28/11/2014

Café com livros




A POESIA E    CANTO LÍRICO





No Sábado, 22 de Novembro, teve lugar no auditório do m|i|mo – Museu da Imagem em Movimento, mais um Café com livros, que teve como convidado o tenor figueirense Luís Pinto. Desta vez a sala não encheu como de costume, porque o tempo não convidava muito a sair de casa, mas a tertúlia acabou por ter um carácter intimista, com uma assistência mais à vontade para, no final, colocar diversas e oportunas perguntas de um modo informal ao convidado, o que fez prolongar a tertúlia até próximo das 19 horas.


 
Rosa Neves e o convidado deste "Café com livros", o tenor Luís Pinto

Antes da apresentação do tenor Luís Pinto houve dois momentos prévios dedicados à poesia. O primeiro foi uma evocação do poeta uruguaio Roberto Genta Dorado, falecido no dia 11 do corrente mês de Novembro, evocação feita por David Teles, que com ele conviveu em Montevideu e de quem nos leu 9 poemas, por si traduzidos, da obra «Fractal».
Roberto Genta Dorado nasceu em 1957, em Montevideo, Uruguay. Foi director fundador da Revista "La Crítica" e de "Ediciones de la Crítica". Editou em poesia: "De puño y letra"(1986), "Geometrías y elegías" (1987), "Piedra abierta" (1994), "Caída libre" (1996), "Paraíso Breve" (1999) –  que obteve o Segundo Prémio na categoria de Poesia Inédita do Ministério da Educação e Cultura do Uruguay -, "Punto de Fuga" (2000) - Menção na categoria de Poesia Inédita do Ministério da Educação e Cultura do Uruguay -, "Sangre sucia" (2002) - Menção especial na categoria de Poesia Inédita e Segundo Prémio na categoria de editados (2003) do Ministério da Educação e Cultura do Uruguay-, "Salida de emergencia", Madrid (2004), "Fractal" (2008), "Unplagged" (2009) e "Desapalabrar" (2014). Em 2003 editou o CD intitulado «Amecedario» (editora “Civiles Iletrados”). Em prosa publicou a novela "El cerco", editorial Signos, Montevideo, 1990. 
 
David Teles lê o poema "as palavras não chegam"


as palavras não chegam
para desnudar silêncios

para tirar os olhos aos pássaros
nem para construir um poema
com destreza

as palavras abandonam-nos

torpes traços
que imprimimos na areia


Roberto Genta Dorado, in «Fractal»

Tradução de David Teles





Um segundo momento foi dedicado à genialidade de Fernando Pessoa, a propósito de se comemorarem, no dia 30 deste mês de Novembro, os 79 anos do seu falecimento. Mercília Francisco fez a leitura expressiva de diversos poemas, com destaque especial para “Tabacaria”, emotivamente encenada e à qual deu a sua colaboração, no momento preciso, a nossa já conhecida jovem tertuliana Laura Miguel. Durante toda a tertúlia estiveram expostas diversas edições de obras de Fernando Pessoa, bem como revistas e objectos relacionados com a sua vida e obra.  

 
Mercília Francisco lê expressivamente "Tabacaria".  A Laurinha vai cumprindo a ordem do poeta...

(…)
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 
(…)


Fernando Pessoa /Álvaro de Campos, in “Tabacaria”
 

A apresentação do convidado foi feita por Lídia Raquel, uma das Trêstúlias: Luís Pinto nasceu em São Julião da Figueira da Foz e iniciou a sua carreira de cantor no ano de 1997, no Festival da Canção Broadway/«Diário de Coimbra», interpretando o tema Granada, do autor e compositor mexicano Agustin Lara. Em 1998 iniciou os seus estudos de canto na Escola de Música do Colégio S. Teotónio em Coimbra, estudos que veio a prosseguir no Conservatório de Música David de Sousa, da Figueira da Foz, nas classes de canto, piano, formação musical e classe de conjunto.

 Lídia Raquel faz a apresentação do tenor Luís Pinto

Foi pelas mãos do músico e compositor Cláudio Valdarnini que, em 2000, fez a apresentação da sua voz em CD, trabalho que, posteriormente, serviu de base ao seu primeiro CD - “O meu sonho italiano” -, editado em 2002 em espectáculo realizado no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.
Em  2001 a sua carreira internacionalizou-se: Luís Pinto cantou no Teatro da Universidade de Lungomare Dante Alighier, em Erice-Trapani, Itália, tendo representado Portugal na 8.ª Edição do Concurso Internacional Giuseppe Di Stefano, I Giovani e l’Opera.

Mercília Francisco e as "Trêstúlias": Rosa Neves, Lídia Raquel e Cristina Barbosa

Em 2005 nascia um novo álbum discográfico: “Para ti Figueira, com amor” e o primeiro trabalho em DVD surgiu em 2006. Licenciado pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, este registo intitula-se “Luís Pinto de corpo e alma”. Em 2009 surge a apresentação do seu novo trabalho em CD, “La Donna”, com 8 músicas originais, da autoria de Luís Albuquerque, e 3 covers (músicas já editadas).   Em 2010, Luís Pinto estreia-se como actor cinematográfico no filme “Fugiu Peter Pan”. Desde muito jovem Luís Pinto foi atraído por Itália, a terra onde se canta a língua densa de colorido e de sonoridades. Mas o seu primeiro sonho foi ser futebolista e pisar os palcos do mundo italiano do futebol. Um sonho que, porém, nunca se concretizou. Educado no seio de uma família modesta com ascendentes ligados à profissão de padeiro, Luís Pinto a par do desporto sentiu, desde muito cedo, uma enorme curiosidade pela ópera. Estes passaram a ser os acordes de melodia que mais admirava, muito influenciado pelo grande tenor Luciano Pavarotti. Ao longo do tempo foi descobrindo na canção napolitana um bilhete de identidade eternamente válido. Nela descobriu um sentimento que se conjugava com o mundo lírico e a nobre arte do belo canto. A ópera passou assim a ser alimento contínuo da sua vida. Mas apesar de chegar tarde ao mundo lírico, Luís Pinto mostrou estar muito a tempo de enriquecer a nobreza da sua alma. As músicas italianas que hoje consagram o seu repertório personificam a memória colectiva de um povo. A sua voz robusta e poderosa, o tom e a riqueza interpretativa, fazem com que o tenor Luís Pinto sobressaia hoje pela extensão do registo e expressão da sua voz, assim como pelo seu temperamento apaixonado. (Texto baseado na biografia de Luís Pinto que se encontra na sua página http://tenorluispinto.com/ )
 

Dada a palavra ao convidado, foi de um modo muito natural que Luís Pinto falou de si, da sua vida familiar, do seu gosto pelo desporto, da sua profissão como funcionário administrativo na Câmara Municipal da Figueira da Foz, profissão que tem de compatibilizar com o seu amor pelo canto e com o seu desejo de um imperativo aperfeiçoamento. Informou ainda que, muito brevemente, irá actuar no Luxemburgo, na Catedral de Notre Dame.



Chegou, por fim, o momento da sua actuação com “Nella Fantasia” ("Na minha fantasia"), uma canção cantada em italiano, baseada no tema “O oboé de Gabriel” do filme «A Missão» (1986). Com música do compositor Ennio Morricone e letra de Chiara Ferrau, “Nella Fantasia” é muito popular entre os cantores clássicos, após o seu lançamento em disco, em 1998, pela soprano inglesa Sarah Brighton.

 

Seguiu-se “Nessun dorma” (“Ninguém durma”) a famosa ária do último acto da ópera «Turandot» , de Giacomo Puccini (1926). A ária refere a proclamação da princesa Turandot, determinando que ninguém deve dormir: todos passarão a noite tentando descobrir o nome do príncipe desconhecido, Caláf, que aceitou o desafio. Caláf canta, certo de que o esforço deles será em vão.
 

Por último Luís Pinto brindou os tertulianos com um extra: “Miserere”, do cantor italiano Zucchero, nascido em 1955.  “Miserere” foi o sexto disco deste cantor, lançado mundialmente em 1994. Ainda em 1994, Zucchero e Pavarotti deram início a um projecto idealizado por ambos, "Pavarotti & Friends", que acabou por se tornar um dos mais importantes eventos musicais do mundo. No show, que é realizado anualmente, encontram-se músicos populares e clássicos e o lucro obtido é doado a instituições de caridade.



 


Para mais informações e vídeos sobre Luís Pinto ver a sua página em:
 

Café com livros agradece a todos o contributo da sua presença e participação activa no diálogo com  o nosso convidado. Voltaremos a encontrar-nos no 4º Sábado de Janeiro, em lugar a combinar.


Até lá não recusem:

 Um café quente
 
 Um livro fresco

 Uma ideia nova



Fotografias (excepto a identificada), texto e edição: augusto mota



26/11/2014

de «Cronicão»



SOL





         Um menino brinca no pátio, o sol pinta o mundo, a bandeira nacional sassarica de verde, vermelho, verde, vermelho: como uma boca de mulher sobre fundo de bosque. Sentado rente a um aperitivo, aprecio a arte da brisa, que faz levitar menino e bandeira.
       É uma segunda-feira de sol. Depois de tantos dias de chuva, de tantas jornadas foscas como uma lâmpada velha, o céu, muito lavado, derrama uma bonomia que faz bem. Estou aqui há meia hora. De modo que durante cerca de trinta minutos não fui mortal, não tive passado nem futuro. Apenas e só o sol. Não é em vão que as três primeiras letras de solidão escrevem o astro-rei. Mas, no caso luminoso de que vos falo, trata-se de uma solidão boa, encontro de alguém com a sua própria luz, o seu lugar no dia, a consciência da pedra no grande tabuleiro do mundo.
      Levanto-me, semicerro os olhos, afasto-me. Olho para trás: já não há pátio nem menino, a bandeira dissolveu-se no ar que arrefece. Dizem-me que isto é a noite: a dissolução das coisas, o fim da pintura, o veludo da absolvição. Sorrio: também na palavra absolvição estão as três letras do sol.
        Meto-me no carro, acendo os faróis, faço parte da fila de bichos cansados de regresso às cavernas de renda mensal. Mas nada disto me afecta. Inutilmente vai o rádio repetindo que é uma hora da madrugada. Mentira. Vede: ali está o pátio, a bandeira sobe para celebrar o país do céu, não tarda aí o menino. Ao sol, claro.
       Claríssimo.

Daniel Abrunheiro, in «Cronicão | Gente do Touro de Ouro | Noite de Homens-Cantores», Publicenso - Imagem & Comunicação, Lda., 2003, p. 40

Ilustração: augusto mota / pormenor do desenho de uma das sobrecapas da Livraria Martins (de boa memória), Leiria

editado por Augusto Mota 
  

20/11/2014

Texto transversal










12/11/2014

As tesouras de vento




JOANA e JOAQUINA SIMÕES 
e    AS  TESOURAS  DE   VENTO







«Como é possível recortar-se o papel desta maneira?», perguntam-se todos os que contemplam os seus trabalhos, perplexos perante uma maestria na fronteira do inacreditável. «Com que mágicas tesouras, a um tempo rígidas e maleáveis, trabalham as duas irmãs?» À laia de uma tentativa de resposta a estas perguntas, aqui vos deixo uma pequena fábula:
Joana e Joaquina estavam um dia à janela de sua casa de Pavia. Era a hora abafada do suão em que se dorme à sombra das árvores ou na frescura dos quartos interiores. Era a hora a que o vento sopra mais quente e que, tal como o ferro, se torna mais leve e maleável e insinua a sua língua de fogo pelas frinchas das portas e janelas e das almas desprevenidas.
Há já algum tempo que o vinham tentando apanhar. Mas ele, o vento, esgueirava-se sempre e fugia a bufar como um gato. Naquela tarde, porém, estavam confiantes. «Hoje é que vai ser», pensava cada uma delas, enquanto armava a ratoeira habitual: uma rede tecida com os olhares de ternura com que observam o mundo, esticada entre as pálpebras bem abertas e o infinito. Só que, e permitam-me que abra aqui um parêntesis, nessa tarde, sem que nenhuma o suspeitasse, Manuel Ribeiro, artista também e como elas filho de Pavia, há já algum tempo habitante dos mundos invisíveis, estava a dar uma ajudinha lá do outro lado, mantendo a rede sempre bem esticada. Fosse por causa da inesperada ajuda, ou porque o vento tivesse, de repente, afrouxado de intensidade, o que é certo é que conseguiram dobrar-lhe a rede rede por cima e aprisioná-lo. Triunfantes, cada uma o leva então, fumegante e em brasa ainda, para a bigorna de sua alma. É lá que o batem e estendem, alisam e afiam, até ficar mais fino do que um cabelo humano, mais cortante que uma ponta de diamante. Com esse metal aéreo e leve, extraído do corpo quente do suão, fabricam então as tesouras com que recortam no papel essas veredas finíssimas por onde nossas almas caminham extasiadas, arrepiadas até à vertigem, tontas de tão delicada beleza suspensa sobre o abismo do fundo escuro do quadro. É no meio desses labirintos de papel filigranado que minha alma gosta de sonhar que adormece, só para acordar dentro do sonho, envolvida pelo perfume de flores campestres, pelo canto dos pássaros e pelo sussurrar macio de asas de borboletas cegantes de brancura.
Ah, não peçam as tesouras emprestadas à Joana e à Joaquina Simões, para tentarem recriar uma aventura estética que é única e inimitável, que elas não poderão satisfazer o vosso pedido. Tais mágicas tesouras é só no instante da criação artística que se tornam visíveis, manusáveis, numa palavra, existem. Depois, desaparecem, esgueiram-se por alguma frincha do postigo, ou da alma, tal como faz habitualmente o vento suão que elas conseguiram agarrar, há algum tempo, numa tarde de verão.


ANTÓNIO SIMÕES, Estremoz, Junho de 1987
in Catálogo da Exposição realizada no Palácio de D.Manuel, Évora, Junho de 1987.


Obs.: A assinatura das autoras no trabalho acima reproduzido também é recortada em papel.






Do livro «A ARTE DO PAPEL RECORTADO EM PORTUGAL», Colares Editora, 1999, reproduzimos o elogio que a prefaciadora Maria Proença faz a estas duas senhoras, onde  transcreve a quase totalidade do poético texto que António Simões escreveu para o catálogo da exposição que realizaram em Évora, em 1987. Omitiremos, por redundante, toda essa parte que assinalamos com (...):
"É particularmente interessante o trabalho que ainda hoje desenvolvem em Pavia duas irmãs, Joana e Joaquina Simões, senhoras já octogenárias, mas que, depois de terem passado uma vida inteira a ensinar, se dedicaram, depois de reformadas, à arte de recortar o papel. É que, como explicam, esta arte reclama muita disponibilidade de tempo e tranquilidade de espírito. (...)
 
Joana e Joaquina Simões

Sobre papel recortam as mais imaginativas figuras onde nascem pássaros, flores, vasos, monogramas e outros desenhos de perfil filigranado, que aplicam sobre fundos mais escuros de molduras. A esta arte chamam alguns arte do papel "enamorado" e inscrevem-na na mais vasta rubrica das "artes do coração" ".

   


editado por augusto mota



10/11/2014

Texto transversal










06/11/2014

Rosário Breve




SÓ  MEIA   BOCA   ESTA    SEMANA





 As chuvas regressam no dia em que dois dos meus últimos dentes naturais se avariam – parece-me que sem outro remédio que o de expor-lhes ao sol as raízes. Metade da boca fecha-se-me em si mesma, concentrada toda no intuito de não assanhar mais ainda aqueles dois focos de dor latente. A outra metade faz pela vida: por ela ingiro, por ela profiro, por ela não tanto me firo.
Enquanto isto, a bátega pluvial faz-se harpa no mundo visto desde o terceiro-andar do convalescente. O vento ajuda à festa do alumínio, vergando a cerviz dos choupos, tremulando a labareda dos cedros e descascando a sarna aos plátanos. Os carros patinham nos lagos instantâneos das rotundas. Como dedadas, as folhas mortas digitam os terreiros, juncam os pátios, acolchoam os bancos desertados pelos velhos. Os gradeamentos rangem aquele reumatismo tão próprio do metal exposto ao público. É tudo de uma beleza soturna: e menos soturna e mais bela seria, caso eu pudesse acudir-lhe com a boca toda.
Procedo portanto por estes dias ao mesmo a que procede o meu País: de traseiro sentad’oxidado, espero melhores dias. O televisor arde de manhã à noite como uma lareira fria. Por ele perpassam as mentiras eufóricas de Wall Street, as (ameri)canalhices do costume: os derivados, os lixos tóxicos, a Crise – e as suas marionetas do lado de cá do mar: a platinada Lagarde do FMI, o peixe-balão menos durão do que barrosão, o escol de bruxas & bruxelas que, sob a mentira nada pia da Democracia, fossam a ditadura de facto da miséria obrigatória, a começar pela moral e a acabar na dos vãos de lojas fechadas sob cartões frigoríficos.
Aproveito uma nesga de sol para me fazer à rua. Deixo amornar a bica, sorvo-a por meia beiça. Fumo pelo lado da boca como os pescadores dos postais ilustrados. Leio metade do jornal, presto metade da atenção à eterna repetição do mundo em diferido perpétuo. E é em unto de esperança de que não seja preciso arrancá-los que torno a casa a horas do antivinhótico e das papas-de-leite com poalha de canela.
Por há anos não ter em casa cão ou gato, fazem-me companhia o Jorge Jesus e o Crato. Por só a mulher ganhar para pão & tabaco, faz-me muita pena a pobreza do Cavaco.
Derivo pela habitação, por assim dizer, em éter: espero quem e o que não prometeram vir. Foi-se a nesga de sol. Enchumaçado a chumbo, o céu de noroeste indefere o esmalte das coisas – e o pombal de dias bons, hoje transido e famélico, recolhe aos nichos secretos onde a força aérea da passarada resiste à bélica invernia natural. Cerro os estores da sala, anicho-me na colcha pulguenta de há tantos anos ex-dentários e dormito como um idoso preso pelos arames das horas ao torno das décadas, sonhando-me nada menos do que Albarran-Homem-da-Embalagem-Prateada.
(Mas na verdade sonho mas é com nada.)


Crónica de Daniel Abrunheiro, in «O Ribatejo», de 6 de Novembro de 2014





Edição e fotos de Augusto Mota


02/11/2014

A Matança do Porco




MEMÓRIAS  DE  UM  CONDENADO  INOCENTE


A Faca

O Alguidar do Sangue


Armado de paleta e pincéis, com as cores emprestadas pela natureza, Carlos Alberto Alves, escondido por detrás de uma azinheira, nas cercanias do monte onde vive a curta distância de Estremoz, espera que a vara de porcos se aproxime. Por cima da sua cabeça, contra o azul do céu debruado de vaporosas nuvens brancas, sobre o doce e doirado murmúrio da seara e o castanho barrento da terra, balouça um ramo de bolotas.
Um dos porcos pára e mira-o gulosamente. O pintor não hesita, e com o laço plasticamente armadilhado do seu olhar atento leva o porco e o ramo para dentro da paleta. É ali, antes de se imobilizar nas telas, que imagino o animal correndo atrás do seu alimento preferido, sua derradeira refeição de condenado à inocência do seu viver, antes que o seu criador cromático o desmembre em vários pedaços (olhos, orelhas, boca, pernas, etc.), para depois magicamente o reconstituir e lhe devolver a forma e a vida. Mas logo quatro homens, vestidos das cores dos campos alentejanos, debruçam-se sobre o seu corpo e o imobilizam, e dois carrascos, no cinzento anódino das suas fardas, dão-lhe o golpe fatal. E ali fica ele perpetuamente a atroar os ouvidos da memória de muitos de nós com os seus guinchos de agonia. Ei-lo que repousa agora, pendurado do chambaril, na pureza dos panos brancos que o envolvem, para que o sangue escorra para dentro do alguidar de barro, depois da pele ter sido chamuscada e raspada.   

Vestido das cores das searas, do verde do princípio e do oiro da sua maturação, um gentil corpo feminino corta a carne em pequenos pedaços com que outras mulheres vão fazer enchidos que irão ser curados sobre o fumeiro. Outra mulher, o rosto escondido por um candeeiro, segura uma panela de cachola e numa qualquer taberna um grupo de amigos petisca a saborosa carne, nas muitas maneiras em que é cozinhada.
Atravessa esta vintena de quadros, compostos com as cores da nossa amada terra alentejana, harmonicamente combinadas com delicada mas rigorosa geometria, uma memória de vida e de morte. A história deste condenado, é simbolicamente a nossa própria história, que vivemos e morremos, e para sempre ficamos nas memórias que guardam de nós, no que fica do que fomos e fizemos. Mas o anónimo porco, que o olhar e as mãos de Carlos Alberto Alves souberam retratar, a única condenação que sofreu foi a de viver para sempre, vencendo a própria morte imortalizado nestas telas.

António Simões, Estremoz, Outono de 2004

in catálogo da exposição de pintura de Carlos Alves "Memórias de um condenado",
Casa do Alentejo, Lisboa, Novembro de 2004.

O Chambaril

  
A Raspadeira


Óleos sobre tela / dimensões: 30 x 40
Fotos de José Cartaxo (reproduzidas do catálogo)
 
 
 Edição de augusto mota