecas de pessoa incontinente. E um lingote de sabão azul-e-branco, que tanto dá para a louça como para fazer as vezes do champô, como muito bem e por igual sabe o casal Aníbal & Maria.
Chegados a casa, e por ser ela quem pagou, ele leva os sacos. São três andares. O elevador está avariado e ninguém se entende no condomínio, o que é pena e é penoso, já que somos sub-inquilinos de um inquilino de um condómino que foi para França e se calhar não volta, a avaliar até pelo preço do sangacho.
Por me ter portado tão bem, a minha mulher cede-me as moedas do troco, o que me permite ir logo para a tasca da Rosa amandar-me um copinho de bagaço que me sabe ao gin daquela Londres que Leiria nunca foi nem há-de ser. Lambo a bisca com o Proença, o Sampaio e o qualquer coisa Soares das Cortes para depois (que remédio!) ela me chamar Aníbal e eu lhe chamar Maria. Coisas de casa. Coisas de casal.
E somos estranhamente felizes assim, meus caros Portugueses, de mercearia.

Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 26 de Janeiro de 2012.

Não deixe de visitar o canil do autor : http://www.canildodaniel.blogspot.com/

Foto: Augusto Mota, " Texturas que o tempo tece " na alvenaria de uma chaminé centenária, Carvalhais de Lavos, Fevereiro de 2008.

26/01/2012

tédio


-porte bonheur




se te disser que não leio livros e
se te disser que não escrevo versos e
se te disser que não ouso a vírgula e o ponto e
se te disser que não tenho vontade de fazer nada e
se te disser que tudo o que me rodeia me enfastia e enche
de vómitos

acreditas?

no passeio em frente há um homem com um pássaro pousado
sobre a língua que
se anula em igual sensação de tédio

coirmãos

descemos de mão dada a rua e -
dizendo adeus aos iconoclastas envoltos em xailes franjados -

deixamo.nos marinar num enjoo cozido à portuguesa





-gabriela rocha martins.

22/01/2012

Viajar ?




Viajar ? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. (...)

(...) A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. 

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"
Flor de Passiflora alata / foto: Augusto Mota   

21/01/2012

texto transversal



20/01/2012

Na periferia do esquecimento






Quantas palavras se escondem por detrás de um gesto? E que olhares se escondem por detrás de uma palavra que navega na periferia do esquecimento? Será necessário, por certo, inventar uma nova semântica que ritualize o esforço dos gestos e dê ao corpo uma dimensão tão sublime como se alguém o estivesse a esculpir no mármore mais precioso, fazendo de seus veios as veias onde pulsam os mistérios da vida.

Algumas palavras também esculpem, em sua secreta significação, o corpo frágil da memória para, depois, se arrastarem pelos veios frios da pedra num delírio febril que vai deixando os sentidos ora  ausentes, ora exangues.

O escultor, então, confunde-se com a própria obra esculpida e cada silêncio é a força decidida e precisa do cinzel a desbastar a matéria e a vida.


Texto de Augusto Mota, in “A Geografia do Prazer,  2000  (não editado)
Escultura de João Cutileiro, "Recordação de Santa Clara" (pormenor)
Foto de Augusto Mota numa exposição colectiva na SNBA, Lisboa, Outubro de 2007

10/01/2012

Entrevista ao jornal "Terra Ruiva"*



TR - fale-nos um pouco, desta antologia que incluirá os seus poemas, como surgiu esta oportunidade/convite?

grm - esta Antologia ,como o seu coordenador-editor ,Adélio Amaro ,muito bem define no Prefácio ,é “ a continuação do encontro entre diversos poetas de variados e longínquos países, onde a distância é apenas terrena. É a união da Língua que consegue galopar todas as barreiras. É a Lusofonia Poética que Cecília Meireles defendia como “um espaço para publicação de música e de poesia de poetas da Língua Portuguesa”. É o encontro do mesmo idioma, mas de cores variadas”.
o convite partiu do Adélio Amaro que editou o meu primeiro livro de poesia “.delete.me.” .como ,segundo parece ,gosta da minha forma de vagamundear pelas e com as palavras ,convidou.me para ,em 2007 ,integrar a I Antologia de Poetas Lusófonos .destarte e porque era um desafio aliciante ,aceitei ,e ,voltei a fazê.lo este ano ,porque quem sabe? esta é uma Antologia que até pode ser a Última flor do Lácio, como Olavo Bilac defendia...

TR - foi a Gabriela que escolheu os poemas? ( ou quem os seleccionou)

grm - os poemas com que resolvi participar nesta Antologia ,foram seleccionados por mim ,mas ,quando os enviei ,não sabia se seriam todos publicados ,porque estavam sujeitos à apreciação ,prévia ,de uma comissão de avaliação.

TR - quantos poemas serão publicados?

grm - são quatro os poemas seleccionados e publicados - “o silêncio é de ouro” ( 14 de janeiro de 2011 ); “retratos de uma cidade” ( 25 de janeiro de 2011 ) ; “às vezes sou um sim ,às vezes não” ( 8 de fevereiro de 2011 ) e “sem explicação aparente” ( 29 de março 2011).

TR - e quantos autores estão incluídos?

grm - nesta Antologia ,encontram.se publicados poemas de 140 autores.

TR - penso que não é a primeira vez que seus poemas são publicados em antologias... já houve outras publicações?

grm - e pensa muito bem! de facto ,desde 2003 tenho poemas editados ( em Portugal e em Espanha ) no Ciberespaço ,em Revistas Literárias ,Colectâneas e em outras Antologias ,a saber:
2003, O Fulgor da Língua e o Estado do Mundo – ciberpoema , integrado em Coimbra Capital da Cultura;
2006, Inquietação e Poiesis XIV ,ed. Minerva;
2007, Poiesis XV ,ed. Minerva ;I Antologia de Poetas Lusófonos e Revista Litterarius , ed. Folheto & Design, Lda;
2009, Os Dias do Amor ,ed. Ministério dos Livros ;Revista Oficina da Poesia ,nº 12 ( Universidade de Coimbra ), ed. Palimage , e ,Entre o Sono e o Sonho ,II Vol. ,Chiado Editora;
2009//2010, Diálogos com a Ciência ( Universidade do Porto );
2010, SULscrito ,nº 3 , ed. 4Águas e Cuadernos Telira ,nº 13 , ed. Caja de Burgos;
2011, Se Lo Dije A La Noche - Poesia - Juan Carlos Garcia Hoyuelos ,( Burgos ) e IV Antologia de Poetas Lusófonos , ed. Folheto & Design, Lda;
2012, Antologia de Homenagem a Amato Lusitano ,Câmara Municipal de Castelo Branco ( no prelo ) e Antologia "Um Poema para Albano Martins", Ed. Labirinto ( no prelo ).

TR - além da poesia, escreve outro tipo de textos? (quais, onde)
       - está a trabalhar nalgum projecto actualmente?

grm - sim sim! muito embora entre a poesia e mim haja uma ligação uterina fortíssima que vem de há muito ,todavia ,com alguns interregnos ,mormente ,nas décadas de 80 e 90 do séc. passado ,onde a investigação me ocupou ,exclusivamente ,com trabalhos que vieram a ser mencionados ,na época ,por alguns autores ,académicos e estudiosos ,gosto de ousar.me na poesia visual ,na prosa poética e no conto ,e ,faço.o ,em revistas ,como foi o caso do “Letras e Letras” ,onde cheguei a ser correspondente redactorial ,na década de 80 do séc. XX ,como representante ,no Algarve ,da Fundação Natália Correia ,e ,como responsável pela edição da Revista Litterarius ,onde pautam alguns textos da minha autoria .hoje ,aceito participar em projectos a quatro mãos e aventuro.me em “textos rasurados” ,ao sabor do momento ,como é o caso da minha colaboração mensal no Terra Ruiva .a blogosfera ,porém ,é o meu domínio preferido ,e ,respondendo à sua pergunta se ,actualmente ,me encontro a trabalhar nalgum projecto, digo.lhe que sim que me encontro ,qual crisálida ,numa fase de amadurecimento e selecção da minha obra – ensaio ,lírica e prosa poética - a fim de publicá.la on-line ( ebooks ) ,começando por essa arte nobilíssima a que chamamos POESIA .o imenso respeito que a mesma me suscita tem.me levado a experiências diversas ,cujos resultados têm sido bem honrosos ,mormente ,com a escolha, por exemplo ,do meu livro .delete.me. para tese de um doutoramento.

TR - quando começou a escrever? e como descreveria a sua relação com o acto de escrever?

grm - comecei a escrever quando ,um dia ,já bem distante ,me ofereceram um lápis e com ele apontei a lua .disseram.me que era feio apontar .então ,qual transgressora nata ,tracei uma linha entre as duas e comecei ,diariamente ,a preenchê.la com palavras e palavras e mais palavras ,até criar aquela ligação uterina de que lhe falei ……
descrever a minha relação com o acto de escrita? minha querida amiga ,um acto de amor ,pratica.se ,não se descreve .satisfá.la a resposta? sei que não ,mas dos vagamundos não se rezam histórias……

………..e ,à laia de fim de entrevista ,permita.me que ,de forma sucinta ,mencione outras escritas:

1.PUBLICAÇÕES:
- “Notícia Informativa sobre a Cidade de Silves. Subsídios para a sua História”, brochura publicada pela Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Silves.
- “Silves Histórica”, artigo publicado na Revista Tribuna do Algarve.
- “Notícia Histórica sobre a Sé de Silves. Do Cartório Quinhentista ao Actual Arquivo Paroquial”. Congresso do Algarve.
- “O Pelourinho de Silves”, com prefácio do Académico Prof. José António Pinheiro e Rosa. Congresso do Algarve.
- “A Imprensa no Concelho de Silves. 110 anos de Actividades Jornalísticas”. Congresso do Algarve.
- “A Antiga Toponímia de Silves. Co-relação com os Actuais Topónimos”. Congresso do Algarve.
- “A Presença dos Judeus no Algarve”, artigo publicado na Revista “Correio do Algarve”.
- “1189-1989. Comemorações Centenárias da Conquista de Silves”, artigo publicado na Revista “Tribuna do Algarve”.
- “O Castelo de Silves” palestra apresentada em Silves e publicada no Boletim da Junta Directiva da APAC.
- “Algumas Achegas para o Levantamento dos Usos e Costumes de Silves. Suas Tradições” – alguns Capítulos encontram-se publicados nos Livros de Actas dos Congressos do Algarve.
- “Breve Síntese Histórica sobre a Cidade de Silves. Estudo Cronológico”, artigo publicado no jornal ALFANGE.
- Colaboração no artigo “Sun, Sea and History; Portugal,s Algarve”, de Geoffrey Moorhouse, publicado no “Traveler National Geographic”, vol II, number 4, Winter 1985/86.
- “O Teatro Gregório Mascarenhas”, artigo publicado no nº 3 da Revista “O Mirante”, Dezembro de 1991.
- “O Actual Edifício dos Paços do Concelho de Silves”, artigo publicado no nº 4 da Revista “O Mirante”, Março de 1992.
- “Casa-Museu João de Deus; O Homem, O Cidadão, o Poeta ou um Processo de Memória e Morte”, artigo publicado no nº 6 da Revista “O Mirante”, Março/Junho de 1993.
- “Algumas Considerações muito inoportunas… sobre Democracia e Solidariedade”, idem.
- “Silves…Uma Viagem ao Passado”, artigo publicado na Revista Algarve/Andalucia, nº 3, Outubro de 1998.
- “Casa Museu João de Deus”, artigo publicado na Revista Algarve/Andalucia, nº 5, Janeiro/Fevereiro de 1999.
- “Casa Museu João de Deus. O Futuro construído em Memória”. Congresso do Algarve.
- “A Ludoteca. Casa Museu João de Deus”. 4ª Conferência Nacional sobre Ludotecas. Oeiras, Maio de 2001.
- ”João de Deus ,Trajectos - Do Grés à Arte da Escrita” – coordenação geral, Março de 2010.

2.TRABALHOS MEUS CITADOS EM OBRAS DE OUTROS AUTORES
- O Pelourinho de Silves, sua classificação e possível datação, in “Levantamento Arqueológico-Bibliográfico do Algarve”, de Mário e Rosa Varela Gomes, Ed. Secretaria de Estado da Cultura, Faro, 1988.
- Levantamento dos Usos e Costumes de Silves. Suas Tradições, in “Guia da Cidade de Silves”, de Manuel Castelo Ramos e António Baeta de Oliveira, 1997.
- Algarviana, in “O ALGARVE. Da Antiguidade aos nossos dias: elementos para a sua história”, coordenação de Maria da Graça Maia Marques, Ed. Colibri, Lisboa, Abril de 1999.
- Notícia Histórico-Informativa sobre a Cidade de Silves, in “Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês. Exposição Permanente. Estudos. Catálogo”, coordenação de Jorge Custódio e Manuel Ramos, Ed. Fábrica do Inglês, S.A.., Silves, 1999
- Levantamento dos Usos e Costumes de Silves. Suas Tradições, in “Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês. Exposição Permanente. Estudos. Catálogo”, coordenação de Jorge Custódio e Manuel Castelo Ramos, Ed. Fábrica do Inglês, S.A.., Silves, 1999



* entrevista concedida no dia 9 de janeiro de 2012 ,por Gabriela Rocha Martins ,ao jornal mensal Terra Ruiva

01/01/2012

Texto sobre o «Acordo Ortográfico»



Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.

De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.

Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim.

São muitos anos de convívio.

Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.

Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - não te esqueças de mim!

Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí.

E agora as palavras já nem parecem as mesmas.

O que é ser proativo?

Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.

Caíram hífenes e entraram RRR's que andavam errantes.

É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem.

Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa (^^^) chapéu.

E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.

Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos.

Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos.

Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto.

Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar.

Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ... ?! ?! ?!


Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós?

Será que não pudemos, com a ajuda da troika, recuperar do deficit na nossa língua?

Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal fabetos fassão com que a nova ortografia imponha se bué depréça!

Email de Artur Martins in «O BALUARTE de Santa Maria», 22.12.2011

31/12/2011

A todos!




foto: Augusto Mota / tirada no dia 30 de Dezembro de 2011, pelas 16 horas,
na Praia do Pedrógão, na zona das rochas.

30/12/2011

um ano é feito de muitas coisas......



a todos os Amigos ,com um abraço apertadinho ( mas constipado )
,gabriela rocha martins.

22/12/2011

Carta Aberta ao Senhor Primeiro Ministro





Exmo Senhor Primeiro Ministro


Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.


Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.


Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.


Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.


Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...


Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.


Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.


Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...


Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.


Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.


Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro.


E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.








Myriam Zaluar, 19/12/2011 ,in Entre as brumas da memória

( este texto foi publicado no Facebook pela Myriam Zaluar, como podia ter sido escrito por muitas pessoas com quem lidamos quase todos os dias  .por isso ,e ,à semelhança de outros blogues ,O Palácio das Varandas resolveu conceder.lhe este espaço - gabriela rocha martins )

Apresentação da IV Antologia dos Poetas Lusófonos


( Da esquerda para a direita - Arménio Vasconcelos ,Rui Matos ,da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria ,e ,Adélio Amaro ,da Folheto & Edições ,Lda )


-às vezes sou um sim
às vezes não
8 fevereiro 2011



sob as arcadas de pedra
da catedral de Saint Denis
desafiam.se os tumultos circundando
o teu corpo
oscilam os meus olhos à procura de um vulto mas
a densidade própria da matéria
dissipa.se no zimbro que envolve as gárgulas
levas.me na confusão do cigarro que não fumas
como se o rasto e o cheiro fossem um pouco mais
de ti........ solto........ trazes.me o silêncio dos búzios
por entre os andaimes da chuva que teima em
cair vasculhando a manhã........ três pingos molham o
meu rosto........ recolho.os como restos de outras
névoas e no silêncio incorpóreo que te resguarda
retenho.me num outro templo ou nas
pinceladas........ brevíssimas........ que ouso sobre a tela
às vezes
deixo.te fluir pela página virgem que
se detém a meu lado
outras
solto.te por entre as víboras que
adormecem junto à fonte........ sincera mente
não sei porque te habito entre os crivos da terra e
os sulcos das marés
não sei........ mas sei porque te exibo em tatuagem

ousam.se dos amantes as memórias



**********
***



-sem explicação aparente
29 março 2011




hoje
decido.me pela não abertura da carta

fazê.lo seria confundir um desejo muito forte de
não presença com a necessidade de dizer sim ao
pessimismo que me assiste qual anátema de algo
que não desejo ler........ muito menos antever
sei que o meu córtex cerebral esquerdo riscou
relações com o direito
impossibilitando que o ninho dos pássaros azuis
brancos........ ou de plumagem vária
se confunda com o endereço inscrito
do mesmo modo que
não me imagino abrindo e fechando envelopes
como uma mera máquina trituradora de papéis usados
gostaria........ isso sim........ de apostar um selo sob as letras
imaginadas em desvario porquanto lambidas demais
mas decido.me pela não leitura -
ateimo
- porque fazê.lo seria assumir.me como a meretriz do verbo
o assassino da escrita ou

o chulo da palavra que se balda no parágrafo seguinte



( Assistência )


gabriela rocha martins,
18 de dezembro 2011.

IV Antologia de Poetas Lusófonos



-o silêncio é d'ouro
14 de janeiro 2011



ousam.se os cânticos........ as danças -
a polca o minueto a quadrilha a valsa -
como passagens fotográficas de
divas de outras eras........ exaltações de tempos
onde o verbo se construiu em rastos tão
longevos como a ampulheta que ainda
hoje foi ontem........ nos sonhos prescritos há
caudais de água e naufrágios de barcos
prontos a azular
tolhados pelas linhas que no horizonte fazem
tábua rasa........ um minúsculo aracnídeo
oscila entre o regresso ao nada que
a mente do poeta
fabulou e o fruto maduro que medra
na haste por onde deslizam as vozes que
clamam vingança

-serve.se fria

em pequeníssimas
doses que circulam
ímpias
no espaço dividido entre o muito o pouco e
o nada como se este se antecipasse ao ritmo
do vento semeado a esmo
neste refúgio incómodo que se antecipa ao
silêncio
ao meu silêncio........ ensaio de raiva
fonte de outono ou alvoroço de
inverno........ alimentados pelo tumulto da lava

queda.se o verbo
travestido em âmbar


-que sabeis vós da minha indiferença?


**********
***

-retratos de uma cidade
25 janeiro 2011




centímetro a centímetro engrossam
as palavras........ breves........ átonas e
dissonantes presas a caudais de lava que
escorrem sobre as barrigas de textos
prontos à desova........ são peixes
mortos que engrossam as correntes ou
poluem as margens de monografias prenhes
de palavras vãs
esgotam.se as iluminuras e as vestes dos
lobos que em alcateia descem sobre a
cidade abocanhando o frio da noite

há esgares de morte nos passeios e

os sem abrigo deixam rastos de sangue
nas traseiras das casas por onde escorrem
fios de água........ rubra........ como a baba que des
ce pelos meus textos
vejo.os encolhidos no silêncio........ ou encobertos
num vão de escada onde o poema incompleto
absorve o abandono........ impressos na folha de jornal
que lhes serve de mortalha

acresço uma linha aos fragmentos nocturnos e

três degraus........ ao fumo........ que lhes reserva
a memória

será que a consciência pesa?





gabriela rocha martins,
18 de dezembro 2011.

texto transversal





20/12/2011

Lenda do Lis e Lena



Nasceu o rio Lis junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita Paixão, com muita pena
De o seu berço não ser na mesma terra.

Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo, as aves chilreantes
Contavam esse amor que ambos sentiam.

Um dia já espigados, já crescidos
Contrataram casar, de amor perdidos
Num domingo, em Leiria de mansinho…

Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Lis mais abaixo um bocadinho

..............................................Marques da Cruz



Este soneto inspirou, de forma magnífica, o professor e artista Augusto Mota, que nos anos 60, já gozava de um grande prestígio na região e além fronteiras, num trabalho de grande beleza, simplicidade e sensibilidade, num beijo celebrado entre o Lis e o Lena, envolto pelos verdes e sussurrantes pinheiros, sob o olhar do sol, rubro de vergonha perante tanta intimidade, só testemunhado pelas “aves chilreantes”, com o castelo, ao longe, a abençoá-lo.

O painel decorativo «Lenda do Lis e Lena» (1,80 x 3,60 m) foi um trabalho encomendado em 1965 pelos proprietários do café Colipo, que em breve iria abrir, tendo deixado o motivo ao gosto do autor, pois havia necessidade de decorar uma grande parede para dar mais vida e cor ao ambiente.

O café funcionava onde se encontra hoje a loja do Ponto Negro, na avenida Heróis de Angola. Foi pintado sobre 6 placas de Omnilite, nome comercial de um produto para a construção civil, fabricado na Martingança, que era feito de aparas miudinhas de madeira, agregadas e prensadas com cimento. Era um material isolante e ignífugo.

Com o encerramento do café, o painel foi desmontado, acabando o seu tempo de vida activa como arte pública.

Este painel foi o rosto de um postal publicado pela Câmara Municipal de Leiria numa Edição Comemorativa do Centenário do Nascimento do poeta Leiriense Marques da Cruz (1888-1958), que logo esgotou, dando lugar a uma reedição.

Mais recentemente, em 2006, a Junta de Freguesia de Leiria, editou uma pasta em cartolina, no tamanho A4, em cuja badana larga foi impressa a biografia do poeta, da autoria do Engº Carlos Fernandes. Dentro da pasta está a reprodução do painel e, por baixo, o soneto do poeta Marques da Cruz que serviu de inspiração ao professor Augusto Mota. Foi feita uma edição de 5 mil exs., já há muito esgotada.

Existe uma reprodução em azulejo, autorizada pelo autor, numa vivenda na Cruz da Areia, pertencente a Passinhas Marques, que também foi professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria, painel pintado pela ceramista leiriense Leonor Ferreira, antiga aluna da mesma Escola.

Mais recentemente, ofereceu o autor, a uma familiar de Lisboa, uma reprodução com metade das dimensões do original, por si retocada por meios informáticos e impressa em tela, autorizando, posteriormente, idêntica reprodução, a pedido de um antigo aluno da Escola, que exerce a sua actividade profissional em Espanha, para decorar a sua casa em Leiria, onde vive a sua família. Estas reproduções foram, depois de impressas e emolduradas, assinadas pelo autor, como se de um original se tratasse.

O painel foi desde logo, um sucesso, bem representativo da arte protagonizada por Augusto Mota, quiçá, um dos trabalhos com maior visibilidade que terá produzido.

publicado por Ana ,in Notícias do Baú

17/12/2011

Azulejos ARTE NOVA no Museu Municipal da Figueira da Foz


Foram inauguradas no passado Sábado, 10 de Dezembro, pelas 15 horas, no Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz, as exposições «A ARTE NOVA nos azulejos em Portugal», da colecção do Engº Feliciano David, e «APONTAMENTOS ARTE NOVA», fotos a cores do Arquivo Municipal da Figueira da Foz dos vários exemplos desta Arte, que naquela cidade, têm resistido à incúria e à destruição, graças aos incentivos da Câmara Municipal,  trabalhos que ainda podem hoje ser admirados nos edifícios onde foram incialmente aplicados, principalmente na zona do chamado Bairro Novo.

À direita, o Presidente da Câmara Municipal proferindo as palavras
com que deu início à abertura desta mostra de azulejaria
Arte Nova. À esquerda, o Engº Feliciano David 
e, ao centro, o casal que comissariou esta
exposição: a Drª Isabel Almasqué
e o Dr. A.J.Barros Veloso.

O Presidente da Câmara, Dr. João Ataíde, ladeado pela Drª Isabel
Almasqué e pelo Vereador da Cultura, Dr. António Tavares,
prestes a concluir as suas palavras de abertura da mostra.

A visita à exposição foi precedida por breves palavras do Presidente da Câmara, a que se seguiu uma intervenção do Dr.Jorge Veloso, um dos comissários desta mostra, terminando o acto inaugural com o Engº Feliciano David a agradecer à Câmara Municipal e ao Museu a disponibilidade demonstrada para acolher esta sua colecção temática, pois ficando acessível ao público, ela se torna didáctica, ficando, assim, plenamente justificada a sua paixão de investigador e coleccionador da arte azulejar.

Esta exposição, que iniciou a sua itinerância no Museu Municipal de Aveiro, no passado mês de Julho, permanecerá na Figueira da Foz até 10 de Março de 2012.


 O Engº Feliciano David e os comissários desta sua exposição.

 O Engº Feliciano David falando da sua paixão pela azulejaria e
agradecendo à edilidade a colaboração prestada pelo
Museu na montagem desta sua exposição.

COLECCIONAR PARA PRESERVAR


(...)
"Apesar de em Portugal, o movimento Arte Nova não ter tido uma presença muito significativa foi no domínio da azulejaria que ele mais se afirmou e deixou a sua marca, assumindo no contexto europeu, uma expressão muito relevante pela diversidade, elevado número e dimensão das peças produzidas. E, no entanto, a sua importância não tem sido valorizada no nosso país e só há poucos anos algumas medidas foram tomadas com vista à sua salvaguarda e divulgação, nomeadamente em Aveiro e Figueira da Foz.

Primeiros visitantes da exposição

E decorrido cerca de um século sobre o período da sua produção sem que tenha tido lugar, no nosso País, uma exposição a ela dedicada pareceu-me oportuna a sua realização. A exposição que inclui cerca de 1400 azulejos portugueses e 190 estrangeiros, assume um carácter itinerante percorrendo algumas das cidades que aderiram à Rede Nacional de Municípios Arte Nova, tendo começado por Aveiro, em Julho, na Figueira da Foz hoje e em Loures em Maio de 2012.
Por último, cumpre-me expressar os maiores agradecimentos:

Ao Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Dr. João Ataíde, ao Vereador da Cultura, Dr. António Tavares e a toda a equipa do Museu Municipal Santos Rocha.

O Dr. Barros Veloso dando um esclarecimento oportuno
sobre uma peça exposta.

Ao Dr. A. J. Barros Veloso e à Drª Isabel Almasqué por terem aceite o convite que lhes formulei para comissariarem esta exposição, por entender que são os melhores especialistas nesta tipologia azulejar, tendo-a valorizado com a sua competência."

Feliciano David, in «Desdobrável» editado pelo Museu Municipal Santos Rocha.


A  FIGUEIRA  DA  FOZ  E  A  ARTE  NOVA

"Apurada e com afinação de pormenor, a Arte Nova aparece entre nós como apontamento ornamental e decorativo de uma estrutura arquitectónica tradicional. Por esta razão, é comum a observação de que a Arte Nova é subsidiária duma tradição já enraizada à qual faltava alguma exuberância.


Estes apontamentos, nos edifícios, surgem nos portões e nas varandas, nos relevos das fachadas, nas molduras das portas e janelas, no uso do azulejo e do ferro. O início do século passado ficou com esta marca, que cultivou até à década de vinte, altura em que se propende para motivos de maior simplicidade, dando lugar à chamada Art Déco que também está devidamente representada no chamado Bairro Novo de Santa Catarina.


Rodrigo Freitas troca impressões com o Vereador da Cultura
e com Inês Pinto.

A Figueira da Foz integra a Rede Nacional de Municípios Arte Nova, criada em 2006 através da assinatura do Plano de Cooperação Arte Nova. Da Rede fazem parte cidades como Aveiro, Caldas da Rainha, Cascais, Estarreja, Ílhavo, Leiria, Lisboa, Loures, Porto e Vila Nova de Gaia.
  
 Dulcina de Sousa, Rodrigo Freitas, Inês Pinto e o Dr. António
Tavares, Vereador da Cultura, posam para memória futura.

A Rede e o Plano têm em vista concertar políticas no âmbito da intervenção no património Arte Nova, contribuir para a sua divulgação, desenvolver intercâmbios, bem como preservar e incentivar o turismo nas cidades participantes.

Está, assim, justificada a presente exposição, que de certo contribuirá para um melhor conhecimento deste vasto e valioso património histórico e arquitectónico."

António Tavares, Vereador da Cultura, in «Desdobrável» editado pelo Museu Municipal Santos Rocha.


Do catálogo da exposição em Aveiro transcrevemos, com os devidos agradecimentos, partes da introdução e a totalidade do capítulo motivos decorativos, textos da autoria dos especialistas em Arte Nova e Comissários desta exposição itinerante, Dr. Barros Veloso e Drª Isabel Almasqué.
Deste catálogo reproduzimos, apenas, os textos que julgamos poderem ajudar melhor os visitantes deste Palácio das Varandas, pouco familiarizados com as características peculiares desta arte e técnicas azulejares, a fazerem aqui uma primeira abordagem mais consistente, esperando que tal os venha a incitar não só a visitar esta bela exposição, mas também a descobrir, no meio onde vivem, obras desta época – e não só azulejos! – que, por razões várias, possam correr o perigo de se perderem para sempre.

INTRODUÇÃO
"A Arte Nova foi a expressão pela qual ficou conhecida em Portugal a corrente artística que surgiu na Europa nos finais do século XIX.

O termo original, Art Nouveau, teve origem no nome que o negociante de arte alemão Siegfried Samuel Bing, deu à galeria que abriu em Paris, em 1895, “La Maison de l’Art Nouveau”. Apesar da sua rápida ascensão e da sua curta duração, este movimento viria a ter uma influência decisiva em toda a produção artística de uma época marcada por profundas mudanças económicas e sociais relacionadas com a Revolução Industrial.

Baseada na recusa dos estilos históricos e na procura de uma nova linguagem, a Arte Nova abriu caminho a novas correntes estéticas e provocou uma mudança de atitude em relação à arte em geral."
(...) in p.15.

 Em cima: Friso com motivos florais estilizados. Estampilha manual
Fábrica das Devesas.
Em baixo: Friso com motivos florais em forma  de festões
 e Flor de Lis estilizada. Estampilha manual.
Fábrica das Devesas.

"Estava-se então numa época em que a maioria das obras de arte era executada por artistas conservadores, de formação académica, que procuravam imitar os grandes mestres clássicos, produzindo peças “pastiche” de cariz neo-gótico, neo-renascentista ou neo-barroco, destinadas ao gosto de uma burguesia emergente, com crescente poder de compra. Por outro lado, o desenvolvimento industrial e comercial e a consequente facilidade da produção em série de grande número de objectos utilitários, tinha provocado um decréscimo da qualidade artística e uma desvalorização da produção artesanal.

Frontão com motivos florais. Pintura à mão. Fábrica Constância.

Foi neste contexto que a Arte Nova apareceu como um estilo alegadamente moderno (daí a designação de “modernismo” que teve nalguns países) que se opunha ao carácter revivalista e académico das correntes artísticas tradicionais, na tentativa de conciliar a produção mecanizada com a qualidade estética dos objectos produzidos.
Era o início de um longo caminho de luta pela reabilitação da artes decorativas e pela sua equiparação às chamadas artes maiores, ou Belas Artes, que viria mais tarde a dar origem a uma nova forma de produção artística denominada “design”.

O Presidente da Câmara Municipal troca impressões com o
Dr. Barros Veloso, um dos comissários desta exposição.

Os elementos essenciais da gramática Arte Nova residem na rejeição do naturalismo e da volumetria, na estilização dos desenhos, na valorização da assimetria e na sugestão de ritmo e movimento através da utilização de linhas sinuosas, as “linhas em chicote”. A natureza vai ser a principal fonte de inspiração da sua linguagem estética. Lírios, amores perfeitos, papoilas, nenúfares, girassóis e muitos outros elementos da flora, são representados de maneira estilizada, frequentemente dispostos ao longo de linhas sinuosas.
O mundo das aves e dos insectos está também amplamente representado através de borboletas, libélulas, pavões, cisnes, patos ou andorinhas. Paradigma da sensualidade, também a figura feminina aparece frequentemente envolta em vestes esvoaçantes, ou ornamentada de longas cabeleiras ondulantes que se confundem com elementos orgânicos e vegetalistas."
(…) in pp.15 e 16.


 Em cima: Friso com motivo floral. Pintura à mão.
Fábrica de Louça de Sacavém.
Em baixo: Painel com motivos florais (nenúfares).
Aerografagem com acabamentos manuais.
Fábrica de Louça de Sacavém.

"A Arte Nova, mais do que um estilo muito definido, foi uma corrente estética de enorme vitalidade que rapidamente se impôs em quase todos os campos das artes. Talvez por se basear mais na rejeição do passado e na vontade de inovar do que na adopção de bases teóricas muito rígidas, conseguiu absorver elementos próprios de cada cultura e ter uma multiplicidade de expressões patentes em objectos tão diferentes como uma jóia de Lalique ou uma cadeira de Mackintosh. No entanto, o denominador comum da valorização das artes decorativas e do valor estético dos objectos utilitários a que chamamos simplesmente design, foi certamente a herança mais importante que a Arte Nova deixou e que ainda hoje perdura."
(...) in p.17.


MOTIVOS DECORATIVOS
"Em Portugal, foi sobretudo na azulejaria que a Arte Nova encontrou terreno fértil para desenvolver todo o seu potencial criativo. Os motivos decorativos reproduzidos quer nos padrões quer nos frisos e painéis são os que habitualmente compõem o vocabulário estético desse estilo: elementos vegetalistas, motivos marinhos, aves, insectos e figuras femininas. Embora, em Portugal, a Arte Nova, tenha mantido uma tradição mais, recorreu frequentemente a motivos originários de fábricas estrangeiras, sobretudo através da Fábrica des Sacavém, como se pode ver nalguns dos exemplares expostos que foram também produzidos por várias fábricas inglesas e alemãs.


Um festival de motivos florais e vegetalistas

 Em cima friso com motivos florais dispostos em linhas sinusoidais.
 Pintura à mão. Fábrica do Desterro.
Em baixo: Friso com motivo floral. Pintura à mão.
Fábrica do Desterro.

Os elementos florais, pela sua grande variedade, são, de longe, os mais representados. Encontramos frequentemente túlipas, malmequeres, amores perfeitos, papoilas, girassóis, lírios, jarros, entre outros, dispostos ao longo de linhas ondulantes sinusoidais. As flores aparecem, por vezes, vistas por trás, de maneira que a ligação entre o caule e o cálice fique virada para o observador, numa perspectiva pouco habitual a que Manuel Rio-Carvalho chamou flor virada e considerou típica da Arte Nova portuguesa. Este aspecto é bem evidente em dois frisos expostos. Os elementos vegetalistas apresentam diferentes graus de estilização, frequentemente relacionados com as técnicas de pintura utilizadas. O decalque e a pintura à mão dão-lhes, em geral, uma aparência mais naturalista.
Pelo contrário, a estampilha manual ou aerografada confere-lhes características mais gráficas e lineares, com contornos bem marcados, onde a mancha de cor predomina em relação aos detalhes do desenho.

Azulejo relevado polícromo. "Borboleta" da autoria de
Rafael Bordalo Pinheiro. Pintura à mão.
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

O mundo animal, foi também amplamente representado. Além das conhecidas criações de Rafael Bordalo Pinheiro com gatos, rãs, borboletas e gafanhotos, muitos outros insectos e aves se podem encontrar. A borboleta, devido à delicadeza e ao intenso colorido das suas asas, foi talvez o insecto mais representado. Libélulas, andorinhas, patos e cisnes aparecem também frequentemente. Mas foram sobretudo os pavões a exercer particular atracção nalguns pintores de azulejos que souberam, por vezes, adaptar de forma astuciosa o formato em leque das caudas de penas coloridas, ao perfil de alguns frontões. Num dos frisos presentes na exposição estão representados dois pavões com a cauda fechada e rodeados de ornamentos florais.

 Fragmento de painel com cabeça de mulher. Pintura à mão.
Fábrica do Desterro.


A figura feminina foi igualmente motivo de inspiração na azulejaria Arte Nova. São frequentes as representações de cabeças de mulher, quer através de desenhos simples, pouco elaborados, de cariz bastante naif, quer com longas cabeleiras entrelaçadas com ornamentos florais, num exuberante cenário de formas orgânicas e vegetalistas, claramente inspiradas na Arte Nova franco-belga, quer ainda com uma aparência mais naturalista, por vezes, quase fotográfica. É o caso do fragmento de um painel exposto, em que um rosto feminino está emoldurado por vários motivos decorativos típicos da Arte Nova."
in pp.19 e 20.


Edição e fotos: augusto mota