Serigrafia, 43X33 cm. 1999.
24/05/2006
Sol Nascente / Loro Sae
Abre-se a terra para homenagear um povo que habitou as suas entranhas, enquanto aguardava que, um dia, o sol, como um galo de luta, anunciasse a vitória perpétua dos seus sonhos. Abre-se, depois, a terra para erguer um monumento à memória dos que já não viram o futuro, mas onde as cruzes brancas, em honra do seu sacrifiício, serão memória e fundamento de uma nova cidade. Abre-se, também, a terra para marcar uma fronteira visível entre essa memória das muitas vidas anónimas perdidas e a perfídia das resoluções urgentes todos os dias convenientemente adiadas. Abre-se, ainda, a terra para afastar, de vez, do sol nascente, as palavras ardilosas e os sorrisos dissimulados que, como um verme astuto e peçonhento, rastejam, sem rosto, pelos caminhos cobardes da traição cruel e impiedosa. E a terra abre-se, finalmente, para deixar o engenho das mãos e das máquinas limpar as sombras negras que o fogo do ódio projectou na paisagem clara e nas ruas férteis de tanta esperança. Que os nós que alimentam as cordas dessa esperança sejam bem firmes, para aguentarem os ventos de tanta adversidade. E que nas praias do desespero de ontem, arribem, pela maré cheia, os barcos da boa-nova e da abundância. Nos porões da solidariedade hão-de levar, também, fado e saudade. Para cantar o destino de um país que terá de carregar, para sempre, em seu nome, como letra inicial, a cruz dolorosa da sua construção. Augusto Mota, in "Juntos por Loro Sae", edição Jorlis, Leiria, Dezembro, 1999.
23/05/2006
A Poesia É Um Objecto Rasgado Na Inocência
Aos poetas-pintores
Maria João Fernandes
e Gonçalo Salvado
Esplêndida é a palavra, o plasma, o alimento do poema,a sua luz feita de gestos simples, quotidianos,
rimas ancestrais, livros antigos.
Esplêndida é a palavra e o seu sangue de leite e romãs.
Por vezes, os pássaros gritam, atordoados no silêncio da noite
e a poesia é uma musa coroada,
um gesto simples, um objecto de ternura;
envolve bifes com bacon, ovos moles de Aveiro,
objectos de Arte Nova, referências a Goethe, António Salvado,
Marc Chagall. Num fulgor dionisíaco, desprendem-se vestígios de caravelas,
chá de hortelã-pimenta, ou a magia radiosa de um livro
comprado numa feira de antiguidades, num jardim da Graça.
Sobre harmonias versáteis de pintura e poesia,
as palavras desprendem o seu aroma sempre vivo,
nas telas, nas cores, nas quimeras azuis,
e a neblina do mar coroa as pombas, os limões dourados,
entre as sombras coloridas pintadas, nas arcas leves do sonho. Esplêndida é a carne, a luz do poema, a sua fronteira
de azul e azeitonas.
Dela despertam velas, lombadas rasgadas, memórias,
roteiros íntimos de secretas viagens.
A poesia é um objecto rasgado na inocência,
na sua polpa doce,
a sua seiva é a seiva gloriosa das vinhas do silêncio.
Os dias são de seda e os seus instantes sombras
de veludo;
as suas iridiscências fundam no amor o seu reino,
dança de pássaros inebriados,
cavalos inquietos, envoltos nas páginas enrugadas,
alisadas,
na traça obscura do tempo.
Maria do Sameiro Barroso, inédito.
22/05/2006
A CANÇÃO DO DOIS E DO UM
Não penses no outro lado,
não há dois, apenas um -
o outro é este virado,
a alma veste o casaco
do avesso que é nenhum. Morrer é ir para o avesso
do casaco desta vida.
Nem bom, nem mau: um começo,
voltamos ao mesmo berço,
renascemos de seguida. Por isso eu nunca penso
na vida que vem depois -
vivo a vida como um lenço,
nos dois lados está apenso
o mesmo número: dois. Cada um o outro é
num binário singular,
são duas formas de estar -
ausentes razão e fé. O outro que vive ao lado
e me olha, olha-se a si -
ao ver-te, fico mudado,
foi ao ver-te que me vi. Dois é o número chave
que tu és uno e diviso -
a única forma que abre
o portão do paraíso. Dois, o número escrito
no rosto do teu irmão -
finito número infinito
onde os outros todos 'stão.
outras almas e lugares -
e a vida é viva e morta,
tudo integra, nada sobra,
é bom que nisso repares. Comigo eu te transporto
e o vasto mundo também,
estando vivo, já estou morto,
estou perto e longe do porto,
minha alma não vai nem vem. No sítio onde está, viaja
sem sair do seu lugar -
menina já velha e sábia,
sem lamentos e sem raiva,
ela vê o tempo passar. Porque ela sabe que o tempo
não é mais que uma miragem -
fluida e vária como o vento,
dentro de si tem assento
sua estática viagem. Ó minha alma viageira,
nómada de sítio nenhum,
acaba a tua canseira -
o Pai já de ti se abeira,
tu já não contas depois:
cala a canção do dois
e canta a canção do UM. António Simões, inédito, in "Poemas Circulares: Moradias e Navegações".
não há dois, apenas um -
o outro é este virado,
a alma veste o casaco
do avesso que é nenhum. Morrer é ir para o avesso
do casaco desta vida.
Nem bom, nem mau: um começo,
voltamos ao mesmo berço,
renascemos de seguida. Por isso eu nunca penso
na vida que vem depois -
vivo a vida como um lenço,
nos dois lados está apenso
o mesmo número: dois. Cada um o outro é
num binário singular,
são duas formas de estar -
ausentes razão e fé. O outro que vive ao lado
e me olha, olha-se a si -
ao ver-te, fico mudado,
foi ao ver-te que me vi. Dois é o número chave
que tu és uno e diviso -
a única forma que abre
o portão do paraíso. Dois, o número escrito
no rosto do teu irmão -
finito número infinito
onde os outros todos 'stão.
Minha alma, assim, comporta
outras almas e lugares -
e a vida é viva e morta,
tudo integra, nada sobra,
é bom que nisso repares. Comigo eu te transporto
e o vasto mundo também,
estando vivo, já estou morto,
estou perto e longe do porto,
minha alma não vai nem vem. No sítio onde está, viaja
sem sair do seu lugar -
menina já velha e sábia,
sem lamentos e sem raiva,
ela vê o tempo passar. Porque ela sabe que o tempo
não é mais que uma miragem -
fluida e vária como o vento,
dentro de si tem assento
sua estática viagem. Ó minha alma viageira,
nómada de sítio nenhum,
acaba a tua canseira -
o Pai já de ti se abeira,
tu já não contas depois:
cala a canção do dois
e canta a canção do UM. António Simões, inédito, in "Poemas Circulares: Moradias e Navegações".
20/05/2006
(utilidades)
Toda a geografia é uma sensação, antes de mais. Só depois é que se converte em ciência. Depois, quando a alma da poesia deixa ver como tudo, afinal, é assim mesmo, geograficamente poético, sem necessidade, portanto, de intervenção dos livros dos poetas, que nos ensinam essas coisas bonitas a que os homens de ciência chamam inutilidades. Nem são inutilidades, nem nos quebram o contacto com o real. Antes pelo contrário.Augusto Mota, inédito, in "Artifício da Loucura", 1964.
Luandino Vieira é o vencedor do Prémio Camões 2006
Luandino Vieira, de origem portuguesa, começou a escrever contos nos anos cinquenta, em Luanda, onde residia.O Prémio Camões 2006, o mais importante galardão literário da língua portuguesa, no valor de cem mil euros, foi atribuido hoje ao escritor angolano, José Luandino Vieira.
Luandino Vieira, de 71 anos, de origem portuguesa, começou a escrever contos nos anos cinquenta, em Luanda, onde residia.
A sociedade e os costumes da capital angolana, então sob domínio colonial português, inspiraram a maioria dos seus contos e a colectânea "Luanda" foi vencedora de um prémio internacional. Perseguido pela polícia política - PIDE -, foi preso e enviado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, juntamente com outros independentistas angolanos, fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola ( MPLA ).
Desde a sua criação, há 18 anos, apenas dois escritores africanos receberam o Prémio Camões, nomeadamente, José Craveirinha, em 1991, e o angolano Pepetela ( Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos ), em 1997.
O júri foi constituído por Agustina Bessa-Luís ( Portugal ) que votou contra, Francisco Noa ( Moçambique ), Ivan Junqueira ( Brasil ), Paula Morão ( Portugal ), José Eduardo Agualusa ( Angola ) e Evanildo Bechara ( Brasil ).
A Edirora Caminho irá lançar, em breve, em Luanda e em Lisboa, o primeiro livro da trilogia que o escritor está a concluir, sob o título "De Rios Vermelhos e Guerrilheiros".
18/05/2006
Os Pulsos Puros, Os Cabelos Lentos*
Aos Colegas da SOPEAM
A cidade tinha a cor, o coração algures.A vida não estava nos textos, pergaminhos, num livro
equilibrado sobre a cabeça.
Algures, alguma deusa primordial protegia-me e a vida
pulsava, com as suas arestas lentas. Eu era um sonoro vulcão, a cabeça desequilibrada,
uma haste de cinza rompendo a cabeça e o livro,
as chamas lacunares atravessando-me.
Fazia-me arqueóloga, com os pulsos puros e os cabelos lentos. A vida não estava nas pedras, nem nos sarcófagos,
mas os mortos nasciam todos os dias,
inundando de neblina os jornais, cobertos de esporos frios,
as musas desequilibradas desequilibrando-me. A minha vida era assimétrica, as minhas mãos confundidas,
entre filamentos de crisálidas. Passavam por mim as musas delirantes.
E os mortos estendiam-se na cidade, como castanhas no outono.
A morte não estava nas locomotivas,
e eu aprendia a suturar, nos hospitais assépticos.
A minha vida cobria-se de orquídeas. A morte escondia o seu seio. Havia gaze, iodo e mercúrio;
os meus olhos, uma genciana aberta de pássaros, neve.
E a vida não estava na arqueologia suturada,
nem nas suturadas invenções.
Mas as ânforas passavam, frenéticas.
Sonhava com Marco Aurélio. Provava o exótico garum.
Lia e suturava. Cingia a cabeça, devorando as cidades interiores.
A arqueologia regressava, com todo o seu ouro.
A morte e a vida, os êmbolos inertes.
O terror regressava.
Pelos campos cirúgicos o fogo surgia. Renasciam as cinzas, no corpo sôfrego para segregar
as ervas e os violinos.
E a cidade tinha a cor, o coração algures.
As musas cirúrgicas passavam. O Estige sorria, desdobrando canções, árvores frondosas
- os violinos sonhavam,
o mundo era uma canção iluminada, entre neve,
oxigénio, compostos iodados;
a Vida e a Morte, de mãos dadas, descobrindo os sarcófagos,
os Manes, as cidades interiores. A vida passava, leve e enigmática, como um teorema nocturno.
As estrelas soltavam-se.
Sabia de cor as violetas, a cor das cidades.
O Estige sorria.
A Vida não estava nos textos, pergaminhos.
-A vida florescia, numa morna estação de neve e jornais.
Maria do Sameiro Barroso, inédito.
__________________________________________
*I ENCONTRO DE LITERATURA DO HOSPITAL DE SANTA MARTA
18 de Maio de 2006
17 horas
MUSEU MACBRIDE
HOSPITAL DE SANTA MARTA
17/05/2006
a celebração do silêncio
há dias em que as palavras não se devem soltar .hoje é um desses dias .hoje celebra-se o silêncio cuja natureza condena o acessório ,muito embora ele seja também raiz de acção .mas o imperativo abstracto de "algo a cumprir" também pode tornar-se em angústia ,em dualidade ,numa inquietação insustentátel
.o silêncio é ,então ,muito mais sedutor do que a história das palavras e dos actos isolados
.Maria sabe-o .a sua aparente solidez ,o seu olhar cansado ,o registo taciturno das suas contemplações interiores ,escondem uma mulher inteira .um ser cuja limpidez esconde ,ainda ,o cuidadoso preservar da sua complexidade
.nela ,toda a urgência do ser
.prisioneira das suas sombras ,o interesse de Maria pelos outros constitui a reconstituição permanente das suas fidelidades primordiais ,enquanto mulher
.o presente .a repetição dramática da sua existência que procura ,agora ,resolver através da acção
.as ciladas e as armadilhas da cidade ,porém ,foram-na transfigurando sem a desfigurar
.reinicia o tempo de dar vida aos sonhos dos vinte anos ,e , as palavras escritas sobre as tonalidades da vida urbana com que sonhou ,mais do que depoimentos ou simples repositórios ,pretendem iluminar o seu pessoal estoicismo silencioso
.como muitos outros ,Maria sabe que o poder é extremamente precário e provisório .aliás ,ela nunca há sonhado com o poder ,pelo menos o poder como poder
.o seu sonho consiste ,apenas ,em fixar uma época .em relatar um tempo de sombras .em fixar uma travessia no círculo apertado do obscurantismo .mas sabe ,também , que não pode nem quer alcançá-lo sozinha .daí o seu humanismo eivado de uma forma peculiar de existência - Maria não aceita a culpabilidade - não entende que todos nós somos culpados de alguma coisa ...
no seu universo há encontros e desencontros
o retorno ao eterno arbitrário ,contudo ,é uma faca de dois gumes ,e o terrorismo cultural onde se move e habita acaba por oferecer-lhe um bilhete para uma viagem sem retorno
.o enigma das repetições fá-la ,no entanto ,pensar que sempre estivera ali .ela sempre estivera no mesmo lugar
.Maria olha a direito ,fala .à esquerda ,onde se situa ,ao centro e à direita .às vezes hesita ,outras vezes provoca silêncios ,à espera de qualquer coisa . há que respeitar-lhe o silêncio e o grito que não solta -"deixem-me .deixem-me ser tantos quanto sou !"
como pedra sonora o seu eco permanece sobre a terra e sobre o tempo ... entre ela e as suas sombras ergue-se ,intacta ,a cumplicidade do que não se perde - a sua capacidade de criar
.mas será que isso lhe basta
?
gabriela rocha martins,viaje até ...
16/05/2006
zig-zag zag-zig

Na passagem do 100º Aniversário do nascimento do General Humberto Delgado, o Grupo dos Amigos de Olivença presta sentida homenagem ao Lutador e ao Defensor das causas em que acreditava.
Humberto Delgado, cedo, manifestou a mais ardorosa determinação na sustentação dos direitos de Portugal e quando apresentou a sua candidatura à Presidência da República, em 1958, era Presidente da Assembleia Geral do Grupo dos Amigos de Olivença. Combatente da Liberdade e da Justiça, ao General Humberto Delgado não podia passar silenciado o drama histórico que a ocupação de Olivença significava.
O seu amor à velha terra portuguesa de Olivença foi das grandes motivações a que não regateou esforços.
Honrando a memória do General Humberto Delgado, lutemos nós, Portugueses de hoje, tal como ele o fez, pela Olivença portuguesa.
Esta é a homenagem que lhe devemos.
Lisboa, 20-05-06.
A Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença
15/05/2006
A Rosa e a Chama
Era o rumor da rosa
ardendo ali ao lado, no jardim? A rosa estava lá fora,
certo.
Só que a sua chama
crepitava aqui mais perto:
dentro de mim. António Simões, inédito.
ardendo ali ao lado, no jardim? A rosa estava lá fora,
certo.
Só que a sua chama
crepitava aqui mais perto:
dentro de mim. António Simões, inédito.
11/05/2006
um ano de existência
do
Palácio das Varandas,
( Augusto Mota, Glória Maria Marreiros,
António Simões, Maria do Sameiro Barroso,
Sandro William Junqueiro e Gabriela Rocha Martins )
com alguns ventos a contragosto,
muitas marés de agrado
e
aportagens felizes
mas
não sonhadas,
agradece aos seus Amigos, Visitantes e Leitores
as viagens partilhadas
ao longo deste ano
de existência
...
promete crescer
mais
...
ehehehehehehe!
...
"Com que então caiu na asneira
de fazer na quinta-feira
um anozinho
que tolo!
ainda se o desfizesse
mas fazê-lo não parece
de quem tem muito miolo"
...
"Beijo na face
pede-se e dá-se
dá?
Que custa um beijo
não tenha pejo
vá!
...
(Excertos de Poemas de João de Deus )
09/05/2006
Dia 8, 19:17 ( continuação )
Ao lado da sala existe uma casa de banho a que só os guardas desta ala têm acesso.
Abro-lhe a porta verde. O cheiro a higiene incontinente que invade todos os espaços e compartimentos da instituição, ao mesmo tempo encolhido, sub-reptício, invade-me novamente as narinas, alojando-se de imediato no cocuruto da cabeça; entranhando-se-me num dos bons lobos do cérebro.
E é nesta curta relação de causa-efeito, composta por choques eléctricos, que uma náusea violenta me irrompe do ventre. Nem tenho tempo de chegar ao espelho e espremer uma borbulha que seja, para me acalmar.
Logo, uma, duas, três golfadas de vómito, de cor ainda indefinida, saem projectadas da minha boca e narinas para cima do lavatório branco. A mistura quente e pegajosa liberta um fumo branco em sinal de paz, em contacto com a cerâmica fria.
Cheira a azedo. Vomito tudo o que tenho e o que também não tenho. Estou exausto e oco por dentro. A boca sabe-me a envinagrada. Quando tento engolir saliva pareço estar a engolir ao mesmo tempo pequeníssimas lâminas que se cravam na garganta.
As minhas pernas e os meus braços tremem-me. A custo, lá consigo pôr-me de pé. Estou como leite azedo e coalhado já coberto por uma fina camada de bolor. Pálido e verde. Os olhos coalhados de sangue. Não posso prmitir que me vejam assim. Não posso.
Abro a torneira no máximo. Lavo cuidadosamente todo o lavatório e apanho do chão algumas sobras desalmadas que saltaram para fora na altura do primeiro jorro. Assoo o nariz. Lavo a boca e os dentes. Bebo uns goles de água. A água fresca, de certo modo, revigora-me. Sinto-me ligeiramente melhor. Mais capaz. Ainda que as pernas me tremam um pouco. Mas o pior já passou.
Enxugo as mãos à farda e volto para o corredor. Ainda não lhe vejo a porta. Mas vai tudo correr bem. Vai tudo correr bem.
Basta que acredites. É importante acreditar. Sandro William Junqueiro, inédito, in " Cadernos do Algoz".
07/05/2006
Recorte
Silhuetas recortadas
em contraluz
quando a aurora preguiçosa
se debate ainda
num adeus à Lua
e o Sol tremeluz
rompendo a bruma
que no mar se esbate.
Silhuetas,
em cada uma
nervos, músculo, coração,
mão puxando a rede
que o labor encheu.
recortado,
um homem cabe inteiro
nas nuvens do céu.
Glória Maria Marreiros, in "Algarve, a gente e o mar".
06/05/2006
zig-zag zag-zig
Aviso à Navegação
Devido a obras de restauro em todos os balcões do PALÁCIO DAS VARANDAS, as publicações encontram-se suspensas por algumas horas.
Tencionamos retomar o contacto com os nossos Visitantes e Leitores no próximo domingo, dia 7 de Maio, se as obras em curso, à semelhança de todas as demais neste País, não inflaccionarem.
A Tripulação.
03/05/2006
O Voo da Rosa
Rosa -
Uma rosa voa
Com asas de perfume;
No coração da tarde,
Uma rosa voa
E arde - E este poema
É as cinzas desse lume. António Simões, inédito.
Uma rosa voa
Com asas de perfume;
No coração da tarde,
Uma rosa voa
E arde - E este poema
É as cinzas desse lume. António Simões, inédito.
27/04/2006
dia 8, 19:17
Ainda não vejo a porta.
Lá fora, a chuva continua, incessante, embora daqui não a consiga ouvir. O silêncio é gordo e sem moscas. Pegajoso. Tanto, que a cada passo, os meus pés transformam-se em cães enraivecidos, latindo contra um inimigo invisível ecoando pelas paredes e tecto. O corredor é longo e largo. As paredes são cinzentas, sem brilho. E a luz baça ilumina-me os passos cadenciados. Sei que atrás destas paredes, de um lado e do outro, eles dormem. Ou fingem que dormem todos os que vão morrer. Mais cedo ou mais tarde. Todos sabem o seu fim. Mesmo assim respiram sem pressa e os corações batem-lhes baixinho para não se fazerem notar enquanto se preparam. É a minha primeira vez. A dele também. E estas horas que antecedem a execução são demasiado longas e pesadas. São horas que fedem: odoríferas horas. No entanto, se para mim, estas, são as primeiras e as mais duras, da aplicação final de toda uma aprendizagem, para ele, serão as últimas; as últimas e as mais céleres. É luxuriantemente simples: um sabe que vai matar; o outro sabe que vai morrer; e sabendo nós o mesmo, estamos unidos a essa mesma morte, como dois gémeos siameses estão unidos à sobrevivência pela partilha de um orgão comum; de um orgão vital, do qual os dois dependemos em simultâneo, mas que tem de ser dividido, lancetado, e que dessa cisão, os dois também sabem, que depois apenas um sobreviverá: talvez o mais fraco. A sombra de um homem robusto, de cabelo cortado à escovinha, caminha a meu lado. Um cheiro acético a desinfectante impregna o ar. O chão, as paredes, o tecto, as portas, as grades, as celas, os catres, a cozinha, os refeitórios, as casas de banho, tudo, está impecavelmente limpo, imaculadamente puro; entranhado para sempre com este odor a fruta asseada. Que faz lembrar o cheiro das putas lavadas; das higiénicas e desinfectadas vaginas, que de quando em quando, aguardam os clientes, palpitantes sobre a cama, com odoríferas fatias de maçã encostadas à carne por dentro das cuecas.
Paro à distância de dez passos. O puxador da porta interroga-me a mão. Procuro a razão pela qual as minhas pernas se recusam a avançar. As minhas pernas têm medo. Um medo individual. Como se fossem elas próprias seres autónomos com vida própria.
Com a cabeça mal voltada, volto-me para trás. Procuro no chão de mármore as marcas recentes dos meus passos ladrados. Tudo está limpo. Imaculadamente puro. Preciso de uma casa de banho. Quando os nervos trepam por mim acima tenho sempre vontade de ir à casa de banho. Não só para urinar ou defecar, fazer aquilo que todos os bichos fazem, mas para espremer borbulhas e pontos negros em frente ao espelho. Espremer borbulhas e, ou, pontos negros, ou os dois em simultâneo em frente do espelho, relaxa-me mais o sistema nervoso, a frequência cardíaca, que dez inspirações abdominais completas. Ver o sebo ejectar-se dos poros e projectar-se no vidro, transmite-me, não sei bem como, uma pseudo-mesquinha sensação de segurança. Uma segurança egocêntrica, que nenhum ansiolítico ainda assim me conseguiria dar desta forma tão absoluta e macrobiótica. Preciso de espremer borbulhas. Ou isso ou comer laranjas.
É melhor regressar. Não é medo. É uma necessidade fisiológica. Uma casa de banho. Não é medo. Não, não é.
( a continuar ... ) Sandro William Junqueiro, inédito, in "Cadernos do Algoz".
26/04/2006
Os Tais Ministros
"Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?" Eça de Queiroz, in "O Distrito de Évora", 1867.
25/04/2006
Fim de Tarde Abril
atravessámos a poalha do fim de tarde em abril
escuro lamento da voz rompíamos o círculo estreito de
amizades cinzentas o muro branco da lamentação
antiga abríamos um seco areal aí passava o sol
banhando a tua roupa a nudez do corpo macerado no
ofício dolorido dos navios. Orlando Cardoso, inédito.
escuro lamento da voz rompíamos o círculo estreito de
amizades cinzentas o muro branco da lamentação
antiga abríamos um seco areal aí passava o sol
banhando a tua roupa a nudez do corpo macerado no
ofício dolorido dos navios. Orlando Cardoso, inédito.
sempre Abril
os sonhos perdem-se nas
muralhas e no
as sinfonias inacabadas
de um cravo tocado em azul gabriela rocha martins.
muralhas e no
silêncio
solfejado
dos pianos negrosNa pauta
o maestro explodeas sinfonias inacabadas
de um cravo tocado em azul gabriela rocha martins.
23/04/2006
se eu pudesse ...
Ao Amigo Augusto Mota!
23.04.2006.
quisera eu
perder a cabeça e
ser
apenas
coração
ah se pudesse
ser
apenas
eu gabriela rocha martins.
o arlequim
Repentinamente acordei sobressaltado com um estranho som de guizos bem metálicos, que me feriu os ouvidos como o canto despropositado de uma ave agoirenta. Acordei do letargo pesado em que me encontrava e esfreguei os olhos para dissipar qualquer dúvida. Mas não, não eram visões de pesadelo, nem delírio de uma vigília forçada. Arrepiei-me, ainda, com uma gargalhada tão estridente, que parecia continuar a agudeza metálica dos guizos que a princípio ouvira. Tudo se formou mais distintamente no meu espírito e as imagens sucederam-se fantasiosas, num desenrolar quase cinematográfico.
O espelho do guarda-fatos era como que um écran reflectindo a realidade do quarto e a própria cama onde me encontrava deitado e, ao mesmo tempo, revelava todo um mundo estranho de imagens inconscientemente acumuladas para além daquela fina película reflectora, que inicia um universo de focos múltiplos. Desenrolou-se toda a cena num sistema de fotografia animada, fantasticamente mesclada com uma realidade quase diluída de matéria palpável. Vi estantes e cadeiras esfumarem-se numa penumbra longínqua, enquanto figuras ainda irreais se aproximavam da face límpida do espelho. Guizos e mais guizos encheram de ressonância a caixa vazia do guarda-fatos e um ribombar, agora surdo, anunciou uma figura definida de minúsculo arlequim que, saltitante, pousou no puxador do guarda-fatos, tinindo sempre os guizos que lhe ornavam os pulsos e os tornozelos, como que para prevenir espíritos menos atentos a estas suas visitas tão súbitas.
Fixei, então, o arlequim e quase me dispunha a agarrá-lo quando ele saltou para cima do móvel de onde saíra, como que adivinhando o meu gesto retardado pela sonolência em que, talvez, ainda me encontrava.
De repente levantei-me da cama disposto a apanhar o meu arlequim e, em voo, lancei-me sobre o guarda-fatos, mas apenas o pó ficou preso às minhas mãos e uma gargalhada estrídula abalou os meus ouvidos. Escapou-se o arlequim, mas a teimosia conseguiu vencer o desânimo e, decidido, entrei em luta sem tréguas contra um inimigo que era só gargalhadas, cada vez mais infernais. Revolvera já o quarto todo. Destruíra livros. Rasgara, até, desenhos. Mas só ao partir, inadvertidamente, o espelho do guarda-fatos vi cair a meus pés o corpo minúsculo do meu arlequim, agora desconjuntado como um boneco de feira sem a animação hábil de umas mãos de artista cuidadoso. Jazia ali, no soalho, o meu pobre arlequim, morto como um coelho, pálido e sem guizos, como se o som que se ouvira fosse mais produto de uma alegria interior do que de meros apêndices, que murcham como flor viçosa colhida em pleno suão.
Destruí o espelho que era, afinal, o seu mundo, um mundo de resíduos de experiências, formado por limites ópticos a que o acaso proporcionou vida e que o acaso matou, como que para denunciar a existência destes seres que, talvez, sejam parte integrante de nós. Destruí o espelho que era, afinal, o meu mundo, um mundo que me subjugou um ano inteiro, que me excitou nas horas mais laboriosas e que me apoiou toda a obra que, conscientemente, produzi à sua frente, como sacerdote noviço exercitando-se nas práticas litúrgicas. Sim, foi esta permanência avassaladora de imagens todos os dias renovadas, esta transmissão de angústias sempre crescentes, que lhe deu um espírito próprio reflectido, uma razão de ser equidistante de uma personalidade real, activa, sincera.
Compreendo, agora, que o meu arlequim se vinha despedir, para sempre, na última noite que eu passava naquele quarto, um quarto que tinha já vida própria, onde se respirava a cor dos quadros espalhados pelas paredes, paredes que, talvez, ainda hoje ecoem os repetidos e teimosos gestos de criação... Augusto Mota, inédito, in "Metáfora", 1961.
22/04/2006
Terceiro
Sinto no coração o momento. Vejo todas as coisas e é como se não as reconhecesse. Tudo está vendado sem venda. As formas são um centésimo fugaz e depois o esquecimento. Hoje sei a verdade. Já não me canso. Através dela ouço e cheiro. Mas o que vejo arquitectado está para além de tudo. Então esqueço-me dos nomes. E dos lugares a que as coisas pertencem. Sei que o mundo é longe e tem um céu por cima. Talvez esta cegueira se deva à clara e espontânea lucidez de quem enfrenta Deus e para ele avança. Tal qual como no cimo de um verso mudo há um grito dentro que deflagra uma coisa incompreensível. Mas eu não grito por pudor. Além disso para quê gritar? De que serviriam os gritos? Assim continuo. É importante continuar. Eu amei. O meu corpo empertiga-se no esforço de absorver o redor. A crença é agora a minha fé, a minha força, apesar das rezas. Pois sempre rezei. Fui ensinado a rezar, a acreditar, e rezei, e acreditei porque era pequeno. Quando se é pequeno acredita-se e reza-se aquilo que nos ensinam. Mas logo depois cresce-se e nunca mais se acredita nem reza. Nem nunca mais se é pequeno. O fim do corredor. A porta está fechada. A maçaneta atenta à mão como o coração a uma resposta. Sente-se o fulgor. Sente-se o frémito. Um dos guardas avança. Ouve-se um estalo. Fecho os olhos. Uma voz vergasta o espaço sentenciado: condenado à morte. A voz percorre a distância aceite por Deus. A porta fecha-se. O burburinho desvanece-se. Abro os olhos. Respiro. Sandro William Junqueiro, inédito.
20/04/2006
Pedido de Socorro Às Rosas
Peço às rosas que venham ajudar-me:
Estendam as pétalas como mãos de ternura
E acolham minha alma e o corpo em sofrimento -
Com seu perfume, atravessem-me a carne,
E depois,
Deponham-me suavemente na pira da tarde,
Para que a chama em que cada uma arde,
Me reduza a cinzas
E me leve o vento. António Simões, inédito.
Estendam as pétalas como mãos de ternura
E acolham minha alma e o corpo em sofrimento -
Com seu perfume, atravessem-me a carne,
E depois,
Deponham-me suavemente na pira da tarde,
Para que a chama em que cada uma arde,
Me reduza a cinzas
E me leve o vento. António Simões, inédito.
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