21/05/2005

"Cântico"/( Homenagem a José Régio )

Nasci
quando o fruto se abriu em semente
quando a noite rasgou o ventre de minha mãe

trazia
o vagido fechado das primeiras pancadas
os pés abertos no cordão que me cortaram

contei
cada segundo que passava do acto em que nasci


( como se adivinhasse que
correriam sobre os meus olhos
pisariam os meus ossos ou
cuspiriam a minha carne crua )


corri
pendurada nas hastes do tempo
pelos lagos da minha infância


suguei
o tutano viscoso das palavras
o sentido da REVOLTA e
guardei
as minhas ambições nas prateleiras
duma biblioteca quadrada


assisti
à dança macabra das freiras
enfeitadas com colares de espanto


saí
de mim
dos compêndios riscados com borronas
das sebentas bentas pelos lentes e
vomitei de nojo

corri
as ruas duma cidade infecta

desfraldei
bandeiras rubras de sangue

soltei
temporais de vento norte

descobri
o amor mecânico das prostitutas

abri
os olhos no sono dos homossexuais

pisei
as mãos dos mortos

amei
com dedos carregados de ternura

precisei
um mundo de beleza e
senti
no corpo
o gosto acre da derrota

descansei
meus olhos sem lágrimas

devorei
livros, teorias, ensaios, filmes

vivi
as guerras, as bombas de napalm

percorri
caminhos de Mao a Ho-Chi-Min

embosquei
a raiva na morte de Che Guevara

alvorocei
cidades condenadas

ensinei
crianças famintas de cultura e fome

vi
meu corpo caminhar sem medo
minha boca falar por si
minha razão tomar razão
meus pés andarem sem bengalas e
meus braços sem muletas

despi-me
rindo com todos os dentes
no pudor dos precocemente enterrados e
FIZ-ME.

gabriela rocha martins

1 comentário:

Anónimo disse...

Boa, miúda!
Assim é que é.
é!é!é!é!é!