"se eu entender o que significam as palavras serei uma bárbara para aquele a quem falo e aquele que me fala será para mim um bárbaro.
Se oro numa língua que não entendo, meu coração ora, mas a minha inteligência não colhe fruto.
Não é que vossa acção não seja boa, mas os outros não se edificam com ela". ( Evangelho, S. Paulo, 1ª Epístula aos Coríntios, Cap. XIV, v. 11, 14 e 17 ) Um espaço. Um gesto. Uma frase. No princípio foi o VERBO. Verbo começar quando não era previsível a ruptura. Ruptura num tempo. O conceptual como alternativa ao gestual.
Um parêntesis, porém, necessário. Depois falaremos de Poesia. De Poesia, sim, meu Amigo! Glória Maria Marreiros, António Simões, Maria Eugénia Cunhal, Manuel Madeira, Maria do Sameiro Barroso, Sandro William Junqueiro, Gabriela Rocha Martins - apresentados com a consciência de quem, na Poesia, não se sentiam "orfãos". Augusto Mota - conceptualmente o timoneiro. Aquele que tudo deu. Até o amor... ...Todavia, o recomeço. O reencontro. A dualidade. A proposta de resistir. O terno diálogo. Então, os outros revelam-se. A razão perde-se, impotente, quando tudo se consubstancia em opacidades. "Sic Transit Gloria Mundi" ou a inelutável dialéctica do ser-não sendo, do estar-partindo, do costruir-destruindo. Aprendizagem de liberdade. Espaços delimitados. Silêncios. Referências mútuas. ...Mas só os artistas se movem no silêncio poético das zonas ignoradas, intangíveis, exercitando em função delas, a própria sensibilidade. Só os artistas recriam a vida e exorcizam a morte, quando se comprometem no corporizar das incógnitas.
Tudo, porém, é estranho e íntimo.
O vazio, a transitória vaidade humana, o existencial - presenças/ausências - constantes na Poesia.
Todos cúmplices, num mistério que é só deles, e, naquela sábia manifestação de indiferença, afirmação de um encontro, certo.
Todos, no seu conjunto e de "per si", constituem sinais dum mesmo diálogo - quantas vezes difícil - do Homem, no decurso imemorial do Tempo, e, cuja poética é, antes do mais, uma perpétua recuperação de si mesmos.
Como disse André Breton, "o que importa é conseguir escapar ao princípio da identidade"... Será, meu Amigo, ainda tarde para falarmos de Poesia? Gabriela Rocha Martins, Silves, 19 Setembro 2005.