17/02/2006

Dia 8, 22h34

( texto anexado ao caderno do algoz )
Sinto no coração o momento. Vejo todas as coisas e é como se não as reconhecesse. Tudo está vendado sem venda. As formas são um centésimo fugaz e depois o esquecimento. Hoje sei a verdade. Já não me canso. Através dela ouço e cheiro. Mas o que vejo arquitectado está para além de tudo. Então esqueço-me dos nomes. E dos lugares a que as coisas pertencem. Sei que o mundo é longe e tem um céu por cima. Talvés esta cegueira se deva à clara e espontânea lucidez de quem enfrenta Deus e para ele avança. Tal qual como no cimo de um verso mudo há um grito dentro que deflagra uma coisa incompreensível. Mas eu não grito por pudor. Além disso para quê gritar? De que me servem os gritos? Assim continuo. É importante continuar.
Eu amei.
O meu corpo empertiga-se no esforço de absorver o redor. A crença é agora a minha fé, a minha força, apesar das rezas. Pois sempre rezei. Fui ensinado a rezar, a acreditar, e rezei, e acreditei porque era pequeno. Quando se é pequeno acredita-se e reza-se aquilo que nos ensinam. Mas logo depois cresce-se e nunca mais se acredita nem reza. Nem nunca mais se é pequeno.
O fim do corredor. A porta está fechada. A maçaneta atenta à mão como o coração a uma resposta. Sente-se o fulgor. Sente-se o frémito. Um dos guardas avança. Ouve-se um estalo. Fecho os olhos. Uma voz vergasta o espaço sentenciando: condenado à morte. A voz percorre a distância aceite por Deus. A porta fecha-se. O burburinho desvanece. Abro os olhos.
Respiro.
Sandro William Junqueira, inédito, 2005.

1 comentário:

Anónimo disse...

Sentia, há muito, falta dos textos do Sandro Junqueira.
É um bálsamo fresco e jovem.
Seja, por tudo isto, muito bem vindo ao clube dos poetas, bom amigo!