23/08/2018

Texto transversal









10/08/2018

Fotopoemas


TRÍPTICO  POEMÁTICO



















Palavras de Rosa Mar

Foto e manipulação cromática de augusto mota

Edição de Augusto Mota


10/06/2018

Texto transversal








04/05/2018

Rosário breve




TRÊS CURTAS-METRAGENS



A maior parte é baseada em factos reais.

A menor, também.




1. Baile de sábado-à-noite em associação recreativa de lugarejo. Os casados no bufete. As casadas, em casa. Os solteiros, à caça. As solteiras, ao alcance de tiro. Lâmpada de luz-roxa, bola-de-espelhos. Fora do recinto, mais motorizadas do que carros. Dentro, a latência biológica, predatória, rapace: fervor da pré-procriação.
Uma das solteiras: olhos iridescentes, carnação (gene)rosa, frequência universitária, um só ex-namorado no currículo.
Um dos solteiros: belo rapagão alto, espáduas simétricas, electricista-canalizador, cobiçadíssimo pela fauna fêmea.
O salão-de-baile tem escadas que sobem ao balcão-beberete. Ele vai a subi-las, agora. De baixo, ela mira-o fixamente pelas costas. Ele sente a pressão hipnótica daqueles olhos de céu estilhaçado. Já não acaba de subir. Desce, vai dextro a ela. A música está quase no fim – mas ele toma-a na mesma, dançam sem prévia apresentação mútua. Depois, ele leva-a pela mão ao bufete. Cerveja para ele, gasosa com groselha para ela. Só então se tornam Armando & Otília. E só então se tornam um(a) do outro.
Passado pouquíssimo tempo, têm uma filha. Oito meses antes disso, casaram-se pela igreja. Passado pouquíssimo tempo, ele adoece da cabeça. Desorienta-se por nada, muda-se-lhe o carácter, torna-se irascível, desfecha palavrões descabidos, arranja problemas no trabalho, despedem-no. Ela consegue finalmente forçá-lo aos médicos.
O primeiro médico é um negligente arrogante, não cuida da evidente gravidade do mal, mas o segundo doutor acerta de imediato contas com a fatalidade: tumor cerebral maligno. É uma vez operado – resiste heroicamente, segura-se de muletas, ainda reconhece mulher & filha. É operado segunda vez – fica vegetativo. Dura uns meses. A respiração dele enche a casa como o vento as florestas. O vento cessa, aquieta-se o arvoredo: ele morre.
No lugarejo, entretanto, não houve mais quem pegasse na direcção da associação recreativa. Nunca mais houve baile – só a luz permanece roxa, estilhaçados os espelhos da bola como dela o olhar outrora.


2. Era de comboio que vinha pelas primícias do entardenoitecer. O trabalho não era muito, não mais de quatro horas, ao fim das quais comia alguma coisa numa casa-de-pasto perto da gare ferroviária. Desfazia tempo lapijando as palavras-cruzadas do jornal do dia. Tomava o comboio de volta à hora invariável. Se o não fizesse, só cinco horas depois teria outro.
Uma noite, conheceu outra pessoa. A nova pessoa era mais velha uns vinte anos. Foi ao balcão da casa-de-pasto que se conheceram. Comiam lado-a-lado nos bancos giratórios de pé-alto. Foram revelando-se lances pretéritos de cada vida. Eram vidas vulgares. Eram tão-só duas pessoas. Não possuíam fortuna financeira ou predial relevante. Trabalhavam, colhiam o salário, gastavam-no em comida, luz, água, gás, licor, sabão & sapatos.
A pessoa com mais anos passou a interessar-se por palavras-cruzadas também, começando até a adquirir & a partilhar publicações da especialidade com a pessoa menos jovem. (E talvez algumas vezes a de menos anos tenha ido no comboio de só cinco horas depois.) Foram envelhecendo a par até as duas décadas de diferença se esbaterem invisivelmente.  
A casa-de-pasto mudou de gerência, o novo dono era antipático, passaram a encontrar-se na de duas portas ao lado. A pessoa que vinha & partia de comboio arranjou trabalho na cidade de origem, deixando de entardenoitecer por ali. Cruzam ainda palavras pelo correio – mas nunca mais se cruzaram.


3. Era uma vez um homem que se abstraía de dores anacrónicas do foro afectivo pelo escapismo da leitura. Ele era o primeiro – e o último – e o único – a reconhecer que o coração sentimental é uma relojoaria atafulhada que não bate bem (d)a hora: daí que lesse tanto contra ele.
Certa tarde de largos oiros aéreos, abeirou-se dele um indivíduo possuidor de olhos anónimos: era uma senhora. A mulher saudou-o pelo nome próprio. Ele sentiu-se embaraçado por se não recordar do próprio dela. Fez-se porém de não-surpreso & ofereceu-lhe assento. Ela aceitou, continuando a falar-lhe com a maior naturalidade tu-cá-tu-lá deste mundo.
Os temas eram os de sempre: separações, filhos, progressão-na-carreira, escassez de perspectivas, a aranha da idade babando a seda da última teia.
Ele apreciou o fulgor não-pintado da cabeleira dela, a alvura coruscante da dentição, a firmeza agressiva dos morangos peitorais pontiagudando a blusa roxa, as mãos pequeninas de boneca crescida. Isso – mais as safiras perigosas com que ela o olhava (e via). Ela insistiu em pagar a despesa, despedindo-se assim: 
– Felicidades, Armando.
Ai Otília, como se “felicidade” pudesse ter plural.







Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 3 de Maio, 2018
 
Ilustrações: Dois desenhos clássicos do Gestaltismo, ou Teoria da Forma, ou Psicologia da Forma. 
Em cima  –  A ilusão apresenta ao observador uma escolha mental entre duas interpretações válidas: a silhueta de um cálice ou a silhueta do perfil de duas faces humanas. Normalmente o observador percebe apenas uma delas e somente, após algum tempo, consegue perceber a segunda. Ao tentar observar a primeira e a segunda interpretação simultaneamente percebe-se que uma acaba por impedir a outra.
Em baixo – Neste desenho também o observador está sujeito a uma escolha mental, mas mais complexa.  O observador, geralmente,  vê  primeiro a cabeça de uma velha. Mas está lá a cabeça de uma jovem. Tudo depende dos processos cognitivos do leitor no momento em que vê a imagem. Por isso é natural que outro leitor veja logo a cabeça da jovem e não consiga ver a cabeça da velha.

Ao ler estas "Três curtas-metragens" e a advertência inicial do autor, por qualquer estranha lógica, logo se me impuseram mentalmente estas ilustrações como as mais adequadas para tais textos! 
 

Edição de Augusto Mota

03/05/2018

Wanya, escala em Orongo




AUGUSTO MOTA NA DOMINGOS SEQUEIRA



No passado dia 19 de abril, as portas do auditório da Escola Secundária de Domingos Sequeira (ESDS) abriram-se para receber Augusto Mota. A acolhê-lo estavam os alunos de Artes da Escola e alguns professores: os primeiros tinham uma ideia vaga de quem se tratava, os segundos, em particular os mais velhos, sabiam que aquele seria um evento especial na Escola.




A apresentação inicial feita pela organização do evento forneceu dados úteis, não só sobre o percurso e obra do convidado, mas também sobre a história da ESDS. Era importante que os alunos ficassem a saber que eram herdeiros de uma escola centenária que teve como diretores e professores vários artistas, a começar pelo primeiro diretor, em 1888, João Ribeiro Cristino da Silva; a ele se juntaram, ao longo de décadas, Ernesto Korrodi, Narciso Costa, Luís Fernandes, Matilde Rosa Araújo, Cristóvão Aguiar, Nelson Dias… e Augusto Mota, entre outros. 



Na conversa mantida na sessão, falou-se de alguns destes nomes e outros que a memória viva de Augusto Mota ia desenrolando. Destacou em particular o nome do pintor  Nelson Dias, de quem foi colega como professor e com quem trabalhou no álbum de banda desenhada Wanya, escala em Orongo, nos anos 70. Este era um título que dizia alguma coisa aos alunos presentes que tinham andado a explorar graficamente o álbum, sendo disso testemunho a exposição de trabalhos presente no átrio. 



 

Em torno desta obra, ficaram a conhecer vários pormenores ligados ao aparecimento do projeto, a referências do texto, o perfeccionismo do traço, a edição e o impacto que o livro teve nas instituições e na imprensa da época e aquando do lançamento da 2ª edição, em 2008. A este propósito, leu artigos de jornais e revistas publicados na altura e que testemunham o espaço singular que Wanya ocupou no panorama das histórias aos quadradinhos.


 


Várias questões colocadas ao convidado por professores e alunos permitiram que se entendesse o que era ser professor e artista num tempo em que os constrangimentos à liberdade eram maiores, mas em que, talvez por isso mesmo, a vitalidade artística da escola tinha uma dinâmica particular, que fazia da então Escola Industrial e Comercial de Leiria uma “incubadora” de artistas. A evidenciar esta ideia, falou-se da atual exposição  no m|i|mo - museu da imagem em movimento, “Nós e os outros”, tendo Augusto Mota salientado a qualidade da mostra e apelado a que os alunos fizessem uma visita guiada.


Os alunos presentes saíram certamente mais enriquecidos da sessão e oxalá tenham apanhado o testemunho da vocação artística da Escola, da qual Augusto Mota é uma lenda viva.

Bem haja!


Texto de Natália Caseiro

Fotos da sessão de Paula Gaspar 


25/04/2018

Liberdade





Ler em https://flordocardo.blogs.sapo.pt/145964.html o belo poema "LIBERDADE" de Paul Éluard (França, 1895 - 1952).


12/04/2018

Rosário Breve



ELA POR ELA
 

1. Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.” 
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria. 
2. A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.  
3. Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal. 
4. Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar. 
5. Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 12 de Abril, 2018
Edição de Augusto Mota