13/01/2017

Texto transversal







Mago Canto










30/12/2016

Texto transversal

 
 
 
 
 
 
 

22/12/2016

Rosário breve

 
 
PALAVREADO  COM  DISCRETO  REMATE  PESSOANO
  
1. A páginas tantas da sua «História da Literatura Portuguesa», Teófilo Braga cita um tal “Caro”. Trata-se talvez (não tenho a certeza) de Elme-Marie Caro (1826-1887), filósofo francês que escrevinhava na célebre «Revue des Deux Mondes». Nesse trecho, depois de enumerar os degraus da tomada de auto-consciência da humanidade (que se desanimaliza instituindo a família, a lei da cidade, a domesticação das espécies animais e das forças da Natureza), acontece uma ressalva notável: “(…) a civilização expulsando a barbaria, mas experimentando retrocessos terríveis desta barbaria, como por uma espécie de lei de atavismo que acorda, segundo nos dizem, de tempos a tempos no homem, os instintos ferozes de avós desconhecidos.”
Anotei a passagem, que agora dou à publicidade por partilha convosco. Para mim, são palavras que vingam pela infeliz actualidade: como se os séculos XIX & XXI se mesclassem os idênticos algarismos romanos por que são nomeados. Veja-se isto da Alemanha, mesmo agora: outro camião, outro assassino, outras vítimas mortais; isto da Turquia, com um assassinato em directo à hora da janta; isto tudo da Síria há tantos anos/séculos. Há pouquito, o Vietname, El Salvador, o Iraque, o Afeganistão, Timor-Leste – e mais uma imparável carrada de etc.
Não acho nada que a religião tenha a ver com isto. Trata-se do costume: petróleo, diamantes, narcóticos & matérias-primas essenciais ao forno devorador das grandes produções e dos consumos multitudinários. Trata-se da voragem do Poder, enfim. Deus, chame-se ele Alá ou Jeová ou Manitou ou Zeus ou Júpiter ou Inti ou Rá ou o Diabo por eles todos, pouco é para aqui chamado. Não alimento quaisquer ilusões quanto a isto. E não, não vou com o Pai Natal ao circo.
 
 
2. Então vou aonde? Vou, como os marinheiros fazem ao barco, pôr ao largo o coração. Como o que matou Bruce Lee não foi a brucelose, é descontraído que atiro as passadas aeróbicas rumo à minha doença favorita: ver o mundo local com olhos de lápis. É sempre maravilhoso. Exemplo imediato: passagem do Serafim das Arrufadas a bordo de um transatlântico novo – o titanic do dia é uma brasileira egressa de Goiás que ele conheceu durante um Sporting-Arouca ali naquele alterne logo a seguir às bombas da Repsol, vocês sabem e estão mesmo a ver. Adoro ver o desplante de satisfação reverberando nas trombas do Serafim: de Rôsemére do lado direito & a tilintar do esquerdo o porta-chaves do Mercedes importado de Frankfurt em sétima-mão (como a Rôsemére, aliás – digo: a sétima-mão, não a cidade das salsichas-de-lata). A felicidade é coisa tão pouquinha de tão fácil, pois então não é? O Serafim não é desses lingrinhas dados ao verso-livre ou às maluqueiras da pintura cubista, nem ao dodecafonismo intoleravelmente atonal ou ao polemismo azedo do tal Teófilo Braga. Não. O Serafim é feliz: instituiu família (tem dois filhos da Graciete Cabeleireira e um outro de uma estagiariazita zarolha do Centro de Emprego), domesticou quatro cães, três periquitos, dois árbitros dos Distritais & uma porca para o S. Martinho que vem, anda contente com a nova Loja do Cidadão ao cabo de cinco anos-sant’engrácios, tem pára-raios no canhão da chaminé – todo ele é, enfim, um civilizado. Não é daqueles tristes que, tendo medo da própria sombra, nem sombra de si mesmos chegam a ser. Népias disso. Como ganha a vida com um esquema de facturas-falsas que não dá trabalhinho nenhum & é sempr’àviar, é muito gajinho para singrar na política, tipo presidente-da-junta ou menos.
Quem quiser provas de que só digo a verdade, toda a verdade & nada menos que a verdade, que vá com o Serafim ao circo: mas do flanco esquerdo dele, que à direita vai a Rôsemére navegando.
E é de coração-ao-largo que navegar continua a ser preciso.
 
Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 22 de Dezembro, 2016
 
Foto obtida na net
Edição de augusto mota
 

16/12/2016

Pressentimentos

 
 
 
 
 
 
 
 

15/12/2016

Café com livros



ÍNDIAS - Vasco da Gama o Herói Imperfeito

 
 
 
Por razões logísticas só hoje é possível uma referência à tertúlia "Café com livros", de 26 de Novembro, p.p., que teve lugar no museu Moinho do Papel, em Leiria. Foi convidado o escritor João Morgado, que veio fazer a apresentação do seu mais recente livro «ÍNDIAS», Vasco da Gama  o herói imperfeito da História de Portugal, edição Clube do Autor, 2016.
 
O escritor já estivera em "Café com livros", em Junho de 2015, para falar do seu livro «VERA CRUZ», a vida desconhecida de Pedro Álvares Cabral (ver, a propósito: http://palaciodasvarandas.blogspot.pt/2015_06_01_archive.html).
 
Rosa Neves, João Morgado e Cristina Barbosa


Cristina Barbosa fez a apresentação do convidado:
João Morgado nasceu em 1965, na aldeia do Carvalho, Covilhã. Formado em Comunicação pela Universidade da Beira Interior, tirou o mestrado em estudos Europeus na Universidade Pontifícia de Salamanca, Espanha. Trabalhou alguns anos como jornalista, tendo colaborado com o diário «Público» e o semanário «Sol». É actualmente Chefe do Gabinete do Presidente da Câmara de Belmonte - terra de Pedro Álvares Cabral.

 
 
 

Actualmente é formador e consultor de comunicação e imagem em empresas e no meio político. Tem publicadas as seguintes obras: Romance - «Diário dos Infiéis», edição Oficina do Livro, 2010; «Diário dos Imperfeitos», edição Kreamus, 2012, Prémio Vergílio Ferreira, 2012. Contos - «Meio-Rico», edição Kreamus, 2011; «O Pássaro dos Segredos», edição Kreamus, 2014, conto ilustrado; «Falstaff e o Vinho de Roda», edição do Instituto do Vinho da Madeira (Colectânea). Poesia - «Colectânea de Poesia Contemporânea da Beira Interior», coordenador e co-autor, edição Kreamus, 2001; «Rio de Doze Águas», co-autor, editora Coisas de Ler, 2012; «Para Ti», edição Kreamus, 2014. Fotografia - «Covilhã e a Estrela», co-autor (Texto), Fernando Chaves (Fotografia), edição Kreamus. Estudo - «Covilhã e a Imprensa - Memórias de um século: 1864-1964» - edição da Associação da Imprensa Diária e Não Diária.  

 
 
 

João Morgado foi ainda o vencedor do Prémio Literário António Alçada Batista 2014, com o romance «Gama - o Herói Imperfeito» e do Prémio Fundação Dr. Luís Rainha / Correntes D'Escritas 2015, com o romance «O Céu do Mar» que o autor considera "uma obra dentro do realismo-mágico. Mais do que o aspecto histórico desta tragédia, centrei-me no sentir das gentes, dos viúvos, dos órfãos, dos jovens que querem ser homens à pressa, na sobrevivência de uma comunidade... e dar-lhe, no final, uma mensagem de esperança, dando um céu a todos os pescadores que não sobreviveram à força do mar bravo."
 
 
 
 Com «Porto de Saudade», uma reflexão sobre a expansão portuguesa, obtém o Prémio Literário de Poesia Manuel Neto dos Santos 2015, obra editada em 2016 pela Arandis Editora, promotora do prémio.

 


A propósito de «Porto de Saudade» afirma o autor: "A alma portuguesa divide-se. No cais fica o seu lado feminino, a mulher chorosa, a pátria. À conquista dos mares parte o seu lado masculino, o marinheiro que mais tarde será o corpo do Império. Resistirá a Pátria aos sacrifícios do Império? Os dois lados saberão co-existir sem matar uma das partes da alma lusitana? Qual o destino de Portugal? Partir? Ficar? Procurar eternamente o seu destino?"

 

Esta tertúlia foi uma bela lição de História, pois João Morgado conseguiu prender o interesse da assistência ao contrapor, com a sua característica vivacidade e uma emotiva narração, as personalidades tão díspares de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.
 
 
Laura Rosário deu, mais uma vez, a sua colaboração a "Café com livros", lendo um excerto de «O Pássaro dos Segredos», memórias do autor sobre o 25 de Abril de 74, quando ainda era uma criança. 
Cláudia Barbosa leu, do livro «Para Ti», o poema «A Luz da Vela»:
 


O fogo dentro de nós era tão forte
   que deu para acender a lareira.
 
Era tão forte o fogo dentro de nós 
   que jurava ser lume para a vida inteira.
 
O fogo dentro de nós era tão forte
   que nos amámos, chorámos e sorrimos.
 
Era tão forte o fogo dentro de nós
   que um ao outro nos consumimos.
 
Recordo a chama de uma vela que ondulando
   pintava a tua cara em aguarela.
Nunca o meu desejo foi tão forte
   nunca tu foste tão bela.
 
Era tão forte o fogo dentro de nós
   e hoje... nem sequer resta a vela!  
 

David Teles, além de um excerto de «ÍNDIAS», também leu dois poemas de «Para Ti», um dos quais - "Palavras" - abaixo se reproduz:
 
 

           Lembras-te? Já fomos
            palavras                                                distantes!
       
          Depois,
            descobrimos que as palavras quase rimavam.
            desejo, beijo... 
          Lembras-te? Fomos então
            palavras ... próximas! 

          Mais tarde,
           as palavras já rimavam mesmo
           e conjugavam verbos a duas vozes 
           desejar, amar...
          Lembras-te? Tornámo-nos 
           palavras-unidas! 

          Com o tempo,
           a emoção baralhava os sentidos
           - tu e eu significavam o mesmo... 
          Lembras-te? Éramos um só corpo de 
           palavrassobrepostas!



 
 
Terminada a leitura de textos e poemas da autoria do convidado e em sua homenagem, seguiu-se a sessão de autógrafos e, por último, o tradicional café com bolinhos, desta vez com a surpresa de haver também castanhas assadas quentinhas e ginjinha caseira!..
             
 

 
 
"Também já tenho o meu livro autografado!"
 
 
 
 
 
 
Por fim um agradecimento muito especial das Trêstúlias a D. Lisete Ferreira, técnica do Moinho do Papel, pela prestimosa ajuda que tem dado a "Café com livros", sempre que a tertúlia se tem realizado neste museu municipal. 
 
Rosa Neves, Lisete Ferreira e filha
      

Voltamos a encontrar-nos em Janeiro de 2017.
Até lá não recusem   
 
                                 Um café quente
 
                                            Um livro fresco
 
                                                     Uma ideia nova 
 
 
 
Edição de Augusto Mota 
 
Fotos de Joaquim Cordeiro Pereira e Rui Pascoal
 
  

03/12/2016

Texto transversal









Lanterna chinesa






21/11/2016

Texto transversal








10/11/2016

Rosário breve



MEIO SÉCULO DE «O JUDEU»





«O JUDEU» de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
«O JUDEU» marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como «As Guerras do Alecrim e da Manjerona») caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, «O JUDEU» não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar «O JUDEU», as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in «O Jornal», de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de «O JUDEU» como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com «A Morte na Raiz» (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.
Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.



Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 10 de Novembro de 2016

Ilustração: capa da 1ª edição de «O Judeu», Edições Ática, Lisboa, 1966. Formato do livro: 19,5 cm x 18,4 cm   

Edição de augusto mota 


27/10/2016

Crónica


VIVENDA  LOPES





(A história que vai ler é baseada em factos reais. Aconteceu. Mudei o apelido do senhor, apenas. E então era uma vez:)

Era uma vez um homem ainda novo que casou cedo com uma mulher pobre. Ela também era nova. E ele também era pobre. Vamos ver todos o que lhes aconteceu.
Casaram-se – e a vida não andava. Tinham pouco dinheiro. O futuro parecia-lhes, aos dois, muito mais perigoso do que o passado. Não passavam fome, mas necessidades – ai isso sim, passavam.
Vai daí, ele lembrou-se de emigrar para a América.
Foi ter com a mulher e teve a conversa do costume:
– Olha, eu vou ali e já venho.
E ela respondeu-lhe assim:
– Ou então vou eu lá ter.
E assim foi. E assim tudo foi. Ele embarcou, desembarcou e arranjou trabalho. Passados uns cinco anos, o homem voltou ao país natal, que é o nosso Portugal, e disse assim à mulher:
– Olha, eu vou ter de me casar na América com uma velha. Mas tu ouve isto com atenção.
E então ele explicou à mulher. Explicou-lhe muito bem explicadinho. E ela ouviu. E ela escutou. E ela concordou. Ele ia casar-se com uma velha tão rica, que o ouro, ao pé da velha, perdia valor. E ela aceitou. E ela concordou. Que sim senhor.
Divorciaram-se em Portugal. Ele levou a documentação para a América. Quando chegou à América, a velha estava à espera dele. Ele mostrou-lhe os papéis. A velha ficou contente. Passados uns tempos, casaram-se. E foram felizes enquanto esta história não acaba.
O homem português e a velha americana casaram-se perante a Lei e perante a Igreja. Ele deixou de ser criado dela. Ela continuou a ser patroa dele. Veio um dia em que ela se queixou da criada de quarto. Então, ele disse-lhe assim:
– Tenho uma prima em Portugal que é muito séria e que dava uma criada porreira.
E assim foi. Ele mandou vir a ex-mulher de Portugal. Explicou-lhe tudo muito bem explicadinho. Ela disse que sim. Ele mandou-lhe dólares para o bilhete. Ela entrou no avião, saiu do avião e tornou-se criada.
Vinte e dois anos passaram até que a velha morresse. Os dois portugueses esperaram a fio os vinte e dois anos. Quando a velha americana morreu, o viúvo continuava português como um alho. Casou-se com a ex-mulher logo a seguir.
Voltaram os dois, patrão e criada, para Portugal. À beira da estrada, entre Aljezur e Santa Comba Dão, bem acima de Tavira e muito antes de Ribeira de Pena, a vivenda do casal impressiona. Tem tijolo, tem tinta, tem telhado, tem casota de cão e tem cão. E no relvado, cortado a tesoura de letras de sebe, pode ler-se:
– Vivenda Lopes.
Graças a Deus.

 



Crónica de Daniel Abrunheiro, in quinzenário «Trevim», 27 de Outubro de 2016

Fotos obtidas na net
Edição de Augusto Mota


24/10/2016

Texto transversal








17/10/2016

Café com livros





No dia 8 do corrente mês de Outubro teve lugar no Museu Moinho do Papel, em Leiria, mais uma  tertúlia "Café com livros", a já tradicional inciativa das Trêstúlias, desta vez com o convidado Pedro Pedro que nos veio falar dos seus textos e fotografias.
 
 
As Trêstúlias: Cristina Barbosa, Rosa Neves e Lídia Raquel  

Pedro Preto

Cristina Barbosa fez a apresentação do convidado:

Pedro Preto nasceu em Lisboa, em 1971. É licenciado em Biologia. Começou a dedicar-se à fotografia em 2007, como autodidacta.
Em 2009, foi premiado no Concurso Nacional de Fotografia do Montepio Geral. Desde então, publicou:
- «Lisboa - Capital do Insólito», uma edição foto-literária bilingue de "Calçada das Letras", 2010, com apresentação formal no grande auditório da sede do Montepio Geral, Rua do Ouro, Lisboa.
- «O Mundo é um Berlinde com Piada - Contos Reais», editora "Fonte da Palavra", 2011.
- «Lisboa - Capital do Insólito», 2ª edição revista, 2013, com apresentação formal na Feira do Livro de Lisboa.
- «Lisboa - Capital da Ilusão», edição de autor, bilingue, 2015, com apresentação em Lisboa, no espaço “Atmosfera M”.
Dedica-se igualmente à escrita de microficção (publicações no “Diário de Leiria”) e à Criação Artística Conceptual (participação em exposições colectivas).
No âmbito de «Lisboa - Capital do Insólito» foram efectuadas reportagens na revista «Time Out», Lisboa, e uma reportagem televisiva na RTP.


   



Pedro Preto falou demoradamente do seu modo muito particular de ver Lisboa, não só como Capital do Insólito, mas também como Capital da Ilusão. Uma visão que exige um olhar perspicaz e atento aos pormenores que escapam ao passante numa cidade cada vez mais apressada. Visão que, muitas vezes, depende do acaso - ou da sorte do fotógrafo - e do momento exacto em que se dispara a máquina. Foram projectadas várias fotografias de ambos os livros, tendo começado pela intitulada  "Alfacinhas de gema", que obteve o 3º prémio no Concurso Nacional de Fotografia do Montepio Geral, 2009, a qual foi demoradamente comentada - com observações pertinentes - pelos participantes nesta tertúlia.


Uma imagem, ou texto icónico, é por natureza polissémica, isto é, pode ter, mais do que um texto de palavras, várias interpretações, vários significados. Cada observador/leitor reagirá não só de acordo com a sua formação e informação, mas também de acordo com as suas vivências. Nesta foto a altura e verticalidade da porta, se por um lado parece "esmagar" as duas mulheres sentadas naquele degrau, também alto, por outro lado a sua verticalidade acentua o juízo moral da frase que mão anónima colocou naquele fundo azul: "As pessoas somos nós". E tal juízo pode ser extensivo tanto a quem se senta naquele degrau, como a todos os habitantes daquele bairro lisboeta.




"A fé move montanhas" é o título da foto abaixo. "Poderá a fé profunda deslocar um cruzeiro público, de tamanho apreciável, para a porta de nossa casa, fazendo com que um dos braços de Cristo adentre pela varanda? Independentemente da complexidade da resposta, tal dádiva justifica por inteiro a colocação de uma vela sobre o braço do salvador." (Comentário do autor, in «Lisboa - Capital do Insólito», p. 227).
  

Ao comentar a foto seguinte, Pedro Preto, a p. 47 de «Lisboa - Capital da Ilusão» ajuda-nos a decifrar o mistério: "Ainda que inadvertidamente, um par de boxers posiciona-se de forma perfeita garantindo um cesto de recurso para a tabela desenhada."



A sequência das várias fototografias projectadas foi interrompida para Pedro Preto poder descansar e ouvir Cristina Barbosa ler um longo excerto do seu livro de contos/histórias reais «O Mundo é um Berlinde com Piada»
 

Como é tradição em "Café com livros"  há sempre momentos de leitura de poemas que, de algum modo, se adequem à tematica da sessão, ou à personalidade do convidado. Assim, Cristina Barbosa leu o poema de Ary dos Santos "Um Homem na Cidade":

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua 
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota 
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
olho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguem
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!



Rosa Neves, para terminar esta tertúlia dedicada ao insólito e à ilusão nas fotos e palavras de Pedro Preto, leu "Lisbon revisited (1923)" de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos:

NÃO: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância - 
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!



*

Estas tertúlias são sempre um espaço de encontro de amigos e conhecidos e desconhecidos que ficam amigos. E quando, no fim, há um café quente e bolachinhas vegan, ou de chocolate e coco, como neste dia, melhor ainda, para animar as conversas e as fotografias que registam, para memória futura, os momentos agradáveis que ali se viveram! Por isso vamos deixar as fotos falar por si...












Voltamos a encontrar-nos no dia 26 de Novembro, em local a designar, e, até lá, não recusem
    
                       Um café quente
                            Um livro fresco
                                            Uma ideia nova


Fotos de Joaquim Cordeiro Pereira e Nuno Verdasca
Edição de augusto mota