23/10/2005

A TOTALIDADE DO SABER FRAGMENTADO

2.
onde se come o pão fica a merda do isso : o desobjecto / dejecto / abjecto do acto
onde se põe a mão fica a hortelã da lã : lá onde um dedo estica e pica um número incerto
onde nada acontece entra o fio que tece a teia : despenteia o pente e aborrece a aranha
onde tudo isto já está : já está
Ernesto de Mello e Castro, inédito, Janeiro 2004.

"Mão de Mica". Escultura de Pierre Couspon Posted by Picasa

Pedras-Pássaros

pedras pernas
pedras penas
pedras pousadas
pedras pesadas
pedras presas
ao chão da amargura,
tomai minhas pernas,
tomai minhas penas
( que são de voar ),
e, pedras, andai,
voai pela tarde,
subi até ao alto,
ao mais alto do ar;
pedras, já pássaros,
descei a meus braços,
levai-me prò outro lado,
para o reino encantado
onde as pedras têm penas,
onde as pedras têm pernas
pra voar e andar.
pedras pousadas,
pedras-palavras
no chão do poema,
aqui vão ficar;
(não te esqueças porém,
leitor prevenido:
em cada uma
há um pássaro escondido ).
António Simões, inéditos, "Seis poemas com pedras dentro", in JL, 2000.

Amor Posted by Picasa
tomei a polpa dos teus sentidos
guardei as mãos desassossegadas.
pousei-me em repouso
sem remorso
( calça tamancos, disse-o Ritzos )
de mil incensos te resguardarei.
serei
sou teu resguardo.

domarei

a exacta meia tarde

de astros inquieta.
na certeza ardo.
repouso no intacto que te invade,
amor,
te sou / não te tardo.
maria toscano, inédito, in "O Sinal Anunciado do Nascimento".

22/10/2005


Vinha Virgem. Fotografia de Augusto Mota. Posted by Picasa
afago o aparo
afago o amparo
e escrevo
aqueço o cigarro
acendo o desejo
e escrevo
defendo as palavras
defendo-as e lavro-as
amanso o cedo:
não há borrão como a demora.
da voz se escapa a dor magoada.
só do simples
repõe-se a paz.
maria toscano, inédito, in "O Sinal Anunciado do Nascimento".

"Saber Fragmentado". Composição de Moriyama Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR / A TOTALIDADE DO SABER FRAGMENTADO

1.
as pessoas não sabem tudo. se soubessem tudo não eram pessoas, eram enciclopédias
mas as enciclopédias não dizem tudo. se dissessem tudo não eram enciclopédias

eram pessoas

as pessoas dizem preferencialmente o que não sabem. se dissessem só o que sabem não eram pessoas

eram burros

os burros não dizem coisa nenhuma. se dissessem não eram enciclopédias nem pessoas

eram burros falantes

os falantes são preferencialmente pessoas. se não fossem

eram discos, fitas magéticas, CDs ou impressões digitais

Ernesto Mello e Castro, inédito, Janeiro 2004.

Lenda do Lis e Lena. Tinta plástica e caseína sobre omnilite. 1,80 X 3,60 m. Augusto Mota. 1965.Posted by Picasa
no princípio era o verbo
o ser
o tímbalo
e o cravo
cavo
mas o iníquo ajuizar
a
l
h
e
i
o
adveio
l
o
u
c
o

.amante.
gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor".
- silêncio de vertigem
ou pausa côncava?
- de onde nasces
se morres em azul?
- és acto
ou corpo unido em nada?

.amorosa confusão.

gabriela rocha martins, inédito, in "jamais canto de amor".

21/10/2005


Vinheta Sol e Lua. Augusto Mota Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR/O Homem de Ouro e a Mulher de Prata

Era uma vez um homem feito de fogo, como muitos outros homens: tinha língua de fogo, cabelos de fogo, coração de fogo, barbas de fogo. Um dia, num caminho, esse homem encontrou uma mulher de água, coisa muito natural, como ele disse, citando um poema que sabia de cor. E perguntou-lhe receoso:
- A água apaga o fogo?
A mulher de olhos de água, cabelo de água, alma de água e boca de água, e que só não tinha barba de água porque não tinha barba, respondeu:
- Depende, eu não sei apagar fogos. Sou um tipo de água a que chamam água ardente.
Olharam-se e nenhum espanto lhes veio de se olharem. Acharam natural que fossem como eram. Mas lentamente os olhos de fogo foram mergulhando nos olhos de água e cada vez mais se foram aprofundando, o que talvez tenha sido a causa do estranho fenómeno que se seguiu. Pelo contacto profundo da água com o fogo nos olhos, o lume do fogo transformou-se em ouro, e o homem passou a ter cabelos de ouro, língua de ouro, pensamentos de ouro, coração de ouro, barba de ouro, etc., e a mulher de água transformou-se em prata: cabelos de prata, língua de prata, pensamentos de prata, seios de prata.
Quanto ao resto continuaram iguais, apenas se mudaram de fogo em ouro e de água em prata. O ouro era de muitos quilates, a prata era de lei.
Como metais preciosos tornaram-se muito cobiçados, pelo que foram separados para que os olhos não mergulhassem mais nos olhos e não continuassem a transformar-se por aí fora sabe-se lá em quê... em rubis, safiras, pérolas, diamantes.
Começou então o suplício do homem de ouro. Mais do que a dor da separação era não saber em que parte do corpo localizar a saudade. Se a sentia no coração logo ela fugia para a cabeça, se a sentia na cabeça logo lhe fugia para as pernas, se a sentia nas pernas logo lhe fugia para a alma, e assim sempre.
O homem não sabia localizar a saudade e começou a perceber que a sensação em qualquer parte do corpo não era verdadeira. Na realidade a saudade não estava em sítio nenhum do corpo dele. Porque a saudade levara-a com ela a mulher. Ela, por sua vez, sentia a saudade em toda a parte ao mesmo tempo, pelo que também não sabia onde situá-la. Ela estava em todo o corpo e na alma.
Deu-se então o declínio do metal. O homem de ouro começou a empalidecer e a prata escureceu. Era a sua forma de manifestarem a tristeza por fora e por dentro. Faltava-lhes o olhar. Quem os separara começou a perceber, pelo sofrimento silencioso do ouro, que fora do olhar de água que viera o brilho do ouro e deixou-o ir. Assim partiu, o homem de ouro, seguindo as setas douradas que indicavam o caminho e que alguém lá colocara havia muito tempo, para não se perder.
Foi andando, andando, o homem de ouro a desfazer-se em fogo, até que no mesmo sítio do caminho onde se tinham cruzado antes, sonhou três sonhos em três noites.
O primeiro sonho foi com um disco dourado absolutamente luminoso e quente. Gostou do sonhar com este estranho...ser. ( assim lhe chamou por não ter nome para ele ). O sonhador acordou sentindo-se quente, luminoso e cheio de vigor. O dia foi diferente e bom, porque havia a memória da noite com o sonho dentro. Passou as horas que se seguiram a recordar o sonho da noite anterior e a antecipar o da noite seguinte. A noite fora melhor do que estavam a ser os dias e este último dia fora melhor por causa da noite. Também era bom sonhar acordado, de dia, com o sonho adormecido, da noite. Um sonho claro, quente e colorido. Mas por fora o sonhador continuava pálido. Sonhou então um segundo sonho na noite que se seguiu, com um disco prateado e fresco. Deliciosamente húmido. Temperou com esta refrescante sombra o dia, que passou recordando os dois discos: um quente e dourado, outro fresco e prateado. Na terceira noite teve um sonho vazio. Era um sonho enorme onde tudo cabia mas onde nada se via. Possuía todas as qualidades do vazio e uma qualidade suplementar, um imenso sentimento de amor que, por não caber em tão imenso sonho, o acordou. No momento em que abriu os olhos a realidade apresentou-lhe à sua frente a mulher de prata a escorrer água, quase verde e muito feia, de humidade e dor. Tanto era o sofrimento que nem conseguia olhá-lo, tinha os olhos completamente virados para dentro. Soprou-lhe ele então o fogo nos olhos para que as lágrimas secassem e os olhos se virassem para fora e pudessem vê-lo. Quando finalmente se olharam, os olhos mergulharam nos olhos e novamente se produziu o milagre da transformação em prata e em ouro. Ele fez-lhe prometer que nunca mais viraria os olhos para dentro, o que queria dizer que nunca mais deixaria de mergulhar os olhos nos dele. E não voltaram a separar-se. Mesmo quando parecia não estarem juntos. Quem quiser encontrá-los bastar-lhe-á seguir o caminho das setas amarelas. Para onde quer que elas apontem na imensa amplitude da rosa dos ventos. Quando encontrar o ouro e a prata de mãos dadas ( ou não ) irradiando um estranho brilho, pode ficar sabendo que os encontrou. Quem os encontrar terá sorte para sempre. Vale a pena meter-se ao caminho e procurá-los. O homem de ouro e a mulher de prata são vestígios, fósseis vivos, dos antepassados do sol e da lua e por eles criados em sonhos como arquétipos primordiais dos discos solar e lunar. É no sol e na lua que habitam, segundo as estações, mas quando o sonho os transporta é possível encontrá-los por aí. Maiores são as probabilidades de cada um os encontrar dentro de si. Seguindo sempre, sempre, as setas amarelas.
Risoleta Pinto Pedro, inédito, Dezembro 2003, Janeiro, 2004.
( Prémio Ferreira de Castro ).

Vinheta Sol. Augusto Mota Posted by Picasa

Vinheta Lua. Augusto Mota Posted by Picasa

Botequim/( Homenagem a Natália Correia )

pintores do medo
vós que servis
a tolerância
servida
da mulher-objecto
não decalqueis
meu esqueleto
no equívoco
artrítico
dos vossos dedos
fui
o minuto
do subsequente
a dúvida
emprestada
da vossa insónia
fui
o acrílico
do pré-fabricado
o possível
impossível
da vossa certeza
prisioneiros do ontem
vós que servis
o círculo
empoado
da POESIA
não inventeis
meus complexos
no degredo
incerto
dos vossos códigos
sou
o cinzel
da igual valia
a imprudência
prudente
do vosso sono
sou
a abcissa
do consciente
o epílogo
selado
da vossa palavra
serei
a jogada
do inverosímil
a sílaba
liberta
do vosso poema
Gabriela Rocha Martins, inédito, in "jamais canto de amor".

MUSA: "O sonho de Rousseau". Posted by Picasa

A VIDA E O ECLIPSE*

Andava o senhor poeta na Lua
seu assento predilecto
desde que a Musa encontrou.
A mágica leveza do pensamento
levou o senhor poeta
para longe, muito longe
do real profundo:
feio, pobre, sujo
- misérias do Mundo -.
Se espreitava a Terra,
pela Lua Cheia,
logo o senhor poeta se escondia
no Quarto Minguante.
Sempre pairando
via-se distante
dos outros mortais.
As guerras desconhecia
fome e desemprego
- prosaicos conflitos -.
E assim sem atritos,
nessa rota da noite e do dia
se viu o senhor poeta
tapando o Sol
que a Terra cobria.
Chamaram-lhe eclipse
- a TV disse -
então, assustado
desceu ao planeta.
Sem óculos de fantasia
olhou a Terra.
Viu fome, guerra, injustiça.
Viu ganância e cobiça.
- Viu gente boa também. -
Viu ricos - pobres de tudo -
viu pobres - ricos sem nada -
e nisto de tanto ver
o poeta escolheu:
assento na Lua esqueceu
- mordomia de senhor -
fincou os pés na terra
embrulhou-se na poesia
fez das palavras charrua
lavrou gritos contra a guerra
contra a fome e injustiça.
Foi proleta, foi doutor.
Olhando no alto a lua
em dia de eclipse
foi cientista e profeta
como se o Mundo lá visse
foi folião e asceta
foi menino sonhador.
Foi, finalmente, POETA ( sem senhor ).
*A propósito do eclipse de Sol, visível nesta data em Portugal.
Glória Maria Marreiros, inédito, Lisboa, 3 Outubro 2005.

20/10/2005


Legenda Íntima. Augusto Mota Posted by Picasa

Pedro-Pedra

Pedro-pedra,
pedro perto
do ser total;
pedro quieto,
pedro olhando
lá para dentro
do seu próprio centro;
pedro punhal,
silex duro
rompendo o muro
que nos separa do outro lado;
pedro parado,
rochedo alado
voando no vento,
voando cá dentro;
pedro puro
só pensamento;
pedro pénis
pernas e pés,
diluindo o corpo
na própria alma;
pedro perdido,
logo encontrado
quando regressa
ao coração da pedra.
António Simões, inéditos,"Seis poemas com pedras dentro", in JL, 2000.

Maria de Loucura e Cacto. Augusto Mota Posted by Picasa

a cabra

A cabra era uma couve agarrada pelo pescoço. Depois a assistência espantou a presa e tudo se esfumou na vertigem de um automóvel que passou. Dirigimo-nos às ruinas nos arredores da cidade. Foi então que no prazer de um beijo descobrimos o bombardeamento de dois aviões em luta. Subimos ao alto do monte para ver a queda do inimigo e, quando o silêncio alastrou pela floresta, corremos ao vale a avisar os camponeses. As aldeias ignoravam a luta e tivemos que percorrer todas as barracas da feira para acordar o povo. Porém, quando fomos ao circo não nos acreditaram. Nas tendas de pano fizeram-nos provar mil fatos até que caímos na cela da prisão municipal ao lado de uma prostituta velha e de um cauteleiro falido. Pela manhã o guarda agradeceu-nos o incómodo e soubemos, mais tarde, que ainda tinham chegado a tempo de salvar as colheitas do vale. Ardera só um pouco de mato.
A cabra, essa, roeu a couve e tive de lhe largar o pescoço quando a assistência voltou cansada da luta contra o fogo que os aviões haviam ateado. O automóvel, vi depois nos jornais que se espatifara contra uma árvore onde tínhamos estado a observar o bombardeamento. Parece que não morreu ninguém. As ruínas continuam a ser visitadas por muitos turistas.
Só a couve é que foi roída pela cabra.
Augusto Mota, inédito, in "Metáfora,", 1962.
Se eu gritar, quem poderá ouvir-me,
nas hierarquias dos Anjos?
E, se até algum Anjo de súbito
me levasse para junto do coração:
eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo
apenas é o começo do terrível, que
só a custo podemos suportar...
Rainer Maria Rilke, in "As Elegias de Duíno"

19/10/2005


Legenda Íntima 46. Augusto Mota. Posted by Picasa

O respirar imperceptível

Tocas na pedra
e sentes na ponta dos dedos
um convite para entrar -
"Impossível!", estremeces,
"Wislawa Szymborska esteve uma eternidade
à porta de uma pedra
e não o conseguiu."
Mas tu estavas então no meio de um trigal,
e o levíssimo rumor da seara
abria para dentro de todos os seres
postigos de ternura por onde o vento e o amor
entravam livremente.
Tocas na pedra,
e de súbito estás lá dentro:
percorres todos os seus corredores e salões
e entranhas de cristal,
e brincas como no rossio infinito da tua infância,
até que, exausto de cansaço, adormeces -
e dormes, dormes profundamente,
como só a pedra sabe fazer,
e ficas quieto, quieto para sempre
no respirar imperceptível deste poema.
António Simões, inéditos, "Seis poemas com pedras dentro", in JL, 2000.
...there is nothing to fear,
nothing to doubt...
Radiohead, Amenisiac, "Pyramid Song"

Legenda Íntima 34. Augusto Mota Posted by Picasa
Passados uns minutos. Não se sabe ao certo quantos. ( Quando se desperta, nunca se tem a exacta noção de quanto tempo se esteve esquecido. ) Os olhos do pequeno voltaram, e encontraram a mãe adormecida, deitada a seu lado.
O quarto cheirava a mofo. As persianas estavam corridas. E a boca fina da mãe soprava-lhe ao ouvido uma melodia familiar; um fio estreito de baba corria-lhe dos lábios, abrindo um caminho de sulcos pegajosos pela pele.
Cuidadosamente, ele ergueu ligeiramente o pescoço, e a morna e doce aragem chegou até si: a mãe respirava. E ele respirava ouvindo a mãe respirar. Não se dando conta sequer que respirava, e que respirar era aquilo: o peito em quilha a subir e a descer, a descer e a subir; ao vagar do diafragma, ao arranco do sangue, à segurança das veias, ao vento dos pulmões.
A mãe respirava. Era isso. Mais: reparou que o seu seio bom que, fortuitamente, num daqueles movimentos sonâmbulos do sono, se lhe tinha escapado do cárcere do soutien, pendia agora, grande e imenso, na sua direcção. Na direcção da sua boca.
Um mamilo castanho e gretado, inclinava-se para ele. Voraz como que à espera da fome. Sedento como que à espera da sede. E era aquele, reconhecia-o, aquele mesmo, o mamilo esquerdo que a ele antes lhe tinha servido como fonte primária de nutrientes. Embora não gostasse de leite, uma força estranha impeliu-o na mesma em direcção ao seio da mãe. E não foi o avivar da memória sobre aquilo que um dia fora seu que lhe impulsionou a vontade, mas antes, o acordar de um desejo irrepetível. Mas quando a sua boca mínima se aprestava para tocar no bico castanho de carne, tossiu involuntariamente e o corpo da mãe deu de si, antecedendo o minuto do despertar.
O pequeno fechou os olhos e endureceu, como sempre fazia quando pressentia o perigo, fingindo que dormia para sempre. E assim ficou, quieto - pedra no coração - sentindo aquele volume quente pulsar ir de encontro aos seus lábios, mas consciente da descoberta e que, desde aquela hora, entre ele e a mãe, morte alguma, jamais, venceria.
Sandro William Junqueiro, inédito, in "No céu não há limões".

Vórtice ou a génese do feto nuclear. óleo sobre cartão.
30X40 cm. Augusto Mota. 1958.Posted by Picasa

carta de hiroxima

Escrevo-vos de Hiroxima onde sou correspondente de guerra. Do ar caem ainda corpos aos bocados, como se fosse um avião subversivo a lançar panfletos sobre a cidade. Mas que triste esta propaganda feita de carne e ossos! Pior ainda são os gritos dos cadáveres carbonizados na alegria de amantes, na tristeza de casais sem filhos ao pé e no desespero de poetas fuzilados enquanto previam a catástrofe. Depois falem-me de paz!... Há sempre assassínio onde quer que o façamos. Por isso nem aceitemos desculpas de fé! Quando se mata, morre-se em vida, tragicamente, agonizando nos anos lentos que nos vão acompanhar sem remissão para a nossa consciência. Talvez os outros tenham sempre razão. É fácil ter razão quando se aduzem circunstâncias a maior parte das vezes inacessíveis à nossa ética, ao nosso esforço poético para compreender todo o macabro da vida deturpada a favor de outras razões.
Hoje, aqui, em Hiroxima, recuso-me a aceitar. Recuso-me a transgredir no meu sangue. Posso ser outro amanhã, mas hoje recuso-me. Tomemos, hoje mesmo, todas as atitudes do universo. Escrevamos atitudes em cartas às nossas amantes desconhecidas. Escrevamos aos nossos pais e acusemo-los de não nos terem ensinado que a vida, afinal, era isto. Escrevamos ao nosso médico de família e censuremo-lo por nos ter deixado viver quando um dia nos salvou de doença grave. Escrevamos ao nosso professor de instrução primária e digamos-lhe como eram estreitos os seus conceitos de deus, de pátria e de família. Escrevamos, depois, ao nosso amigo catequista que, então, nos mostrou uma estampa da criação do mundo, e avisemo-lo de que a nossa sensibilidade de criança, hoje, terá de recusar o mistério da fé se ele permitir esta barbaridade ( eu sei, no entanto, que ele está comigo ).
Cheira horrivelmente a sangue neste inferno carbonizado. Ouvem-se gritos de meninos sem pernas, de mães removendo destroços fumegantes em busca dos filhos que andavam na escola, de maridos loucos tentando encontrar a esposa na casa que já não existe.
A boca sabe-nos a fumo e as mãos tremem-nos ao saber que, verdadeiramente, já não há crianças, nem poetas. Só miséria paira aqui como flagelo de peste duradoira. Só a morte pode sobreviver a esta hecatombe, aquela morte súbita que se esconde em cada gesto humano como pária traiçoeiro, aquela morte que cada um de nós serve e alimenta como verme intestino, para expelir, despropositadamente, como se fora atraiçoado por preconceitos e ideologias que não aceita.
Sim, a morte vagueia por Hiroxima e diverte-se com o fogo que alastra de bairro para bairro. O próprio tempo interrompeu-se, como que para negar o futuro a esta cidade desprevenida na catástrofe. Alguns homens teimam em buscar vida nos passeios arrancados e nas calçadas esbraseadas. As chamas continuam violentas sobre os restos de casas aterrorizadas, de janelas esgazeadas, de portas esfomeadas, por onde saem cadáveres ainda agarrados a velhas recordações da vida de outrora.
A guerra atraiçoou, sobretudo, a vida destes inocentes que morreram com flores nas mãos quando brincavam às batalhas entre os canteiros do jardim público. Nem tão pouco o guarda os soube avisar do perigo que corriam! Nem mesmo os adolescentes, que se amavam num banco próximo, adivinharam a catástrofe! Quando acordaram já só puderam abraçar-se para sempre...
Agora, vinte e quatro horas depois da catástrofe, só fumo paira nesta cidade. É sempre assim. Os homens continuam a ser poetas na guerra. Ultrapassam-se, mas aniquilam-se...
Augusto Mota, inédito, in"Metáfora,"1962.

18/10/2005

read me...


Fotografia de Joseph Mara Posted by Picasa

Palavras

Golpes
de machado que fazem soar a madeira,
e os ecos!
Ecos partem
do centro como cavalos.
A seiva
jorra como lágrimas, como a
água lutando
para repor seu espelho
sobre a rocha
que cai e rola,
crânio branco
comido por ervas daninhas.
Anos depois encontro-as
na estrada -
palavras secas e sem rumo,
infatigável bater de cascos.
Enquanto
do fundo do poço estrelas fixas
governam uma vida.
Sylvia Plath, in "Sylvia Plath - Poemas"

"Sylvia Plath - uma paixão além das palavras" - poeta americana nascida na década de 40 e morta em 1963. Autora da colectânea de poesia mais vendida e lida no séc. XX, "Ariel".
...Em Sylvia Plath, o talento e a angústia de criar são tão evidentes e dramáticos que o desfecho só podia ser trágico,- ( suicídio ).
Nela, porém, a forma de sentir é o queimar da ânsia que se move para uma cavalgada, uma viagem, um vôo de abelha rainha forçada a alcançar os batimentos cardíacos ofegantes...Posted by Picasa

Mad Girl's Love Song/Canção de Amor da Jovem Louca

I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
( I think I made you up inside my head. )
The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
( I think I made you up inside my head. )
God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forgot your name.
( I think I made you up inside my head. )
I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
( I think I made you up inside my head. )
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer.
( Acho que te criei dentro da minha cabeça. )
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura, beijaste-me para a insanidade.
( Acho que te criei dentro da minha cabeça.)
Tomba Deus das alturas, abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
( Acho que te criei dentro da minha cabeça. )
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão;
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo.
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
( Acho que te criei dentro da minha cabeça. ).
Sylvia Plath, in "Ariel"

"Musa". Giorgio de Chirico Posted by Picasa

Achava que não podia ser magoada

Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento -
imune às dores de espírito
ou à agonia.
O meu mundo tinha o calor do sol de Abril
e os meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
A minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.
A minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançavam
lá no topo pareciam roçar as suas asas
farfalhantes no tecto azul
do céu.
( Como é frágil o coração humano -
um latejar, um frémito -
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta. )
Então, de súbito, o meu mundo escureceu
e as trevas encobriram a minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
onde mãos sem cuidado tocaram
e destruiram
a minha teia prateada de felicidade.
As mãos estacaram, atónitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firmamento.
( Como é frágil o coração humano -
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trémulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora. )
Sylvia Plath, in "Sylvia Plath - Poemas"

17/10/2005


Legenda Íntima 52. Augusto Mota Posted by Picasa

Homenagem a António Ramos Rosa/80 anos de poesia

traço
abraço
revolta
esquema
reverso
poema
mar
amor
o sul
.azul.
gabriela rocha martins, inédito, 17 de outubro 2004.

Desenho de António Ramos Rosa Posted by Picasa