21/09/2005


O Poeta e a Cidade.
Xilogravura, 43X33cm, 1963
Augusto Mota Posted by Picasa

A Literatura

1.
A literatura vive de falhas sumptuosas, de algumas
certezas
encostadas ao coração. Onde chega a palavra,
edifica-se um campo de gestos novos, verosímeis.
2.
Um homem cruza-se na rua com outro homem.
Ambos caminham para um lugar. Ninguém sabe,
ainda,
por que se desconhecem. Ambos choram ao mesmo
tempo.
3.
Por amor de uma areia, um homem percorreu
um deserto.
Encontrou-a no fim. Num ponto de presença absoluta,
onde se pode sentir a órbita de um planeta.
4.
De algumas rochas, fica o fascínio das altas
temperaturas,
das recristalizações. Chegam à superfície, depois
de milhões de anos, para fazer de pedra a casa nova.
5.
Entre o poema e o poeta, há uma gramática sem
semelhanças,
uma presença de ar obscuro. Torna-se possível a
unidade do mundo,
a indistinção entre a língua e fala. A voz estremece.
Firmino Mendes, in "Desvelamentos"
www.sopadenabos.blogspot.com

Fotopoema 32. Augusto Mota Posted by Picasa

CURIOSIDADE INFANTIL

Perdida no teu olhar
me reconheço.
Vejo-te
criança ingénua, espectante,
curiosa do que está
para lá
daquilo que parece estar.
Silenciosa, fico contigo.
Nessa troca de olhares
apenas sei
que, da curiosidade esboçada,
nascerá o teu saber de amanhã.
Glória Maria Marreiros, inédito

Margar.
1,80X1,50m, tinta plástica sobre platex.
Augusto Mota, 1963. Posted by Picasa

Fotopoema 30. Augusto Mota Posted by Picasa

William Butler Yeats was born in Dublin 1865 although his parents were in Irish descent. He spent most of his early years growing up in London. When he was twenty , Yeats published his first poems in Dublin University Review. For most of his life Yeats moved back and forth living in England and Ireland. Each change of environment had a notable effect on his writing.
In 1899 Yeats was involved with helping found the Irish National Theatre. He would return, in 1926, when the Irish Rebellion and its members were trying to gain independence from the controlling British forces. When Ireland was obtained partial independence in 1922, Yats was appointed a Senator and served in government for six years.
Yeats's career as a writer was long and successful. He won the Nobel Prize for literature in 1923. He died in 1939, at age of 74.
in www.cwru.edu/...ballentine/resources Posted by Picasa

...de quando em vez, volto a este poema que um dia copiei, e, que trazia sempre comigo. Não sei do papel onde o escrevi, mas, por vezes, ainda penso"I hunger to build them anew"
All things uncomely and broken, all things worn out and old,
The cry of a child by the roadway, the creak of a lumbering cart,
The heavy steps of the ploughman, splashing the wintry mould,
Are wronging your image that blossoms a rose in deeps of my heart.

The wrong of unshapely things is a wrong too great to be told;
I hunger to build them anew and sit on a green knoll apart,
With the earth and the sky and the water, re-made, like a casket of gold
For my dreams of your image that blossoms a rose in the deeps of my heart.
W.B.Yeats



ídola

í
do
la
l onge
do sul
i gnavo pássaro
voa
feito silêncio e grito
gabriela rocha martins, in "Hydra"

poema

poemas gorjeam
cantares

cantar de amigo
amor
escárnio e maldizer

escanizo
maldigo
digo
canto

amor / amigo
gabriela rocha martins, inédito

20/09/2005


Despojos. Fotografia de Duarte Belo Posted by Picasa

Ai Federico!

Em teu "Romancero Gitano"
Aprendi passos de dança
Punhos verdes que se enlaçam
Rosas do ventre saídas.
Aprendi sangue moreno
Vestindo bordado fino
O corpo de monja nua.
Em noites de lua cheia
Às portas de Guadalquivir
"Torres Heredia" morreu
Vivendo de ti, morte-vida.
Ai Federico, adivinhada morte!
Em tua vida de luta
Aprendi passos de vida
Papoilas que se entrelaçam
Forças da alma nascidas.
Aprendi "o Canto Fundo"
Vindo do fundo de ti
"Bodas de Sangue" inspiradas
em bodas que não tiveste.
Teu sangue, manto bordado
na morte feito poema.
Ai Federico, tua morte vida é.
Glória Maria Marreiros, inédito

Mulher, por Thierry Le GouPosted by Picasa

Poema para M.G.M.

Frescura alvíssima de magnólia e nuvens,
assim és tu, estrela banca, figura esguia,
roteiro de sol,
chama derramada, na fronte algarvia.
Na noite de pérolas, és amendoeira puríssima,
jardim luminoso,
recanto onde voam aves antiquíssimas,
entre as pedras, o limbo,
as águas mouras, as águas cintilantes,
águas de Abril.
Porque te conheci, um dia, no teu país
de brisas doces,
é que repenso o agora, o antes, o sempre,
coloco um candelabro sobre a mesa,
escuto este lugar onde o arvoredo brama
e a palavra brilha, nas clareiras do espaço,
no espaço entre o tempo,
em que a poesia é ramo e raiz,

na lua clara de preciosas sementes.
Maria do Sameiro Barroso, inédito, Julho de 2005

19/09/2005


Legenda Íntima 7. Augusto Mota Posted by Picasa

homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen

o teu passado-distância
o meu presente-futuro
o jardim
o sol
o muro
o mar
hoje regressas
Olímpia
ao teu lugar.
Gabriela Rocha Martins, inédito, in "jamais canto de amor", 2005

Fotopoema 29. Augusto MotaPosted by Picasa

A Troca

Ao cair da tarde
Os pássaros vão a meu lado,
No derradeiro voo do dia -
Breve se recolhem e cala-se o vento.
Eu continuo voando,
Esquecido do tempo,
No mais alto do ar -
Depois, o cansaço vem,
E deito-me ao comprido
No chão do infinito,
Como se a terra e o céu
Trocassem de lugar.
António Simões, inédito

Fotopoema 28. Augusto Mota Posted by Picasa

Poema

Como se as palavras terminassem
Como se as palavras nascessem cegas
Como se as palavras dissessem vergonha
Como se as palavras desvelassem segredos
Como se as palavras naufragassem desejos
Como se as palavras fossem um dia e uma noite
E um dia e uma noite existissem sem elas
Como se o medo fosse a sua esteira
e as palavras, elas próprias, ditassem poemas
matrículas, óculos vermelhos
e marchassem dentro dos olhos
e inflamassem joelhos
Como se as palavras calassem mentiras e a fome
Como se as mentiras dissessem maçãs e a verdade
Como se as palavras não existissem
nem existisse amor nas palavras
nem ódio nem paixão
nem poema
Sandro William Junqueira, inédito, Julho 2005

Eva,
linóleo , 16,5X7,5 cm, 1964,
Augusto Mota Posted by Picasa

Contre-Jour

Les oiseaux apparaissent
S'allume une flamme
Et c'est la femme
Sans nom ni liens, ni voile,
Errant les yeux clos,
La femme couverte de la fraîcheur de la mer.
Mais brusquement les oiseaux réapparaissent
Et s'allonge cette flamme
Plus qu'entr'aperçue au fond de la chambre.
Et c'est la mer,
La mer aux bras endormants portant le soleil,
Ni orient ni nord, ni obstacle ni barre, la mer.
Rien que le mer ténébreuse et douce
Tombée des étoiles, témoins des mutilations du ciel,
Solitude, pressentiments, chuchotis.
Rien que la mer.
Les yeux éteints,
Sans vague ni vent ni voile.
Brusquement les oiseaux réapparaissent,
Et c'est la femme.
Ni étoile ni rêve, ni geyser ni roue, la femme.
Les oiseaux reviennent,
Et rien que la mer.
P. Ciranna

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI / O TERNO DIÁLOGO

"se eu entender o que significam as palavras serei uma bárbara para aquele a quem falo e aquele que me fala será para mim um bárbaro.
Se oro numa língua que não entendo, meu coração ora, mas a minha inteligência não colhe fruto.
Não é que vossa acção não seja boa, mas os outros não se edificam com ela".
( Evangelho, S. Paulo, 1ª Epístula aos Coríntios, Cap. XIV, v. 11, 14 e 17 )
Um espaço. Um gesto. Uma frase. No princípio foi o VERBO. Verbo começar quando não era previsível a ruptura.
Ruptura num tempo. O conceptual como alternativa ao gestual.
Um parêntesis, porém, necessário.
Depois falaremos de Poesia. De Poesia, sim, meu Amigo!
Glória Maria Marreiros, António Simões, Maria Eugénia Cunhal, Manuel Madeira, Maria do Sameiro Barroso, Sandro William Junqueiro, Gabriela Rocha Martins - apresentados com a consciência de quem, na Poesia, não se sentiam "orfãos".
Augusto Mota - conceptualmente o timoneiro. Aquele que tudo deu. Até o amor...
...Todavia, o recomeço. O reencontro. A dualidade. A proposta de resistir. O terno diálogo.
Então, os outros revelam-se. A razão perde-se, impotente, quando tudo se consubstancia em opacidades.
"Sic Transit Gloria Mundi" ou a inelutável dialéctica do ser-não sendo, do estar-partindo, do costruir-destruindo.
Aprendizagem de liberdade. Espaços delimitados. Silêncios. Referências mútuas.
...Mas só os artistas se movem no silêncio poético das zonas ignoradas, intangíveis, exercitando em função delas, a própria sensibilidade. Só os artistas recriam a vida e exorcizam a morte, quando se comprometem no corporizar das incógnitas.
Tudo, porém, é estranho e íntimo.
O vazio, a transitória vaidade humana, o existencial - presenças/ausências - constantes na Poesia.
Todos cúmplices, num mistério que é só deles, e, naquela sábia manifestação de indiferença, afirmação de um encontro, certo.
Todos, no seu conjunto e de "per si", constituem sinais dum mesmo diálogo - quantas vezes difícil - do Homem, no decurso imemorial do Tempo, e, cuja poética é, antes do mais, uma perpétua recuperação de si mesmos.
Como disse André Breton, "o que importa é conseguir escapar ao princípio da identidade"...
Será, meu Amigo, ainda tarde para falarmos de Poesia?
Gabriela Rocha Martins, Silves, 19 Setembro 2005.

16/07/2005


Legenda Íntima 45. Augusto Mota Posted by Picasa

( sortilégio )

Quantos barcos nos dizem adeus, ou quantos soluços amarramos na própria garganta? Quantos braços voam até nós, ou quantas vontades sacrificamos num olhar? Por vezes tudo é tão simples e sentimos como que água fresca nos pulsos e banhamos o rosto nas mãos, nas nossas próprias mãos. As outras, aquelas que são ilusão do olhar, ou sortilégio da cabeça, guardamo-las para outras ocasiões, quando o desespero ou nos fere, ou joga connosco às escondidas. Nesse jogo fortuito vamos animando os barcos da nossa regata, ou ancorando-os na esperança, que também é água.
Todos marítimos, somos piratas de um absurdo. As ondas vão e vêm como os dias e as horas dos dias.
Augusto Mota, in "O Artifício da Loucura", 1964 ( inédito )

Praça Al-Mu'tamid, em Silves,
fotografia de António B. Oliveira Posted by Picasa

14/07/2005


fotopoema 27. Augusto Mota Posted by Picasa

A taça das tuas mãos

Traz-me numa taça
a água fresca do dia,
quando o vento se liquefaz
sob o meu olhar atento,
e o meu corpo é menos carne do que vento
porque minha alma lá dentro não cabia,
excessiva, enorme -
Vá, toca-me ao de leve com tuas mãos
para que a tarde sobre mim se entorne -
António Simões

Fotopoema 26. Augusto Mota Posted by Picasa

mariah e myriam

10h00
uma qualquer manhã de julho

saio quando o calor ainda adormece os corpos
há que inventar espaços nessa aventura de ganhar alternativas

o sul sufoca

gente / praia / gente / sol
há que encontrar outros trilhos
novas paragens
o absoluto desafio

entras num café
pedes uma bica / / uma garrafa de água
folhados molhados
"uma dúzia para embrulhar"

atravessas a rua e entras
em nenhures

um enorme quadro de "carlos porfírio"
retem
alfarrobeiras
árvores da beira serra
resistentes como as suas gentes
na parede ao lado
duas frases em bronze
"diz o que sente na forma como lhe brota espontânea da ideia"
( antero de quental )
"é o nosso maior poeta do amor"
( josé régio )

um sorriso azul inicia um novo desafio

subo as escadas e
uma voz cadenciada insinua
enquanto o marco e a catarina se atrasam
na leitura acrílica de poemas

um miúdo mais azougado passa a correr
ri
dispara
"ups desculpe"
um outro persegue-o
mais atrás
uma terceira derrapagem quase
me atropela
ali

há vida

espaços abertos / rasgados / vividos / estoriados
amplos / claros / reinventados
contrastam
o criativo

guardam
o silêncio
"o espírito do lugar"
absoluto

regressas
em verdade ou como consequência
ao mundo do faz de conta
?

. aceito o desafio.

gabriela rocha martins, resposta em blogue-mail

há fotografias como punhais

há fotografias como punhais
e poemas também
todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os escrever em pedaços de argila
neles estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos
e o meu pai e a minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto
e também a rapariga feia e bela
e desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel
talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca foi escrito deste modo
e que foi acontecido durante a guerra sino-japonesa
ninguém esteve lá mas eu estive
trouxe-o comigo
é exactamente por isso que os meus poemas
escritos em verso já foram todos escritos
são como chagas alastrando e crescendo
em cristais de fogo
e o recinto do seu destino
está entre a terra e as estrelas
sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel
maria azenha, ( lembrando a fotografia escolhida no 7 de julho, em londres )

há fotografias como punhais Posted by Picasa

13/07/2005

a História ( a guardar ) faz-se a ler e ver...devagar!


Desenho de Álvaro Cunhal. 5.maio.54 Posted by Picasa
(...)
- Mariana! - gritou um. - Junta a ceia de hoje à ceia de amanhã para quando eu voltar. Assim ao menos já enche o prato.
Riram em cima do camião e no ajuntamento responderam da mesma forma.
O camião tinha de certeza qualquer avaria no motor, pois um militar estava às voltas com ele. Entretanto os camponeses continuavam a chalacear e a rir.
- Vão rindo, vão rindo, que talvez chorem! - berrou o cabo da Guarda, vendo-se, pelo tom empregado, não ser a primeira tentativa feita para pôr termo àquele desaforo.
(...)
Manuel Tiago, "Até Amanhã, Camaradas", pg. 234

Pintura a Óleo. Álvaro Cunhal Posted by Picasa

XVII

( poema a ser lido, hoje à noite, no programa "Grande Entrevista" de Judite de Sousa, um mês após a morte de Álvaro Cunhal )

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Qando vieres.

Maria Eugénia Cunhal, in "Silêncio de Vidro"

12/07/2005


Ala dos Namorados, 1961,
3,00x5,50 m, mosaico de vidro evinel. Augusto Mota.
Jardim da Escola Secundária Domingos Sequeira, Leiria Posted by Picasa

alisa as sílabas, meu amor

alisa as sílabas, meu amor,
quando me falas para dentro dos olhos
e por eles desces abrindo poços
até onde o teu desejo for.
torna-as macias, pétalas de flor,
aveludando a dureza dos ossos,
embrulhando segredos que são nossos,
em um doce, sonolento torpor.
alisa as sílabas que à noite dizes
e vão tornar-me mais fluido depois,
pra que eu me perca no sonho e no ar -
e voemos sem rumo, tão felizes:
um dentro do outro, seremos dois
que a ternura não deixa separar.
António Simões

VOANDO NO SONHO

O menino segura a fita
O papagaio
sobe, sobe...
A cabeça gira, gira...
os pés pregados no chão.
Dá-lhe guita.
Vira, vira...
É tão veloz como o raio.
Subiste pelo cordão
- eras tu quem mais voava -
Gago Coutinho
avião
como teu avô contava.
Papagaio
cavalo alado
- e tu sempre a cavalgar -
Gagarine
Sputnik
o teu paizinho a contar...
e o sonho mesmo a teu lado.
Glória Maria Marreiros, "Algarve Gente e Mar" ( esgotado )

Ceifeira, 1964.
linóleo, 16x10cm. Augusto Mota Posted by Picasa

POR ISTO

somos crianças brincando
na seara de ser felizes -
pela força da semente
pela firmeza do tronco
pelo silêncio das raízes
pela verdade do trigo,
eu te ofereço este poema -
pelo prazer de estar vivo.
António Simões, 1974