08/11/2005

azular

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu.
Alexandre O'Neil, inédito, in "poemas dispersos", manuscrito datado de 18 de Junho de 1979.

as mãos.
poema, António Simões.

ilustração, Augusto Mota.Posted by Picasa

as mãos

as mãos
as mãos todas
as mãos de toda a gente
as mãos de todas as coisas -
as mãos das árvores e das nuvens
as mãos das pedras e das flores
as mãos dos pântanos e dos rios
as mãos da terra e do mar;
as mãos todas agarradas,
tudo e toda a gente de mãos dadas
a lançar a semente da seara futura -
e as mãos do vento a escrever ternura
no ar!
António Simões.

zig / zag, zag / zig

Ciclo "Falar de Blogues" / Livraria Almedina
Organização - Livraria Almedina e José Carlos Abrantes

Como e quando nasceram os blogues em Portugal?
Como evoluiram?
Em que terrenos se têm afirmado?
Que evoluções são previsíveis?

A estas perguntas responderão

- Catarina Rodrigues, Mestranda em Ciências da Comunicação e que fez parte da Organização do 2º Encnontro de Weblogues.
- António Granado, Jornalista do Público e autor do blogue Ponto Media.
- Joana Amaral Dias,
e
- Rogério Santos, Professor da Universidade Católica e autor do blogue Indústrias Culturais.

Dia 10 de Novembro, às 19 horas
Livraria Almedina
Atrium Saldanha, loja 71, 2º Piso, Lisboa

07/11/2005

Parabéns Sophia, com um dia de atraso


Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no dia 6 de Novembro de 1919, no Porto, e aí viveu até aos 10 anos, altura em que se mudou para Lisboa.
O ambiente da sua infância reflecte-se em imagens e ambientes presentes na sua obra. Os Verões passados na praia da Granja e os jardins da casa de família ressurgem em evocações do mar ou de espaços de paz e amplitude. A civilização grega é igualmente uma presença recorrente nos versos de Sophia, através da sua crença profunda na união entre os deuses e a natureza, tal como outra dimensão da religiosidade, provinda da tradição bíblica e cristã.
A sua actividade literária ( e política ) pautou-se sempre pelos ideais de justiça, liberdade e integridade moral. A depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética, a presença constante da Natureza, a atenção permanente aos problemas e à tragicidade da vida humana são reflexos de uma formação clássica, com leituras, por exemplo, de Homero, durante a juventude.
A sua obra literária encontra-se traduzida em França, Itália e nos Estados Unidos da América.
Em 1994 recebeu o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores e, no ano seguinte, o Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italiana. O seu valor como poeta e figura da cultura portuguesa, foi também reconhecido através da atribuição do Prémio Camões, em 1999.
Em 2001, foi distinguida com o Prémio Max Jacob de Poesia, num ano em que o prémio foi alargado a poetas de língua estrangeira.
Em Dezembro, desse ano, saiu a obra poética Orpheu e Eurydice, onde o orphismo está, mais uma vez, presente, bem como o amor entre Orpheu, símbolo dos poetas, e Eurídice, que a autora recupera num sentido diverso do instaurado pela tradição helénica.

As pessoas sensíveis não são capazes
de matar galinhas
porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
à roupa do seu corpo
aquela roupa
que depois da chuva secou sobre o corpo
porque não tinha outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
a roupa
que depois do suor não foi lavada
porque não tinha outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
assim nos foi imposto
e não:
"com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
ó construtores
das grandes estátuas balofas e pesadas
ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Poetas escolhem Poetas".Posted by Picasa

Hydra

Quando na manhã de Junho o navio ancorou em Hydra
( e foi pelo som do cabo a descer que eu soube que ancorava )
saí da cabina e debrucei-me ávida
sobre o rosto do real - mais preciso e mais novo do que o imaginado
( ... )

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Miúdos.
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Engodo

Momento de magia
o mano
um deus acocorado
falas brandas:
Anda pá, entra... pá.
Na gostas da conversa?
Amanhem trague-te bifes
- Bifes, mano?
P'ra os caranguejes?
Melhor p'ra gente
todos três
ca gente nunca se come...
- Afia o dente, afia...
Na vês q'uisto é só falar por falar
p'ra engodar eles?
Glória Maria Marreiros, in "Algarve. A gente e o mar".

Borboletra.
Ilustração de Manuel Abreu Lima. Posted by Picasa

Borboletra

De asas fechadas,
cabeça escondida,
uma borboleta -
uma borboletra
adormecida.
António Simões, in "A Festa das Letras".

Carnações Redondas.
Ilustração de Manuel Abreu Lima. Posted by Picasa

Carnações Redondas

Uma onda
e outra onda -
é aqui
que a ternura
duplamente
se arredonda -
deixemo-nos
de rodeios:
são nádegas,
são seios.
António Simões, in "A Festa das Letras".

06/11/2005


pesca.
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Pregão

O moço vai, água fora
olho esperto,
rabiscando
o peixe morto que flutua.
Peixe caído ao mar na pressa da chegada
Depois...
terminada a repesca,
o moço na rua apregoa:
Ó... boa sardinha vivinha, fesquinha!
quim qué...re comprar!!!
Informa a freguesa:
O pêxe fui é que l'apanhê
o denhêr é pr'á nha mãe...
e p'ra mim gastare tamém.
Glória Maria Marreiros, in "Algarve, a gente e o mar".

C de chuva. Ilustração de Manuel Abreu Lima. Posted by Picasa

05/11/2005

C de chuva

Uma criança brincando
viu-o deitado no chão
da água da chuva cheio.
Meteu as mãos sem receio
e lavou o coração.
Prà história ficar completa:
a criança era poeta.
António Simões, in "A Festa das Letras".

face.
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B

Dali ouve-se o som de uma tosse seca e ininterrupta, vinda do quarto contíguo.
A mulher está sentada no rebordo da cama, seminua, virada de frente para a porta de quem entra. Usa uma voz rouca e pausada quando fala, um sorriso branco quando sorri e as unhas dos pés pintadas de um verniz roxo: a sua cor preferida.
Esta mulher nunca comeu amoras, mas a sua boca tem o sabor metálico de quem está permanentemente excitado. Se desse a provar a sua saliva aos homens com quem divide a cama, talvez estes descobrissem nela as amoras que nunca comeu: a excitação metálica e ácida que envolve permanentemente a sua língua e dentes como um segredo.
Apesar de aparentar uma desatenção permanente, um estado de inércia melancólica e simulada, aquela mulher fixa com um propósito o par de sapatos de camurça que descança ao lado da porta. Deitada, cobre a parte superior do corpo com um corpete de veludo azul deixando ao encargo dos olhos a visão de tudo o resto: as suas pernas longas e torneadas, as ancas largas e brancas em contraste com o seu púbis negro.
Dali ouve-se novamente o som de uma tosse seca e ininterrupta, vinda do quarto contíguo. Alguém continua irritantemente a tossir de forma aguda e ininterrupta. Facto que lhe parece passar despercebido enquanto fuma um cigarro ao mesmo tempo que afaga com a sua mão esquerda a fronha da sua almofada verde onde, debaixo desta, oculta uma arma.
O inspector, de pé, já sem calças, olha para ela enquanto segura o seu pénis erecto numa das mãos:
- Sou um cabrão, dizes?
- És.
- E diz-me lá quem é o cabrão que te arranja todos os clientes? Aqueles que te alimentam.
- És tu.
- E não me dizes o preço que levas a este cabrão?
- O mesmo de sempre.
- Não deveria ser mais caro visto ser eu... o cabrão?
- Mesmo que te cobrasse o triplo não deixarias de sê-lo.
- A menina é uma felizarda de eu gostar que me insulte. Sabia? Sempre admirei essa sua frontalidade e audácia. - É este o teu preço? - pergunta depositando um par de notas na mesa-de-cabeceira.
- Não tenho outro.
- E o que é que ele tem afinal?
- ...
- O que é que ele tem?
- Não ouves?
- Ouço. Não sei é como consegues fazer o trabalho a ouvi-lo tossir assim.
- É o meu filho.
- Por isso mesmo. Devias levá-lo ao médico.
- E quem és tu para dizer-me o que devo ou não fazer?
- E quem sou eu para dizer o que deves ou não fazer? Talvez seja simplesmente o homem que te paga: o cabrão, aquele pelo qual sobrevives.
- Mas no meu filho não tocas.
- Ai não! Porquê? Vai matar-me? A menina vai matar-me?
- Podes ter a certeza. Se lhe tocas com uma única das tuas unhas encardidas és um homem morto.
O inspector ri-se ao aproximar-se dela. E oferece-lhe o seu pénis erecto para as mãos.
- Vá toma, menina, brinca com ele.
- Não quero.
- Então e o que fazemos ao dinheiro? Deitamo-lo fora?
Sandro William Junqueiro, inédito, in "No céu não há limões".

Matxalen-Bilbao.
Fotografia de CAPA Posted by Picasa

encontro com platão

Hoje encontrei Platão à mesa do café. Falámos de poesia e de corridas de cavalos. Mas falámos, sobretudo, de escravos. Dos escravos romanos e dos escravos gregos. De escravos. Sim, principalmente de escravos. Recordámos os tempos da velha Roma, as reuniões no forum, a coluna de Trajano, os jogos do circo. Falámos de escribas e dos homens das galés. Ele próprio, segredou-me, foi escriba e homem de galé. Remou anos a fio em ousadas galés ao compasso ritmado do maço do arrais, ajudando Roma a conquistar o poderio dos mares. Foi, mais tarde, um filósofo da oceanidade. Ritmou a imaginação pelo arfar das suas remadas loucas, até atingir a sublimidade do poeta. Depois escreveu. Escreveu, sobretudo. Ditaram-lhe leis ousadas para os homens e para as crianças. Leis trágicas e severas demais para um poeta tão grande. Idealizou outros sistemas de sociedade e negou todos os direitos do espírito ( talvez vingança dos anos que arrastou preso aos remos das galés! ). Da sua Grécia quis fazer uma nova cidade para o novo homem. Lutou. Sacrificou. Nada conseguiu. Hoje sente-se miserável na derrota.
Que tristeza sentiu ao contar as atrocidades que fez cometer ( hoje Platão é um homem civilizado! ) em honra de uma ideia tão falsa. Julgou que todos os homens poderiam ter o dom da sua poesia. Agora, depois de ter lido Freud, é que ficou a conhecer o verdadeiro homem. Por isso se mostrou tão interessado em contar todos aqueles crimes ( aliás é vulgar encontrá-lo à mesa do café, expiando a sua culpa ). Mostrou-me depois uma luxuosa edição, ricamente ilustrada com fotografias, daquilo que outrora lhe dera tanto prazer. Viam-se milhares de corpos a agonizar em valas comuns, leões do Pireu a devorar crianças enfermas, velhos a chorar o mal que não haviam cometido. E aquele escravo estrangeiro, agonizando em prece quase religiosa, a pedir perdão por toda aquela carnificina?! E aqueles corpos queimados nus para fertilizar as terras de cultura com as suas cinzas? Isso está lá, na página mil novecentos e quarenta e cinco da tal edição que o filósofo me mostrou. Mas há muitas outras fotografias e todas no mesmo sítio, como se se quisesse limitar as atitudes aberrantes do homem a uma página que se vira despretenciosamente em álbum de luxo, só para impressionar as visitas.
Se, a princípio, me repugnou o contacto com homem tão perverso, hoje admiro-o quando se arrepende. É belo ouvir o seu coro de lamentações e os seus outros desejos de grande vida, de bela vida. Agora, isto é, ultimamente, já nem costuma falar destas coisas. Falamos normalmente de poesia e de corridas de cavalos. Gosta muito de conversar comigo e passamos horas e horas a discutir sobre tanta coisa! Sabemos que nada se consegue, mas, ao menos, como poetas temos o dever de pensar em muitas coisas. Pensar é já reconhecer a existência de um problema. A atitude subsequente já não é da nossa responsabilidade. Nós só afirmamos. Quando os poetas pretendem outra coisa que não seja isto destroem a sua verdadeira essência e ludibriam as suas próprias intenções.
Temos este grande exemplo de Platão. Que nos sirva tão terrível expiação, num século em que uma pessoa reconhecer-se culpada é a mais ousada atitude, um século em que a acção individual se disfarça num pluralismo insignificante e cobarde. Por isso tenho pena de o deixar com os olhos cheios de lágrimas, quando me despeço para ir trabalhar e o adivinho triste e alquebrado, andando de café em café, onde já ninguém tem paciência para o ouvir.
Augusto Mota, inédito, in "Metáfora,", 1962.

04/11/2005


Livros.
Fotografia de Duarte Belo. Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR / se o leitor escreve, tu escreves

1.
Que faz aquele que lê? Uma distinção se impõe à partida: há quem leia de passagem, sem chegar a pousar, ou repousar, sobre o corpo do texto, quem leia apressado e aflito, esbaforidamente, porque precisa de passar a outra coisa, e essa coisa é que é linda, ou é ela o que importa. Lembro-me - lembras-te? - de como havia, no final dos anos de 1960, uma porta de Junta de Freguesia, onde se devia ir ler um edital que continha os nomes dos "mancebos" ( era esta a palavra, ainda deve ser assim hoje ) chamados para o serviço militar. Algumas noites antes eu começava a sentir o sono atravessado por aquela porta, mas nada pior do que a noite que precedia a fixação, aquela lista de nomes arrancando os olhos que deviam adormecer e mantendo-os escancarados, prontos e ansiosos para ler, e a tornar absurdos os gestos daquela madrugada, como se não fizesse sentido haver gestos morosos e laboriosos no dia em que devia estar no outro lado da cidade um papel com palavras escritas, que diria, com a imposição de lei, se eu podia continuar a estudar, ou não, se era a guerra, ou a morte, que me chamavam, ou não, e, por isso mesmo, autocarro, táxi, tudo parecia absurdo no percorrer de uma distância que era decisiva, até que me aproximava daquela porta pensando nas letras dos consultórios de oftalmologia, que letra é esta?, e agora as cinco letras a seguir, vê? não vê?, consegue decifrar o que está por baixo?, e eu olhava a porta, o papel sobre a porta, as letras no papel, as palavras formadas pelas letras, e queria que ver fosse não ver, não ver traço algum do meu nome naquela lista que alguém preenchera na rotina das repartições, e a certa altura eu já lia, está ou não está?, e fico mais uma vez nesta cidade ou parto para outra terra, vivo - ou não? Fico, vou ficar, vou ainda ficar. O meu nome não está, nada cheguei a ver, vi apenas o vazio do meu nome, a grande claridade de não haver nada para ler, e os outros nomes serem nomes estranhos, molduras e ângulos anónimos de um clarão eufórico, uma mancha a arder naquele papel, uma porta a arder na cidade, e era então, era nesse momento, precisamente, que o corpo entrava num outro estado de leveza, repouso e exaltação, e podia subir com o livro que trouxera até ao Jardim da Estrela, quase deserto àquela hora, sentar-me num banco, olhar o céu, colocar o corpo na posição exacta para ler, dizer que neste momento eu tenho a vida toda à minha frente para ler todos os livros do mundo, abrir o livro sobre os joelhos, ler a primeira frase, levantar os olhos do livro, e dizer: eis-me na posição certa para ler um livro, disposto a ler, a entrar lentamente na fresca e frondosa casa das palavras escritas...
Eduardo Prado Coelho, in "O Leitor escreve para que seja possível", Janeiro de 2004.

As Páginas.
www.ubbi.com.br. Posted by Picasa
"Nada do que é feito por amor é pequeno."

Chiara Lubich
"Se a escada não estiver apoiada na parede certa,
cada degrau que subimos é um passo a mais para um lugar errado."
Stephen Covey

11. perfeição

Gostava de pintar horizontes a perder
de vista. Como se vistos através das
portas da alma. E tão reais, tão reais,
que um dia, ao sair do ateliê, até se
enganou na porta e nunca mais foi
encontrado.
Augusto Mota, in "Sujeito Indeterminado".

03/11/2005


O Vértice-Seta das Mãos Unidas. Letra A.
Ilustração de Manuel Abreu Lima. Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR / As posições do leitor

1.
O leitor está cego: a luz cai sobre o olhar: as coisas vão nascendo minuciosas despertas e límpidas, no passado. Na página, as letras vibravam e uma ausência brilhava como um clarão branco que chegava aos olhos e os olhos eram uma parede de luz intransponível. Ouviam, tacteavam.
a luz cai...contra o olhar...: como o dia se fazia abria-se o mundo: tu. A neve espalhava-se no cérebro do leitor, pelas suas árvores imóveis como uma fotografia. Vê, dizia. - Isto é um livro; eu sei, pensava ele humildemente; um dia li um livro; contava uma história: passava-se no México e havia muito calor, a noite ia caindo sobre a terra, descendo pela colina até à cidade, até às ruínas. Até ao rio. Como era inverosímil o que tinha acontecido não passara ainda um ano...
O leitor ia virando as páginas que muito lentamente ondulavam; estava cego e agarrava o livro num esforço paciente. Algures no seu passado, branca sobre a luz branca, uma letra ardia: os contornos hesitantes de um A antigo, pintado, um quarto do sol, a secção de um disco girando sobre si mesmo. Um simulacro. Algures, então, como no futuro, o leitor está cego.
Manuel Gusmão, in "O leitor escreve para que seja possível", Janeiro de 2004.

Legenda Íntima 50. Augusto Mota. Posted by Picasa

IV. De mudar a vida não se cansa

56.
Correm turvas as águas deste rio
Que em minha alma corre sem descanso;
E ora vai irado, ora manso,
Se eu me sinto calmo ou desvario.
Correm turvas se turbado eu guio
Os meus pensamentos;
mas quando alcanço
A plena razão, é nesse remanso
Que mais claras as águas aprecio.
Correm às vezes cobertas de flores
Que mais parecem peixes voadores
Com essas asas que lhes dá o sonho.
Corre incerto o rio do pensamento,
Ora tumultuoso, ora lento,
Ora alegre e claro, ora medonho.
António Simões, in "Amor é um fogo que arde sem se ver, e outros sonetos".

Legenda Íntima 13. Augusto Mota. Posted by Picasa

As essências do mundo

Constituo-me entre fragmentos. -
Não quero abrir mais do que um espaço entre a névoa,
para devorar o fogo e gritar uma nova estridência.
Observo as árvores, ainda sem folhas,
os plátanos e as suas sementes, uma palmeira,
brumas violáceas.
Ontem escutei, ao piano, Grigory Sokolov, o universo
fendido, entre rosas e gerânios, pensei num verso
de Rilke:
- "Ich möchte einst im Frühling sterben"*
e no meu diário apressei os búzios e os aromas.
Nas suas folhas nadavam as pétalas e os lírios
devassados, entre barcos magoados, recônditas feridas.
Havia sangue, linfa, estames negros e cordões
de veludo.
Porque a primavera exuberante sangrava e eu bebia
a música e as essências do mundo;
os dias floresciam, dilatados entre diálogos
ininterruptos, como se os vulcões perdurassem,
porque sagradas eram as folhas, as ervas,
e a terra tinha a forma de um útero,
a primavera trazia, nas suas raízes, a flor
dos relâmpagos, cobrindo-se de líquido seminal,
e os dias nasciam do seu odre melodioso, envoltos
na penumbra,
a noite rasgando os seus mistérios vagarosos,
trazendo as mãos incendiadas, o coração coagulado,
os olhos cobertos de rosas obscuras, iluminadas,
irradiando as pulsões nocturnas,
de regresso ao espaço primordial,
de onde nasci, pela primeira vez.
Maria do Sameiro Barroso, inédito, in "Idades Sonâmbulas".
_______________________________________
* "Um dia gostaria de morrer pela primavera" ( trad. de Maria do Sameiro Barroso ).


Fotografia Augusto Mota. Poema António Simões,
inédito, in "Poemas com Insectos Dentro".Posted by Picasa

Eu vou com a luz

O dia assenta em varas de cristal -
Quatro são, mais o puro pensamento:
É esta quinta vara que lhe vale,
Erguendo-o, poderosa, bem ao centro.
Como tenda de circo que se instale
Sobre as cinco varas que eu invento,
O ar é pano de luz que desce lento,
E a manhã só se acende ao meu sinal.
Oh, cinco varas, cinco dedos d'alma,
Puxando o infinito para perto,
Pra que eu me perca no azul do ar.
Breve, minha inquietação se acalma
E o meu coração bate mais certo -
Vou com a luz quando o dia acabar.
António Simões, inédito, 2004.

02/11/2005


Legenda Íntima 60. Augusto Mota. Posted by Picasa

o círculo do desejo

O destino é célere em seu espanto quando tudo se torna subitamente impossível. Cada curva é o assomar do desejo fértil e a razão irrompe pressurosa num dissipar da luz que invade os membros e nos arrasta para longe das emoções que já inundam a cabeça e os pés. Viandantes somos nesta peregrinação errante pelas veredas do desejo.
Desejar é uma outra maneira de saborear os olhos e com eles sorrir às mãos que guiam tal caminhar apressado na direcção do impossível. Desejar será, ainda, um outro modo sereno e meticuloso de medir as distâncias entre o ser e o existir. Existimos quando viajamos a caminho do que somos só para nós mesmos. Seremos quando o caminho percorrido nos dá a grata certeza de termos viajado satisfeitos para fora do nosso limitado círculo de acções e reacções.
Se um verbo pode acender a noite, as estrelas serão flores num universo de emoções e o jardim do desejo ficará perene em sua flamejante primavera.
A quem ofereceremos as rosas de tal estação? Ao mito, ou à emoção? Para nós guardaremos os espinhos como consequência deste viajar sem remissão.
Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000.

Legenda Íntima 6. Augusto Mota. Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR / marema

Chama-se auréola dos dias

chama-se o oculto dos livros,
marema do poema do mar,
azuis que habitam a cor da noite,
luares rasgados pelo olhar,
membranas do desejo acontecido,
ramas de amarelo do mistério,
esgares do vento pelo poema,
janelas barradas de memórias,
candeias de odores entontecidos,
passos de areia, de pinhais,
laranjas com casca da verdade,
mãos roxas de água de tanques,
cadernitos de palavras amansadas,
marema do poema. / do mar.
vermelhos dos finais e dos começos,
terra humedecida a cheirar,
leites de nados queridos,
sinetas da páscoa pelos caminhos,
copas de troncos a fermentar,
rodas de braços enternecidos
no verniz das rodas do virar,
meneios de olhar com os sentidos,
modos do saber sem se olhar,
proezas de núpcias virginais,
algas de marinheiros vindos,
ponteiros do coração a acenar.

Chama-se auréola dos dias.

sereno e silencioso respirar,

asas do veludo e do linho;

da voz / a semente / o aflorar

marema. / do poema / do mar.
maria toscano, in "A Utopia da Coragem".

Fernando Pessoa. Óleo sobre tela. 2,01 X 2,01 m.
Almada Negreiros, 1954 . Museu da Cidade de Lisboa. Posted by Picasa

O SOL, A LUA E O ASTRO MAIOR / Loas e Lais a Fernando Pessoa

I
Eu leio, até ao lai, tua Poesia
Que legaste a nós outros, e ao Graal,
Modernista do Verbo e da estesia,
Maravilha da "Ode Triunfal".
Guardador de rebanhos e palavras
Que foram qual abraço e qual o Hermes,
Da Rosa, verde lenho e verdes águas,
De ingénitas, irónicas e germes.
Tu lias, ao crepúsculo, o experto
Cesário sentimento nosso Mestre,
E eu leio, ao lusco-fusco, o "A" de Alberto,
Que é simil ao Pastor e ao silvestre.
Se a sêmea foi "Orpheu" numa Lisboa,
O sémen é Infante que apaixona;
Se lúdica é a barca, ó tu, Pessoa,
Ajuda-me a trovar uma "persona".
Paulo Brito e Abreu, inédito, Janeiro 2004.