11/10/2005

Pórticos de Mistério

Em dedos recortados de zimbro
e de acanto,
as mãos, a sombra, a vivência.
O degelo nocturno
das águias que perseguem
o corpo, a fluidez,
o fulgor das pedras, o ardor
das mãos.
Em contornos vazios que
o silêncio acende.
No negrume da telha
corroída.
Entre folhas densas, lintéis
de bruma,
manchas de caliça.
Pórticos de reminiscência
e mistério.
De ruína e lassidão.
Maria do Sameiro Barroso, in "Mnemósine".

10/10/2005

I

Na solidão que o outono abraça
As palavras perfilam-se diante de mim
Como esqueletos cegos de crenças
...
Sandro William Junqueiro, inédito, 2005.

Jardim Catedral. Fotografia de Augusto Mota Posted by Picasa

II

Como se as palavras terminassem
Como se as palavras nascessem cegas
Como se as palavras dissessem vergonha
Como se as palavras desvelassem segredos
Como se as palavras naufragassem desejos
Como se as palavras fossem um dia e uma noite
E um dia e uma noite existissem sem elas
Como se o medo fosse a sua esteira
e as palavras, elas próprias, dissessem poemas.
Sandro William Junqueiro, inédito, 2005.

Os Espiões. Linóleo 19,5X10,5 cm.
Augusto Mota. 1963.Posted by Picasa
Eu tinha mal contidas lágrimas
e o coração destroçado.
e me diziam: "a rendição convém-te! rende-te!"
mas o pior veneno seria melhor que a rendição.
os inimigos a pátria me roubavam
e o povo fazia-me sentir o gosto da traição.
porém, meu coração ainda estava no meu peito
e o corpo jamais entrega o coração.
tudo me levaram menos o carácter nobre,
a nobreza pode alguém arrebatá-la?
no dia da batalha eu não quis couraça,
e saí para a luta sem protecção para o peito.
mortifiquei a alma, julgando que a perdia.
a rodos o sangue então corria.
mas nem assim a morte quis chegar
p'ra me poupar ignomínia e submissão,
lancei-me na batalha julgando não voltar.
assim meus avós, assim sou eu:
quem sabe da raiz o ramo conheceu.
Al-Mu'tamid, in "Al-Mu'tamid, Poeta Do Destino"

Jardim-Catedral. Fotografia de Augusto Mota Posted by Picasa

Qasîda em ra, dedicada a Al-Mu'tamid

Este poema é para ti,
Como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousou o orvalho da noite
Até que o ataviou de flores.
Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro.
Com o teu louvor derramei o melhor almíscar.
Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo
Eu o queimei no fogo do meu génio
Quando as brasas estavam ainda a arder.
O orgulho no amor - temei-o - é a sua vergonha
Mas o prazer - aproveitai-o - é o seu ardor.
Não peças à paixão que te dê domínio
Prefere ser escravo, nas suas mãos é que tu és livre!
Vós me dissestes: O amor prejudicou-te.
Eu respondi: Quem dera me tivesse feito mal.
É que meu coração escolheu doença para o corpo
Como forma própria de o adornar.
Deixai-o, pois, fazer a sua escolha
E não me critiqueis por estar emagrecido:
Não está a excelência de uma adaga
Precisamente na finura do seu gume?
Troçastes porque me deixou minha amada?
Quanto fim do mês oculta o crescente que vai vir!
Julgais que o fogo do esquecimento me consolará
Ou que um profundo sono chegará depois?
Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais
Como te acudiria o socorro das lágrimas?

Ibn A'mmar, in "O Meu Coração É Árabe".

Outono Posted by Picasa
o vento murmura
entre o arvoredo
versos de saudade
às folhas que voam
no céu das andorinhas
Carlos Alberto Silva
in sitiodoshaikais.blogs.sapo.pt

Somos folhas breves...


Posted by Picasa
Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade ( Poesias 1945-1965 ),
in http://barcosflores.blogspot.com

08/10/2005


O elogio da natureza. Pormenor sol.
Desenho de Augusto Mota. Posted by Picasa

na fímbria dos poemas

talvez um dia regresse
( reponso em anil )
na génese dum projecto
global
talvez
talvez um dia regresse
( encontro em Abril )
na fímbria dum poema
plural
...
...
hoje
regresso
( no sol do sul )
em apoteose
final
bato palmas
e
peço bis
.
.
.
gabriela rocha martins, in "A Poesia serve-se fria!"

Margarida. Fotografia de Joseph Mara Posted by Picasa

Abril

( Como se fora uma lenda )
Eu sou daqui destas marés íngremes preia-mar de rosas
abril vi cantar leda madrugada às raparigas frondosas
às raparigas e às mulheres cegando o vento das enseadas
abril fresas ribeiras sonho arável do sonho ruas amuradas
amuradas murmúrios nessas bagas d'anil era o fogo alteado
abril podoas ao alto punhos que o mar no tejo tinha secado
o mar as lezírias do mar com todas as velas postas de lado
abril rimas ao ombro réstias sou tamborileiro sou soldado
sou soldado ou hortelão de navios o que for seja o que seja
abril gestas do povo irmão cativo de maio anel que cereja
eu sou daqui destas marés íngremes preia-mar de rosas
abril ouvi cantar leda madrugada às reparigas frondosas.
Rui Mendes, in "A Poesia sereve-se fria!".

Fotografia de Joseph Mara Posted by Picasa

A Vida

A Vida.
A Morte.
Tudo o que é fundamental.
Não tem palavras.
Uma ideia só é eficaz quando sentida.
E o sentir
Não se decreta
Nem improvisa
Pura e simplesmente - Sente-se.
Manuela Barros Moura, in "Amar a Liberdade da Vida".

Pássaro de Fogo. Fotografia de Mark Twain Posted by Picasa

Quando à Noite

Quando à noite fecho os olhos
acentuo a escuridão
desisto da luz dos outros
desço ao nível mais profundo
e afundo
onde não há Bem
nem Mal
mergulho em águas negras, perturbadas
e saio pura e fresca
cor cristal.
Maria Teresa Meireles, in "A Poesia serve-se fria".

Alma

A Alma
gema
claramente oculta
na casca de cada um
ou mais.
Maria Teresa Meireles, in "A Poesia serve-se fria"

"Silence". Fotografia de Ricardo Araújo Posted by Picasa
Para vós me dirijo, ó noites do mundo, galerias do tempo.
Digo:
estes, que aqui vedes, são os fundamentos, as pinturas antigas,
testemunhos, retratos, biografias;
a força de um momento,
o poder de transfigurar o mundo exacto.
Ivo Miguel Barroso, in "A Poesia serve-se fria"
Sejamos a cal evadida, examinemos o destino das estrelas,
a matéria imanente.
As armas têm um nome, um lençol de água exorbitante,
encoberto nos múltiplos rochedos, na excessiva face negra,
no grito profano das anémonas nocturnas.
Ivo Miguel Barroso, in "A Poesia Serve-se Fria".

Profano. Fotografia de Sérgio Rodrigo Posted by Picasa

No Quintal

Mês de Novembro
as nespereiras em flor
e o trabalho amoroso das abelhas
Abelhas em Novembro
docemente percorrem
o âmago das flores da nespereira
Paulo Penisga, inédito, Silves, 2001.
( Poema inspirado na poesia Haiku )

O Rapaz Chorou

Não correu as partidas do mundo
chorou
Na praia solitária, no lugar onde três sonhos azuis se cruzam...
Virou o rosto
secou as lágrimas ao vento
Se ao menos abrisses a tua boca para esta vida...
Paulo Penisga, inédito, Tavira, 1995.

"Sob a pálpebra". Fotografia de X. Maya Posted by Picasa

As Árvores Crescem

As árvores crescem
ouço-as respirar
quando o crepúsculo
desce
no estremecimento sem fim
dos primeiros pássaros
depois é o sono
a pedra nocturna
dos anjos
essa vaga caligrafia
dos sinos submersos
sob as pálpebras
percursos tão vários
do esquecimento
Luís Serrano, in "Nas Colinas do Esquecimento", 2004.

As Casas Morrem

As casas morrem
lentamente
sobre a água
ou escondem-se
sob a luz mítica
da madrugada
vejo-as desaparecer
transformarem-se
na sua memória
serem a dor adormecida
de outras casas
de outras águas
Luís Serrano, in "As Casas Pressentidas", 1999

07/10/2005


Atalhos. Fotografia de Ricardo Laske Posted by Picasa

URL3

e depois há noites
quando
cheio de compaixão
arrastas pelos atalhos do javascript
o aprendiz
até ao lugar da construção
é uma vertigem ver elevar-se
de repente
a casa
ver elevar-se a casa
das minhas mãos presas nas tuas
tão bom fazer assim amor contigo
e depois há noites
Maria Estela Guedes, in "a_maar_gato"

O elogio da natureza. Pormenor lua.
Desenho de Augusto Mota.
Posted by Picasa

URL:com.paixão

URL 1
teço as noites com as manhãs
enfio dias pelas contas dentro
conchas, pessanhas, pequenos seixos
fulgurantes
num entrençado de mangal agreste
ligo a giesta às colónias de corais
o teu nome ao meu domínio
no espaço das coisas virtualmente reais
a casa é tosca
n tem fixas as tabelas
nem frontpage brilhante
difícil
de árduo acesso
obscura se n passas nela
cega de luz quando apareces
Maria Estela Guedes, in "a_maar_gato"

O elogio da natureza. Pormenor sol.
Desenho de Augusto Mota Posted by Picasa

Que as lágrimas levantem vôo

agora
sou um cisne
os meus lagos são jardins do Nada
há pássaros infinitos à revelia e
cultivo laranjas em varandas
de fogo
secretos vasos
desço então pelas suas asas
alvas asas de lágrimas
de neve
e
ouro
bebes então do excelso Fogo
eu nada mais faço
que as lágrimas levantem voo
da tua
infinita
face
Maria Azenha, in "Nossa Senhora de Burka"



Cisne.
Fotografia de Francis K. Martin Posted by Picasa

As flores do mal

pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: "irmão, não deves rir"
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas não choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir
não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
Maria Azenha, in "Nossa Senhora de Burka"

Afeganistão. Fotografia de Francis K. MartinPosted by Picasa

06/10/2005

1 Poema para colar no espelho

De repente
as ruas conhecidas
quedaram-se
sem nome
os cantos conhecidos desde sempre
diziam nada
o vento sem sentido
arrepiava ligeiramente o dorso das águas
desaguando-se sem nexo no oceano necessário
e do sol
ao pôr-se
quedava promessa
nenhuma
vê só o sem-sentido
que trouxeste às coisas
vê só
quando de novo te perderes no espelho
quanto do universo guardas
no teu rosto
quanto de sentido se imprime
em tua voz
não nessa voz que usavas no que dizias
na outra
na voz guardada
do que nunca disseste
que sentias
Teresa Tudela, in "Sete Transmutações da Casa"

"Wind", fotografia de Nancy Angermeyer Posted by Picasa
Tinhas passado o dia no mar
queria olhar-te
prescrutar Ulisses no semblante
ver como o banho de horizonte te dilatava pupilas e poros
se misturava à maresia nos cabelos
na fronte
contudo não falei
alga
circunspecta
Teresa Tudela, in "Sete Transmutações da Casa"