22/06/2014

2 Textos brevíssimos



TRÊS PROVÉRBIOS MITOLÓGICOS
       dedicados a William Blake, o poeta do céu e do inferno





. Quando os homens se erguem estátuas, os deuses acotovelam-se no Olimpo.

. Os corcéis das Valquírias afastaram-se demasiado do Walhalla.

. Wotin escravizou a genealogia.




AFORISMO




Quando os desejos são incontidos, o fracasso sobrevém ansioso no absurdo das palavras:

                     O requinte dos sábios saboreia-se depois da sobremesa





Augusto Mota, in «Metáfora, ou a conquista da cidadela », textos de iniciação e reconhecimeto, inédito, 1960 a 1962


Ilustração superior
Arte postal: Carlos Loures, guache sobre um postal dos CTT, 1962

Ilustração inferior
Arte postal: Pedro Frazão, tinta-da-china e guache sobre postal dos CTT, 1961 



21/06/2014

Texto breve


AS PLANTAS






A mulher nova cria plantas na varanda. As plantas nascem-lhe da água pelas mãos. O homem antigo observa a sua mulher nova. A vida do homem está nas mãos da mulher nova como as plantas estão.

 



 Daniel Abrunheiro, in «O Preço da Chuva», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006, p. 151

fotos de Augusto Mota / Judeu-errante (Tradescantia virginiana)


editado por augusto mota

19/06/2014

Textos breves


SONHO DO ANJO




O anjo quebrado pelo raio arrasta a miséria pelo picoto do monte.
Chove o rescaldo da tempestade eléctrica. O piroliteiro estremece de vento. É o único arbust'abrigo. Ali se filtra a chuva tensa. O anjo lesionado acolhe-se a ele. Pica a face cor-de-rosa nos espinhos verdes. Ele adormece. O anjo adormece. Sonha que voa. 


CONTRARIEDADE DAS ABELHAS




O cuspo da tua boca alimenta as abelhas trabalhadoras.
Tu dizes que não, que porcaria. Limpas a boca com um lenço de papel. Antigamente, os lenços eram de tecido. Antigamente, ninguém contrariava as abelhas. 






Textos de Daniel Abrunheiro, in «O PREÇO DA CHUVA», Pé de Página Editores, Coimbra, 2006.
Os dois primeiros na p. 122 ; o terceiro na p. 155
 
Fotos de Augusto Mota, excepto a identificada.

editado por augusto mota
 

12/06/2014

Rosário breve




UMA VEZ  SÓ






Na Rua onde a consciência da minha vida se deu em pertença ao mundo, existiam o senhor Elói e a senhora Celeste.
Ele era sapateiro em casa.
Ela dava injecções por fora.
O vinho dele era manso. Nunca fazia as cenas tristes dos bebedores sem conserto.
Ela era ladina e legítima. Parecia uma rosa frágil, mas era forte e rosa na mesma.
Geraram entre si vários rapazes: correctos todos, educados todos, todos e cada um homens já desde meninos.
A senhora Celeste foi dos dois a primeira a morrer.
(Na morte, é-se sempre o primeiro, alguém disse. No nascer, sempre o último, antetizo eu.)
Talvez por achar que o mundo e os sapatos que há no mundo deixaram, como o vinho de tantos outros homens, de ter conserto, foi em desconcerto que o novo viúvo se achou.
Deixou apodrecer a barraquita onde tantos anos remendara, cosera e assolara os calcantes pobres dos pobres seus vizinhos. Passou a beber (de) mais. O vinho da viuvez amargava-lhe a opinião.
No exílio do desamparo, sem filhos em casa, mal comia um bago de arroz. Julgo que o senhor Elói vivia de ovos cozidos e de figos esmagados em farinha para bebés. Gostava de nozes, mas também os dentes o tinham desertado. Como o vinho não tem ossos e não há por isso que roê-los, sustentava-se de uva-mijona ao preço-da-chuva em copo-de-três.
Nunca mais lhe bateram à porta – nem para colar um tacão, nem para pedir à mulher uma inoculação de soro milagreiro contra a humidade dos ossos, a secura do coração ou o ramerrão de tanto ontem à janela do amanhã.
Ele habituou-se ao lusco-fusco do vinagre de continuar vivo.
O rosto dele adquiriu aquela esponjura roxoviolácea cuja purpurina não engana ninguém.
Ele era porém, como até ao fim haveria de ser e foi, igual ao que fumava: um português suave definitivamente provisório riscado pela pederneira do silêncio no escuro da caixa-de-fósforos do quarto antigamente conjugal.
Gracejavam com ele a propósito das vacas-magras que o seu Sporting há demasiadas épocas apascentava. Ele sorria, contente de o terem presente. Mas de verdade não tinham – era só um viúvo só, um remendão que bebia e já nem remendava nem se emendava, um que lavava e cosia as próprias meias. Se ele fosse de destempero vindicativo, vingar-se-ia com o uso e no porte dos sapatos mais bem recauchutados da Rua e arredores. A graxa que ele caminhava, impecável e lustralmente acamada no couro velho das botinas antigas, era de outra coruscância.
As grandes e vitalícias chuvas de Março reiteravam o novembro-perpétuo da casa do sapateiro, nela percutindo a vidro a melopeia do não-mora-aí-ninguém-aí-não-mora-ninguém.
Era uma casita de fileira operária, ao alto do charco que dragaram para construção da mercearia do Licínio.
O sol claro do claro Junho, a lua próspera do sardinheiro Agosto e a nostalgia sideral da irredenção de Janeiro eram os recipientes naturais deste homem confirmado e conformado em solidão, daquela solidão mais sozinha que range móveis até nas saletas vazias.
Nunca o vi com um livro – talvez porque o instinto o fizesse saber que faria parte de um, este.
Sei que nunca permitiu que se oxidasse o estojo metálico em que a senhora Celeste descansava a seringa esterilizada. O que nele se oxidou foi outra coisa: talvez a consciência, talvez a vida, talvez a pertença, talvez o mundo.
Ou tudo junto nas apenas três letras de Rua.
Essa mesma a que tornarei também um dia.
E não há-de ser para viver, porque nem este verbo se difere nem se repete – e porque em e de alguma coisa hei-de, finalmente, ser o primeiro.


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», 12 de Junho de 2014






foto e edição: Augusto Mota 

07/06/2014

Poesia




CONSTRUÇÃO  DO  POEMA






uma após outra,
vêm as palavras;

uma após outra,
ocupam os seus lugares;

uma após outra,
ficam direitas, certas;

uma após outra,
pavimentam o caminho;

uma  após outra,
tecem a ideia:

e a desfraldam breve,
e a desfraldam longa,
à janela clara de pensar/dizer;

vejo-as de mãos dadas,
brincando, as palavras;

e à música de uma
e à música de outra,
o verso rebenta –

e o poema nasce.

António  Simões, 1973






 fotos: Augusto Mota


Poesia



E   SABE







não desejes nem sonhes:
querer nada nos dá;
mergulha antes as mãos
na frescura do instante,
banha teu corpo
nesse rio que vai e vem
dentro de ti,
e sabe
que a manhã raia lá fora
porque renasce
em ti
todos os dias.

António Simões


foto: Augusto Mota

  

Poesia



SABRES, SEMENTES






o homem que lavra
a terra, abre
um sulco; assim é a palavra:
rasga como um sabre,
mas ela é a própria semente
em tudo o que lavra.

abre-lhe teu coração
confiadamente,
deixa que se aninhe
e cresça e fermente
e te  intumesça o sonho,

deixa que a palavra
seja o arado
e a semente
e a seara.

António Simões, in «Diário de Lisboa», 1981


foto: Augusto Mota / Vale do Lis