18/10/2005

Achava que não podia ser magoada

Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento -
imune às dores de espírito
ou à agonia.
O meu mundo tinha o calor do sol de Abril
e os meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
A minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.
A minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançavam
lá no topo pareciam roçar as suas asas
farfalhantes no tecto azul
do céu.
( Como é frágil o coração humano -
um latejar, um frémito -
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta. )
Então, de súbito, o meu mundo escureceu
e as trevas encobriram a minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
onde mãos sem cuidado tocaram
e destruiram
a minha teia prateada de felicidade.
As mãos estacaram, atónitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firmamento.
( Como é frágil o coração humano -
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trémulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora. )
Sylvia Plath, in "Sylvia Plath - Poemas"

3 comentários:

Anónimo disse...

Ninguém, minha querida amiga, é imune ao sofrimento, apesar de pensar que o é, ou, de gostar de o ser.
Mas é.
E em qualquer mês e em qualquer ano, o coração, "profundo e trémulo instrumento de vidro" - como é bela esta imagem - , chora ou canta.
Não conhecia este estupendo poema de Sylvia Plath.

Anónimo disse...

Há neste poema um frémito, um grito alucinante de vida...que só encontra paralelismo na morte.
Atracção dos opostos.
Ou antes, princípio e fim, de mãos dadas.

Anónimo disse...

gosto deste e dos demais poemas de Sylvia Plath.

ponto final.

( também me apetece, de quando em vez, ser mazinha ).