20/09/2018

Tertúlia fora de portas / dia 1 de Julho





UMA TERTÚLIA AMBULANTE





O segundo dia do nosso “Café com Livros” ambulante acordou-nos com sol, céu azul e ar puro, vindo das serras da Gardunha e Estrela, que nos enchia os pulmões de satisfação e leveza. A sala do hotel deu-nos a certeza de um farto pequeno-almoço regional: desde o queijo da serra, o presunto, as compotas regionais, tudo nos foi servido com simpatia, discrição e cordialidade pelos funcionários do Hotel Samasa.
De livros na mão, o rumo a seguir era: Póvoa de Atalaia, a terra mãe do escritor Eugénio de Andrade, onde iríamos visitar a “Casa da Poesia”. Tinha sido o prometido! Mas aguardavam-nos surpresas, já que há muitos caminhos para se ir de um ponto a outro ponto!...
Já sabíamos que por motivos pessoais o Fernando, nesse dia, não poderia estar connosco, tendo feito substituir-se pelo seu amigo Pedro Silveira, que em poucos minutos estabeleceu empatia com todo o grupo. Assim, discretamente, dei indicações sobre o itinerário ao nosso motorista, e com a animação que já vinha de ontem (pese embora a derrota futebolística de Portugal no campeonato do mundo…), entrámos para o autocarro. Bastou sair do Fundão, para sul, pela antiga estrada nacional, para sermos brindados com a vista de pomares e pomares de cerejeiras, cujos ramos quase nos tocavam na janela. Apetecia esticar a mão e apanhar as cerejas.
O grupo continuava deliciado a olhar as cerejeiras carregadinhas de frutos e em pouco tempo, entrámos na aldeia de Donas, onde o autocarro parou no largo principal. Então revelámos a primeira surpresa: - Não, ainda não estávamos na terra do Eugénio de Andrade! - Iríamos visitar a “A Casa das Memórias” de António Guterres, espaço museológico onde se encontram expostas as ofertas que Guterres recebeu enquanto era primeiro-ministro, e que, apesar de já estar aberta ao público, aguarda a disponibilidade de António Guterres para a inauguração oficial. 






    





                                             











   

“A Casa das Memórias” fica na zona antiga da aldeia, num pequeno largo onde estão a igreja e a Casa do Paço. Em frente, fica a casa dos avós de António Guterres, onde na infância este passava as férias. Todos ficaram agradavelmente surpreendidos e Pedro Silveira teve a gentileza de nos abrir o museu, proporcionando-nos, ele próprio, a visita guiada ao espaço. Visitámos também a Igreja Matriz (Igreja de Santa Ana), um edifício de granito, em estilo manuelino, com cerca de 500 anos.
Direção Donas – Fundão - Segunda surpresa: paragem no mercado das cerejas! Caixas e caixas da cereja que recheia os chocolates da Nestlé. Acabadas de colher, grossas, vermelhas, carnudas, e doces! Uma tentação irrecusável à nossa espera…
Com a mala do autocarro cheia de caixinhas de cerejas, lá continuámos, agora supostamente, em direção à Póvoa de Atalaia. Quando estávamos quase a chegar ao cruzamento, eis que o Sr. Elias virou à direita e vimo-nos a subir em direção à aldeia histórica de Castelo Novo. Esta era a terceira surpresa: visita guiada à aldeia.
Já completamente imbuído do espírito tertuliano do grupo, Pedro Silveira ia-se mostrando um verdadeiro cicerone e foi-nos dando conta de curiosidades próprias da belíssima aldeia de granito, que fica na encosta oriental da serra da Gardunha, a cerca de 650 metros de altitude e que em tempos remotos se chamou Alpreada.
As provas que documentam a existência da povoação Alpreada apontam para os primeiros tempos da nacionalidade. O topónimo Castelo Novo só aparecerá mais tarde. Vários autores defendem que o primeiro foral tenha sido passado à povoação de Alpreada em 1202 por D.Pedro Guterres e D. Ausenda, alegadamente seu donatário. Este terá sido o primeiro alcaide do castelo e talvez o seu construtor.
O topónimo Castelo Novo é citado pela primeira vez em 1208, no testamento de D. Pedro Guterres, o qual doa Castelo Novo aos Templários. A mudança de nome atribui-se ao facto de ali, ou ali perto, ter existido um castelo velho que, entre 1205 e 1208 terá dado lugar à construção de um castelo novo, derivando daí o atual nome da aldeia. Não é consensual que a construção do novo castelo seja atribuída a D. Dinis, mas é certo que o segundo foral de Castelo Novo lhe foi atribuído por este rei.
No reinado de D. Manuel foram feitas obras de recuperação do castelo, e foi D. Manuel que concedeu a Castelo Novo o seu terceiro foral. O concelho foi extinto em 1855 e  desse tempo ainda se conserva o símbolo principal do concelho: o pelourinho.





























Descemos a pé desde as águas do Alardo até ao centro da aldeia. O castelo continua a dominar a paisagem. Seguimos até ao Largo do Município onde se localizam os antigos Paços do Concelho (edifício quinhentista) e o pelourinho de estilo manuelino, datado do século XVI. Passámos pelo antigo lagar de vinho - lagariça - dos séculos VII e VIII. Construído diretamente numa grande rocha, perto do Castelo, o lagar é composto por duas pias, uma maior onde as uvas eram pisadas e outra menor onde era recolhido o mosto. Este lagar foi construído durante a ocupação romana e é um testemunho que atesta as primeiras práticas da cultura do vinho na região.
Atualmente Castelo Novo conserva ainda restos de calçada romana e destaca-se pelo seu traçado concêntrico, onde as ruas foram traçadas segundo as curvas de nível. A arquitetura da aldeia apresenta casas populares em pedra com pequenas varandas de madeira e antigos solares apalaçados.
Relembrando os tempos do domínio concelhio, descansámos um pouco sentados no pelourinho. Ali nos refrescámos com a água fria e pura da fonte que entoava no tanque a melodia daquela natureza de pedras rudes e belas. Alguns habitantes iam passando olhavam curiosos a arte teatral da Mercília, que nos deliciava com a leitura de textos de Fernando Paulouro Neves, e seguiam na calma serena dos seus dias.
Estava a chegar a hora de almoço e o tempo escasseava, por isso descemos até ao belíssimo Chafariz da Bica, monumento barroco que data do século XIV e exibe a pedra de armas de D. João V. O Chafariz da Bica é constituído por uma escadaria de acesso e um logradouro rodeado de bancos de pedra granítica.
Ali nos esperava o autocarro. Seguimos pela estrada principal passando junto à agradável praia fluvial da Ribeira de Alpreada.
 Mais abaixo, chegámos a um restaurante situado nos arrabaldes da aldeia, onde a nossa tertúlia continuou, mais uma vez, à volta da boa cozinha regional: cabrito assado no forno; cozido à portuguesa e ricos acompanhamentos. Soberbo.
O almoço foi animado, a conversa era uma constante e boa disposição também; a expetativa em relação ao resto da tarde continuava elevada. Pedro Silveira, de tão aculturado ao grupo, já quase parecia leiriense.
O motorista, Sr. Elias, sempre com uma atenção e correção extremas, conduziu-nos, finalmente, à Póvoa de Atalaia. Estacionou o autocarro no início da aldeia. Mesmo em frente, estava o edifício da antiga escola primária, onde foi instalada a “Casa da Poesia” que é um espaço interpretativo da vida e obra do poeta Eugénio de Andrade.
Ali mesmo, na rua, com os cheiros da terra, com nuvens escuras a querer ocultar por momentos o sol e pingos espaçados a cair-nos na cabeça, evocámos o poeta com a leitura de alguns dos poemas do livro Fernando Paulouro Neves - “A Materna Casa da Poesia”- sobre Eugénio de Andrade.
Alimentava-nos a alma o ar daquela aldeia onde ele foi menino. Fomos seguindo rua abaixo até ao adro da Igreja de Santo Estevão, onde encontrámos algumas “mulheres de negro” que sentadas nos bancos vigiavam a rua, a porta de casa e uns raios de sol. 



     
    



















Mais uma vez o Pedro nos guiou e abriu todas as portas…Visitámos a igreja e continuámos pela Rua Poeta Eugénio de Andrade até nos cruzarmos, logo à direita, com a Rua da Eira e ali estava a casinha com uma placa indicativa que diz: “Aqui viveu Eugénio de Andrade quando menino”.
A Casa da Eira deixou de ser “a casa térrea que prolongava a eira e o olival”: continua pequenina, mas modernizou-se; o caminho de barro e lama passou a ser uma estrada de paralelos de granito; no balcão da casa, a mãe já não canta; não se ouve o realejo e o menino desta terra, desta casa, morreu. Ficou poeta.
Como poderemos comemorar os poetas, resgatá-los da morte, senão lê-los? Por isso, sob um céu plúmbeo, encostada no umbral da Casa da Eira vimos e ouvimos a emoção da Mercília transfigurar-se na angústia do menino que foi poeta:
“Certa manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. - Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. - Ó mãe, mãe… - E a casa deserta. Pelas frinchas largas da porta via a amanhã lá fora. Era uma manhã de sol quente, talvez de Julho, talvez de Agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os meus olhos mal viam, estava rasos de água e de angústia. - Ó mãe, mãe… - E de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas verdes vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caiam-me pela cara. - Ó mãe, mãe… - O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo atrás das frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. - Ó mãe, mãe… -
E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, pois a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.”
Como se o mundo acabasse com o final da leitura, em segundos, uma nuvem negra desabou-nos em cima violentamente. Encostámo-nos na umbreira da porta, com a chuva a fustigar-nos o corpo. Estendemos as mãos num abraço coletivo e houve lágrimas de poesia numa tarde de Julho.
Só quem ali esteve saberá o que vivemos.

Voltámos a percorrer as ruas da Póvoa de Atalaia, agora no sentido inverso, de corpo molhado, mas com a alma cheia. O Pedro deu-nos a conhecer a “Casa da Poesia”, onde pudemos observar o percurso biográfico e a obra literária de Eugénio de Andrade com recurso a textos, imagens, e vários objetos. 
No início desta aventura animava-nos a promessa feita em forma de convite:
“- Seremos personagens deambulantes no mundo hilariante e desafiador de “Fellini na Praça Velha” e seremos espantados aprendizes da magia telúrica de Eugénio de Andrade.”
Quem foi, saberá que fomos tudo isto e muito mais…


Concluímos assim, fora de portas, o nosso 26º “Café com Livros”. Espalhámos um pouco de Leiria e trouxemos um pouco da Beira.



Obrigada ao Fernando Paulouro Neves e Pedro Silveira pela deferência fraterna que nos dispensaram. Somos gratos.

No início desta aventura animava-nos a promessa feita em forma de convite:
“- Seremos personagens deambulantes no mundo hilariante e desafiador de “Fellini na Praça Velha” e seremos espantados aprendizes da magia telúrica de Eugénio de Andrade.”
Quem foi, saberá que fomos tudo isto e muito mais…

                Os sorrisos da chegada trouxeram emoções dentro
                 de si e falam mais do que mil palavras!







Texto de Rosa Neves
Edição de Augusto Mota
Fotos de Augusto Mota, Florbela Ferreira, Lídia Raquel, Mariana Neves, Rosa Neves 



14/09/2018

Tertúlia fora de portas



CAFÉ COM LIVROS NO FUNDÃO





Reunidas as condições para responder ao repto lançado pelo nosso Amigo/Jornalista/Escritor Fernando Paulouro Neves, aquando da sua participação na nossa tertúlia de Novembro de 2017 http://palaciodasvarandas.blogspot.com/2017/11/cafe-com-livros.html , rumámos ao Fundão no dia 30 de Junho para realizar, fora de portas, o 26º  “Café Com Livros”.
Às 7.45, estava tudo a postos para partir. Esperava-nos um confortável mini-bus da Rodoviária do Lis, com um motorista simpático e cordial, o Sr. Elias Prudêncio, que deve ter ficado surpreendido com tanta e tão boa disposição àquela hora da manhã…
Estávamos todos. Mais as mochilas, malas, livros, tudo, como se fossemos uma semana de férias! Lá partimos no encalço das personagens do romance «Fellini na Praça Velha» e à descoberta, sempre surpreendente, do mundo e das raízes de Eugénio de Andrade. Que mais não fosse, isto bastava-nos! Mas aguardavam-nos surpresas. 

 Na área de serviço de Vila Velha de Ródão / A23
  Maria da Luz, Carmen Matos, Lídia Raquel, Helena Oliveira, Cristina Barbosa, Rosa Neves, David Teles,
      Florbela Ferreira, Isabel Trindade, Augusto Mota, Mercília Francisco, Mariana Neves, Lurdes Costa. 

O tempo também parecia ajudar-nos, a manhã chegara solarenga, mas sem muito calor, e o céu estava limpo. Seguimos animados pelo espírito tertuliano e amigo que sempre nos junta. Alegres e expectantes em cada quilómetro de estrada, fomos lembrando livros, poetas, músicas, cantores. A chegada às portas da Gardunha foi abençoada com as cerejeiras no auge do seu fruto. Ali estava o ouro vermelho daquelas terras, que nos deu as boas vindas até à entrada do Fundão. Hospedados no Hotel Samasa, ali esperámos o nosso anfitrião, Fernando Paulouro Neves, mais um grupo de amigos da Covilhã que também se juntou a nós. Em alegre “romaria” iniciámos o nosso “Café com Livros” fora de portas, com uma visita a um prestigiado restaurante do Fundão, onde fomos saborear a boa gastronomia beirã: cabrito estonado e bacalhau assado, acompanhados de outras iguarias. Mesa farta, onde não faltaram as cerejas e o aperitivo da conversa. O grupo continuava a aumentar com a chegada de mais uns amigos vindos de Castelo Branco.



Praça Velha – local central do romance «Fellini na Praça Velha» imaginámo-nos nos finais dos anos 50 e espalhámo-nos pelas sombras, pelos bancos e pelo chão, em frente ao Café Aliança, para onde convergia, naquela época, toda a agitação da urbe, aliás, o mundo conhecido transferia-se todo para o Café Aliança, que se transformava no microcosmos de um universo de fantasia e de resistência. O Café Aliança era um livro aberto onde se escrevia a história das gentes.
                                                                                                                                                              

  

   











 




















      
    

     Surpreendemos o escritor com a leitura de passagens do seu livro, algumas hilariantes, e que muito nos divertiram. Foi como se a leitura devolvesse àquela praça as personagens que o tempo lhe roubou… O Fernando sorria divertido, talvez admirado com o poder das suas próprias palavras, que se autonomizavam na rua, em cada texto que era lido. Por momentos, parecia que todos tínhamos sido transportados para dentro de um verdadeiro filme de Fellini…
…fomos felizes nessa ilusão!




     Seguimos por ruas e ruelas, situando a ação do romance em cada canto, em cada pormenor, em cada história que o Fernando nos contava. Em direção à Capela do Calvário e Chafariz do Espírito Santo, íamos saboreando cada momento, quando umas pingas leves nos começaram a cair na cabeça, mas de repente, de leves se tornaram pesadas, o que nos fez correr em debandada geral à procura rápida de um abrigo coletivo! Encontrámos um túnel entre os prédios e ali nos abrigámos. Refeitos da surpresa meteorológica, continuámos, mesmo ali, as nossas leituras e conversas… 





Com a chuva a dar uma trégua, dirigimo-nos para o Hotel onde, instalados na sala de estar principal, quisemos ainda recordar a obra do poeta fundanense, Albano Martins, que faleceu no passado dia 6 de Junho. Fez-se o encerramento formal do “Café com Livros”, brindando aos livros, poemas e poetas, com Brisas do Lis, feitas artesanalmente, e com mestria, pela nossa tertuliana Maria da Luz.



           


No dia seguinte esperavam-nos as cerejas e o mundo telúrico de Eugénio de Andrade. Atenção, pois, à reportagem, que em breve será publicada, das nossas visitas do dia 1 de Julho: Donas, Castelo Novo e Póvoa da Atalaia,  terra natal de Eugénio  de Andrade.
 
 “Café com Livros” retomará a sua actividade no próximo dia 29 com a presença da escritora Alice Vieira, em local a anunciar.

Até lá não recusem
                            um café quente
                                          um livro fresco
                                                         uma ideia nova


Texto de Rosa Neves
Fotos de Augusto Mota, Florbela Ferreira, Lídia Raquel, Mariana Neves e Rosa Neves
A foto do grupo junto do mini-bus foi tirada pelo motorista sr. Elias Prudêncio com o telemóvel da Carmen Matos
Edição de Augusto Mota