04/07/2017

O Rio, o Moinho e a Poesia








No âmbito de mais uma edição do evento Festa dos Museus, realizou-se no Moinho do Papel, no serão do dia 19 de abril, p.p., a tertúlia O Rio, o Moinho e a Poesia com a participação de David Teles, Manuela Prazeres e Rosa Neves.
A abertura da sessão pertenceu a Helena Brites, chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Leiria, que enalteceu a adesão dos participantes à iniciativa e depressa se rendeu ao ambiente verdadeiramente Tertuliano que se respirava.

David Teles, Helena Brites, Rosa Neves e Manuela Prazeres
 
Vânia Carvalho e Rosa Neves
 
Também Vânia Carvalho, responsável pelo Museu de Leiria e  pelo Museu Moinho do Papel, partilhou o seu agrado por ver a poesia representada na Festa dos Museus. Esta opção cultural foi também enaltecida por Rosa Neves que agradeceu o convite que lhe foi endereçado para dinamizar a esta sessão.
Para enriquecer a tertúlia e imprimir-lhe um carácter personalizado a página online do Moinho do Papel, divulgou-a com uma foto inédita, de 1973, da autoria de Augusto Mota, onde aparecem as mós originais deste moinho, quando ainda laborava na moedura de cereais.

 

Sem dúvida uma boa maneira de "visitar" as origens!...

Aspeto parcial da assistência
 
 A conversa iniciou-se com Rosa Neves a fazer uma abordagem sobre a importância dos rios na história do Homem, referindo o caso do rio visto como executor de justiça (ordália pela água); o rio como entidade purificadora (batismo nos rios); o rio visto como forma de transporte de pessoas e mercadorias; como forma de sobrevivência; como energia que faz mover os moinhos, etc., etc., e, especificamente, sobre o fascínio que os mesmos exercem sobre os poetas que, nos seus poemas, os vão cantando.
Era impossível falar de O Rio, o Moinho e a Poesia, sem recorrer a duas obras incontornáveis e unidas pelos mesmos rios - o poema de Marques da Cruz e a bela pintura de Augusto Mota (também presente na sala, nesta noite de Poesia):
 
 
 
LENDA  DO  LIS  E  LENA
 
Nasceu o rio Lis junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita paixão, com muita pena,
De o seu berço não ser na mesma terra.
 
Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo, as aves chilreantes
Contavam esse amor que ambos sentiam.
 
Um dia já espigados, já crescidos,
Contrataram casar, de amor perdidos,
Num domingo, em Leiria, de mansinho...
 
Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Lis mais abaixo, um bocadinho...
 
MARQUES  DA  CRUZ
             1888 -1958
               
                                                                                                                                                    Painel decorativo, 1,80 x 3,60 m, pintura a tinta plástica sobre omnilite, 1965 
 
 
 
Rosa Neves deu ênfase à convidada Manuela Prazeres que também expressa, através da sua poesia, a beleza do rio Lis e o discreto encanto do Moinho do Papel
 
 
Rio Lis e o Moinho
 
Rio Lis de águas mansas
Tens um enorme poder
Escolheram as tuas águas
Para o Moinho mover.
 
É um prazer visitar
Este bonito Moinho
Onde se faz o papel
Com saber e com carinho.
 
Que bonito ver as Noras
Constantemente a girar
Fazem lembrar passarinhos
A bater as suas asas
Sem saírem do lugar.
 
Rio Lis de águas mansas
Há em ti muita magia
Inspirador de Poetas
Que nasceram em Leiria
 
(Poema inédito)
 
A expressão poética de Manuela Prazeres segue, na sua maioria, um trajeto sensorial de observação das coisas simples que a inspiram a poetizar a cidade do Lis, dos poetas e de cada um de nós.
 
Manuela Prazeres
 
Manuela Prazeres nasceu em Leiria em 1941, define-se como autodidata que, depois de uma vida profissional bastante diversificada, se reformou e passou a dedicar o seu tempo a atividades como a música, a pintura e a poesia.
A autora dos livros «Encontros de Mim», 2008, e de «Salpicos de Poesia», 2013, define-se como uma pessoa simples, tímida, que assim objetiva o poeta:
 
Ser poeta
 
É poder dizer
O muito de nadas
Em rimas cruzadas
Com pouco saber.
 
É olhar o mundo
De forma diferente
Atento à vida
E parecer ausente.
 
É luz que se acende
No fundo do ser
Silêncio inquieto
E que faz sofrer.
 
É também
Um grito de alma
Um choro calado
Sofrido, pensado...
Por quem?
 
Ideias cruzadas,
Cruzadas na mente,
A alma a falar
Em tudo o que sente.
 
      in «Salpicos de Poesia», p. 8
 
Mariana Pereira lendo uma poesia de Manuela Prazeres
 

A poesia  de Manuela Prazeres foi saltitando também pelas vozes dos presentes, que assim foram lendo, através de prévia seleção de Rosa Neves, poemas diversos que ilustram verdadeiros registos do passado, de um passado que a autora imortalizou numa poesia também feita de saudade.
 
Helena Brites também deu a sua colaboração
 
As fontes da minha terra
 
As fontes da minha terra
Com água fresca a correr
Num cenário pitoresco
Eram bonitas de ver.
 
As fontes que menciono
São as dos tempos passados
Locais de muita frescura
Encontros de Namorados.
 
As moçoilas muito airosas
As suas bilhas enchiam
E ora um, ora  outro
A água fresca bebiam.
 
Entre muita brincadeira
E no meio da folia
Andando de mão em mão
A bilha às vezes partia.
 
Os tempos foram mudando
A ida à fonte acabou
E a chorar de saudade,
Uma após outra secou.

Cantarinha de água fresca
Que à fonte eu ia encher,
Passagem da mocidade
Que não se volta a viver.
 
       in «Encontros de Mim», p.14


Lisete Ferreira lê uma poesia de Manuela Prazeres
 
Em animada conversa com uma plateia atenta, e muito interventiva, O Rio, o Moinho e a Poesia foi entrando pela noite dentro e, pela voz de David Teles, foram sendo declamados vários poemas que exemplificavam o lirismo bucólico expresso na poesia de Manuela  Prazeres.

 
David Teles lendo expressivamente uma poesia  de Manuela Prazeres
 
Árvores do Lis
 
As árvores morrem de pé
É o povo quem o diz
Mas esta morreu deitada
Nas águas do rio Lis
A chuva, o frio e o vento 
Corroeram-lhe a raiz
Não ouviram o seu lamento.
 
Tão triste o rio ficou
Que passa o tempo a chorar
Com as lágrimas em queda
Para a poder refrescar.
 
As pedras que a sustentavam
Ao vê-la cair, tombar
Saltaram p'ra dentro d'água
No esforço d'amparar.
 
A Senhora da Encarnação
Que no alto está a ver
Vai pedindo a Jesus
Para mais nenhuma morrer.
 
       in «Salpicos de Poesia», p.36
 
Encorajada por Rosa Neves e David Ferreira a falar de si, foi ao ouvir os seus poemas passarem de boca em boca, que Manuela Prazeres se libertou da timidez natural que a caracteriza e começou a falar da necessidade que tem em escrever. Necessidade que vem de muito nova e que diz chegar em qualquer momento.
 
Manuel Bernardes
 
Um diploma pacientemente desenhado
 
A noite reservava uma surpresa para os participantes que declamaram poemas das obras da autora, pelo que foram brindados com Diplomas de Participação muito especiais. Os diplomas foram feitos, um a um, em papel artesanal, onde Manuel Bernardes (marido de Manuela Prazeres) pacientemente desenhou letras caligráficas, num estilo gótico muito pessoal, a informação sobre a realização desta tertúlia. As iluminuras que os ilustram foram feitas por Manuela Prazeres. 
  

  
 
 
   
E porque o dia seguinte era de trabalho, a conversa terminou à volta de um aromático chá de poejos, vindos do Agromuseu Municipal D. Julinha, na Ortigosa, tendo-se aproveitado este momento informal para as sempre úteis  troca de  impressões com amigos e conhecidos.
Nós  ficamos por aqui, mas O Rio, o Moinho e a Poesia continuam...
 


 
Texto: Rosa Neves e Augusto Mota
 
Fotos: Joaquim Cordeiro
 
Edição: Augusto Mota
  
 

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