05/07/2005

Dia 16, quinta-feira

Chove. A cúpula da Salute esbate-se no aguaceiro. O Grande Canal encrespa-se. O avião tem partida marcada para as 12:15h. O motoscafo vem buscar-nos às dez. Fazemos o check out com pena de não poder prolongar a estadia.
Tanto por descobrir.
Giudecca e San Giorgio Maggiore esperam melhor oportunidade. Não houve tempo para visitar o "monolítico" de Rossi que hoje é o Teatro do Mundo. O mesmo se diga da Scuola Grande di San Rocco, onde Tintoretto passou mais de vinte anos a pintar os quadros da Paixão ( culminando na Crucificação que faz da Sala dell'Albergo um lugar de culto ). Em São Marcos, desgraçadamente, a Basílica tem filas de quatro horas. Quem sabe se numa manhã fria de Janeiro, com Monteverdi e Orfeo por perto. O Ca Pesaro, instalado num pallazo que passa por ser a obra-prima de Longhena ( e não é dizer pouco, se pensarmos na Salute e no Rezzonico ), traduz em parte a fórmula "dois em um", de um lado a herança do Oriente, do outro Klimt, Bonnard, Matisse, Rodin, Emil Nolde, Felice Casorati e mais pintura italiana dos primórdios de Novecentos, enfim, o tempo dos modernos. No Fondaco dei Turchi, antigo entreposto de origem otomana, com bazar, banhos e mesquita, está instalado o Museu de História Natural. Também por ver o ghetto judaico, mesmo no coração de Cannaregio.
Dir-se-ia que é tudo uma questão de prioridades. É evidente que sim. Do que eu gostava mesmo era de vir aqui no Inverno, descobrir ruas insuspeitadas, e becos sem saída, isto é, com saída para o mar. Poder voltar a ver, sem atropelo, e com melhor iluminação, os desenhos de Leonardo que estão no Gabinetto dei Disegni dell'Accademia.
Um dia será.
Vamos para o aeroporto ainda com chuva, a laguna mergulhada num manto de cinza, o motoscafo a uma velocidade desnecessária. No Zattere, atropelando a linha de água, a famosa Casa da Cegonha - Veneza não merecia o "abuso" do signore Ignazio Gardella -, com a sua excêntrica penthouse, perde-se irremediavelmente na distância.
No aeroporto, os procedimentos de segurança provocam filas intermináveis. O voo está atrasado, acabará por sair às 13:35h já com o dia limpo. Há quem procure a capela. Eu vou em demanda do derradeiro tiramisu.
Veneza é água?
Não.
Veneza é música e é luz.
Eduardo Pitta, "Os dias de Veneza" ( 2005 )

3 comentários:

Anónimo disse...

E muito, muito mais!

Anónimo disse...

Veneza, uma semana inesquecível.
Itália.
Roma, o amor e
o regresso a Veneza...

Anónimo disse...

...por uma ou outra razão, adiado!