05/10/2005


( The Wave - William-Adolphe Bouguereau )Posted by Picasa

da impossível palavra

arrojada pela maré

do poema cavalgando

o voo raso do vento

só a alvura da espuma

pairando

por um momento

Carlos Alberto Silva, 5 Outubro 2005

in http://sitiodoshaikais.blogs.sapo.pt


Quadros & Quadras. "minha mãe amassa o pão".
Minha mãe amassa a vela. Augusto Mota Posted by Picasa

Minha Mãe amassa o Pão

Minha mãe amassa o fumo
Que sobe das chaminés -
Pão volátil, pão sem rumo,
Eu não sei o que tu és.
Minha mãe amassa a brisa
Que mal se sente passar -
Tão leve, o pão desliza
Entre os lábios devagar.
Minha mãe amassa o rito
Duma missa muito sua:
No altar do infinito,
A fazer de hóstia, a Lua.
Minha mãe amassa crente
Na bondade desse Deus -
Só que às vezes não entende
Que desígnios são os seus.
Minha mãe amassa e sonha
Com a paz dum mundo novo,
Sem essa vida tristonha
Que era a vida do seu povo.
Minha mãe amassa e canta -
Duma coisa está segura:
Um dia o sol se levanta
Sobre o fim da ditadura.
António Simões, in "Minha Mãe Amassa o Pão", Câmara Mun. de Beja.

Quadras & Quadros. "minha mãe amassa o pão".
Minha mãe amassa o rito. Augusto Mota Posted by Picasa

Quadras & Quadros. "minha mãe amassa o pão".
Minha mãe amassa a pressa. Augusto Mota Posted by Picasa

Quadras & Quadros. "minha mãe amassa o pão".
Minha mãe amassa a alma. Augusto Mota. Posted by Picasa

Faleceu August Wilson ( de seu nome próprio Frederick August Kittel ), poeta e dramaturgo que registou como ninguém a experiência afro-americana, no séc. XX.
Nasceu em Pittsburg, PA, em 1945, e, faleceu vítima de cancro, no domingo passado, no hospital de Seatlle, aos 60 anos.
Escreveu 10 peças de teatro, e, duas delas - "Fence"( 1987 ) e "The Piano Lesson"( 1990 ) - ganharam o prémio Pulitzer.
As suas peças tornaram-se marcos importantantíssimos da Cultura Negra. A última, "Radio Golf", foi produzida na Primavera passada pelo Yale Repertory Theater e, posteriormente, em Los Angeles.
Foi fundador da Companhia de Teatro "Black Horizons on the Hill", em Pittsburg, sua terra natal.
August Wilson celebrizou-se com "Ma Rainey's Black Bottomm", em 1984, caracterizada, então, pelo "The New York Times" - "( aqui ) é toda a história da América negra que desaba sobre a nossa cabeça".
Vale a pena voltar a ler este Autor, principalmente à luz dos últimos acontecimentos desencadeados pelo Katrina em Nova Orleans.
O "Virginia Theater", na Brodway, vai mudar o seu nome para "August Wilson Theater".Posted by Picasa
The Art of Theater, nº 14
August Wilson interviewed by Bonnie Lyons and George Plimpton,
Winter 1999.
"BL -Is it a concern to effect social change with your plays?
AW - I don't write particulary to effect social change. I believe writing can do that, but that's not I write. I work as an artist. All art is political in the sense that it serves someone's politics. Here in America whites have a particular view of blacks. I think my plays offer them a different way to look at black Americans. For intance, in "Fences" they see a garbage man, a person they don't really look at, although they see a garbage man every days. By looking at Troy's life, with people find out that the content of this black garbage man's life is affected by the same things - love, honor,beauty, betrayal, duty.
Recognizing that these things are as much part of his life as theirs can affect how they think about and deal with black people in their lives..."
Na solidão que o Outono abraça
As palavras perfilam-se diante de mim
Como esqueletos cegos de crenças
Iluminando apenas os olhos das feras há muito entregues
Ao ovo do tempo
A terra é feita água
As mãos e as faces se empalidecem
E é esta a altura precisa do nascer,
O sol fundido na mão que é rosa só
O lado esquerdo imprevisto por onde o vento sopra
O coração deitado literalmente na poça.
Sandro William Junqueiro, inédito.

04/10/2005





folhas mortas Posted by Picasa

Les Feuilles Mortes

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.
C'est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous les deux ensemble
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidele
Sourit toujours et remercie la vie
Je t'aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t'oublie?
En ce temps-la, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l'entendrai!
Jacques Prévert

"Red and Gold". Fotografia de Nancy Angermeyer Posted by Picasa

The falling leaves drift by the windows
The Autumn leaves of red and gold
I see your lips, the summer kisses
The sun-burned hands I used to hold.
Since you went away the days grouw long
And soon I'll hear old winter's song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall.

Noite dos Mascarados

Quem é você?
Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim.

Quem é você?, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo.

Eu sou ceresteiro, poeta e cantor
O meu tempo inteiro só penso no amor.

Eu tenho um pandeiro
Só quero um violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão.

Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci para sambar.

Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot.

Mas é Carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar
Deixa o barco correr
Deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira
Que você me quer
O que você pedir, eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser.
Chico Buarque de Holanda ( "Ópera dos Malandros" )

Teatro do Silêncio Posted by Picasa

Vida

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios...
Por isso cante, ria, dance, chore
e viva intensamente cada momento de sua vida...
...antes que a cortina se feche
e a peça termine sem aplausos.

Charles Chaplin

03/10/2005


As Pombas da Paz. Desenho a nanquim.
( colorido digitalmente ). Augusto Mota. 1965 Posted by Picasa

E(ra) o tempo...

( a meu filho )
A cidade adormeceu na encosta da consciência
dos homens de duplo olhar - angélico satânico.
Irreconhecível, corre o rio à margem de azuis;
as tuas lágrimas perfumam lírios!...
Como gritos sinto coisas aflorarem à memória:
- o copo, a chávena, o gosto infantil do leite bebido pelo pires...
o branco dos lençóis que se estendia até o sol corar o horizonte.
Nos canteiros, as videiras viviam em acidez adunca,
as lavadeiras elevavam cânticos à sombra dos mamoeiros.
Era o tempo em que persistiam buganvílias a janelas fechadas,
e os patos faziam voos rasantes ao superficial suicídio das acácias,
num parecer de sangue manchado a céu aberto.
Seria um prenúncio ou a conjugação de cores que impressionava?
Sei que hoje, meu filho,
as árvores baleadas são acariciadas pelo tempo
que ostenta cicatrizes sem vitórias.
maria gomes, inédito, 2005

fogo Posted by Picasa

II

Somos agora descontentes
de haver perdido os afectos
vividos em impunidade

gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor"

I

é bom
percorrer a mesma estrada
andar ao sol
com o vento do sul

tocando em nossos rostos

gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor"


Legenda Íntima 22. Augusto MotaPosted by Picasa
Não te grito, nem te cheiro
Quando as águas correm desabadas
Do alto do teu corpo
Feito cimento cru, feito osso.
Se fosse real teu inimigo
Haveria de pendurar laranjas
No limoeiro do quintal em frente
Poderia dizer-te as estrelas todas do caminho feito regresso
Morte
Não, esta noite
Ainda haverá olhos atentos e poços deitados onde a água
Não se cansa dos buracos
Palavras rente ao silêncio dizer-te
Não, não te grito, nem te cheiro
E, quando caíres do alto dos nossos beijos
Como as beatas dos dedos amarelos
E defronte o precipício ouvires gritar o meu nome
que não tarda:
já será dia nas luzes das candeias
Sandro William Junqueiro, inédito, Outubro 2005

Fotopoema 37. Augusto Mota Posted by Picasa

02/10/2005

MUDE

Mude
mas comece devagar,
porque a direcção é mais importante
que a velocidade.
sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente no campo,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas da casa.

Tente o novo todo o dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.

Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva versos e poesias.

Lembre-se de que a vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativa.
Grite o mais alto que puder no espaço vazio.
Deixem pensar que você está louca.

Aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo,
a energia.
A positividade que você está sentindo agora.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura energia de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!

Clarice Lispector

Direcção Norte-Sul, Este-Oeste.
( autoria desconhecida ) Posted by Picasa
To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower:
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.
William Blake

William Blake
( 1757 - 1827 )Posted by Picasa
De um Mundo num Grão de Areia ter a visão
E o Céu numa Flor Silvestre ver agora.
Conter o Infinito na palma da mão
E sentir a Eternidade numa Hora.
Tradução de António Simões

01/10/2005


Meninos. Fotografia de Thierry le Gou. Posted by Picasa

Meninos do Cais II

- Mocinho, não vais à escola?
- Na senhora... na sê ler, o que vou eu lá fazer?
- Mocinho, não tens sapatos?
- Na senhora... os més peses são mais grandes q'us sapatos. Os peses da gente são como os passarinhos, na apreciem gaiola.
- Mocinho, o que fazes aí sentado a olhar o mar?
- 'Stava só a pensar... s'é fosse pêxe gostava de ser roaz.
- Porquê roaz?
- P'ra roer as redes e dêxar os pexinhes miúdos voltarem p'ro mar.
Glória Maria Marreiros, in "Algarve, a gente e o mar".

Pensando e Andando

- It's nice! - Exclamam os estrangeiros com os olhos gulosos, antegozando o petisco, enquanto o marítimo sem se deter, para não dar confiança, vai pensando:
Ma que jête! Os marafados dos turistas parecem même qu'inda na virem marisque! 'tão com água da boca? Se quizerem mandecar apoisem os fundilhos das calças à do Zé do restaurante e perquem o amor à bagalhuça...assim 'tá bem, podem comer lagóstas, sentolas, percebes, tudo à fartazana. Quem los comia tamém, bem sê eu quim era... até lembo os bêços só de pensar... e por 'i me fique. Come uns breganites e vai com sorte...
Glória Maria Marreiros, in " Algarve, a gente e o mar".

Remendando as redes. Fotografia de "Fragmagens" Posted by Picasa

O W FAZ O PINO

Aranha?
Montanha?
Não!
É apenas
um menino
do alfabeto inglês
ou alemão,
é o W
a fazer
o pino!
António Simões, in "A Festa das Letras"

Ternos Guerreiros, 40X37 cm. Desenho a nanquim
( Colecção Particular ). Augusto Mota, 1963. Posted by Picasa

Choro


José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista português, nasceu no Porto em 1900. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas. Esteve ligado ao Grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros...
José Gomes Ferreira morreu em 1985. Posted by Picasa
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueletos de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que aranhas tecem vestidos
para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...
Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!
Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!
Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insónias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor pela Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
- num arrepio de Primavera
e de Castátrofe!

Ascensão de Dez Gostos à Boca. Ilustração Interior
Augusto Mota, 1977Posted by Picasa

METÁFORA

Cheirei o fogo
e bebi-o
a tragos de protesto.
Digeri-o
e agora
projecto luz
e vomito o resto.
Ezequiel Ferreira, in "Viola Delta", vol. XL.

XIV

Deixa ficar a cinza nos cinzeiros
e as flores murchas nas jarras.
Não dês ordem às coisas.
A cinza ainda é resto de presença
e as flores recordação.
Maria Eugénia Cunhal, in "Silêncio de Vidro"

Legenda Íntima 21. Augusto Mota Posted by Picasa

II - não mais

não +
somos
=s aos
palhaços
s(c)em palmas
somos
loucos
gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor"

I - não mais

não mais
o sentimento
de termos sido
caudal de lava
ou chuva
encosta abaixo
gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor"