10/06/2018

Texto transversal








04/05/2018

Rosário breve




TRÊS CURTAS-METRAGENS



A maior parte é baseada em factos reais.

A menor, também.




1. Baile de sábado-à-noite em associação recreativa de lugarejo. Os casados no bufete. As casadas, em casa. Os solteiros, à caça. As solteiras, ao alcance de tiro. Lâmpada de luz-roxa, bola-de-espelhos. Fora do recinto, mais motorizadas do que carros. Dentro, a latência biológica, predatória, rapace: fervor da pré-procriação.
Uma das solteiras: olhos iridescentes, carnação (gene)rosa, frequência universitária, um só ex-namorado no currículo.
Um dos solteiros: belo rapagão alto, espáduas simétricas, electricista-canalizador, cobiçadíssimo pela fauna fêmea.
O salão-de-baile tem escadas que sobem ao balcão-beberete. Ele vai a subi-las, agora. De baixo, ela mira-o fixamente pelas costas. Ele sente a pressão hipnótica daqueles olhos de céu estilhaçado. Já não acaba de subir. Desce, vai dextro a ela. A música está quase no fim – mas ele toma-a na mesma, dançam sem prévia apresentação mútua. Depois, ele leva-a pela mão ao bufete. Cerveja para ele, gasosa com groselha para ela. Só então se tornam Armando & Otília. E só então se tornam um(a) do outro.
Passado pouquíssimo tempo, têm uma filha. Oito meses antes disso, casaram-se pela igreja. Passado pouquíssimo tempo, ele adoece da cabeça. Desorienta-se por nada, muda-se-lhe o carácter, torna-se irascível, desfecha palavrões descabidos, arranja problemas no trabalho, despedem-no. Ela consegue finalmente forçá-lo aos médicos.
O primeiro médico é um negligente arrogante, não cuida da evidente gravidade do mal, mas o segundo doutor acerta de imediato contas com a fatalidade: tumor cerebral maligno. É uma vez operado – resiste heroicamente, segura-se de muletas, ainda reconhece mulher & filha. É operado segunda vez – fica vegetativo. Dura uns meses. A respiração dele enche a casa como o vento as florestas. O vento cessa, aquieta-se o arvoredo: ele morre.
No lugarejo, entretanto, não houve mais quem pegasse na direcção da associação recreativa. Nunca mais houve baile – só a luz permanece roxa, estilhaçados os espelhos da bola como dela o olhar outrora.


2. Era de comboio que vinha pelas primícias do entardenoitecer. O trabalho não era muito, não mais de quatro horas, ao fim das quais comia alguma coisa numa casa-de-pasto perto da gare ferroviária. Desfazia tempo lapijando as palavras-cruzadas do jornal do dia. Tomava o comboio de volta à hora invariável. Se o não fizesse, só cinco horas depois teria outro.
Uma noite, conheceu outra pessoa. A nova pessoa era mais velha uns vinte anos. Foi ao balcão da casa-de-pasto que se conheceram. Comiam lado-a-lado nos bancos giratórios de pé-alto. Foram revelando-se lances pretéritos de cada vida. Eram vidas vulgares. Eram tão-só duas pessoas. Não possuíam fortuna financeira ou predial relevante. Trabalhavam, colhiam o salário, gastavam-no em comida, luz, água, gás, licor, sabão & sapatos.
A pessoa com mais anos passou a interessar-se por palavras-cruzadas também, começando até a adquirir & a partilhar publicações da especialidade com a pessoa menos jovem. (E talvez algumas vezes a de menos anos tenha ido no comboio de só cinco horas depois.) Foram envelhecendo a par até as duas décadas de diferença se esbaterem invisivelmente.  
A casa-de-pasto mudou de gerência, o novo dono era antipático, passaram a encontrar-se na de duas portas ao lado. A pessoa que vinha & partia de comboio arranjou trabalho na cidade de origem, deixando de entardenoitecer por ali. Cruzam ainda palavras pelo correio – mas nunca mais se cruzaram.


3. Era uma vez um homem que se abstraía de dores anacrónicas do foro afectivo pelo escapismo da leitura. Ele era o primeiro – e o último – e o único – a reconhecer que o coração sentimental é uma relojoaria atafulhada que não bate bem (d)a hora: daí que lesse tanto contra ele.
Certa tarde de largos oiros aéreos, abeirou-se dele um indivíduo possuidor de olhos anónimos: era uma senhora. A mulher saudou-o pelo nome próprio. Ele sentiu-se embaraçado por se não recordar do próprio dela. Fez-se porém de não-surpreso & ofereceu-lhe assento. Ela aceitou, continuando a falar-lhe com a maior naturalidade tu-cá-tu-lá deste mundo.
Os temas eram os de sempre: separações, filhos, progressão-na-carreira, escassez de perspectivas, a aranha da idade babando a seda da última teia.
Ele apreciou o fulgor não-pintado da cabeleira dela, a alvura coruscante da dentição, a firmeza agressiva dos morangos peitorais pontiagudando a blusa roxa, as mãos pequeninas de boneca crescida. Isso – mais as safiras perigosas com que ela o olhava (e via). Ela insistiu em pagar a despesa, despedindo-se assim: 
– Felicidades, Armando.
Ai Otília, como se “felicidade” pudesse ter plural.







Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 3 de Maio, 2018
 
Ilustrações: Dois desenhos clássicos do Gestaltismo, ou Teoria da Forma, ou Psicologia da Forma. 
Em cima  –  A ilusão apresenta ao observador uma escolha mental entre duas interpretações válidas: a silhueta de um cálice ou a silhueta do perfil de duas faces humanas. Normalmente o observador percebe apenas uma delas e somente, após algum tempo, consegue perceber a segunda. Ao tentar observar a primeira e a segunda interpretação simultaneamente percebe-se que uma acaba por impedir a outra.
Em baixoNeste desenho também o observador está sujeito a uma escolha mental, mas mais complexa.  O observador, geralmente,  vê  primeiro a cabeça de uma velha. Mas está lá a cabeça de uma jovem. Tudo depende dos processos cognitivos do leitor no momento em que vê a imagem. Por isso é natural que outro leitor veja logo a cabeça da jovem e não consiga ver a cabeça da velha.

Ao ler estas "Três curtas-metragens" e a advertência inicial do autor, por qualquer estranha lógica, logo se me impuseram mentalmente estas ilustrações como as mais adequadas para tais textos! 
 

Edição de Augusto Mota

03/05/2018

Wanya, escala em Orongo




AUGUSTO MOTA NA DOMINGOS SEQUEIRA



No passado dia 19 de abril, as portas do auditório da Escola Secundária de Domingos Sequeira (ESDS) abriram-se para receber Augusto Mota. A acolhê-lo estavam os alunos de Artes da Escola e alguns professores: os primeiros tinham uma ideia vaga de quem se tratava, os segundos, em particular os mais velhos, sabiam que aquele seria um evento especial na Escola.




A apresentação inicial feita pela organização do evento forneceu dados úteis, não só sobre o percurso e obra do convidado, mas também sobre a história da ESDS. Era importante que os alunos ficassem a saber que eram herdeiros de uma escola centenária que teve como diretores e professores vários artistas, a começar pelo primeiro diretor, em 1888, João Ribeiro Cristino da Silva; a ele se juntaram, ao longo de décadas, Ernesto Korrodi, Narciso Costa, Luís Fernandes, Matilde Rosa Araújo, Cristóvão Aguiar, Nelson Dias… e Augusto Mota, entre outros. 



Na conversa mantida na sessão, falou-se de alguns destes nomes e outros que a memória viva de Augusto Mota ia desenrolando. Destacou em particular o nome do pintor  Nelson Dias, de quem foi colega como professor e com quem trabalhou no álbum de banda desenhada Wanya, escala em Orongo, nos anos 70. Este era um título que dizia alguma coisa aos alunos presentes que tinham andado a explorar graficamente o álbum, sendo disso testemunho a exposição de trabalhos presente no átrio. 



 

Em torno desta obra, ficaram a conhecer vários pormenores ligados ao aparecimento do projeto, a referências do texto, o perfeccionismo do traço, a edição e o impacto que o livro teve nas instituições e na imprensa da época e aquando do lançamento da 2ª edição, em 2008. A este propósito, leu artigos de jornais e revistas publicados na altura e que testemunham o espaço singular que Wanya ocupou no panorama das histórias aos quadradinhos.


 


Várias questões colocadas ao convidado por professores e alunos permitiram que se entendesse o que era ser professor e artista num tempo em que os constrangimentos à liberdade eram maiores, mas em que, talvez por isso mesmo, a vitalidade artística da escola tinha uma dinâmica particular, que fazia da então Escola Industrial e Comercial de Leiria uma “incubadora” de artistas. A evidenciar esta ideia, falou-se da atual exposição  no m|i|mo - museu da imagem em movimento, Nós e os outros”, tendo Augusto Mota salientado a qualidade da mostra e apelado a que os alunos fizessem uma visita guiada.


Os alunos presentes saíram certamente mais enriquecidos da sessão e oxalá tenham apanhado o testemunho da vocação artística da Escola, da qual Augusto Mota é uma lenda viva.

Bem haja!


Texto de Natália Caseiro

Fotos da sessão de Paula Gaspar 


25/04/2018

Liberdade





Ler em https://flordocardo.blogs.sapo.pt/145964.html o belo poema "LIBERDADE" de Paul Éluard (França, 1895 - 1952).


12/04/2018

Rosário Breve



ELA POR ELA
 

1. Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.” 
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria. 
2. A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.  
3. Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal. 
4. Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar. 
5. Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 12 de Abril, 2018
Edição de Augusto Mota  

29/03/2018

Rosário breve



David & da Vida





Sucedeu numa casa-de-pasto de cujo balcão sou freguês recorrente há bons (e menos bons) anos. Foi pela finimanhã de quarta-feira, 21 de Março de 2018, já o meio-dia não vinha longe. Aos que estávamos, juntou-se-nos um homem perdido. Em segundos velocíssimos, aquela aparição disse ao patrão da casa que não vinha pedir esmola em dinheiro mas sim a caridade de alguma coisa para comer – porque não comia há muitos dias, porque tinha sido escravizado em Espanha, porque não sabia o que fazer à ou da vida. E era de facto, na vida, David. David era deveras: fiquei a sabê-lo pelo diário local cá da paróquia na manhã seguinte, quinta-feira, 22 do corrente.
Por tal periódico, aprendi que este pedinte se chama David S., tem 50 anos, há sido trolha de profissão e foi dado como desaparecido pela família. A notícia (com retrato do extraviado senhor) acrescentava que é gente portuguesa de Joane (Vila Nova de Famalicão). A irmã, Rosa S., fornecera às autoridades e ao jornal um número de telemóvel, rogando que lhe ligassem em caso de avistamento do extraviado mano dela. Assim fiz. Liguei à senhora.
Disse-lhe o que Vos conto. Falei-lhe da cena na casa-de-pasto. Falei-lhe de Espanha. Ela disse-me: “É ele. Isso de Espanha é uma história que ele costuma alegar.” (Sim, ela disse “alegar”.) Perguntou-me depois se ele andava de barba (na fotografia do jornal, não a tinha.) Disse-lhe que sim, barba de muitos dias. Barba & casaco de couro acastanhado. E ela: “É ele. Tem de ser ele. Muito obrigada pela sua atenção.” Tinha a voz anestesiada pelo desespero.
Nessa mesma quinta-feira/22, fiz duas coisas: uma, fui à esquadra central da PSP cá do burgo, onde dei conta do facto aos uniformes competentes; antes, porém, comentei o caso com a freguesia & com a gerência da dita casa-de-pasto. Os demais clientes interessaram-se pelo episódio – mas a gerência nem tanto. A gerência nem tanto por pura má-consciência: é que, na véspera, tinha recusado comer ao homem – talvez por receio de tanga ou de ociosa pedinchice parasitária como tanta por aí anda, talvez. Percebendo o embaraço do remorso, não insisti. Paguei o meu copo e fui à polícia.
Tenho agora o recorte de jornal colado no caderno em que escrevivo estas crónicas para Vós. Não sei mais. Desconheço se o senhor de Joane, Vila Nova de Famalicão, foi já ou não ainda encontrado. Redijo estas linhas na sexta-feira, 23 de Março de 2018. Entrementes, a chuva voltou, maciça & massiva. Quarta & quinta foram dias muito formosos, de um azul oceânico feito céu a que o Sol presidiu com autoritário garbo & majestoso esplendor. Mas a chuva voltou, o que me faz temer pelo desaparecido.
Rosa diz que o irmão sofre de “depressão” por causa do descalabro do casamento e que anda “confuso e perdido” desde 11 de Fevereiro último, dia em que se desmaterializou de Joane. São muitos dias, bem mais de um mês ao lento relento.

E agora, Leitor meu, confesso: também eu padeço de má-consciência. Sim, má-consciência. Não reagi a tempo. Na manhã acabando-se de quarta/21, eu tinha duas sandes & uma banana no saco. Não me ocorreu sair à rua, perseguir David, dar-lhe de comer. Eram boas sandes: de mortadela & queijo-creme, uma; outra, de capitoso presunto translúcido & corado a fumo de lenha viva. Não me ocorreu, o que agora amargosamente lamento. Quando me lembrei, era tarde de mais: o perdido reiterara de si a perdição, invisibilizando-se na indiferente luz da manhã terminal.
A comparação seguinte pode parecer-Vos reles ou mentirosa ou lingrinhas ou auto-coitadinha: mas é mais friamente verídica do que meramente verosímil – também eu já me achei perdido. De família, de anos estragados, de projectos calçados a barro, de manuscritos sem tipografia, de animais amados como pessoas singulares & de pessoas não plurais como bichos de estimação. E de sozinhíssimas, insensatas copofonias. Verdade, tudo isto. Não hei-de hoje mentir.
Em lenitivo & paliativo contraponto, porém, a minha salvação tem sido esta mesma janela ribatejana de última-página, que há quase onze anos, em uma hora feliz, se me abriu para Vós. Porquê? Ora, porque não se pode perder tudo: a começar pelo que fazer, David, da Vida.



      
Crónica de Daniel Abrunheiro in «O Ribatejo», de 29 de Março, 2018

Fotos de José Eduardo

Edição de Augusto Mota


26/03/2018

Café com livros





No dia 27 de Janeiro, p.p., teve lugar no Auditório António Campos do m|i|mo - museu da imagem em movimento, mais uma tertúlia "Café com livros", a tradicional iniciativa das Trêstúlias. Para comemorar a 25ª tertúlia foi organizado um programa especial com uma exposição de fotopoemas, a qual era para encerrar no passado dia 17 do corrente mês, mas o prazo foi prolongado até 31 de Março.
A responsável pelo Grupo “Trêstúlias”, Rosa Neves, abriu mais uma conversa tertuliana dando as boas-vindas a todos os presentes que fizeram parte da 25ª edição de “Café com livros”.

  

Deixou também um agradecimento à CML, na pessoa do Senhor Vereador da Cultura Dr. Gonçalo Lopes, pelo apoio logístico dado a este projeto. O agradecimento foi extensivo à equipa do m|i|mo, liderada pela Dra. Sofia Carreira, pelo profissionalismo com que sempre recebe "Café com livros". Tudo o resto decorre da vontade e da participação fantásticas de um já grande grupo de amigos que há cinco anos se junta à volta de conversas comuns.     



Rosa Neves referiu que a transversalidade do saber e conhecimento do Amigo e Colega de profissão Augusto Mota é enorme e por isso difícil de sintetizar. Apresentou-o como uma pessoa ilustre, mas discreta, como costumam ser os construtores de ideais. E continuou referindo que ele é um pensador, artista, mestre, amigo. Uma cabeça enredada na criação constante, que o faz respirar. Com um percurso riquíssimo de produção artística, Augusto Mota faz parte de uma geração que marcou a cultura da sua época com o traço da irreverência e do futuro. Tem uma vasta, valiosa e multifacetada obra que vai desde a pintura, o mosaico, a gravura, a publicidade, a ilustração, o cinema, a fotografia e a escrita.


É figura indissociável da vida artística, interventiva e humanista da cidade e do país, tendo mesmo os seus trabalhos sido referidos na Alemanha, aquando de uma exposição que fez no Ibero-Club de Bonn, em 1962.
Augusto Mota, não deixa de nos surpreender e por isso veio partilhar com os tertulianos a sua faceta de observador atento que esconde o olhar atrás da máquina fotográfica e capta as pequenas coisas do dia-a-dia e, no caso concreto, materializou-as na exposição “Olhares”, cuja curadora responsável foi a própria Rosa Neves.

 

Augusto Mota, tomando a palavra, fez uma breve introdução ao valor da imagem como meio de comunicação na história da cultura ocidental, referindo dois exemplos:
1. a célebre Coluna de Trajano, em Roma (séc.I d.C.), que exalta os feitos do general Trajano, na Dácia, no seu friso espiralado de carácter histórico-narrativo, ao longo dos 30 metros de altura da coluna, friso que contem cerca de 2500 figuras repartidas por 115 cenas, com uma riqueza de pormenores que possibilitam uma valiosa compreensão da organização militar romana;

Pormenor da Coluna de Trajano

2. um outro exemplo marcante é a Tapeçaria de Bayeux (séc. XI), que ao longo dos seus 70 metros de comprimento e 50 cm de altura narra em 58 cenas, mas já com texto incorporado nas imagens, cenas da conquista de Inglaterra por Guilherme da Normandia.

Pormenor da Tapeçaria de Bayeux


Nesta breve incursão pela história da  figuração narrativa não podia ter faltado uma chamada de atenção para o poeta inglês William Blake (1757 - 1827), sobretudo para a sua obra de gravador, impressor e pintor que, retomando a tradição conventual das iluminuras nos livros sagrados, inicia uma técnica muito sua para ilustrar os seus próprios livros: grava em chapas de cobre os seus textos e respectivas ilustrações, imprime-as para, depois,  colorir todas as páginas à mão. 
                                   




Quatro poemas de "Songs of Innocence and of Experience"

Esta técnica artesanal só lhe permitiu edições muito limitadas das suas próprias obras, variando as cores de uma mesma obra de edição para edição. Mas o que sobressai neste autor é o dramatismo da interpenetração texto/imagem que antecipa a poesia ilustrada que virá a conhecer entre nós, nos anos 50 e 60 do século passado, uma vaga de fundo, tanto em exposições, como na edição de postais, sobretudo por razões mais político-sociais do que estéticas.


"Europe, a prophecy",  K.41 (9)
Postal editado pelo British Museum

Hoje com as facilidades da fotografia digital e dos programas informáticos que permitem uma fácil junção do texto à imagem  acabámos por chegar a um novo conceito: o fotopoema, que nos  permite divulgar a poesia com muito mais facilidade e de um modo mais apelativo, alcançando um público muitíssimo mais vasto do que a poesia ilustrada, tanto através da net, como em exposições.




Exposição de Poesia Ilustrada na Marinha Grande


Postais:

Poema de José Dias
Desenho de Fernando Felgueiras

Poema de Ovídio Martins
Desenho de Pedro Frazão
Edição do III Encontro dos Suplementos e Páginas Literárias da Imprensa Regional

Rosa Neves passou a palavra ao Senhor Vereador da Cultura, Dr. Gonçalo Lopes, que evidenciou o sucesso do projecto “Café com livros” e lhe reafirmou o seu apoio e confiança. Salientou todo o mérito do convidado Prof. Augusto Mota, de quem, aliás, disse orgulhar-se de ter sido seu aluno.
De seguida foi inaugurada a exposição “Olhares” , composta por 30 FOTOPOEMAS, com fotos da autoria de Augusto Mota e poemas de autores por si seleccionados:  António Simões, Eugénio de Andrade, Carlos Alberto Silva, Cristina Nobre, Cruzeiro Seixas, Fernanda Sal, Gabriela Rocha Martins, Luís Pignatelli, Maria Encarnação Baptista, Maria Gomes, Maria Toscano, Rosa Mar e Rui Mendes.
Durante a visita o autor foi informando quais os poemas que seleccionara de obras publicadas e quais os que os poetas criaram motivados pelas fotografias que previamente lhes enviara. Tal método de criação, designado por écfrase (do grego 'ekphrasis') é uma prática de 'criação/descrição literária' que remonta aos textos clássicos, mas que tem evoluído ao longo dos tempos. O Romantismo deu novo fôlego à poesia ecfrástica, sendo a "Ode sobre uma urna grega", do poeta inglês John Keats (1795-1821), sempre referida como um bom exemplo de tal método de criação literária.
                                       
Goya - "Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808"


Entre nós, o poema "Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena (1919-1978), é um bom e moderno exemplo de 'écfrase', porque o autor não cai numa prática discursiva linear do quadro, antes nos consegue transmitir todo o horror que ressalta da pintura de Goya, mas projectando-o dramaticamente para um futuro... Ouvir o poema:  https://www.youtube.com/watch?v=ggoc8v0dgD0



 












A visita à exposição foi muito apreciada, decorrendo em amena tertúlia volante, com todos os presentes a solicitarem explicações e considerações ao convidado, que a todos procurou dar atenção.    
                       

Por entre imagens e poemas, por entre os corredores do espaço luminoso e elegante do m|i|mo voltou-se ao auditório, onde foi feita a 1ª Homenagem pública à poeta leiriense Maria da Encarnação Baptista, autora de «Hora Entendida», livro editado pela Editora Inquérito, Lisboa, 1951, com um prefácio/ensaio de Adolfo Casais Monteiro. Mercília Francisco, Cristina Nobre e Cristina Barbosa leram expressivamente poemas desta obra. 




A tertúlia terminou com uma surpresa feita ao nosso convidado: Bolo de aniversário muito especial, bolachinhas saborosas, soquetes e … o habitual café com Livros.
                                    
Papas de carolo à moda da Beira





*
Augusto Mota realizou, no dia 1 de Março, uma visita guiada a pedido da associação cultural leiriense SEMPRAUDAZ, com sede no Centro Cívico, à rua Direita, visita que também foi precedida de uma breve introdução, no auditório António Campos, sobre a importância da união texto/imagem. A tal visita guiada se referem as fotografias seguintes: 









Como dissemos inicialmente a exposição prolongar-se-á até ao último dia deste mês. Só então terminará, verdadeiramente, a tertúlia "Café com livros" do dia 27 de Janeiro, já que "Olhares" é uma sua extensão que tem permitido ao espectador um "diálogo silencioso" com as imagens e a sua interligação com os poemas.


Voltamos a encontrar-nos em data e local a anunciar.

Até lá não recusem

                               um café quente
                                                   um livro fresco 
                                                                                                                    uma ideia nova


Texto de Rosa Neves

Fotos de Joaquim Cordeiro, Lídia Raquel, Nuno Verdasca, Pedro Carvalho e Rosa Neves