06/06/2007
breviário .2
03/06/2007
20/05/2007
breviário .1
01. desejo.Viveu prisoneiro do seu próprio corpo.
No seu testamento apenas exigiu que
transportassem a urna numa viatura
de desencarceramento dos bombeiros
voluntários.
51. prazer.
Tinha para com a produção artística
uma relação quase sexual. Passado
o gozo da criação, ficava triste. E
adormecia.
47. visão.
"Os políticos cada vez têm menos
sentido de orientação" - dizia,
desiludido. Por isso recorreu ao
microcrédito e montou um negócio
promissor. Uma escola de treino
para cães de cegos.
18. navegação.
A vida não lhe corria nada bem.
Teve que contratar um mestre-
jardineiro para aprender a navegar
num mar de rosas.
14. metamorfose.
Odiava moscas. Uma noite sonhou
que se transformara em camaleão.
Ficou radiante.
Textos de Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado", 2005.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
11/05/2007
zig.zag zag.zig
Finka-pé é um agrupamento de mulheres cabo-verdianas ( Santiago ) que se expressam de forma intensa e vibrante, através do batuque ou "batucadas". O espaço tradicional do batuque é o terreiro: o pátio interior ou as traseiras da casa onde pela noite fora, as mulheres se sentem em círculo, com a(s) dançarina(s) no centro, tocando a "tchabeta". Uma cantadeira improvisa longas melodias que falam da vida, das alegrias e das tristezas, da difícil condição feminina das suas componentes e dos problemas concretos com que têm de se confrontar. Num processo improvisado atinge-se a "rabira" - momento em que a(s) dançarina(s) faz(em) a "dança do torno", exibindo as suas habilidades coreográficas que resultam em acontecimentos que vivem da grande alegria e do envolvimento colectivo.25/04/2007
a alguns amigos, hoje


Despontou um raio ténuepor entre os castelos brancos
de bruma e
embargou-o a suspeita
de ter sido o tempo de
incredulidade um desperdício inútil
de alegria
Desenrolava-se a tarde por meio de sonhos
de infância
anteriores ao apertar do medo
anteriores ao apertar da patologia da
tiranização
anteriores à luva de ferro
que haveria de interpor-se
entre a pele e o amor
raramente deposta
era uma tarde de mais um
25 de Abril mais de trinta anos
depois e havia então
certezas feitas de peitos claros
e mesmo assim se foram
desvanecendo fogacidades
em jantares antropófagos e
caros
muito caros ao círculo de ferro
que instiga o carrocel do real
país que somos em pertinaz
recusa
infindável submissíssima negação
olhando o espelho
confundia-se a luva e a mão
facilmente a jaula
em vitrine de museu
e o exemplar humano atrelado
atento
ao mínimo detalhe
do horário da exposição
olhando o espelho
o exemplar humano atrelado
perguntará de si
onde ficou
no espaço translúcido
entre a roupa e a pele
adensar-se-á
implacável
a bruma
em castelos
até que desponte um raio ténue
e a suspeita
de ter sido todo o tempo
de incredulidade um desperdício
inútil
e será tarde
e urgente
a sede
da pele doente
se banhar líquida
em volúpia de alegria
onde a terra
em fogo
tiver secado o exalar
da bruma
e houver de nascer
do espelho
um exemplar humano novo
nu
em novo círculo de fogo
imagens sobre o 25 de Abril;
poema de Teresa Tudela, inédito, 25 de Abril de 2007.
um novo 25 de Abril


alimento ,ano após ano ,a loucura de saber.me apaixonada pela Utopia ,e então corro ,solta ,pelo sonho dentro cartazes do 25 de Abril retirados da net;
15/04/2007
zag . zig zig . zag ( ainda pelo Algarve )

"O Amor dos Outros" é uma abordagem singular à multiplicidade e complexidade de relações amorosas entre dois seres humanos - entre o Eu, o Outro e os Outros - num cozinhado explosivo de ingredientes, onde o amor, o desejo, a fantasia, o sexo, o ciúme, a inveja e a raiva, em doses desmedidas, se misturam e confundem.
Esta produção independente á da responsabilidade do encenador Paulo Moreira e do actor João Evaristo, conhecidos intervenientes da cena teatral algarvia e tem como fonte de inpiração textos do escritor brasileiro Alexandre Ribondi
De acordo com a imprensa, este é um "excelente espectáculo algarvio" no qual João Evaristo "conseguiu atingir a maioridade da representação subordinada a uma estética de qualidade" ( Ana Oliveira, in Jornal do Algrave, 22 de Março de 2007 )
Al-Masrah
informações e Reservas
96 777 8972 / 281 321 256 / alteatro.c@gmail.com
a bilheteira abre 1 hora antes do início do espectáculo
Espaço da Corredoura
Rua D. Marcelino Franco, 41, Apt. 433
8801-904 Tavira
zig . zag zag . zig
Neste trabalho, JP Simões assume, pela primeira vez, a totalidade do processo criativo, ao escrever músicas, letras e assumindo os arranjos e a produção musical do disco.
11/04/2007
Ó pedra que estás parada
Ó pedra que estás parada,onde estão tuas raízes?
mas ficas sempre calada,
ó pedra, e nada me dizes.
Por que não voas então?
que te impede de voar?
se fosses meu coração,
voavas solta no ar,
como voa o pensamento
que vai para onde quer.
Fosses tu irmã do vento,
serias minha mulher -
e eu casava contigo
fazia o que sempre quis,
como amante, como amigo:
ser para sempre feliz
Na solidez do teu corpo -
ser um a soma dos dois,
habitar-se como um todo,
( as asas vinham depois ).
Com a minha fantasia,
teríamos aéreo lar -
a gente depois vivia
só do sonho de voar.
António Simões, inédito, 2001
( Do ciclo "poemas com pedras dentro ).
08/04/2007
a grande obra


Não uso palavras. Uso acções. Sou um poeta da acção. Convenciono poesia nos meus gestos e directrizes. Por isso todos me vêem e concebem como um homem rude e mau, tenho a perfeita consciência disto. Nada de mais errado. Note! Olhe bem para mim, neste momento. Estando aqui sentado à sua frente a compartilhar consigo este maravilhoso charuto, pareço-lhe um homem malévolo? Responda-me com sinceridade.-Não.
- Como vê - solta uma nova gargalhada - apenas me situo à frente do tempo. Como todos aqueles, aliás, que de alguma forma, marcaram e alteraram o rumo e o ritmo da história. Além disso, todos aqueles que trabalham comigo, de mais perto, sabem que não gosto de dividir, os gestos ou acções, em bons ou maus gestos, em boas ou más acções. Para mim não existem dualidades nem questões dúbias: existem regras, existem leis e circunstâncias. Mas são apenas - quanto a mim -as circunstâncias que definem a verdade, a moral, a justiça, a vida, a morte. O mais importante para mim é a obediência e a noção do novo: o espanto. Como sabe todos os poetas são seres malditos, visionários e, portanto, incompreensíveis para a maioria. Porque observam o que mais ninguém vê. Vêem mais longe. Poetas como eu e você...
Mas se quer seguir um conselho, não deveria guardar só para si os seus escritos. Não leve a mal esta minha consideração. Mas incomoda-me a cobardia. Os pusilânimes. Mas sei, não ser este o seu caso. Não o é decerto.
No seu caso concreto, parece-me evidente ter chegado o seu momento. É chegada a sua hora. A hora do grande salto. A hora H.
Ergueu-se da cadeira e dirigiu-se ao outro. Circundando-o, ofereceu-lhe o cinzeiro para que também ele apagasse o charuto. Colocou, com intensa ternura, as suas mãos sobre os seus ombros, e, devagar, subiu-as até ao pescoço, principiando, sub-repticiamente a apertá-lo ,a apertá-lo, cada vez com mais força.
-Eis a minha grande obra - concluiu.
Texto de Sandro William Junqueiro.
23/03/2007
2. Meu corpo é agora um barco


Sento-me no bancodo pequeno largo -
o vento arredonda
os meus sobressaltos
e perde-se no ar.
O dia arde ainda na copa das árvores,
nas asas dos pássaros,
nos olhos dos velhos
perdidos no tempo -
meu corpo é um barco
ancorado na luz.
Poema de António Simões ,1999.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
22/03/2007
19/03/2007
De Que Fala o Silêncio

O tempo é anterior a ti, a mim, a nós,
e nada está escrito, excepto essa interioridade
que habita a inocência das palavras,
consumando o corpo, o seu início, o seu extremo,
deixando o espírito intacto para fruir
esses momentos puros, primordiais,
nessa abertura,
lâmpada rútila, navio eloquente, frémito intacto,
chama preciosa que, de outra forma,
tudo diz, tudo revela,
no tempo esquecido, no tempo sem tempo,
entre a magia e a volúpia,
no luar, no silêncio,
no tempo das clepsidras esquecidas.
Maria do Sameiro Barroso, in "Meandros Translúcidos", 2006.
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
11/03/2007
A Flor de Mil Pétalas



06/03/2007
ser livre

Felizes decerto os que se descobriram na evidência de um valor, transposto à essência de si mesmos, para lá do valor primeiro de serem em autenticidade, ou seja, de serem livres. A nós coube-nos apenas essa liberdade e não aquilo em função do qual ela existisse. Mas em torno dela se reorganiza a dignidade de nós, a afirmação esclarecida de nós, contra quem no-la queira entenebrecer. Aí fundamos a nossa cultura, aí fundamos o nosso modo de sermos livres. Vergílio Ferreira.Legendas Íntimas de Augusto Mota.
02/03/2007
As Árvores Crescem
quando o crepúsculo
desce
no estremecimento sem fim
dos primeiros pássaros depois é o sono
a pedra nocturna
dos anjos essa vaga caligrafia
de sinos submersos
sob as pálpebras percursos tão vários
do esquecimento Luís Serrano ,in "Antologia da II Bienal de Poesia de Silves, 2005".
27/02/2007
desigualdades


Barco cheiobarco vazio
é a sorte quem comanda,
ou a Lua.
Num momento
surge o vento de levante.
Como rastilho de prata
o cardume lá se afasta...
O barco fica vazio.
Glória Maria Marreiros ,in "Algarve a gente e o mar".
Legendas Íntimas de Augusto Mota.
22/02/2007
Q
20/02/2007
17/02/2007
fim
olhou o mar e sentou.se na areia branca dos desejos .há muito que esqueceu a côr das ondas que adormecem nas manhãs de sol .deixou.se embalar segundo o ritmo dos amantes e ouviu.se no requebro das flores que a praia rejeitou .nas praias não há flores .há poetas que se diluem nas madrugadas dos sonhos .utópicos .possuídos pela maré cheia da loucura .ocultos .são o silêncio do mar que os desenha .cobrem.se com a areia que lhes corre no sangue .e são em desamor .e sentidos .e revêem.se na surpresa das madrugadas sempre aquém no precipício do ser .no objecto .no desejo
definem.se como a contradição e sabem.se nos crisântemos ,flor ,que ,um dia ,descreveram em poemas .ele ,o poeta ,moribundo ,sabe.se no universo das pétalas e tingiu.a ,absoluta ,no malmequer desenhado a giz .tem.se como o poeta das flores .ela olhou a mesa .em cima ,uma jarra .vazia .a casa repercute.lhe os sons das flores que ele deixou ,esquecidas ,sobre a cadeira .colhidas pela manhã .à tarde ,há.de correr entre os crisântemos e vê.los de um modo diferente .presos à voz .dele a janela aberta .o trilho do combóio iniciado em nenhures .na praia .foi o início da loucura que há.de projectá.los mais além e souberam.se
no limite da imortalidade .o poema deixou.o inerte .rasgado no cesto dos papéis que tinha sob a mesa onde costumava escrever .as imagens sobrepunham.se e começou a deixar.se prender aos fios da vida .soube.se no limite preciso da sua existência de homem e isso deixou.a mergulhada numa profunda tristeza .a certeza do seu fim .do princípio ,não teve consciência .não se lembrou como o poema lhe apareceu na frente e se impôs .sentiu ,apenas ,a necessidade imperiosa de o passar para a folha .percebeu ,finalmente ,que a razão escorreu entre as suas mãos .soube.se louca entre a flor e a cadeira .alguém esqueceu as flores sobre a cadeira .alguém ousou perverter.lhe os sonhos .desfrutou a utopia de se saber entre os crisântemos que ele colheu de manhã .não .foi ,de véspera ,que se prendeu ao ritmo da maresia .ou foi hoje?esgotou.se no silêncio das ondas que lhe ofereceram muito mais além
e soube.se
descalça sobre a areia .teve.se em casa .na sua casa .dentro do poema que ele lhe deixou ,ao adormecer .vagueou no ritmo das palavras soltas e esqueceu o nome que lhe soou aos ouvidos .foi a voz do mar .do mesmo mar que ,anos atrás ,lhe adormeceu o amor .e os sentidos .entregou.se ao som dos pássaros que ,em bando ,abandonaram o areal e foram à demanda de novos horizontes .também ela se perdeu no horizonte do sonho. do ritmo das marés vivas .inócuo .segurou o crisântemo e absorveu.o ,inteiro ,nas palavras e nos poemas .ele ,o poeta das flores ,pegou no ramo .sentou.se na cadeira e esperou.a e ela veio .pegou.lhe na mão .partiram os dois desligaram a máquina .o poeta das flores era um homem morto e ela chorou.o gabriela rocha martins ,inédito in outro fim
fotografias de augusto mota ( Foz do Liz e Mar na Praia da Vieira ).
Crisântemo

15/02/2007
pérolas do ensino


Eis alguns exemplos de respostas imaginativas dadas por não menos imaginativos alunos nos seus testes escolares. Estão separados por disciplinas e escritos tal e qual no original. História A História divide-se em quatro - Antiga, Média, Moderna e Momentânea ( esta, a dos nossos dias );10/02/2007
Amor Virtual
suavizar-me a dor, afagar-me a testa! -
ligo o computador, busco os sinais,
Gigaherz da ternura que resta. Carrego numa tecla e tu sais
ao meu encontro com ar de festa:
e nas mãos, de súbito naturais,
o afago mais doce se manifesta. peço ao computador que derrame
dentro de mim mais memória ram,
pra reter-te pra sempre num ficheiro. 1000 gigabites, meu coração,
onde cabem os que a mim se dão,
como tu a mim te deste por inteiro. António Simões
01/02/2007
dia de anos
Com que então caiu na asneirade fazer na quinta-feira
... ! Que tolo!
ainda se os desfizesse...
mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo! Não sei quem foi que me disse
que fez a mesma tolice
aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
como lhe tomou o gosto,
que faz o mesmo? Coitado! Não faça tal; porque os anos
que nos trazem? Desenganos
que fazem a gente velho:
faça outra coisa; que em suma
não fazer coisa nenhuma,
também lhe não aconselho. Olhe que a gente começa
às vezes por brincadeira,
mas depois se se habitua,
já não tem vontade sua,
e fá-los queira ou não queira!









