31/12/2011

A todos!




foto: Augusto Mota / tirada no dia 30 de Dezembro de 2011, pelas 16 horas,
na Praia do Pedrógão, na zona das rochas.

30/12/2011

um ano é feito de muitas coisas......



a todos os Amigos ,com um abraço apertadinho ( mas constipado )
,gabriela rocha martins.

22/12/2011

Carta Aberta ao Senhor Primeiro Ministro





Exmo Senhor Primeiro Ministro


Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.


Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.


Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.


Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.


Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...


Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.


Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.


Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...


Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.


Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.


Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro.


E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.








Myriam Zaluar, 19/12/2011 ,in Entre as brumas da memória

( este texto foi publicado no Facebook pela Myriam Zaluar, como podia ter sido escrito por muitas pessoas com quem lidamos quase todos os dias  .por isso ,e ,à semelhança de outros blogues ,O Palácio das Varandas resolveu conceder.lhe este espaço - gabriela rocha martins )

Apresentação da IV Antologia dos Poetas Lusófonos


( Da esquerda para a direita - Arménio Vasconcelos ,Rui Matos ,da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria ,e ,Adélio Amaro ,da Folheto & Edições ,Lda )


-às vezes sou um sim
às vezes não
8 fevereiro 2011



sob as arcadas de pedra
da catedral de Saint Denis
desafiam.se os tumultos circundando
o teu corpo
oscilam os meus olhos à procura de um vulto mas
a densidade própria da matéria
dissipa.se no zimbro que envolve as gárgulas
levas.me na confusão do cigarro que não fumas
como se o rasto e o cheiro fossem um pouco mais
de ti........ solto........ trazes.me o silêncio dos búzios
por entre os andaimes da chuva que teima em
cair vasculhando a manhã........ três pingos molham o
meu rosto........ recolho.os como restos de outras
névoas e no silêncio incorpóreo que te resguarda
retenho.me num outro templo ou nas
pinceladas........ brevíssimas........ que ouso sobre a tela
às vezes
deixo.te fluir pela página virgem que
se detém a meu lado
outras
solto.te por entre as víboras que
adormecem junto à fonte........ sincera mente
não sei porque te habito entre os crivos da terra e
os sulcos das marés
não sei........ mas sei porque te exibo em tatuagem

ousam.se dos amantes as memórias



**********
***



-sem explicação aparente
29 março 2011




hoje
decido.me pela não abertura da carta

fazê.lo seria confundir um desejo muito forte de
não presença com a necessidade de dizer sim ao
pessimismo que me assiste qual anátema de algo
que não desejo ler........ muito menos antever
sei que o meu córtex cerebral esquerdo riscou
relações com o direito
impossibilitando que o ninho dos pássaros azuis
brancos........ ou de plumagem vária
se confunda com o endereço inscrito
do mesmo modo que
não me imagino abrindo e fechando envelopes
como uma mera máquina trituradora de papéis usados
gostaria........ isso sim........ de apostar um selo sob as letras
imaginadas em desvario porquanto lambidas demais
mas decido.me pela não leitura -
ateimo
- porque fazê.lo seria assumir.me como a meretriz do verbo
o assassino da escrita ou

o chulo da palavra que se balda no parágrafo seguinte



( Assistência )


gabriela rocha martins,
18 de dezembro 2011.

IV Antologia de Poetas Lusófonos



-o silêncio é d'ouro
14 de janeiro 2011



ousam.se os cânticos........ as danças -
a polca o minueto a quadrilha a valsa -
como passagens fotográficas de
divas de outras eras........ exaltações de tempos
onde o verbo se construiu em rastos tão
longevos como a ampulheta que ainda
hoje foi ontem........ nos sonhos prescritos há
caudais de água e naufrágios de barcos
prontos a azular
tolhados pelas linhas que no horizonte fazem
tábua rasa........ um minúsculo aracnídeo
oscila entre o regresso ao nada que
a mente do poeta
fabulou e o fruto maduro que medra
na haste por onde deslizam as vozes que
clamam vingança

-serve.se fria

em pequeníssimas
doses que circulam
ímpias
no espaço dividido entre o muito o pouco e
o nada como se este se antecipasse ao ritmo
do vento semeado a esmo
neste refúgio incómodo que se antecipa ao
silêncio
ao meu silêncio........ ensaio de raiva
fonte de outono ou alvoroço de
inverno........ alimentados pelo tumulto da lava

queda.se o verbo
travestido em âmbar


-que sabeis vós da minha indiferença?


**********
***

-retratos de uma cidade
25 janeiro 2011




centímetro a centímetro engrossam
as palavras........ breves........ átonas e
dissonantes presas a caudais de lava que
escorrem sobre as barrigas de textos
prontos à desova........ são peixes
mortos que engrossam as correntes ou
poluem as margens de monografias prenhes
de palavras vãs
esgotam.se as iluminuras e as vestes dos
lobos que em alcateia descem sobre a
cidade abocanhando o frio da noite

há esgares de morte nos passeios e

os sem abrigo deixam rastos de sangue
nas traseiras das casas por onde escorrem
fios de água........ rubra........ como a baba que des
ce pelos meus textos
vejo.os encolhidos no silêncio........ ou encobertos
num vão de escada onde o poema incompleto
absorve o abandono........ impressos na folha de jornal
que lhes serve de mortalha

acresço uma linha aos fragmentos nocturnos e

três degraus........ ao fumo........ que lhes reserva
a memória

será que a consciência pesa?





gabriela rocha martins,
18 de dezembro 2011.

texto transversal





20/12/2011

Lenda do Lis e Lena



Nasceu o rio Lis junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita Paixão, com muita pena
De o seu berço não ser na mesma terra.

Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo, as aves chilreantes
Contavam esse amor que ambos sentiam.

Um dia já espigados, já crescidos
Contrataram casar, de amor perdidos
Num domingo, em Leiria de mansinho…

Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Lis mais abaixo um bocadinho

..............................................Marques da Cruz



Este soneto inspirou, de forma magnífica, o professor e artista Augusto Mota, que nos anos 60, já gozava de um grande prestígio na região e além fronteiras, num trabalho de grande beleza, simplicidade e sensibilidade, num beijo celebrado entre o Lis e o Lena, envolto pelos verdes e sussurrantes pinheiros, sob o olhar do sol, rubro de vergonha perante tanta intimidade, só testemunhado pelas “aves chilreantes”, com o castelo, ao longe, a abençoá-lo.

O painel decorativo «Lenda do Lis e Lena» (1,80 x 3,60 m) foi um trabalho encomendado em 1965 pelos proprietários do café Colipo, que em breve iria abrir, tendo deixado o motivo ao gosto do autor, pois havia necessidade de decorar uma grande parede para dar mais vida e cor ao ambiente.

O café funcionava onde se encontra hoje a loja do Ponto Negro, na avenida Heróis de Angola. Foi pintado sobre 6 placas de Omnilite, nome comercial de um produto para a construção civil, fabricado na Martingança, que era feito de aparas miudinhas de madeira, agregadas e prensadas com cimento. Era um material isolante e ignífugo.

Com o encerramento do café, o painel foi desmontado, acabando o seu tempo de vida activa como arte pública.

Este painel foi o rosto de um postal publicado pela Câmara Municipal de Leiria numa Edição Comemorativa do Centenário do Nascimento do poeta Leiriense Marques da Cruz (1888-1958), que logo esgotou, dando lugar a uma reedição.

Mais recentemente, em 2006, a Junta de Freguesia de Leiria, editou uma pasta em cartolina, no tamanho A4, em cuja badana larga foi impressa a biografia do poeta, da autoria do Engº Carlos Fernandes. Dentro da pasta está a reprodução do painel e, por baixo, o soneto do poeta Marques da Cruz que serviu de inspiração ao professor Augusto Mota. Foi feita uma edição de 5 mil exs., já há muito esgotada.

Existe uma reprodução em azulejo, autorizada pelo autor, numa vivenda na Cruz da Areia, pertencente a Passinhas Marques, que também foi professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria, painel pintado pela ceramista leiriense Leonor Ferreira, antiga aluna da mesma Escola.

Mais recentemente, ofereceu o autor, a uma familiar de Lisboa, uma reprodução com metade das dimensões do original, por si retocada por meios informáticos e impressa em tela, autorizando, posteriormente, idêntica reprodução, a pedido de um antigo aluno da Escola, que exerce a sua actividade profissional em Espanha, para decorar a sua casa em Leiria, onde vive a sua família. Estas reproduções foram, depois de impressas e emolduradas, assinadas pelo autor, como se de um original se tratasse.

O painel foi desde logo, um sucesso, bem representativo da arte protagonizada por Augusto Mota, quiçá, um dos trabalhos com maior visibilidade que terá produzido.

publicado por Ana ,in Notícias do Baú

17/12/2011

Azulejos ARTE NOVA no Museu Municipal da Figueira da Foz


Foram inauguradas no passado Sábado, 10 de Dezembro, pelas 15 horas, no Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz, as exposições «A ARTE NOVA nos azulejos em Portugal», da colecção do Engº Feliciano David, e «APONTAMENTOS ARTE NOVA», fotos a cores do Arquivo Municipal da Figueira da Foz dos vários exemplos desta Arte, que naquela cidade, têm resistido à incúria e à destruição, graças aos incentivos da Câmara Municipal,  trabalhos que ainda podem hoje ser admirados nos edifícios onde foram incialmente aplicados, principalmente na zona do chamado Bairro Novo.

À direita, o Presidente da Câmara Municipal proferindo as palavras
com que deu início à abertura desta mostra de azulejaria
Arte Nova. À esquerda, o Engº Feliciano David 
e, ao centro, o casal que comissariou esta
exposição: a Drª Isabel Almasqué
e o Dr. A.J.Barros Veloso.

O Presidente da Câmara, Dr. João Ataíde, ladeado pela Drª Isabel
Almasqué e pelo Vereador da Cultura, Dr. António Tavares,
prestes a concluir as suas palavras de abertura da mostra.

A visita à exposição foi precedida por breves palavras do Presidente da Câmara, a que se seguiu uma intervenção do Dr.Jorge Veloso, um dos comissários desta mostra, terminando o acto inaugural com o Engº Feliciano David a agradecer à Câmara Municipal e ao Museu a disponibilidade demonstrada para acolher esta sua colecção temática, pois ficando acessível ao público, ela se torna didáctica, ficando, assim, plenamente justificada a sua paixão de investigador e coleccionador da arte azulejar.

Esta exposição, que iniciou a sua itinerância no Museu Municipal de Aveiro, no passado mês de Julho, permanecerá na Figueira da Foz até 10 de Março de 2012.


 O Engº Feliciano David e os comissários desta sua exposição.

 O Engº Feliciano David falando da sua paixão pela azulejaria e
agradecendo à edilidade a colaboração prestada pelo
Museu na montagem desta sua exposição.

COLECCIONAR PARA PRESERVAR


(...)
"Apesar de em Portugal, o movimento Arte Nova não ter tido uma presença muito significativa foi no domínio da azulejaria que ele mais se afirmou e deixou a sua marca, assumindo no contexto europeu, uma expressão muito relevante pela diversidade, elevado número e dimensão das peças produzidas. E, no entanto, a sua importância não tem sido valorizada no nosso país e só há poucos anos algumas medidas foram tomadas com vista à sua salvaguarda e divulgação, nomeadamente em Aveiro e Figueira da Foz.

Primeiros visitantes da exposição

E decorrido cerca de um século sobre o período da sua produção sem que tenha tido lugar, no nosso País, uma exposição a ela dedicada pareceu-me oportuna a sua realização. A exposição que inclui cerca de 1400 azulejos portugueses e 190 estrangeiros, assume um carácter itinerante percorrendo algumas das cidades que aderiram à Rede Nacional de Municípios Arte Nova, tendo começado por Aveiro, em Julho, na Figueira da Foz hoje e em Loures em Maio de 2012.
Por último, cumpre-me expressar os maiores agradecimentos:

Ao Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Dr. João Ataíde, ao Vereador da Cultura, Dr. António Tavares e a toda a equipa do Museu Municipal Santos Rocha.

O Dr. Barros Veloso dando um esclarecimento oportuno
sobre uma peça exposta.

Ao Dr. A. J. Barros Veloso e à Drª Isabel Almasqué por terem aceite o convite que lhes formulei para comissariarem esta exposição, por entender que são os melhores especialistas nesta tipologia azulejar, tendo-a valorizado com a sua competência."

Feliciano David, in «Desdobrável» editado pelo Museu Municipal Santos Rocha.


A  FIGUEIRA  DA  FOZ  E  A  ARTE  NOVA

"Apurada e com afinação de pormenor, a Arte Nova aparece entre nós como apontamento ornamental e decorativo de uma estrutura arquitectónica tradicional. Por esta razão, é comum a observação de que a Arte Nova é subsidiária duma tradição já enraizada à qual faltava alguma exuberância.


Estes apontamentos, nos edifícios, surgem nos portões e nas varandas, nos relevos das fachadas, nas molduras das portas e janelas, no uso do azulejo e do ferro. O início do século passado ficou com esta marca, que cultivou até à década de vinte, altura em que se propende para motivos de maior simplicidade, dando lugar à chamada Art Déco que também está devidamente representada no chamado Bairro Novo de Santa Catarina.


Rodrigo Freitas troca impressões com o Vereador da Cultura
e com Inês Pinto.

A Figueira da Foz integra a Rede Nacional de Municípios Arte Nova, criada em 2006 através da assinatura do Plano de Cooperação Arte Nova. Da Rede fazem parte cidades como Aveiro, Caldas da Rainha, Cascais, Estarreja, Ílhavo, Leiria, Lisboa, Loures, Porto e Vila Nova de Gaia.
  
 Dulcina de Sousa, Rodrigo Freitas, Inês Pinto e o Dr. António
Tavares, Vereador da Cultura, posam para memória futura.

A Rede e o Plano têm em vista concertar políticas no âmbito da intervenção no património Arte Nova, contribuir para a sua divulgação, desenvolver intercâmbios, bem como preservar e incentivar o turismo nas cidades participantes.

Está, assim, justificada a presente exposição, que de certo contribuirá para um melhor conhecimento deste vasto e valioso património histórico e arquitectónico."

António Tavares, Vereador da Cultura, in «Desdobrável» editado pelo Museu Municipal Santos Rocha.


Do catálogo da exposição em Aveiro transcrevemos, com os devidos agradecimentos, partes da introdução e a totalidade do capítulo motivos decorativos, textos da autoria dos especialistas em Arte Nova e Comissários desta exposição itinerante, Dr. Barros Veloso e Drª Isabel Almasqué.
Deste catálogo reproduzimos, apenas, os textos que julgamos poderem ajudar melhor os visitantes deste Palácio das Varandas, pouco familiarizados com as características peculiares desta arte e técnicas azulejares, a fazerem aqui uma primeira abordagem mais consistente, esperando que tal os venha a incitar não só a visitar esta bela exposição, mas também a descobrir, no meio onde vivem, obras desta época – e não só azulejos! – que, por razões várias, possam correr o perigo de se perderem para sempre.

INTRODUÇÃO
"A Arte Nova foi a expressão pela qual ficou conhecida em Portugal a corrente artística que surgiu na Europa nos finais do século XIX.

O termo original, Art Nouveau, teve origem no nome que o negociante de arte alemão Siegfried Samuel Bing, deu à galeria que abriu em Paris, em 1895, “La Maison de l’Art Nouveau”. Apesar da sua rápida ascensão e da sua curta duração, este movimento viria a ter uma influência decisiva em toda a produção artística de uma época marcada por profundas mudanças económicas e sociais relacionadas com a Revolução Industrial.

Baseada na recusa dos estilos históricos e na procura de uma nova linguagem, a Arte Nova abriu caminho a novas correntes estéticas e provocou uma mudança de atitude em relação à arte em geral."
(...) in p.15.

 Em cima: Friso com motivos florais estilizados. Estampilha manual
Fábrica das Devesas.
Em baixo: Friso com motivos florais em forma  de festões
 e Flor de Lis estilizada. Estampilha manual.
Fábrica das Devesas.

"Estava-se então numa época em que a maioria das obras de arte era executada por artistas conservadores, de formação académica, que procuravam imitar os grandes mestres clássicos, produzindo peças “pastiche” de cariz neo-gótico, neo-renascentista ou neo-barroco, destinadas ao gosto de uma burguesia emergente, com crescente poder de compra. Por outro lado, o desenvolvimento industrial e comercial e a consequente facilidade da produção em série de grande número de objectos utilitários, tinha provocado um decréscimo da qualidade artística e uma desvalorização da produção artesanal.

Frontão com motivos florais. Pintura à mão. Fábrica Constância.

Foi neste contexto que a Arte Nova apareceu como um estilo alegadamente moderno (daí a designação de “modernismo” que teve nalguns países) que se opunha ao carácter revivalista e académico das correntes artísticas tradicionais, na tentativa de conciliar a produção mecanizada com a qualidade estética dos objectos produzidos.
Era o início de um longo caminho de luta pela reabilitação da artes decorativas e pela sua equiparação às chamadas artes maiores, ou Belas Artes, que viria mais tarde a dar origem a uma nova forma de produção artística denominada “design”.

O Presidente da Câmara Municipal troca impressões com o
Dr. Barros Veloso, um dos comissários desta exposição.

Os elementos essenciais da gramática Arte Nova residem na rejeição do naturalismo e da volumetria, na estilização dos desenhos, na valorização da assimetria e na sugestão de ritmo e movimento através da utilização de linhas sinuosas, as “linhas em chicote”. A natureza vai ser a principal fonte de inspiração da sua linguagem estética. Lírios, amores perfeitos, papoilas, nenúfares, girassóis e muitos outros elementos da flora, são representados de maneira estilizada, frequentemente dispostos ao longo de linhas sinuosas.
O mundo das aves e dos insectos está também amplamente representado através de borboletas, libélulas, pavões, cisnes, patos ou andorinhas. Paradigma da sensualidade, também a figura feminina aparece frequentemente envolta em vestes esvoaçantes, ou ornamentada de longas cabeleiras ondulantes que se confundem com elementos orgânicos e vegetalistas."
(…) in pp.15 e 16.


 Em cima: Friso com motivo floral. Pintura à mão.
Fábrica de Louça de Sacavém.
Em baixo: Painel com motivos florais (nenúfares).
Aerografagem com acabamentos manuais.
Fábrica de Louça de Sacavém.

"A Arte Nova, mais do que um estilo muito definido, foi uma corrente estética de enorme vitalidade que rapidamente se impôs em quase todos os campos das artes. Talvez por se basear mais na rejeição do passado e na vontade de inovar do que na adopção de bases teóricas muito rígidas, conseguiu absorver elementos próprios de cada cultura e ter uma multiplicidade de expressões patentes em objectos tão diferentes como uma jóia de Lalique ou uma cadeira de Mackintosh. No entanto, o denominador comum da valorização das artes decorativas e do valor estético dos objectos utilitários a que chamamos simplesmente design, foi certamente a herança mais importante que a Arte Nova deixou e que ainda hoje perdura."
(...) in p.17.


MOTIVOS DECORATIVOS
"Em Portugal, foi sobretudo na azulejaria que a Arte Nova encontrou terreno fértil para desenvolver todo o seu potencial criativo. Os motivos decorativos reproduzidos quer nos padrões quer nos frisos e painéis são os que habitualmente compõem o vocabulário estético desse estilo: elementos vegetalistas, motivos marinhos, aves, insectos e figuras femininas. Embora, em Portugal, a Arte Nova, tenha mantido uma tradição mais, recorreu frequentemente a motivos originários de fábricas estrangeiras, sobretudo através da Fábrica des Sacavém, como se pode ver nalguns dos exemplares expostos que foram também produzidos por várias fábricas inglesas e alemãs.


Um festival de motivos florais e vegetalistas

 Em cima friso com motivos florais dispostos em linhas sinusoidais.
 Pintura à mão. Fábrica do Desterro.
Em baixo: Friso com motivo floral. Pintura à mão.
Fábrica do Desterro.

Os elementos florais, pela sua grande variedade, são, de longe, os mais representados. Encontramos frequentemente túlipas, malmequeres, amores perfeitos, papoilas, girassóis, lírios, jarros, entre outros, dispostos ao longo de linhas ondulantes sinusoidais. As flores aparecem, por vezes, vistas por trás, de maneira que a ligação entre o caule e o cálice fique virada para o observador, numa perspectiva pouco habitual a que Manuel Rio-Carvalho chamou flor virada e considerou típica da Arte Nova portuguesa. Este aspecto é bem evidente em dois frisos expostos. Os elementos vegetalistas apresentam diferentes graus de estilização, frequentemente relacionados com as técnicas de pintura utilizadas. O decalque e a pintura à mão dão-lhes, em geral, uma aparência mais naturalista.
Pelo contrário, a estampilha manual ou aerografada confere-lhes características mais gráficas e lineares, com contornos bem marcados, onde a mancha de cor predomina em relação aos detalhes do desenho.

Azulejo relevado polícromo. "Borboleta" da autoria de
Rafael Bordalo Pinheiro. Pintura à mão.
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

O mundo animal, foi também amplamente representado. Além das conhecidas criações de Rafael Bordalo Pinheiro com gatos, rãs, borboletas e gafanhotos, muitos outros insectos e aves se podem encontrar. A borboleta, devido à delicadeza e ao intenso colorido das suas asas, foi talvez o insecto mais representado. Libélulas, andorinhas, patos e cisnes aparecem também frequentemente. Mas foram sobretudo os pavões a exercer particular atracção nalguns pintores de azulejos que souberam, por vezes, adaptar de forma astuciosa o formato em leque das caudas de penas coloridas, ao perfil de alguns frontões. Num dos frisos presentes na exposição estão representados dois pavões com a cauda fechada e rodeados de ornamentos florais.

 Fragmento de painel com cabeça de mulher. Pintura à mão.
Fábrica do Desterro.


A figura feminina foi igualmente motivo de inspiração na azulejaria Arte Nova. São frequentes as representações de cabeças de mulher, quer através de desenhos simples, pouco elaborados, de cariz bastante naif, quer com longas cabeleiras entrelaçadas com ornamentos florais, num exuberante cenário de formas orgânicas e vegetalistas, claramente inspiradas na Arte Nova franco-belga, quer ainda com uma aparência mais naturalista, por vezes, quase fotográfica. É o caso do fragmento de um painel exposto, em que um rosto feminino está emoldurado por vários motivos decorativos típicos da Arte Nova."
in pp.19 e 20.


Edição e fotos: augusto mota


06/12/2011

texto transversal




A véspera do corpo


É tão forte a sensação de desfilada sobre o jardim acolchoado de malvas e rosas bravas que, como corcéis de crinas ao vento frio do norte, nos perdemos pelos ínvios caminhos do prazer entre as mãos e as colinas sonhadas, por onde suavemente sobe um rio que regressa à nascente. Que reencontro difícil este entre a memória e a vertigem dos dias que já passaram! A nova cidade impõe-se em cada gesto que acompanha a sagração de tal rio, como se todas as religiões do mundo nos encaminhassem para o vértice do universo.

Atávica inibição esta de regressar ao passado, com mãos apartando colinas e desejos, ultrapassando, sobretudo, as recordações que se imiscuem entre os dedos e subjugam o corpo todo! Desejar é, assim, uma outra maneira de sofrer ou de querer adiar o desencontro. Só as mãos, portanto, saboreiam os segundos de cada fruto, como se o relógio de tempo estivesse na hora legal!

Preferível será estar sentado na cadeira do tempo e esperar que o rio volte a descer por nossos braços e desagúe num mar renovado de emoções:

os corcéis do tempo agigantam a hora que passa e se dissolve como música em nossas artérias. vemos o infinito na palma da mão e agradecemos ao poeta tal augúrio de inocência. por isso um céu brilha em cada flor selvagem que acoberta os corpos da nossa razão. um estertor inunda todos os gestos e parece anunciar o fim da desfilada . o vento norte mudou de rumo e, agora, uma lufada morna aquece as frontes e abre, deliciada, as portas de uma outra percepção. a paisagem muda de ritmo. o outono anuncia-se no escarlate das folhas que se despedem das árvores e de nós. o silêncio é partitura nova partilhada com emoção. o diálogo renova a despedida das folhas que já atapetam os nossos olhos. novo húmus fecundará a próxima estação dos corpos e amanhã recordaremos as mãos, as flores, os frutos e novamente as mãos, as flores, os frutos e as alegrias do tempo que vive e morre em nós e na correria louca dos corcéis no amanhecer selvagem de uns olhos aguados a caminho do mar e da liberdade.

Os jardins são feitos de espera e de emoções. Os dias são as estações que regamos com nossos anseios. Os frutos, esses, serão colhidos na véspera de tudo.

Augusto Mota, in «A Geografia do Prazer», 2000  (não editado)

03/12/2011

Inverno




anoitece.


amanhece,
anoitece.

depois
do longo travessão
da noite,
apenas
uma vírgula fria:
o sopro breve
do dia.



poema: António Simões, 1972, da série «Poemas dum outro tempo» (não editados)
fotos: Júlia Ribeiro, Novembro de 2011

30/11/2011

Acaso





texto 53, de «A Geografia do Prazer», 2000 (não editado)
foto e arranjo gráfico: augusto mota 

a ARTE NOVA nos azulejos em Portugal




     No próximo dia 10 de Dezembro, pelas 15 horas, terá lugar, no Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz, a inauguração da exposição a Arte Nova nos azulejos em Portugal, exposição que iniciou a sua itinerância no Museu Municipal de Aveiro, de 16 de Julho a 2 de Setembro, pp., como homenagem à cidade considerada em Portugal a capital da Arte Nova. Esta será a segunda mostra deste acervo temático do grande coleccionador e investigador da arte azulejar que é o Engº Feliciano David.


1. a colecção de azulejos
     Ao apresentar esta colecção, recordo com saudade a Maria Graciete que comigo partilhou, durante quase duas décadas, esta paixão.

     Com a paciência típica do coleccionador, em feiras e lojas de antiguidades, leilões, ou estaleiros de demolições, por todo o país, fomos juntando milhares de azulejos enriquecendo a colecção com os melhores exemplares que encontramos.
Esta é composta por um acervo que, pela sua vastidão (mais de seis dezenas de milhar), qualidade e diversidade (período entre o séc. XVI até à primeira metade do séc. XX) constitui, porventura, uma das maiores colecções privadas de azulejaria.
     Com efeito, dispõe de cerca de quatro milhares de azulejos de padrão do século XVII. Do século XVIII, afigura-se-me que é a mais variada colecção de padronagem existente em Portugal. Ainda deste século, possui dezenas de painéis de influência rocaille e barroca, e cerca de uma centena de painéis ornamentais de azulejaria neoclássica, muitos dos quais de produção da Fábrica do Rato, bem como de milhares de azulejos de figuras avulsas e de dezenas de albarradas.
     Do último quartel do século XIX e primeira metade do séc. XX, a colecção de azulejos de padrão é, também, bastante completa, com particular incidência na azulejaria de fachada, e ainda, de três centenas de azulejos de Bordalo Pinheiro de produção da Fábrica de Cerâmica das Caldas da Rainha.


2. as motivações para coleccionar azulejos

     Ao reunirmos esta colecção moveu-nos, não só o gosto pela azulejaria mas, fundamentalmente, o desejo de contribuir para o estudo e preservação de um dos mais belos e valiosos patrimónios artísticos nacionais, o património azulejar, considerado no contexto internacional o mais rico da Europa e um dos mais representativos da cultura portuguesa.
     Porque os povos que não cuidam do seu património histórico-cultural estão condenados a perder a sua identidade.


     Mas nunca quisemos mantê-la no âmbito privado para nosso deleite. Entendemos que a colecção só tem verdadeiro sentido quando lhe é dada visibilidade, quando é dada a fruir não só a outras pessoas que, tal como nós, amam o azulejo, mas igualmente, ao público em geral que ainda não está sensibilizado para olhar este tipo de expressão artística e para reconhecer a sua riqueza que é de ontem, de hoje e que será, certamente, de amanhã. Se a preservarmos.
     Por isso, uma parte da colecção encontra-se depositada, há mais de uma dezena de anos, no Museu Nacional do Azulejo, constituída por cinquenta e cinco painéis, que totalizam cerca de 3500 azulejos de padrão do século XVII ao XX, bem como de painéis ornamentais neoclássicos do século XVIII, muitos dos quais integraram várias exposições, nomeadamente: “A Cerâmica Neoclássica” em 1997; “A Cerâmica da Fábrica de Louça ao Rato”, em 2005 no Museu Nacional do Azulejo, e em 2006 no Museu Nacional Soares dos Reis; a exposição evocativa do Centenário de “Santos Simões”, em 2007, bem como outras exposições em Espanha, no Brasil, e em Itália.


     No Museu de Cerâmica de Sacavém foi, também, depositada, há 10 anos, aquando da sua inauguração, a colecção de produção desta Fábrica composta por cerca de 6600 azulejos e, igualmente no Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha, os azulejos da autoria de Costa Motta Sobrinho.
     Mas outras iniciativas têm contribuído para dar a conhecer a colecção. Esta é a terceira exposição temática que se realiza, no âmbito local, integrada, exclusivamente, por azulejos da colecção. A primeira teve lugar no Museu de Cerâmica de Sacavém, promovida pela Câmara Municipal de Loures; a segunda, na Madeira, por iniciativa da Câmara de Machico, ainda a decorrer até Outubro, dedicada ao azulejo de figura avulsa.


5. azulejos que integram a exposição

     A exposição inclui cerca de 1400 azulejos portugueses e 164 estrangeiros seleccionados de entre os mais representativos da colecção.
     O maior número de azulejos portugueses exposto foi produzido pela Fábrica de Louça de Sacavém, vindo a seguir os da Fábrica do Desterro, e da Fábrica Constância, todas de Lisboa; as Fábricas das Devesas e do Carvalhinho, de Gaia/Porto, têm, também, uma presença significativa, bem como a Fábrica de Louça das Caldas da Rainha de Rafael Bordalo Pinheiro. Fazem, ainda, parte da exposição cerca de sete painéis constituídos por azulejos cuja origem de fabrico não foi possível identificar com segurança, mas que se supõe serem, maioritariamente, de produção de fábricas de Lisboa.


     A parte estrangeira inclui azulejos de diversos países, nomeadamente, de Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Espanha, etc. Esclareço que nunca foi nossa intenção coleccionar azulejaria estrangeira. No entanto, acabamos por adquirir algumas centenas de azulejos com o objectivo de os conhecer e comparar com os congéneres portugueses.
     De resto, a minha experiência de coleccionador leva-me a admitir que, no primeiro quartel do século XX, Portugal importou relativamente poucos azulejos decorativos dos quais alguns de Inglaterra, sendo na sua maioria destinados ao Porto, onde foram adquiridos, provenientes, ao que parece, do interior de habitações; no caso dos azulejos espanhóis terão estado colocados, possivelmente, na região de Lisboa.


     Ao amigo Feliciano David agradeço ter autorizado a reprodução dos seus textos, que iniciam o belo catálogo da exposição realizada em Aveiro, bem como de algumas imagens que o ilustram. Para animar tais textos escolhemos as fotos que, pela suas proporções, melhor se adaptavam às "paredes" deste Palácio das Varandas, ou seja, do Xarajib de SilvesNão tivemos a preocupação de identificar técnicas, ou fábricas. Quisemos, tão só, suscitar a curiosidade de todos os que estas imagens vejam para irem até à Figueira da Foz ver e viver esta bela exposição.
augusto mota

Vídeo da inauguração da exposição no Museu de Aveiro:


20/11/2011

in memoriam

 
 
-ao JJ. 
gabriela rocha martins

13/11/2011

A Casa






Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero

                                                   Vinícius de Moraes


"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...". Todo mundo conhece esses versos infantis do Vinícius de Moraes. O que quase ninguém conhece é a sequência original: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali, mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró".  

Vilaró é Carlos Paez Vilaró, amigo pessoal de Vinícius e idealizador do Casapueblo, a casa em Punta Ballena, no Uruguai, onde o poetinha compôs "A casa" para seus netos.

Obs.: A letra desta canção infantil, popularizada por Tom Jobim, é apresentada na net com várias disposições gráficas. Optámos por esta por ser de mais fácil leitura.

Foto: Ana Ramon, tirada numa praia de Póvoa de Varzim, 2011
Informação in : http://www.pitoresco.com.br/espelho/2005_01/vinicius/vilaro.htm

12/11/2011

António Gedeão ( 1906 . 1997 )





Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

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bioblibliografia


António Gedeão, (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho), nasceu em Lisboa em 1906.
Criança precoce, aos 5 anos escreveu os seus primeiros poemas e aos 10 decidiu completar "Os Lusíadas" de Camões.
A par desta inclinação para as letras, ao entrar para o liceu Gil Vicente, tomou contacto com as ciências e foi aí que despertou nele um novo interesse.
Em 1931 licenciou-se em Ciências Físico Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e em 1932 conclui o curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras do Porto, prenunciando assim qual seria a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos: professor e pedagogo.
Exigente e comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão e uma dedicação.
E assim, além da colaboração como co director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentrou durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química.
Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da colecção "Ciência Para Gente Nova" e muitos outros títulos, entre os quais "Física para o Povo", cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho nunca esqueceu a arte das palavras e continuou sempre a escrever poesia.
Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca seria útil a ninguém, nunca tentou publicá la, preferindo destruí-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publicou, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas "Movimento Perpétuo" com o pseudónimo António Gedeão.
Continuou depois a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas há uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança.
Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram esses dois interesses totalmente distintos..
A poesia de Gedeão é bastante comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
É deste modo que "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho. Mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido".
Nos anos seguintes dedicou-se por inteiro à investigação, publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência.
Gedeão também continuou a sonhar, mas o fim aproximava-se e o desejo de morrer determinou, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assumiu a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenharia até ao fim dos seus dias.
Quando completou 90 anos de idade, a sua vida foi alvo de uma homenagem a nível nacional.
O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta, foi reconhecido publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música.
Faleceu em 1997.

Obra Literária:
Poesia:"Movimento Perpétuo", 1956;
"Teatro do Mundo", 1958;
"Declaração de Amor", 1959;
"Máquina de Fogo", 1961;
"Poesias Completas", 1964;
"Linhas de Força", 1967;
"Soneto", 1980;
"Poema para Galileu", 1982;
"Poemas Póstumos",1984;
"Poemas dos textos", 1985;
"Novos Poemas Póstumos", 1990

Ficção:"A poltrona e outras novelas", 1973

Teatro:
"RTX 78/24", 1978;
"História Breve da Lua", 1981

Ensaio:"O Sentimento Científico em Bocage", 1965;
"Ay Flores, Ay flores do verde pino", 1975

Obra Científica:
"Ciência Hermética", 1947;
"Embalsamento Egípcio", 1948;
"Compêndio de Química para o 3º Ciclo", 1953;
"Sr. Tompkins explora o átomo", 1956;
"Guias de trabalhos práticos de Química" [3º Ciclo], 1957;
"Que é a física?", 1959;
"Problemas de Física para o 3º Ciclo do Ensino
Liceal", I volume, 1959;
"A Física para o Povo", 1968;
"Ciências da Natureza",1974;
"Aditamento ao guia de trabalhos práticos de Química", 1975;
"A Descoberta do Mundo da Física", 1979;
"A Experiência Científica", 1979;
"A Natureza Corpuscular da Matéria", 1979;
"Moléculas, Átomos e Iões", 1979;
"A Energia", 1980;
"A Estrutura Cristalina", 1980;
"As Forças", 1980;
"As Reacções Químicas", 1980;
"O Peso e a Massa", 1980;
"A Composição do Ar", 1982;
"A Electricidade Estática", 1982;
"A Pressão Atmosférica", 1982;
"A Corrente Eléctrica", 1983;
"A Electrónica", 1983;
"Magnetismo e Electromagnetismo", 1983;
"A Energia Radiante", 1985;
"A Radioactividade", 1985;
"Ondas e Corpúsculos",1985

Investigação histórica:
"História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa [1765 1772]", 1959;
"História do gabinete de Física da Universidade de Coimbra [1772 1790] desde a sua fundação em 1772 até ao Jubileu do Prof. Giovani António Dalla Bella", 1978;
"Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII", 1979;
"A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências da Lisboa nos Séculos XVIII e XIX", 1981;
"A Física Experimental em Portugal no Século XVIII", 1982;
"A Astronomia em Portugal no Século XVIII", 1985;
"História do Ensino em Portugal, desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar Caetano", 1986;
"O Texto Poético Como Documento Social", 1994. [ in: luso.poemas ]