26/09/2005

Tirem-me os Deuses

Tirem-me os deuses
em seu arbítrio
superior e urdido às escondidas
o Amor, glória e riqueza.
Tirem, mas deixem-me,
deixem-me apenas
a consciência lúcida e solene
das coisas e dos seres.
Pouco me importa
amor ou glória,
a riqueza é um metal, a glória é um eco
e o amor uma sombra.
Mas a concisa
atenção dada
às formas e às maneiras dos objectos
tem abrigo seguro.
Seus fundamentos
são todo o mundo,
seu amor é o plácido Universo,
sua riqueza a vida.
A sua glória
é a suprema
certeza da solene e clara posse
das formas dos objectos.
O resto passa,
e teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
e inútil do Universo.
Essa a si basta,
nada deseja
salvo o orgulho de ver sempre claro
até deixar de ver.
Ricardo Reis, in CD "Dizer Pessoa"

1 comentário:

Anónimo disse...

Este blog crece proporcionalmente em qualidade e quantidade.
Registo o quanto de muito bom tem sido publicado.

E ainda bem que há quem recorde o que de muito bom se escrevia e fazia na década de 60.

Parabéns aos sobreviventes, no tempo, no desenho e na poesia.